O chamado estresse crônico, aquele que acontece por um longo período, pode fazer com que a mulher deixe de ovular. É uma forma que a natureza encontrou de reduzir a fertilidade nessas situações, para evitar que a fêmea fique grávida em um ambiente hostil – os animais sofrem estresse quando têm poucas fontes de alimento, por exemplo.

Entre os humanos modernos, o estresse tem outras origens, como problemas no trabalho, mas a infertilidade segue como uma consequência indesejada. A pesquisa desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto surge como uma esperança de tratamento para esses casos.

Estresse agudo

Apesar de buscar uma maneira de reverter a infertilidade causada pelo estresse crônico, o estudo trabalhou também com outro tipo de estresse – o agudo. É o que acontece quando a mulher passa por uma situação de grande tensão.

Embora ainda não haja um consenso entre os cientistas, há evidências de que esse tipo de estresse acelera o processo de ovulação. Nessas situações, o corpo libera uma quantidade muito grande de um hormônio chamado CRH (sigla em inglês para "hormônio liberador de corticotrofina").

A carga excessiva do CRH afeta a ação de vários outros hormônios do corpo, incluindo os sexuais. Isso faz com que a ovulação ocorra um ou dois dias antes do normal. Ou seja, o estresse agudo até aumenta – temporariamente – a fertilidade da mulher.

Na experiência com as ratas, os pesquisadores da USP mostraram que a ovulação é antecipada quando já está relativamente próxima. Se a fêmea já tiver ovulado naquele ciclo menstrual, não muda nada.

Isso explica porque a chance de fecundação é até maior em caso de um estupro, por exemplo, ao contrário do que afirmou o congressista americano Todd Akin , em um debate sobre aborto no início da semana. Dias depois de dizer que “se for um verdadeiro estupro, o corpo da mulher tenta por todos os meios bloquear isso”, Akin pediu desculpas pela frase.

“Não adianta, mesmo a mulher não querendo, o corpo libera o óvulo”, esclareceu Guillermo Traslaviña, pesquisador colombiano que é um dos autores do estudo da USP.

A pesquisa

Traslaviña usou um medicamento chamado Antalarmin, “muito útil para doenças em que o sistema de estresse é muito ativo”. Esse medicamento bloqueia receptores do CRH, o que neutraliza a ação desse hormônio.

As ratas foram colocadas na mesma situação de estresse agudo que as tinha feito ovular. Porém, quando tomaram esse remédio, isso não aconteceu.

“Psicologicamente, ela [a rata] continua tendo um estresse grande”, explicou o pesquisador. No entanto, o tratamento fez com que o estresse não tivesse influência sobre a fertilidade das fêmeas.

Pensando em seres humanos, não seria muito útil ter um tratamento para evitar a ovulação do estresse agudo, até porque esse tipo de situação é imprevisível. Mesmo em um caso de estupro, a pílula do dia seguinte seria bem mais indicada.

Por isso, a ideia dos pesquisadores é adaptar a descoberta para o outro tipo de estresse.

“O ponto agora é tentar fazer modelos novos com estresse crônico, que é uma coisa mais aplicada, para ver se faz o mesmo efeito”, afirmou o autor. O CRH também está ligado ao estresse crônico.

Os resultados da pesquisa foram apresentados na 27ª Reunião Anual das Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), em Águas de Lindoia, no interior de São Paulo, e publicados pela revista especializada “Endocrinology”.