Dedico esse texto a todas as mulheres que conhecem a dor de uma menstruação não-desejada. Ele é a síntese de centenas de mensagens que já recebi expressando a mesma angústia

 

A menstruação e os

sentimentos ambíguos

Houve um dia em que a menstruação foi esperada ansiosamente e a sua chegada comemorada com grande contentamento. Era uma época em que a última coisa desejada seria uma gravidez. A carreira profissional, a liberdade, os namorados, o mundo a ser descoberto eram atrativos muito mais sedutores.

Mas foram várias as vezes em que ela esquecia a pílula anticoncepcional ou simplesmente desencanava da camisinha. Bem na verdade, tinha vergonha de exigi-la dos namorados. Temia parecer "liberal" demais, essas bobagens frutos da insegurança juvenil.

O tempo passou, os 30 anos chegaram. Com eles, a consolidação de uma carreira promissora e de um casamento sólido. O desejo da maternidade não tardou a aparecer. Veio devagarinho.

Primeiro, ela abandonou a pílula, mas não contou ao marido. Queria lhe fazer uma surpresa. Até comprou um sapatinho de tricô porque desejava presenteá-lo junto com o resultado positivo da gravidez. Os meses foram passando e, a cada menstruação, a frustração aumentava.

O marido foi, enfim, informado do que se passava. Foram ao médico, fizeram exames, mas todos eles não encontraram problemas que justificassem a ausência de gravidez.

A menstruação, outrora festejada, virou um período de luto. Quando se aproximava a data, fica tensa a cada ida ao banheiro. Vibrava cada vez que usava o papel higiênico e ele saía limpo. Caía em lágrimas quando o sangue ali se impregnava, como uma impressão digital da sua incapacidade de gerar.

Junto com a descarga, ia também um mês de sonhos de maternidade. E ela se sentia uma grande tola de ficar ali, no vaso sanitário, aos prantos, com o papel higiênico nas mãos.

Um dia ela havia lido que a menstruação eram as lágrimas de um útero que chora pela falta de um bebê. Agora ela tinha certeza disso. A sensação era que o seu corpo todo chorava e que sua alma entrava em luto.

A tristeza só se dissipava com o passar dos dias e a expectativa de um novo período fértil. Então ela voltava a sorrir, confiante de que o seu dia também vai chegar. E pensava que um dia ainda se divertiria muito passando reto pelas prateleiras de absorventes femininos no supermercado e enchendo o carrinho de compras com fraldas do seu amado bebê.

Escrito por Cláudia Collucci às 20h23

Programa da Unifesp reabre inscrições

O Programa de Inseminação Artificial Intra-uterina da Unifesp/Escola Paulista de Medicina reabriu as inscrições nesta semana. Os interessados deverão se cadastrar pelo telefone (11) 3897-1345, para participar de uma seleção.

As inscrições podem ser feitas até o dia 11 de agosto. Durante 2005 serão efetuados vários processos de seleção para o programa, sendo que a próxima turma selecionada participará de uma palestra em 13 de agosto. O tratamento é semi-gratuito. Cabe aos pacientes os custos dos medicamentos.

O programa é destinado apenas às mulheres com problemas de ovulação, mas que podem ser tratadas com baixas doses de hormônio. Nesses casos, não são necessárias técnicas mais sofisticadas como a fertilização assistida (FIV). Também há limite de idade: 37 anos

Inseminação

Durante alguns dias, as pacientes são medicadas com hormônio e realizam vários exames de ultra-som para acompanhar no ovário o crescimento dos folículos (local onde se desenvolve o óvulo). Quando os folículos alcançam o desenvolvimento ideal, o sêmen do marido é preparado e introduzido no útero da parceira.

Todo o procedimento é realizado no ambulatório, sem necessidade de anestesia ou internação.

Por mais bem intencionado que seja, é uma pena que o projeto da Unifesp ainda ofereça um atendimento tão limitado tanto em relação ao tratamento como ao fator idade da paciente. Por outro lado, não é um serviço que engana. É isso e pronto.

Muito pior, avalio, é o que acontece no Hospital das Clínicas de São Paulo. Inaugurado há mais de três anos, o centro de reprodução não conseguiu atender nem 10% da população que se propôs. É um grande elefante branco, que custou mais de R$ 1 milhão aos cofres públicos, praticamente parado. 

Nada contra a equipe médica e de técnicos que trabalha lá. Pelo contrário. São ótimos profissionais que têm à frente equipamentos de última geração. O problema é a falta de recursos para insumos e medicamentos. Um passarinho me disse que tem saído recursos do governo estadual para o centro, mas, inexplicavelmente, não tem chegado. Tem sido usado para outros fins dentro do hospital. Seria no mínimo de bom tom que a superintendência do HC viesse a público prestar contas disso.

 Palestra gratuita sobre infertilidade

O Projeto Beta promove dia 30 de julho palestra gratuita a casais que desejam tirar dúvidas sobre os problemas de fertilidade e os tratamentos a serem feitos. A palestra será feita por Nilton Eduardo Busso, médico especialista em reprodução humana, professor assistente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e um dos diretores do Projeto Beta.

O evento acontece às 9h, na avenida Angélica, 688 - auditório do primeiro andar - bairro Higienópolis, São Paulo. As inscrições devem ser feitas pelo telefone (11) 3826-7017, de segunda a sexta, a partir das 14h. As vagas são limitadas.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 20h01

 

O psiquiatra Joel Rennó Jr., pesquisador e clínico atuante na área da saúde mental da mulher,  encaminhou para o blog esse importante artigo sobre o estresse durante o processo de infertilidade. Sabe aquela tristeza que dá quando a menstruação chega? Ou aquela dor dilacerante só de pensar que a gravidez pode não acontecer? Pois é, todas representam um tipo de luto e não podem ser ignoradas.  Enfim, saboreiem o artigo e bom fim de semana para todos.

 

 

Infertilidade & Estresse- algumas reflexões

Prof Dr Joel Rennó Jr


          O impacto da infertilidade nos casais pode ser profundo. Ele é, geralmente, vivido como uma crise traumática e pode chegar a ter um efeito desmoralizante para a pessoa infértil, abalando profundamente a visão que o casal tem de si mesmo como uma unidade saudável. Muitas vezes, faz as pessoas sentirem-se defeituosas, envergonhadas e moralmente arrasadas e fracassadas.

          Cada um dos membros do casal pode ter uma forma diferente de vivenciar os acontecimentos. Essas diferenças podem ser atribuídas a questões de gênero, a formas de lidar com os problemas e a diferença no desejo de cada um em relação aos filhos.

         Uma importante diferença com base no gênero é que os homens preferem evitar falar sobre o assunto e ir direto a ação, enquanto as mulheres preferem falar sobre a questão. É interessante notar que abordar o assunto da infertilidade faz as mulheres se sentirem melhor, e os homens, pior.

         As pressões por parte da família e dos amigos para ter filhos somam-se às experiências de marginalização e descompasso em relação aos outros casais pelas quais passam aqueles que não podem procriar.

        O sentimento de perda e o luto são característicos da situação de infertilidade. A perda da experiência e a alegria de ser capaz de facilmente conceber, a perda da privacidade da concepção (a intervenção médica esta sempre presente), a perda da experiência de compartilhar um filho biológico, a perda da esperança de dar continuidade a linhagem familiar, essas são somente algumas das perdas. A psicoterapia faz-se importante neste momento, pois é necessário reconhecer essas perdas e dar-lhes o valor adequado, ajudando assim, os casais a fazer o devido luto.

        É essencial que o casal busque auxilio para reconhecer as dolorosas perdas em cada estágio do processo de infertilidade, as quais variam entre o desapontamento que a mulher sente no momento da menstruação aos resultados negativos do exame laboratorial, às falhas nos tratamentos, aos abortos espontâneos.

        Por ser a infertilidade um assunto tão onipresente e cansativo, considero importante orientar os casais a "se darem um tempo" e deixarem o assunto temporariamente de lado. Costumo orientar os casais a planejarem momentos para falarem sobre a infertilidade e momentos em que este assunto possa ser colocado de lado, em seu lugar, algo prazeroso possa ser feito. A mesma idéia aplica-se ao sexo: há momentos de fazer sexo para procriação e há momentos de faze-lo só por prazer.

       A infertilidade pode tornar-se um problema devastador para os casais que lutam contra ela; no entanto, com freqüência, essa luta permanece invisível para quem olha de fora. A perda da esperança de ter um filho geneticamente vinculado aos pais tem sido minimizada pela sociedade e, pelas pessoas próximas ao casal. Os avançados desenvolvimentos tecnológicos na área da reprodução fez a gravidez parecer algo ao alcance de qualquer um.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 15h26

Estudo pesquisa fator de risco

para infertilidade feminina

Um estudo feito em uma grande clínica de reprodução dos EUA encontrou uma relação entre a exposição a produtos químicos no trabalho agrícola e na residência e a infertilidade feminina. O trabalho "Fator de Risco para Fertilidade" pesquisou 322 mulheres que buscavam tratamento numa grande clínica médica de reprodução humana de Wisconsin (EUA).

A respostas dessas pacientes foram comparadas com um número igual de mulheres que engravidaram espontaneamente. As mulheres e seus parceiros responderam informações sobre a saúde, estilo de vida e exposição ocupacional a agrotóxicos. Os resultados:

- Um percentual maior de mulheres inférteis foi verificado entre as que manipulavam e aplicavam agrotóxicos dois anos antes de tentar engravidar.

- Residir numa fazenda ou rancho ou na área rural foi um fator de proteção da fertilidade feminina,

- Casais cujo abastecimento de água era realizado por meio de poços artesianos da central de Wisconsi apresentaram menos risco para infertilidade que os grupos que usavam água tratada da rede municipal. O estudo levanta a hipótese de que produtos utilizados para desinfectar a água estariam originando outros produtos derivados como trialolometanos e ácidos haloacéticos, os quais aumentariam os riscos de aborto em mulheres.

- Riscos comportamentais para a infertilidade incluíram: consumo de álcool, fumar, exposição ao fumo passivo, ganho de peso na vida adulta, ter um parceiro com mais de 40 anos

- Beber três ou mais copos de leite por dia foi um fator protetor da fertilidade feminina, porque impede a impregnação destas substâncias nocivas no organismo.

 

O perigo dos agrotóxicos

A exposição ocupacional a agrotóxicos pode aumentar o risco de infertilidade e de resultados adversos na gravidez como aborto espontâneo, parto prematuros e anomalias congênitas. Mas pouco se sabe sobre o uso residencial desses pesticidas e o risco que eles podem causar para a reprodução humana e o desenvolvimento do embrião.

Outro estudo avaliou a exposição a baixas doses de fertilizantes e pesticidas usados em jardins residenciais e o efeito que eles causam no desenvolvimento de um embrião de rato.

A pesquisa foi realizada num período que corresponde entre cinco a sete dias após a concepção humana. Foram testados seis tipos de herbicidas, três inseticidas, três fungicidas, e um fertilizante.

Grupos de 20 a 25 embriões foram colocados 96 horas numa solução in vitro, contendo um destes pesticidas ou uma mistura de vários destes produtos.

Resultados: Verificou-se nos embriões colocados num único pesticida um aumento da apoptose, isto é, da morte de células dos embriões. Isto foi verificado em 11 dos 13 produtos químicos pesquisados. Também foi observada a redução do desenvolvimento de blastocistos (embriões que se desenvolveram ao ponto de se fixarem à parede uterina). Observou-se ainda uma diminuição do número médio de células por embrião em três dos 13 dos agentes pesquisados.

Nos embriões expostos à combinação de herbicidas e fungicidas também foi constatado o aumento da apoptose. A combinação de formulações de inseticidas e herbicidas de jardinagens reduziram o desenvolvimento de blastocistos e o número médio de células por embrião.

Conclusão: O estudo mostrou que a lesão induzida por pesticida pode ocorrer muito precocemente no desenvolvimento de embriões de ratos, com uma variedade de agentes e numa concentração que até então se supunha não provocar efeitos adversos para a saúde humana.

 Os dois estudos são da pesquisadora Anee Greenlee, que esteve nesta semana em seminário sobre fertilidade no Rio de Janeiro

Escrito por Cláudia Collucci às 20h46

 

Espermograma não é teste de fertilidade

Não é de hoje que sabemos que as causas de infertilidade estão igualmente distribuídas entre homens e mulheres. Essas causas são bastante variadas, mas todas levam a uma mesma condição: alteração tanto na quantidade quanto na qualidade dos espermatozóides.

Vasectomia, varicocele, problemas congênitos, imunológicos, sequelas de doenças sexualmente transmissíveis, câncer e seus tratamentos sequelas de cirurgias como hérnias, cirurgias da próstata, colo da bexiga, reto, além de hábitos como o tabagismo, álcool e drogas, estão relacionados com as causas da infertilidade no homem.

Porém, muitos médicos ainda perdem um tempo precioso "virando a mulher de ponta cabeça" em vez de pedir, de cara, um espermograma ao homem, um exame muito mais simples e barato do que toda a parafernália a que a mulher deve se submeter para a investigação dos possíveis fatores que estão dificultando a gravidez.

É importante saber, porém, que apenas um espermograma não basta. Pelo menos duas análises de sêmen devem ser requisitadas antes de o médico emitir uma conclusão sobre o caso. O intervalo recomendado entre as análises seminais é de pelo menos uma semana. O sêmen deve ser coletado após um período de abstinência sexual de dois a cinco dias. Geralmente, há diferenças significativas entre um espermograma e outro. Isso dá um nó na cabeça do casal, que passa a desconfiar de tudo e de todos.

Nesse momento, tentem manter a cabeça fria. Os resultados podem ser influenciados por diversas variáveis, como tempo de abstinência sexual antes da coleta, o método de coleta, o tempo e a temperatura durante de transporte (se a coleta for feita em casa) e, principalmente, o tipo de tecnologia usada pelo laboratório. Geralmente, segundo os médicos, os espermogramas realizados em clínicas de reprodução humana são mais confiáveis do que os realizados nos grandes laboratórios.

O que a gente percebe é que muitos homens ficam irritados quando há indicação para um segundo exame, ainda mais quando o primeiro teve um bom resultado. É importante ressaltar que o espermograma não é um teste de fertilidade, pois muitas vezes não se observam diferenças significativas nos resultados dos homens que, pelos parâmetros do exame, permanecem inférteis, daqueles que conseguem engravidar suas mulheres.

O fundamental é que, diante de uma alteração no primeiro espermograma, o homem procure um urologista com especialização em infertilidade masculina, chamado de andrologista, porque, assim como o ginecologista geral, o urologista geral também não tem noção sobre o assunto para uma avaliação mais pormenorizada das condições gerais do sistema reprodutivo masculino.

Outra coisa: por mais bem intencionado que seja um ginecologista ele não está habilitado para medicar um homem com baixa produção de espermatozóides, fato que, frequentemente, é mencionado pelas leitoras.

Não existe, comprovadamente, nenhum medicamento que melhore a qualidade do esperma. Também o tratamento das alterações seminais quase nunca é feito por meio de medicações hormonais. Antes de introduzir os hormônios, o homem deve ser investigado, não só com o espermograma, mas também com exame físico, dosagens de hormônios no sangue.

Diferentemente das mulheres que têm uma boa resposta com os indutores de ovulação, a maioria dos homens não responde a esse tipo de tratamento usado para estimular a produção de espermatozóides. Houve um consenso brasileiro de urologistas que estabeleceu que o uso indiscriminado dessa medicação não traria qualquer benefício ao homem.

Em um primeiro momento, alguns homens podem até responder bem ao tratamento, apresentando melhora no espermograma, porém, sabe-se que não necessariamente ele volte a responder nos meses seguintes. Além disso, embora possa haver melhora da quantidade de espermatozóides, mas não há evidências de que isso não interfira na taxa de gravidez

Estilo de vida

Há vários estudos demonstrando que homens fumantes têm dez vezes mais chances de sofrerem alteração no seu sêmen do que homens que não fumam. O interessante é que já se observou melhoria no resultado dos espermogramas após seis meses da suspensão do uso do fumo, do álcool e das drogas.

Existem também inúmeros medicamentos que podem interferir no processo de espermatogênese, como os derivados das sulfas e os esteróides anabólicos, aqueles que muitos homens usam nas academias para ficar com o aspecto "bombado". Outro fator que deve ser levado em conta na investigação da infertilidade masculina é o tipo de trabalho desempenhado.

A exposição ao calor, à irradiação ionizante, aos metais pesados e aos pesticidas podem prejudicar em muito a gravidez. Na maioria dos casos, o simples afastamento desse ambiente de trabalho pode normalizar a produção de espermatozóides.

Escrito por Cláudia Collucci às 12h11


Cresce a ocorrência de clamídia

em mulheres jovens


A clamídia, doença sexualmente transmissível, está aumentando entre as mulheres jovens e deve figurar entre as principais causas de infertilidade feminina, segundo especialistas. Assintomática em 70% dos casos, ela pode causar obstrução tubária quando não-tratada. Nas gestantes, a infecção causa o rompimento da bolsa amniótica, provocando o parto prematuro.

Dados preliminares de uma pesquisa que está sendo realizada pelo Programa Nacional de DST/ Aids, do Ministério da Saúde, em seis capitais brasileiras, aponta que 9,3% das 2.948 gestantes pesquisadas tinham clamídia.

Na Europa, a incidência da doença, que também afeta homens, dobrou nos últimos dez anos. A principal razão é atribuída ao sexo inseguro. O assunto foi discutido em pelo menos duas conferências durante o congresso da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, que aconteceu em Copenhague (Dinamarca).

Segundo o médico Willian Ledger, professor da Universidade de Sheffield (Inglaterra), 60% dos casos de clamídia ocorrem antes dos 30 anos. "É um problema mundial. O jovem faz sexo sem proteção e não acredita que esteja correndo perigo."
No Brasil, não há um levantamento histórico sobre a doença porque apenas o HIV e a sífilis congênita são DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) de notificação compulsória.

A estimativa do Ministério da Saúde é que, no ano de 2002, o país tivesse 10 milhões de casos de DSTs - a clamídia respondia por 20% deles. Nos EUA, são notificados 3 milhões de novos casos de clamídia por ano.

Segundo Valdir Monteiro Pinto, responsável pela unidade de DST do Ministério da Saúde, o aumento dessas doenças entre os jovens também é uma preocupação do governo brasileiro. Ele afirma que, entre as estratégias de prevenção, está a educação sexual nas escolas. "O sexo seguro deve ser ensinado antes que eles iniciem a vida sexual."

Pinto diz que é muito comum os jovens começarem um relacionamento com uso da camisinha, mas abandonarem a prática logo em seguida por acreditarem se tratar de uma relação duradoura. "Aí a história termina, outra começa e o ciclo se repete. Ao fim de um ano, ele já trocou quatro vezes de parceira. É o que chamamos de monogamia seriada", afirma.

Infertilidade

Na opinião de Willian Ledger, os governantes deveriam atentar para os custos que esse aumento das DSTs entre os jovens representará aos sistemas de saúde. Hoje, elas estão entre as principais causas de infertilidade feminina, responsáveis por 30% dos casos de dificuldade de gravidez.

Segundo ele, até a década passada, o problema das DSTs estava mais concentrado em países como a Índia e a África -nesse último, por exemplo, 80% das mulheres em idade fértil têm algum tipo de DST, incluindo HIV.

Na avaliação do médico Dirceu Mendes Pereira, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, atrizes que se vangloriam de trocar de namorados a cada semana deveriam ser convidadas a participar de uma campanha que incentivasse os jovens a fazer sexo seguro. "Essas pessoas têm grande influência sobre o jovem."

Obesidade
Outro fator de infertilidade bastante discutido durante o congresso foi o aumento da obesidade entre mulheres jovens. Hoje, 26,6% das européias (até 19 anos) estão com sobrepeso, segundo pesquisa apresentada por Ledger.
A obesidade causa problemas metabólicos que levam à diabetes tipo 2, à falta de ovulação e, conseqüentemente, à infertilidade.

Pesquisas também mostram que o tratamento de reprodução assistida em mulheres obesas tende a ser mais complicado. Há maior dificuldade de implantação do embrião no útero e mais chances de abortamento.

Escrito por Cláudia Collucci às 17h13

MORTES MATERNAS NA PARAÍBA

Acabo de fazer uma reportagem que me deixou bem triste: seis mulheres, entre 15 e 30 anos, morreram em trabalho de parto na Paraíba, em um período de 24 dias. Um escândalo e uma vergonha para o país, que já ostenta o cruel de índice de 75 mortes maternas para cada 100 mil bebês nascidos vivos. A OMS considera aceitável um índice de até 20 mortes.

Quatro das mulheres paraibanas peregrinaram por pelo menos duas cidades até chegar a João Pessoa onde morreram. Duas já chegaram à capital paraibana mortas. E pasmem: todas morreram por hipertensão na gravidez, doença que pode ser detectada e controlada durante o pré-natal. E pasmem de novo: todas as seis fizeram o pré-natal!

As histórias são as mais cruéis possíveis. Duas delas saíram do sertão da Paraíba e foram tendo sucessivas convulsões. Fizeram pelo menos duas paradas em cidades mais próximas. Elas chegaram a ser examinadas por médicos que simplesmente determinaram que a ambulância rumasse para a capital. Poderiam ter ao menos receitado anticonvulsivantes. Ao chegar a João Pessoa já estavam mortas. 

Isso mostra o quanto é preciso caminhar até conseguir oferecer um pré-natal de qualidade às gestantes brasileiras, com médicos capacitados e uma rede de atenção básica decente. Justiça seja feita: nunca um governo federal investiu tanto nessa área, mas ainda é pouco. As mulheres e seus bebês continuam morrendo. Quantas mais mortes terão de acontecer até que a sociedade se mobilize e cobre seus direitos à uma saúde plena, garantidos na Constituição? 

Leia reportagem completa:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1507200514.htm

 

 

Escrito por Cláudia Collucci às 19h46

Ácido fólico deve ser tomado tão logo

iniciem as tentativas de gravidez

 

Toda mulher que deseja engravidar deve usar ácido fólico antes e durante a gestação para diminuir os riscos de ter um filho com defeitos do tubo neural (DTNs). A recomendação é da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da Febrasgo (federação que reúne as sociedades de ginecologia e obstetrícia do país), mas nem sempre é seguida pelos médicos.

No Brasil, pesquisas indicam que uma a cada 800 crianças nascem com os DTNs. Os mais comuns são anencefalia (sem cérebro), que leva o bebê à morte poucas horas após o nascimento, e a espinha bífida (aberta), que causa paralisia e perda do controle das funções do intestino e da bexiga.

A despeito de vários estudos internacionais demonstrarem que o ácido fólico (vitamina B9), também conhecido por folato, reduz em até 80% os riscos de o bebê apresentar esses problemas, muitos profissionais entendem que uma mulher saudável não necessita da suplementação vitamínica e deixam de orientar suas pacientes sobre isso.

Exemplo dessa desinformação é uma pesquisa feita no ano passado pelo hospital estadual Mário Covas, ligado à Faculdade de Medicina do ABC, em Santo André. Cem grávidas foram entrevistadas aleatoriamente e, quando questionadas sobre a utilização do ácido fólico, 91 disseram que não haviam tomado a folato. As outras nove gestantes relataram que a ingestão da vitamina ocorrera depois de dois meses da concepção, quando o folato já não é mais eficaz para a prevenção dos defeitos do tubo neural.

As grávidas entrevistadas relataram desconhecimento ou gravidez inesperada como justificativa para o não uso do ácido fólico. A medicação é distribuída na rede SUS. Para a Febrasgo, independentemente das convicções pessoais, os ginecologistas e obstetras precisam orientar suas pacientes sobre a importância do ácido fólico e prescrevê-lo assim que a mulher interromper os métodos contraceptivos.

A Organização Mundial da Saúde preconiza dose mínima diária de 0,4 mg de ácido fólico para o fechamento de tubo neural. Segundo o professor da USP Victor Bunduki, responsável pelo setor de medicina fetal do Hospital das Clínicas de São Paulo, é arriscado tomar o folato só após o resultado do teste de gravidez. "Corre-se o risco de o defeito no tubo neural já estar instalado", explica.

Bunduki afirma que o ideal é que a mulher continue com a vitamina até o terceiro mês de gestação. Porém, ele lembra que 20% dos casos estão associados a fatores genéticos, situações em que não é possível a prevenção.

O ácido fólico é uma vitamina que pode ser encontrada em muitos alimentos, mas estudos demonstram que a ingestão dela apenas na dieta alimentar pode não reduzir os riscos de defeitos.

Desde o ano passado, por determinação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), as farinhas de trigo e de milho também contêm o folato. Ainda assim, por precaução, os médicos recomendam a suplementação da vitamina para mulheres que pretendem engravidar.

No mercado, ela é vendida em doses de 2 mg e 5 mg. De acordo com o gastroenterologista Dan Waitzberg, professor da Faculdade de Medicina da USP, por se tratar de uma vitamina hidrossolúvel, o excesso de ácido fólico é eliminado pela urina. Mesmo em altas doses, não há estudos que demonstrem efeitos tóxicos à mulher ou ao bebê.

Ele alerta, porém, que as mulheres precisam ter cuidado com os complexos multivitamínicos usados durante a gestação e só usá-los com orientação médica. "A superdosagem de vitamina A, por exemplo, pode causar malformações fetais", diz.

 

PESQUISADORES RECOMENDAM

CAUTELA COM VITAMINA C

Ainda é muito cedo para afirmar que a vitamina C (sozinha ou combinada com outros suplementos vitamínicos) seja benéfica durante a gravidez, conclui estudo publicado no "Cochrane Collaboration". Foram analisados cinco estudos randomizados, que acompanharam um total de 766 mulheres. Os pesquisadores excluíram mulheres que tinham usado suplemento multivitamínico que continha vitamina C ou que tivessem consumido alho como suplemento primário.

Não houve diferença entre as mulheres que fizeram uso da vitamina e aquelas que tomaram placebo em relação à morte perinatal, baixo peso do bebê ou crescimento intra-uterino com restrições.

Mulheres que tomaram vitamina C tiveram um importante aumento do risco de ter um bebê prematuro se comparada àquelas que fizeram uso do placebo. Em compensação, as que usaram a vitamina C correram menos riscos de pré-eclâmpsia.

Em razão disso, os pesquisadores admitem que serão necessários mais estudos para determinar se a suplementação de vitamina C é benéfica durante a gravidez.

Escrito por Cláudia Collucci às 12h07

 

OS DOIS LADOS DE

UMA MESMA MOEDA

Ontem, sexta-feira, vivi duas experiências marcantes. Pela manhã estava em Ribeirão Preto, onde fui fazer uma reportagem sobre trabalho infantil, e visitei uma área muito pobre da cidade, em que muitas mães colocam os filhos para esmolar nos sinais ou catar latinhas e papelão, mesmo recebendo uma bolsa do governo federal criada para evitar o trabalho infantil.

A primeira imagem do lugar me impressionou. Eram dezenas de crianças, a maioria com menos de dez anos, brincando sozinhas no meio da rua. Entrevistei três mães, todas com mais de cinco filhos e sem nenhuma perspectiva de futuro. Muito perto do lugar estava a Febem de Ribeirão, o quintal da casa daquelas crianças.

Á noite, já em São Paulo, assisti o final do Globo Repórter ("Em busca de um filho") que narrou as dificuldades de gravidez. Um belo programa, diga-se de passagem. Foi impossível não fazer o link com a minha visita pela manhã em um local onde a fertilidade era visível nas ruas.

É difícil nesses momentos não ser tomada por pensamentos nada agradáveis, tais como: Por que elas engravidam com tanta facilidade e dão à luz a filhos aparentemente tão saudáveis enquanto tantas outras estão na batalha há anos em busca de sonho, gastando o que tem e o que não tem para realizá-lo?

Já ouvi de algumas pessoas, na brincadeira, que a fertilidade seria aliada da ignorância e da pobreza. Estaria aí a razão para que tantas mulheres pobres e ignorantes serem praticamente deusas férteis. Sempre discuto quando ouço coisas do tipo, ainda que de brincadeira, porque acho que é uma visão muito simplista, e por que não preconceituosa, de enxergar a vida. É claro que não há uma explicação científica para o fato e as opiniões variam muito de acordo com o perfil das pessoas. Mas não deixa de ser um debate instigante...

Hoje, conversando com uma amiga sobre a cena vista em Ribeirão, ela me dizia: "Sabe, Cláudia, às vezes, tenho inveja dessas mulheres. Apesar de viverem na miséria, nunca sentiram essa dor dilacerante de não conseguir engravidar. Tenho uma carreira de sucesso, ganho bem, tenho um ótimo marido, procuro respeitar o meu semelhante, faço terapia para tentar ser uma pessoa melhor, enfim, me sinto preparada para ser mãe. E nada dessa gravidez tão sonhada...."

A Poliana aqui de plantão tentou animá-la (ela estava bem deprê porque a menstruação, depois de um atraso de cinco dias, havia descido) mostrando que tudo na vida é um aprendizado e que essa experiência da dificuldade de gravidez, por mais dolorosa que fosse, deveria ter esse sentido. E que o importante era não deixar a peteca cair.

Ainda hoje, uma outra amiga (na faixa dos 20 anos), desabafava comigo a preocupação de estar grávida. No mês passado, havia rolado uma transa sem camisinha com o namorado, ela tomou a pílula do dia seguinte. Neste mês, a menstruação estava atrasada. A cada ida ao banheiro, ela rezava para ser "presenteada" pela menstrução. Pretende fazer um teste na segunda e, se tiver grávida, não pensará duas vezes: fará um aborto.

Bom, se eu já estava perdida nos meus pensamentos com a complexas contradições da vida, essa conversa me deixou ainda mais confusa. Isso tudo é muito louco, não?

Bom, quem não teve oportunidade de assistir ontem ao Globo Repórter, acesse o site da Globo: http://globoreporter.globo.com/Globoreporter/0,19125,VGC0-2703,00.html

Escrito por Cláudia Collucci às 17h39

 

Mente sã para engravidar * 

A preocupação com dinheiro, a angústia da espera, a sensação de fracasso. As mulheres sabem bem o que isso significa quando tentam engravidar, sem sucesso.

Em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, psicólogos da faculdade de medicina da USP começam a mudar essa história. Eles estão provando que cuidar da cabeça pode encurtar o caminho até o tão sonhado bebê.

Na parede do laboratório está o retrato da alegria dos pais. O final feliz das histórias começou a ser escrito há sete anos. Psicólogos avaliaram os efeitos do apoio psicológico nas tentativas de gravidez. Noventa e cinco casais foram acompanhados. Quarenta por cento das mulheres engravidaram. Entre as que não tiveram apoio o índice baixou para 27%.

“Além do diagnóstico complicado, a mulher sofre uma carga emocional muito grande” – explicou Rui Ferriani, chefe do Departamento de Reprodução Humana.

Com o tempo aparecem o estresse e a depressão. Outro desafio para o casal é o custo da fertilização. Se for pelo SUS eles pagam os medicamentos, cerca de três mil reais por tentativa. Em uma clínica particular, o tratamento pode custar entre sete e dez mil reais. Geralmente a gravidez só ocorre na terceira tentativa.

A dona de casa Daniela da Silva e seu marido, Aércio, estão há um ano tentando ter um filho. “Você fica muito ansioso e a terapia vem tranqüilizando a gente para no futuro ser mais tranqüilo” – disse Daniela.

A secretária Rosemari Guerra tinha 5% de chance de engravidar por causa de uma obstrução na trompa. Decidiu tentar a fertilização. Mas nem precisou. “Minha cabeça estava bloqueando, mesmo” – falou.

Depois de provar que o apoio psicológico aumenta em até 77% as chances de uma gravidez, os pesquisadores não têm mais dúvidas sobre a receita para quem sonha em ter um filho.

“É uma melhoria de qualidade de vida mesmo. Reduzindo o estresse e a depressão, vão viver mais felizes. É óbvio que se tiverem um filho viverão mais felizes ainda” – explicou Ricardo Gorayeb, psicólogo.

* Deu no SPTV do dia 02/07/2005

 

Escrito por Cláudia Collucci às 20h33

 

A psicóloga Luciana Leis, que já colaborava com a coluna na FolhaOnline, faz sua estréia no blog com esse importante artigo sobre algumas facetas da reprodução assistida

 

A Decisão pelos Tratamentos de Reprodução Assistida

Geralmente, os casais quando decidem ter um filho, buscam o momento certo em suas vidas para isso. Para muitos, o momento certo inclui: um bom relacionamento conjugal, estabilidade financeira, espaço físico que comporte uma criança, entre outros.

Desta forma, boa parte dos casais imagina que, após a decisão, tão logo deixem os cuidados contraceptivos de lado, terão a tão almejada criança. Porém, muitas vezes a realidade não é bem assim.

Para a maioria dos médicos, um casal só é considerado infértil após doze meses de tentativas de gravidez, sem a utilização de nenhum método contraceptivo. Se dentro desse período a gravidez não ocorrer, inicia-se a investigação diagnóstica para que seja indicada a melhor técnica de reprodução assistida que auxilie o casal a atingir o objetivo.

Existem diversos tipos de técnicas (coito programado, inseminação intra-uterina, fertilização "in vitro"etc.), e a indicação de cada uma delas irá depender do histórico e do diagnóstico do casal. Após essa indicação, cabe ao casal decidir se deseja dar início ao tratamento ou não.

Entretanto, nem sempre essa escolha é tão simples, uma vez que ter filhos através do ato sexual é um registro que ficou marcado em nosso psiquismo desde a infância, e aceitar outras formas de se chegar ao mesmo resultado pode exigir um certo tempo de elaboração e reflexão, o que pode ser facilitado, no entanto, por meio de discussões entre o casal e também pelo auxílio de um profissional capacitado.

Além da elaboração dessa nova forma de procriação, o casal também precisará aceitar que dificilmente engravidará em casa, e embora a concepção não aconteça por meio do ato sexual, o uso do serviço médico não exclui necessariamente o amor e a sexualidade dos futuros pais. Tive contato com muitos casais que "fizeram amor" durante o tratamento e se aproximaram de um modo muito singular dando, assim, um sentido positivo para toda essa vivência.

Aceitando-se essas variáveis do processo, fica mais fácil dar início ao tratamento. No entanto, acredito ser importante ressaltar que nem sempre a gravidez será atingida após o seu término: da mesma forma que, na reprodução natural o sucesso de gravidez está vinculado ao número de tentativas, na reprodução assistida também.

Ainda hoje, embora a discussão sobre esse assunto seja bastante ampla, percebo que existem muitos casais que acreditam que, assim que finalizarem o tratamento, vão conseguir a gravidez; e caso o resultado seja negativo, o "tamanho" da frustração será proporcional aos investimentos emocionais atrelados ao tratamento.

Isso não significa que não podemos acreditar que o tratamento pode dar certo, muito pelo contrário, a esperança é a que nos motiva a lutar, sem, contudo, iludir-nos frente à realidade desses tipos de técnicas que, sem dúvida, realizam sonhos, mas não oferecem o "milagre da vida" .

Percebo, muitas vezes, nos casais que atendo, uma tentativa de controlar o incontrolável (gravidez): busca-se fazer todo o processo da melhor forma possível, responsabilizando-se pelo resultado (positivo ou não), como se o controle da vida estivesse em suas mãos. Se o resultado for positivo, a felicidade e a sensação de eficácia prevalecem; entretanto, se ocorre o contrário, o vazio do "por que não?" invade a relação, podendo surgir, como forma de preenchimento, culpas anteriores e fatos que possam justificar, para si e para o outro, o que não se pode explicar.

Novamente, torna-se fundamental o diálogo entre os cônjuges- se necessário, com o auxílio de um psicólogo-, para que o apoio mútuo continue sendo um dos alicerces da relação, ajudando o casal a compreender que o "milagre da vida" não pode ser controlado, ele simplesmente acontece na hora que tiver que ser.

luciana_leis@hotmail.com

Escrito por Cláudia Collucci às 11h47

 

Mais uma agenda positiva?

Uma das últimas manifestações do ministro da Saúde Humberto Costa, que colocou o cargo à disposição na sexta-feira, foi reafirmar que as mulheres que têm dificuldade para engravidar poderão fazer o tratamento gratuito pelo SUS a partir de dezembro.

Na quinta-feira passada, ele disse que a implantação do programa de reprodução assistida seria gradativa devido ao alto custo do procedimento _cerca de R$ 50 milhões por ano. Prometeu também que até 2007 haverá 21 centros de atendimento.

Bom, até aí o ministro não trouxe nada de novo. Tudo isso ele já havia anunciado em março último. O que me pareceu foi que, mais uma vez, Humberto Costa quis dar uma notícia positiva usando um tema de alto apelo popular. Recente pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde revelou que 91% dos brasileiros aprovam a oferta de reprodução assistida no SUS.

Quando vi a notícia na Folha Online, liguei correndo para o Ministério da Saúde em busca de novidades sobre o assunto. Como eu já esperava, não há nada de novo. Nem o estudo sobre o programa (que definirá locais e critérios para a oferta da reprodução assistida), que deveria ser finalizado em junho, está pronto.

Entre os médicos da área, o sentimento é de ceticismo. Segundo informações que recebi, só agora o Ministério da Saúde está se dando conta do tamanho da encrenca que se meteu ao prometer a fertilização in vitro para todos os usuários da rede SUS que tiverem dificuldades de gravidez.

Na realidade, essa reinvindicação era do Programa Nacional de DST/Aids. Muitos casais soropositivos ou sorodiscordantes (quando só um tem o vírus HIV) querem ter filhos com a segurança de que a doença não seja transmitida ao bebê. E com a FIV isso é possível.

A idéia inicial do Ministério da Saúde era atender apenas a essa população. Mas, durante o processo, alguma mente iluminada lembrou-se do seguinte detalhe: não podemos restringir o atendimento apenas aos soropositivos quando há milhares de casais brasileiros passando por dificuldades de gravidez e sem condições de bancar o tratamento no serviço privado.

Só aí é que o pessoal do ministério percebeu que o buraco era mais embaixo. E começou uma grande discussão, que ainda está em andamento, de como solucionar esse impasse. Já pensaram em limitar a idade das mulheres, mas concluíram que seria uma medida altamente impopular (além de legalmente contestada, afinal todos são iguais perante a lei).

Até entendo que, em um país como o Brasil, tão carente de tudo, pode parecer um luxo o oferecimento da FIV na rede pública, a exemplo do que faz vários países da Europa. Acontece que o direito à concepção está previsto na Constituição Federal e os meios para consegui-la estão garantidos na nova política de direitos sexuais e reprodutivos.

Agora, com a breve saída de Humberto Costa, a expectativa é para ver se o próximo ministro vai bancar o que foi prometido pela pasta. Ou mais uma vez a gente vai concluir que, quando se trata de reprodução assistida no serviço público, os anúncios não passam de agenda positiva "prá boi dormir" (como se diz na minha terra).

E olha que não estou sendo cri-cri à toa. Vocês bem se lembram dois anos atrás quando o governo do Estado anunciou em alto e bom tom que o HC de São Paulo iria fornecer tratamento gratuito de reprodução assistida. Foi em fevereiro de 2003, quando da inauguração do Centro de Reprodução Humana Mario Covas, que custou US$ 1 milhão aos cofres públicos. O que aconteceu desde então: Quase nada.

O dinheiro para medicação e outros insumos continua não chegando, a equipe que lá trabalha é praticamente de voluntários e a fila de espera, que chegou a ter 10 mil casais, anda a passos de tartaruga. Recentemente houve troca da diretoria. O professor Miguel Srougi (ex-Unifesp) assumiu a vaga de professor titular na USP e é o novo coordenador do centro. Espero que o professor, reconhecido internacionalmente pelas cirurgias de próstata que realiza, tenha mais sorte e faça o centro de reprodução realmente acontecer.

Voltando ao Humberto Costa, sabem qual foi a última pérola dele quando ainda falava sobre o tratamento da reprodução assistida no SUS? Que, antes do tratamento, o casal teria a opção de adotar uma criança. "Vamos incentivar a adoção e apresentá-la como uma alternativa", disse ele.

Nada contra a adoção. Pelo contrário. Acho que é um dos gestos mais nobres que possa existir independentemente da condição de infértil ou não de um casal. Mas todo mundo sabe o quanto é díficil adotar uma criança no Brasil. Às vezes, tão difícil quanto conseguir um tratamento de reprodução assistida gratuito.

De qualquer formar, que o ministro, psiquiatra e jornalista, me desculpe, mas a adoção deve ser um ato de amor não apenas uma alternativa para casais que não tiveram a chance de fazer um tratamento de fertilidade. Essas colocações só reforçam a minha opinião sobre o quanto os nossos governantes vivem fora da realidade e muito longe de entender o que significa a dificuldade de gravidez para um casal.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h47

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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