As fases existenciais do casal

Estava folheando o livro do dr. Arnaldo Campiaghi “Fertilidade Natural”, em que ele e a dra Daniella Castelotti falam dos tratamentos naturais que podem melhorar a fertilidade do casal, como a acupuntura e a homeopatia, e me deparei com um trecho bem interessante que gostaria de dividir com vocês. No capítulo que trata da visão da homeopatia sobre a infertilidade conjugal, há um item sobre as fases existenciais do casal infértil. É uma abordagem bem interessante que, creio eu, muitos de vocês, irão se reconhecer nessas situações:

Fase 1 – Inconsciência – A sexualidade é desejada, mas a reprodução, não. Nesta fase, o sexo é um grande prazer, mas a reprodução é sinônimo de problemas. Neste período, o casal usa métodos de contracepção. Só uma suspeita de gravidez vira uma tragédia para a sexualidade. Os hormônios e os seus instintos devem ser abolidos.

Fase 2 – Desconfiança – A anticoncepção passa a ser propositamente, ainda que inconsciente, negligenciada. Leia-se esquecer a pílula ou deixar a camisinha escapar. A gravidez, se vier, será bem aceita. Nesta fase, o sexo continua a ser um grande prazer, tanto quando a vinda de uma gravidez, um perigo desejado que aumenta ainda mais a emoção da intimidade. Os hormônios são reconhecidos como aliados e até tornam-se o tempero do sexo. Transar no dia fértil é gostoso, arriscado e emocionante.

Fase 3 – Testes - Inicia-se com a consciência de que o sexo não está levado à reprodução. A gravidez é desejada, e o sexo, ainda que um prazer, deixa de ser  só gostoso, passando a ser útil. Ama-se para reproduzir-se. As auto-cobranças ou cobranças externas passam a agir no inconsciente do casal de tal forma que elas passam, na fase final do teste, a ter um dever de ter relações sexuais nos dias férteis, independentemente do desejo.

Fase 4 – Obsessão - Esta fase pode anteceder a procura por ajuda do médico ginecologista ou do urologista. Além de a relação sexual ser um dever, a reprodução passa a ser uma obsessão. A maneira de fazer amor passa a ser ditada por ensinamentos leigos ou médicos e, além de ocorrer nas datas férteis, passa a acontecer com a finalidade obsessiva da reprodução. Cada menstruação é vivenciada como uma grande tragédia e os hormônios passam a ser os inimigos, os vilões ocultos, responsáveis pelo desejo, pela fisiologia, cúmplices das decepções.

Fase 5 – Desespero -  Geralmente, o casal já está sob a assistência de uma equipe médica e a reprodução será através de uma técnica medicalizada. A sexualidade é tolerada e passa por sentimentos complexos devido a interferências do processo de tratamento. O casal passa a discutir mais os resulatdos dos atos médicos do que dos seus próprios desejos. Somente quando a gravidez é alcançada, voltam-se para os seus corpos, sensações e sentimentos, retornando à sexualidade gratificante.

Apesar de essas fases não serem necessariamente uma regra para todas as pessoas, creio que sejam um retrato bem fiel do que acontece com a maioria dos casais que passam por dificuldade de gravidez. Por isso, atenção: por mais desgastante que seja isso tudo, tentam manter a libido em alta, pulando direto para essa última fase. Meninas, que tal aquela renovada no guarda-roupa, começando primeiro com umas lingeries mais ousadas? Meninos, que tal lembrar dos tempos de namoro e puxar essa mulher para jantar fora? 

 

 

Escrito por Cláudia Collucci às 20h09
Pesquisa mostra que morte materna é a maior causa de denúncia contra médico

São preocupantes as conclusões da tese de doutorado do corregedor do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, Krikor Boyaciyan, também diretor-tesoureiro da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp).

No trabalho, foram analisados 503 processos que envolviam um total de 781 ginecologistas do Estado de São Paulo denunciados por pacientes entre 1994 e 2004. A maior parte deles não fez residência médica nem tem título de especialização, estudou em faculdade particular, é homem, com idade média de 45 anos, e tem cerca de 20 anos de profissão.

A maioria das denúncias concentrou-se na área de obstetrícia (82,33%). Os atos médicos que culminaram com a morte materna e/ou do feto foram os mais freqüentemente denunciados (57,36%). A ginecologia foi pouco envolvida (6,02%).

Foram julgados 50,83% dos médicos; desses, 56,68% foram inocentados e 43,32% culpabilizados. As penas sigilosas constituíram a maioria (59,88%); as públicas foram imputadas 40,12% das vezes. O tempo médio de duração do processo foi de 6,2 anos.

As regiões da Grande S.Paulo (exceto a capital S.Paulo), Santos/Baixada Santista e Sorocaba/Vale do Ribeira apresentaram percentual maior de médicos denunciados e a população leiga revelou-se como denunciante mais freqüente (40,72%). Para mais informações sobre a tese, acesse: http://www.cremesp.com.br/?siteAcao=Noticias&id=1024

Em meio a essa numeralhada toda, estão aí novamente as mortes maternas e de seus bebês, as principais causas das denúncias contra os ginecologistas. Se a gente levar em conta que apenas uma minoria de denúncias chega até o Cremesp, podemos dimensionar um cenário ainda mais assustador.

Sem contar as negligências mais freqüentes que ocorrem no dia-a-dia dos consultórios e hospitais e que nunca são denunciadas. A partir de hoje, abro espaço para algumas que chegam até mim:

"Há dois anos atrás, engravidei de três lindos bebês. No quinto mês de gestação, fui ao seu consultório e ele me examinou com muita força no abdomen. Comecei a sentir dor, fui para casa e, na manhã seguinte, minha bolsa rompeu. Fui para o hospital, fiquei internada cinco longos dias e perdi um bebê. Os médicos avisaram sobre a necessidade de cerclagem, porém, o obstetra preferiu não fazer, pediu repouso absoluto. Nesse tempo, meu marido me dava banho na cama e eu fazia as necessidades fisiologicas tudo na comadre, na cama. Após três semanas fui ao obstetra que me falou que eu estava bem, vida normal. Era para eu voltar a andar e não ter preguiça. Quando eu estava na 26ª semana, entrando na 27ª, meu marido ligou para o obstetra falou sobre esses remédios para abrir o pulmão dos bebês, se eu poderia tomar e que eu estava sentindo um pouco de dor e ele falou que eu estava ótima que não precisava nada disso. Combinamos de trocar de médico na manhã seguinte. Naquela mesma noite, eu fui para a maternidade, me trataram muito bem. Ligaram para o obstetra, que resolveu fazer o parto normal dos dois bebês. Eu ouvia as enfermeiras falando baixo "Normal??? Como parto normal?" Fiquei muito assustada, mas deixei nas mãos de Deus. Meus filhos nasceram de parto normal. A Rebeca ficou comigo apenas dois e o Mateus, oito dias. Não sei se foi negligência do médico ou vontade de Deus. Simone (São Paulo -SP)

* O cadastro dos médicos com título pode ser consultado pelo telefone 3884-7100 ou pelo site da Sogesp http://www.sogesp.com.br

Escrito por Cláudia Collucci às 19h56
Crônica de três mortes maternas evitáveis

Não há nada mais desolador do que um bebê sem o colo da sua mãe. De um recém-nascido que, no colo alheio, procura um peito cheio de leite. E não encontra porque sua mãe morreu horas depois do parto. Esse bebê se inquieta porque conheceu o gostinho do leite materno. Teve a chance de experimentá-lo por duas vezes até a sua mamãe agonizar por meia hora, dentro de um hospital, e morrer sem ajuda médica.

Esse bebê chamado Bruno, um paraibaninho que nasceu com quase 4 kg na véspera do Dia dos Pais, contenta-se agora com leite de latinha, o Nam, que a família não sabe por quanto tempo terá condições de comprá-lo. O pai, que no seu dia ganhou o filho, mas enterrou a mulher, Julia Angela, faz as contas que não fecham. Ganha um salário mínimo como operário de uma fábrica de João Pessoa, paga R$ 130 de aluguel e tem outro filho de seis anos para criar.

Na assistência dos filhos, conta com a ajuda da cunhada, Maria de Lourdes, costureira afastada do trabalho por uma hérnia de disco. Mas ele não sabe como fazer para arcar com as despesas com o recém-nascido. Ainda mais neste mês que tem que pagar R$ 275 pelo caixão da mulher. Caixão esse que tinha sido prometido por um político da cidade, mas que voltou atrás na oferta quando a família decidiu abrir um boletim de ocorrência para apurar negligência do hospital, a maternidade Frei Damião, pela morte de Julia.

Na terça passada estive na casa da família e segurei Bruno no colo por alguns minutos. Conheci o seu bercinho, que tinha sido cuidadosamente montado pela mãe antes de ir para a maternidade. Todo decorado de verde, era o único móvel que destacava na casinha humilde de três cômodos. A mãe tinha se esmerado no enxoval do menino, investindo nele cada centavo do salário mínimo que ganhava como atendente em uma lanchonete.

Uma família destroçada. Foi a última imagem que vi ao sair daquela casa.

A 155 km dali, em Arara, cidade de 12 mil habitantes no agreste paraibano, mais tristeza. Não há bebês sem suas mães porque eles morreram junto com elas. Mas há famílias inconsoláveis. Cícera, 19, e Adenice, 30, teriam seus primeiros filhos. Cícera era nascida e criada em Arara e há um ano e meio namorava Erivaldo, técnico de informática da prefeitura da cidade. "Nos dez dias em que ela passou de hospital em hospital, a única coisa com que se preocupava era com o bebê. Não queria que nada de mal acontecesse com ele. Mas sabia que não sobraria nem ela e nem ele", conta o o marido.

Adenice morou 12 anos em São Paulo, mas havia dois anos que se mudara para Araras para fazer companhia à mãe, uma viúva de 77 anos. "Aquele filho era o tesouro dela. Ela não se cansava de acariciar a barriga e dizer: mãe, agora não estarei mais sozinha quando você morrer", conta a mãe.  

Como eram gravidezes muito desejadas, essas mulheres não se descuidavam. Cumpriam à risca o pré-natal acreditando que, dessa forma, estariam seguras. Ledo engano. Esse mesmo pré-natal não foi capaz de evitar a morte das duas, com um intervalo de 24 dias. Foram vítimas de um sistema de saúde ineficaz e cruel com as mulheres. Que ainda vê as queixas de uma gestante como "manha".

Médico da família? Que médico é esse que olha para uma grávida de sete meses, com febre e vômitos, diz ser  "virose" e a manda para casa, sem pedir exame algum. Ou que escuta os batimentos cardíacos de um bebê em um dia e dois dias depois essa mãe morre de septicemia (infecção generalizada) porque esse bebê já estava morto havia uma semana? Que hospitais são esses que deixam de atender uma gestante em risco porque o único leito de UTI disponível estava reservado para pacientes de plano de saúde?

Júlia, Cícera e Adenice: aonde quer que vocês estejam, desejo que encontrem a paz. A mesma paz que não tiveram para dar à luz com tranquilidade, dignidade e segurança.

* Acesse nos links abaixo reportagem completa que foi publicada hoje na Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2108200513.htm 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2108200514.htm

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2108200515.htm

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2108200516.htm

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2108200517.htm

 

Escrito por Cláudia Collucci às 12h04
Simpósio vai tratar das dificuldades

Falamos recentemente sobre os mistérios que envolvem a implantação de um embrião no útero. E que não é um simpósio em Belo Horizonte vai tratar sobre essa questão. As condições que levam à fixação do embrião ao útero, após sua implantação pelas técnicas de fertilização in vitro, é hoje um ponto chave na reprodução assistida, pois até agora não se sabe ao certo que leva o embrião a se fixar ou não.

Os especialistas do IVI ­ Instituto Valenciano de Infertilidad, maior centro de reprodução humana do mundo, localizado na Espanha, Dra. Mirela Florensa e Dr. Manuel Fernandez vão abordar o tema.

"Uma das linhas de estudos investiga aspectos imunológicos que poderiam dificultar o embrião de se fixar no útero, algo semelhante ao processo de rejeição de órgãos que ocorre durante um transplante", explica o Selmo Gerber, professor da Universidade Federal de Minas Gerais.

Congelamento de óvulos

Outro tema que será debatido do simpósio, promovido pelo laboratório Serono, será o congelamento de óvulos e de tecido do ovário para tratamento da infertilidade. Técnica ainda experimental, sua principal indicação é para os casos de câncer ovariano, ou em pacientes que serão submetidas a tratamento de quimioterapia ou radioterapia.

Juliana Lameirão, 27, que teve óvulos congelados

                             porque quer engravidar a partir dos 35 anos

Mulheres férteis, mas que ainda não casaram ou tiveram filhos, também poderão futuramente serem beneficiadas congelando este material e utilizando-o depois. Mas a relação custo e benefício ainda não compensa. Se quiser saber mais sobre isso acesse: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2003200525.htm

Por isso, os médicos acrditam que congelamento de tecido ovariano apresenta melhores perspectivas que o de óvulos. Isso porque, ao contrário do espermatozóide, que continua viável mesmo após um longo congelamento, o óvulo congelado raramente mantém a capacidade de produzir um embrião.

Já o congelamento do tecido ovariano é mais promissor por ser o ovário rico em estruturas chamadas folículos (óvulos em estado imaturo) que têm potencial para se tornarem óvulos. O procedimento é feito com a retirada de fragmentos do ovário, por meio da videolaparoscopia (cirurgia endoscópica), que posteriormente são congelados. Até o momento apenas uma gravidez foi obtida por essa técnica.

O "Serono Symposia Internacional" acontece entre 15 e 17 de setembro próximo, no Ouro Minas Palace Hotel, em Belo Horizonte.

Escrito por Cláudia Collucci às 01h48
Mortes maternas na Paraíba - Parte 2

Queridas (os), estou aqui em João Pessoa, na Paraíba, fazendo uma reportagem sobre os novos casos de morte materna. Nos últimos 30 dias, foram mais quatro casos, que totalizam no ano 17 mortes. O último caso ocorreu na madrugada de domingo. Júlia, 43, morreu doze horas após o parto de Bruno. O bebê chegou a mamar duas vezes na mãe. Foi o seu último contato com ela. A partir daí, foi uma sucessão de absurdos. Julia começou a passar mal, com falta de ar. Sua irmã, Maria de Lourdes, chamou as enfermeiras que mal olharam para a mulher e já disseram que não era nada, que logo passaria. Passou mesmo: 30 minutos depois, Júlia morreu, na cama do hospital, de insuficiência respiratória.

Os mesmos absurdos aconteceram com duas outras mulheres, no agreste da Paraíba, mais precisamente na cidade de Arara, que morreram no prazo de um mês.  Uma delas chegou a dar entrada dez vezes em cinco dias em hospitais da cidade e da região. Dizem que ela tinha uma virose. No final, descobriu-se que ela tinha uma infecção urinária, que evoluiu para uma infecção generalizada.

Com a outra aconteceu coisa parecida. Tinha febre e manchas vermelhas pelo corpo. Não é preciso ser formado em medicina para, numa situação dessa, pensar em uma rubéola, por exemplo. É apenas uma hipótese, não estou afirmando nada, quero deixar bem claro. Em nenhum momento foi feito um exame de sangue. Após quatro dias de agonia, ela também morreu de septicemia. Nesses dois casos de Arara, os bebês não sobreviveram e morreram junto com as mães. Ambas estavam no sétimo mês de gestação.

Estou triste, indignada e com muita, muita vergonha desse nosso país, que ostenta índices altíssimos de mortalidade materna. Conto melhor para vocês essa história toda ao chegar a São Paulo.

Escrito por Cláudia Collucci às 14h48
Eventos gratuitos sobre infertilidade

Nesta semana acontecem duas palestras gratuitas sobre infertilidade conjugal. A primeira ocorre amanhã, dia 16, às 19h30, na clínica dr. José Aristodemo Pinotti. O foco da vez será a infertilidade masculina, com o andrologista Marcelo Vieira. As inscrições devem ser feitas no (011) 37071400 ou no site www.corplus.com.br.

No sábado, dia 20, às 9h, é a vez do Projeto Beta realizar sua palestra. As inscrições devem ser feitas pelo telefone 0/xx/11/ 3826-7017

Escrito por Cláudia Collucci às 16h08

Contar ou não contar? Eis a questão!

Recebo a informação de que, neste ano, dobrou a procura por sêmen doado no banco de sêmen do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. O banco fornece sêmen criopreservado para cerca de 70 clínicas de todo o país e tem registrado, em média, 60 pedidos por mês, o dobro em relação ao ano passado.

Com tanta procura, o banco está com estoque abaixo do ideal e procura doadores entre a população masculina. Atualmente, existem cem amostras disponíveis no banco de sêmen, o suficiente para suprir apenas dois meses.

O ideal seria uma média mensal dez novos candidatos por mês para que fossem obtidos pelo menos quatro doadores. Podem doar sêmen homens entre 18 e 40 anos, saudáveis, sem casos de doenças hereditárias na família, que concordem com o anonimato e passem por uma triagem rigorosa.

Os interessados podem marcar uma consulta médica para avaliação e esclarecimentos (gratuito). Informações: (11) 3747-2701 ou bancodesemen@einstein.br.

Analisando essa notícia, comecei a repensar numa questão que, em geral, gera muita polêmica quando toco no assunto. Por isso, gostaria da opinião de vocês: um casal deve ou não contar ao filho, no momento apropriado, que ele foi gerado por sêmen ou óvulo doado?

Pergunto isso porque, conversando com algumas psicólogas, descobri que começam a aparecer no consultório casos de pais que, na primeira crise conjugal, jogam na cara da mulher que o filho (gerado com sêmen doado) não é dele.

Já houve casos que foram parar na Justiça porque o pai queria se livrar de pagar pensão alimentícia à criança alegando não ser o pai verdadeiro. Ainda bem que existia o termo de consentimento informado em que havia ficado explicitado a concordância dele para que a FIV (Fertilização In Vitro) fosse feita com sêmen de doador anônimo.

Duvido que situação semelhante ocorra com as mulheres. Independentemente da origem do óvulo, o filho gerado por ela será sempre dela. Mas fico aqui perguntando aos meus botões: é justo omitir esse dado de um filho? É justo uma pessoa não saber das suas reais origens, ainda que, por conta da doação anônima, ela provavelmente nunca irá saber a identidade do pai ou da mãe biológica?

Eu, particularmente, acredito que a história de uma pessoa inicie muito antes do seu nascimento e não creio que seja salutar omitir dados que dizem respeito à sua herança genética. É um assunto espinhoso, eu sei, mas que precisa ser bem pensado na hora de tomar uma decisão de se tentar uma gravidez com material genético doado.

Escrito por Cláudia Collucci às 20h24

 

Imitando a natureza

"Existe uma explicação por que, com tanto avanço da ciência, o
embrião não se implanta no útero, embora haja todas as condições favoráveis para isso? Número de células, sem fragmentações, endométrio ok, Tudo
tecnicamente perfeito! Não há como não se revoltar. Já fiz duas ICSIs mal sucedidas...".

Acabo de receber esse e-mail de uma leitora. São vários os desabafos que me chegam bem parecidos com esse. E não há mesmo informações científicas que expliquem esse fato: um embrião tecnicamente ótimo e todas as condições favoráveis para ocorrer uma gravidez e ela simplesmente não acontece. Imediatamente lembrei-me de algumas reflexões que já fiz sobre a reprodução assistida durante a elaboração da minha tese de tese de mestrado, em que trato justamente das primeiras experiências com fertilização artificial em animais, no séc. XVIII, feita pelo abade italiano Lazzaro Spallanzani.

O mestrado, em história da ciência, me deu uma certa bagagem para entender um pouco da biologia do desenvolvimento de um novo ser a partir da fecundação, ou seja, da fusão do espermatozóide com o óvulo. É um processo complexo e, ao mesmo tempo, fantástico. Gostaria de discorrer um pouquinho sobre ele para vocês.

Vamos começar pelos espermatozóides, essas verdadeiras maquininhas que, vistas ao microscópio, parecem ter vida própria. Não é à toa que durante quase três séculos eles foram tratados como animais, um animal do esperma. Aliás, esse é significado do seu nome. A sua função na reprodução só foi conhecida em 1876, quando Oscar Hertqwig e Herman Fol demonstraram a penetração do espermatozóide no óvulo e a união dos núcleos dessas células. Antes, existiam teorias fantásticas para explicar como os homens, os animais e as plantas se reproduziam.

Voltando aos "nossos" espermatozóides, vocês sabiam que eles só se tornam fecundantes depois de entrarem nas vias genitais femininas? Eles ganham motilidade graças ao líquido seminal segregado pelas vias masculinas, mas ainda não têm poder de fecundar o óvulo. Em uma fertilização in vitro, eles precisam ser colocados em um meio de cultura, que imita as vias genitais da fêmea e que possibilita a maturação dessas células. Só assim eles conseguem "força" para romper a zona pelúcida do óvulo. No caso de uma ICSI (Injeção intra-citoplasmática de espermatozóides), o espermatozóide não precisa passar por essa maturação porque é injetado diretamente no núcleo do óvulo.

Vamos falar agora dos nossos óvulos, células igualmente complexas e com fantásticos mecanismos de controle da reprodução. Os óvulos de alguns mamíferos produzem uma substância chamada fertilizina que repele os espermatozóides, que já são poucos numerosos no local da fecundação. Aqui intervém uma nova secreção das vias genitais femininas, a antifertilizina feminina, que consegue neutralizar a ação da fertilizina. In vitro, a ausência dessa secreção neutralizante poderia, teoricamente, impedir a fecundação, mas há técnicas de lavagem dos óvulos e meios de cultura que também cumprem a contento o papel da antifertilizina.

Os óvulos têm também defesas próprias para evitar a poliespermia, ou seja, a presença de vários espermatozóides no citoplasma ovular. O fenômeno é raro de acontecer, mas, quando ocorre, a gestação é interrompida. Para evitar que isso aconteça, o óvulo têm eficientes mecanismos de prevenção, seja por meio de alteração elétrica da sua membrana seja por meio de reações físico-químicas mais lentas.

Enfim, esses são apenas alguns exemplos de como a natureza é sábia e de como ainda nada sabemos das conseqüências do "empurrãozinho" dado pelas fertilizações artificiais. Abordei propositadamente todas essas questões para que possamos refletir um pouco sobre os rumos que a nossa civilização está tomando. Ainda serão necessárias várias e várias e várias gerações para sabermos se o homem conseguiu de fato imitar a natureza, como ele orgulhosamente profetiza.

Escrito por Cláudia Collucci às 12h01

Queridas (os), acabo de voltar da praia, renovada. Foi rápido, mas deu para relembrar que existe vida fora desta metrópole de concreto. Céu estrelado. Pássaros cantando. Peixes pulando no rio. Chuva caindo no telhado. E as ondas. Ah! as ondas, no ritmo das nossas vidas. Indo e vindo, às vezes de forma violenta, às vezes serenamente. Deu para perceber que ainda estou meio zen, né?

Pois bem, iniciei uma limpeza geral nas minhas pastas do Word e olha só o que eu encontrei: um texto que escrevi há um ano e meio, quando sofri um aborto. Tinha acabado de voltar do hospital e me sentia muito, mas muito triste. Na época, pensei em publicá-lo na minha coluna na Folha Online, mas desisti porque não iria suportar os e-mails e os comentários que certamente viriam em seguida. Tal como um caramujo, queria ficar quietinha dentro da casinha.

Mas, coincidência ou não, acabo de ler várias mensagens que chegaram por e-mail neste fim de semana e a maioria veio de mulheres que relatam sua dor após um aborto e me pedem uma palavra amiga. Lendo essas mensagens, revivi o que restou da minha própria dor e, inexplicavelmente, cheguei neste velho texto. Explico: tenho dezenas de pastas (textos dos livros, do mestrado, de reportagens, de colunas, etc) e só posso acreditar que foi obra do acaso encontrar esse texto assim de bate-pronto, perdido no meio de centenas de outros.

Então, para essas mulheres ainda vivem a dor dilacerante de um aborto, dedico esse texto. Não sem antes dizer-lhes para que tenham certeza de que o tempo cicatriza sim as feridas e nos enche de esperanças de que dias melhores virão. E estejam certas de que são nesses momentos de dor que vivemos o ápice do nosso crescimento pessoal.

Neste momento em que dor parece dilacerar a alma, gostaria de ter a serenidade dos budistas para apenas agradecer os dias de plenitude que vivi, desde o momento que soube que estava grávida. Os seios inchados, os enjôos matinais, o repentino aumento de apetite. Cada um desses sinais foram intensamente comemorados e reafirmavam o que o primeiro ultra-som já havia constatado. Sim, havia uma gestação em andamento. O saco gestacional, a vesícula vitelínea, e, mais tarde, ele, o embriãozinho de 2 mm.

 

A partir daí, aquele minúsculo embrião já era o nosso querido e sonhado filho. Já ocupava o seu espaço nossas vidas. Não cansávamos de assistir à fita de vídeo com a gravação do ultra-som e de ficar fantasiando como seria o bebê. Herdaria os olhos do pai, a boca da mãe? Nas bancas de jornais, o foco de interesse passou a ser tudo o que se referia à gravidez e ao bebê.

 

Dane-se as denúncias de corrupção, os crimes e as gafes do nosso presidente. O que interessava saber mesmo era o melhor custo X benefício do carrinho do bebê. Ou a resposta para a eterna dúvida: após a licença-maternidade, o que é preferível: deixar o bebê com uma babá ou colocá-lo no berçário próximo ao seu trabalho?

Neste momento, de nada vale os conhecimentos teóricos sobre reprodução. De nada vale saber das cruéis estatísticas que mostram que 20% das gravidezes são abortadas até 12 semanas de gestação.

 

Essa informação até passa pela cabeça mas você se esforça para ignorá-la, como se, pensando nela, atraísse coisas ruins. Tudo caminhava como um sonho bom até o próximo ultra-som. A grande expectativa era ouvir os batimentos cardíacos do nosso embriãozinho. Fita de vídeo a postos, o marido segurando firmemente a minha mão e nada. Nenhum som. Aumenta o volume do doppler, um segundo médico é chamado, procura, procura, procura e nada. Silêncio absoluto. O coração dispara, a mão sua frio e as lágrimas rolam incessantemente.

 

No dia seguinte, uma curetagem pôs fim ao sonho. E o que sobrou foi um imenso vazio. Um insuportável luto. Não faltam consolos do tipo: outras oportunidades virão, isso já aconteceu comigo e engravidei dois meses depois, etc, etc. Tudo isso é sabido, mas nada amortiza a dor. O tempo, sei bem, é o melhor remédio para cicatrizar essa ferida. E tenho certeza que cicatrizará. Assim como tenho fé que um novo bebê virá no momento certo. Não para preencher o vazio deste que se foi. Virá para ocupar o seu verdadeiro lugar, virá para gozar deste nosso inesgotável amor que já lhe pertence.

 

Neste momento em que o mundo parece perder o colorido e se transforma em uma imensa tela PB, agradeço sim ao Universo a breve oportunidade de me fazer sentir mãe. Agradeço sim cada sintoma, cada transformação pelo qual passou o meu corpo neste período. Agradeço, do fundo da minha alma, o fato de ter vivido essa alegria e, depois, a dor da perda ao lado do homem da minha vida. Mas não deixo de sofrer e de lamentar o fato de ainda não ter sido desta vez..  

 

São Paulo, dezembro de 2003

Escrito por Cláudia Collucci às 20h23
Viver não dói


Definitivo,  como  tudo  o  que  é  simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se  cumpriram.

Por que sofremos tanto  por amor?

O  certo  seria  a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo  feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi  desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas  projeções irrealizadas,
por todas as  cidades que gostaríamos
de  ter  conhecido ao  lado do nosso amor
e não  conhecemos,
por todos os filhos  que
gostaríamos  de  ter  tido junto e não tivemos,
por todos os shows  e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os  beijos  cancelados,
pela eternidade. 

Sofremos não porque
nosso  trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as  horas livres
que  deixamos  de  ter para ir ao  cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos  não  porque  nossa  mãe
é  impaciente  conosco,
mas por todos os momentos  em que
poderíamos  estar  confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos  compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro  está sendo
confiscado  de  nós, 
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi  vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me  convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada  arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é  inevitável.

O sofrimento é  opcional.
                
 
                                                Carlos Drummond de Andrade
 
 
* Bom fim de semana a todas. Sairei do ar até terça-feira porque pretendo me isolar em uma praia com o maridão. Nada de internet, nada de jornal, nada de TV. O único som permitido será o das ondas. 
Escrito por Cláudia Collucci às 12h58

Mulheres sensíveis

Não sei de onde os autores de novela vão buscar o esteriótipo de que a mulher com dificuldade de gravidez é sinônimo de mulher má. Volta e meia, está ali implícita essa idéia absurda, que só reforça preconceitos. Esses dias, passando os olhos na novela "América", deparei-me com a personagem May (Camila Morgado) tendo o diagnóstico de infertilidade e escondendo o fato do namorado.

Quase nunca assisto a novelas porque, além de não curtir muito o gênero, com meu horário no jornal, é impossível chegar em casa antes das 22h. Mas, me informando depois com amigas noveleiras, soube que a tal May é uma peste, que vive atazanando a vida da mocinha Sol (Débora Secco).

Quase não acreditei: a Globo está repetindo o mesmo erro cometido na novela "Senhora do Destino", em que a vilã Nazaré era tratada como "seca" e "oca", em referência a sua esterilidade. Na época da novela, denunciei o fato em reportagem na Folha, a Globo negou que houvesse alguma intenção de ofender as mulheres inférteis. Leia a íntegra da reportagem: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1602200512.htm

Mas o inacreditável aconteceu: a nova vilã é também infértil. E em breve a mocinha Sol vai engravidar do namorado. É mais ou menos o que a trama anterior retratava: a mocinha fértil Maria do Carmo cheia de filhos amados e a vilã estéril que precisou roubar a filha da mocinha ainda quando bebê. É loucura minha ou a Globo está abusando desse tipo de referência?

A autora Glória Peres deveria entrar neste blog ou nosso fórum de infertilidade do UOL para conhecer qual o verdadeiro perfil de uma mulher com dificuldade de gravidez. Perceberia que, diferentemente do que os autores costumam retratar, essas mulheres são sensíveis, humanas, femininas, bem-resolvidas e, sobretudo, guerreiras. Não precisam ficar por aí despejando sacos de maldade. Creio que esses autores prestariam um grande serviço ao público se, em vez de reforçar preconceitos, começassem a eliminá-los.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 20h22

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

 Visitas