Morte por aborto

O assunto é pesado e foge do foco principal deste blog. Mas precisa ser discutido à exaustão porque também trata de direitos reprodutivos. Na última quarta-feira, uma garota de 14 anos morreu após fazer um aborto de "fundo de quintal", em São Vicente (litoral de SP). O procedimento, realizado por uma enfermeira aposentada de 62 anos, causou hemorragia e parada cardiorrespiratória, e a menina morreu logo após chegar ao hospital.

Pobre e moradora na periferia da cidade, a adolescente contou com a ajuda de uma amiga que lhe emprestou R$ 200 para fazer o aborto. Na casa da enfermeira, que foi presa, havia material cirúrgico de uso ginecológico e lençóis sujos de sangue. À polícia, a enfermeira admitiu ter feito o aborto na garota.

Como bem disse Gilberta Soares, coordenadora das Jornadas pelo Aborto Seguro, a morte da garota é apenas mais um retrato "ao vivo e as cores" do que acontece com as mulheres pobres desse país, que recorrem ao aborto inseguro. Estima-se que 1 milhão de abortos sejam realizados por ano no Brasil e que pelo menos 2.000 acabem em morte. Só em razão das complicações causadas pelo abortamento clandestino, o SUS gasta hoje mais de US$ 10 milhões/ano.

Hoje vivemos uma grande hipocrisia: as mulheres mais favorecidas economicamente que optam pelo aborto o fazem com todas as condições necessárias e praticamente não correm riscos. As pobres, que se submetem ao procedimento em qualquer biboca, morrem ou ficam mutiladas. Isso é justo?

Não quero entrar no mérito do certo e do errado, até porque evito posições maniqueístas. Mas assim como defendo o direito à maternidade respeito de igual modo as mulheres que não desejam e/ou que não se sentem preparadas para ter um filho. Ter ou não ter um filho são direitos reprodutivos garantidos, assim como o acesso aos métodos de contracepção.

Além disso, acho um absurdo criminalizar as mulheres que fazem o aborto. Tenho várias amigas que já o fizeram na juventude e que hoje são mães maravilhosas ou simplesmente concluíram que não nasceram com o chip da maternidade. Para nenhuma delas, foi uma decisão fácil. Aliás, creio que para mulher nenhuma. O aborto, em geral, é um ato de desespero. E a mulher que o pratica não merece ser apedrejada como uma criminosa. Merece amparo e informações para que não volte a passar pela mesma situação de gravidez indesejada.  O fato de ser considerado um crime não impede que 1 milhão de abortos sejam realizados por ano no país e que em torno de 2.000 mulheres morram em razões de complicações.

É por isso tudo que devemos acompanhar, atentamente, as discussões na Câmara dos Deputados sobre projeto de lei enviado pelo Executivo que trata da descriminalização do aborto no país. Essa discussão já dura mais de 30 anos no Legislativo e, se não nos posicionarmos, levará mais 30 e ainda não terá chegado ao fim.

Tenho o maior respeito por todas as religiões, mas discordo da interferência que tentam fazer sobre o corpo da mulher e sobre as decisões de um Estado laico. É fácil profetizar e apelar para a vida do embrião. Mas, na hora do vamos ver, quem é que vai ajudar essa mulher sem condições de criar o filho? Pessoalmente, sou contra o aborto. Nunca fiz e não o faria. Mas, por princípios pessoais, não posso virar as costas e engrossar a fila dos que apedrejam a mulher que o pratica.

Um argumento muito utilizado é: se não pode ter por que engravidou? E eu devolvo a seguinte reflexão: que atire a primeira pedra aquele (a) que já não marcou bobeira e correu o risco de uma gravidez em um momento da vida que isso seria uma catástrofe pessoal ou familiar. E se tivesse acontecido, o aborto não teria sido uma opção?

Escrito por Cláudia Collucci às 20h50
A polêmica da adoção

Não é de hoje que, sempre que surge uma questão envolvendo o tema infertilidade, aparecem os que sugerem a adoção como uma solução para o problema. Ainda que eu defenda veemente a adoção e pretenda praticá-la, tendo ou não um filho biológico, não creio que a questão seja tão simplicista assim.

O desejo de engravidar, muitas vezes, caminha quase que paralelo ao desejo de ser mãe. Viver uma gestação, acompanhar o crescimento da barriga, sentir as dores do parto são experiências que muitas mulheres não querem se privar. E eu considero esse desejo totalmente legítimo e deve ser respeitado.  É um direito assegurado.

No mais, incomoda-me muito a maneira como a adoção é vista no Brasil.  Historicamente, ela é tratada como o ato de preencher a lacuna provocada pela ausência de filhos biológicos, algo que vai substituir o processo biológico de concepção, gestação e parto. Essa atitude tinha apoio do antigo Código de Menores, já superado, que exigia dos candidatos à adoção um exame de comprovação de esterilidade.

Legalmente, a situação hoje é outra. Com o Estatuto da Criança e do Adolescente, o juiz que fizer essa exigência estará cometendo contrangimento ilegal e pode até ser processado por isso. Outro avanço importante diz respeito à herança. A antiga Lei de Legitimação Adotiva (1965) excluía o filho adotivo do direito de sucessão hereditária. Hoje, ele tem iguais direitos e deveres.

Embora legalmente a situação seja diferente, as adoções no Brasil ainda são, muitas vezes, cercadas de mistério, com casais tentando, a todo custo, esconder dos filhos adotivos a verdade sobre o seu nascimento. O próprio perfil de criança mais procurada para adoção já demonstra isso: recém-nascidos brancos.

Muitos alegam que não revelam a verdade para proteger a criança contra o preconceito ou para evitar contato com a família biológica da criança. Nada disso, porém, justifica a mentira, que pode causar efeitos danosos, muitas vezes irreversíveis. A revelação para a criança sobre a sua condição de adotiva deve ser feita o quanto antes e sempre da maneira mais natural possível. Os pais que não tiverem condições emocionais para isso precisam, o quanto antes, de ajuda psicológica.

Outro mito que precisa ser derrubado é o de que crianças adotadas têm mais problemas. Segundo a psiquiatra infantil Lee Fu I, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, é a forma de adoção que ajuda a determinar o comportamento das crianças.

Lee realizou um estudo que mostra que, quando criadas por parentes, as crianças sofrem muito mais de depressão, já que não foram adotadas por opção. As adotadas por estranhos têm mais problemas se ficam sabendo disso muito tarde.

Enfim, os pais adotivos devem, antes de mais nada, superar as suas dificuldades procriativas e não sublimá-las com a adoção de uma criança. Também não devem encarar a adoção como um ato de filantropia. É preciso que a adoção seja aceita como uma possibilidade de vinculação, legal e afetiva, que não depende da gestação, mas da convivência, como, aliás, acontece com os filhos biológicos.

Para fechar, gostaria de presenteá-los com o artigo abaixo, escrito por Clara Pinto Correa, uma amiga portuguesa. Ele já foi publicado no início da minha coluna na Folha Online, mas vale a pena publicá-lo novamente porque, certamente, muitas de vocês não o conhecem. Clara é uma famosa escritora que vive em Lisboa, bióloga e historiadora da ciência. Em 1999, adotou dois meninos de rua, irmãos, um com 6 e outro com 7 anos.

Na época, os meninos estavam magros, maltrapilhos, usavam óculos muito grossos, costumavam mendigar e a roubar nas ruas de Lisboa e nunca tinham ido à escola. Os pais biólogicos se drogavam e se prostituíam. Clara decidiu adota os irmãos. Conheci os meninos há dois anos, durante uma viagem a Portugual. Quem não conhece a história, dificilmente imaginaria que não saíram do ventre de Clara tamanha a afinidade e o maor que há entre eles. Clara, que chegou a fazer três FIVs antes da adoção, hoje agradece o fato de não ter engravidado. "Se o tivesse, possivelmente não teria os meus dois filhos amados", costuma dizer. E sempre acrescenta uma sábia indagação: "Quantos de nós, antes de morrer, podem dar-se ao luxo de pensar que salvaram realmente a vida de alguém?"

Escrito por Cláudia Collucci às 12h31
Do verme ao homem

CLARA PINTO CORREIA

[O texto a seguir está escrito com a grafia utilizada em Portugal]

"Eu penso que a adopção é uma óptima forma de pegarmos no eterno debate que tanto move os espíritos modernos e tanto marcou a definição da cultura que nos legou o século 20, esta questão de se o que forma os seres humanos é o seu genoma ou o seu ambiente. No caso dos meninos que a gente adopta, os genes eles trazem-nos nenhum de nós sabe de onde; e se, como os meus, os meninos adoptados já falam e já pensam e já têm memórias, também já trazem consigo uma bagagem nada dispicienda de um ambiente que também nos é completamente estranho, e do qual sabemos quase nada ­ vamos sabendo, assim como quem junta pedacinhos muito crípticos de um puzzle de outro planeta, à medida que eles vão falando connosco; e, na maioria dos casos, o que vamos sabendo preferíamos nunca ter tido que saber, porque preferíamos que no nosso mundo aquilo não existisse, nem nunca tivesse existido, nem nunca viesse a ter qualquer possibilidade de vir a existir.

Ou seja, aqui dá mesmo para ver o que é que conta mesmo nesta charada de um ser humano se transformar num ser humano.

Claro que os genes contam. Se os meus filhos tivessem os meus genes, teriam certamente um fenótipo mais colado ao meu, uma voz mais assustadoramente igual à minha, talvez algumas das minhas tristezas intrínsecas, sem dúvida alguns dos meus instintos e das minhas fantasias. Se eu tivesse tido um filho da minha barriga e nunca mais o tivesse visto e ele tivesse ido viver para uma paragem qualquer muito longínqua e muito diferente desta, era indiscutivelmente provavel que aos vinte anos os meus genes fizessem com que essa pessoa sentisse uma grande atracção pelo teatro, ou sofresse de um grande medo do escuro, ou tivesse imensas histórias para contar. E olhos azuis não teria de certeza. Mas para lás destes pequenos pormenores sem importância não teria grande coisa a ver comigo, porque todas estas características são parte do meu esqueleto mas não constituem a minha pessoa.

A minha pessoa, essa, eu vejo-a agora crescer dentro destes meninos cujos genes eu desconheço. Encontro neles as minhas expressões, os meus gestos de mãos, os meus minúsculos tiques de postura, os espelhos do meu gosto, das minhas manias, das minhas idiossincrasias. E, sobretudo, encontro cada vez mais neles os meus valores. Ouço-os dizerem um ao outro as coisas que eu digo. Conheci-os no primeiro dia atavicamente grudados à televisão, e agora já não se lembram de que ela existe. Quando falam dos meus cigarros (que eles não aprovam) dizem os NOSSOS cigarros. Vejo o pensamento deles a começar a travejar-se pelas veredas por onde segue o meu. Às vezes até já acabam as minhas frases por mim, porque as minhas ideias e as minhas palavras já começaram a ser as palavras deles. As birras que eles fazem, as fúrias que eles têm, os terrores que os arrancam da cama a meio da noite, o medo ou o prazer que encontram instintivamente estudo, isso não discuto que veio do mesmo genoma alheio que moldou os olhos e os narizes deles. Mas mesmo os olhos e os narizes deles já mudaram abissalmente.

Ainda só passaram alguns meses, e agora quem dantes conhecia estes meninos já não os reconheceria na rua. Discutir se o que importa na pessoa é o genoma ou é a educação é tão bizantino como discutir se o que manda na célula é o núcleo ou o citoplasma. Não adianta. Como eu estou sempre a dizer aos meus filhos, a vida não é um concurso. O núcleo tem lá as informações todas, pois tem. Mas o citoplasma é que as processa. Se ainda não acreditávamos mesmo nisto, tivémos que passar a acreditar desde que a Dolly foi clonada a partir de uma célula somática adulta. É muito bonita, toda esta conversa de deixarmos no mundo os nossos genes. Mas, em termos reais, deixar cá os genes é tão relevante como deixar cá o esqueleto. A carne que cobre o esqueleto é a educação que a gente dá aos nossos filhos. E isso, isso mesmo, e verdadeiramente isso ­ isso é que é a nossa imortalidade, porque isso é que é mesmo o que cá fica de nós depois de morrermos. Genes há muitos. Idéias nossas só há mesmo as nossas. O que nós deixamos no mundo é a educação que démos aos nossos filhos, e não a sequência de pares de bases de que são feitos os núcleos deles.

A adopção sempre partiu de um princípio absolutamente viciado, que é a ideia de ser uma segunda escolha. Uma solução de recurso destinada apenas aos infelizes que não podem ter filhos da barriga deles. Eu, que nunca pude ter filhos da minha barriga e sofri muito com isso, agora até me arrepio toda a pensar que podia ter tido. É que, se os tivesse tido, agora não tinha estes. E estes é que são os meus. A gente não poderá nunca saber como funciona esta espantosa lógica universal, mas a cabala diria que estes filhos me estavam destinados por um nome que foi inscrito no Céu muito antes de eu nascer. As barrigas são o que menos interessa. O que interessa é existirem pais e mães e filhos, e o que os pais, e as mãe, e os filhos, pela vida fora ensinam uns aos outros. O que nos trava antes de eles virem da barriga ou virem sabe-se lá de onde.

É exactamente o mesmo medo, o medo tramado de saltar da prancha de dez metros. Aquilo, visto lá de cima, parece tão impossível, tão assustador. E a pessoa fica para ali toda encolhida, a tremer de frio, a ponderar o salto. E é a parte de dar o salto que custa. Depois de estar na água, é nadar. E nadar é muito bom. Faz muito bem à saude.

Ó pessoas, não tenham medo. Deixem-se lá de mariquices com os genes, eles assim como assim vieram todos das primeiras bactérias que sairam das primeiras moléculas orgânicas daquela irrepetível sopa primitiva. A gente ainda tem sequências inteirinhas que são iguais às dos vermes. Adoptem filhos. Adoptem já. Pensem nisto como uma grande aventura, uma grande diabrura como aquela da prancha de dez metros como éramos pequeninos. Lembram-se do que custou, depois de lá termos trapado para cima todos gabarolas e de peito feito? Mas olhem, com estes filhos como com todos os filhos, só o salto é que custa. Depois já nunca mais olhamos para trás.

Aliás, mesmo que quiséssemos, não tínhamos tempo.

E olhem que eu estou a escrever isto depois de uma longa noite em que um está com bronquite e insuportável com a parvoice do medo de morrer, e o outro fez uma birra para comer a sopa como não há memória nesta casa."

CLARA PINTO CORREIA, bióloga, historiadora da ciência e autora de mais 20 livros, entre eles "Adeus, Princesa", "Ovário de Eva", "Os Clones Humanos", "Os Mensageiros Secundários", é também vice-reitora da Universidade Lusófona de Lisboa

 

Escrito por Cláudia Collucci às 12h29
Especialistas alertam para o risco da gravidez tardia

Um editorial publicado pela revista "British Medical Journal" traz uma frase que me levou a muitos questionamentos: "As mães tardias desafiam as leis da natureza e enfrentam a decepção". Em artigo, os ginecologistas Peter Braude e Susan Bewley, do hospital de Saint Thomas, e Melanie Davies, do University College de Londres, condenam a "epidemia" de gestações tardias nas sociedades ocidentais e alertam sobre os perigos de as mulheres esperarem até os 30 anos para terem o primeiro filho.

Os médicos culpam as autoridades de incentivar a desinformação na sociedade e promover a cultura de "ter tudo". Lembram que o risco de infertilidade aumenta com a idade, assim como o de sofrer doenças como pré-eclampsia, além de abortos ou gestações ectópicas. Eles afirmam que, da mesma forma, filhos de homens mais velhos têm mais risco de sofrer esquizofrenia ou transtornos genéticos.

Para os especialistas, as instituições médicas se preocupam com as gestações de adolescentes e, por outro lado, ignoram a epidemia de gestações em mulheres de meia idade. Eles também advertem as mulheres para não esperarem para ter filhos pensando que, em última instância, podem recorrer a tratamentos de inseminação, já que estes são falíveis, caros e aumentam o risco de contrair certas doenças.

Por mais duro que seja ler isso tudo, especialmente por ser uma tentante de 37 anos, concordo inteiramente com essas declarações. Mas não vejo saída. O mundo não vai parar e muito menos os conceitos serão revistos em razão disso. As dificuldades de gravidez, em muitos casos, representam mais um preço que a mulher moderna está pagando por sua emancipação. Por ter se voltado a outros interesses (estudo, trabalho), colocados como mais prioritários em uma determinada fase da vida do que a maternidade.

Dificilmente antes dos 30 anos temos uma carreira consolidada ou segurança emocional para a maternidade. Muitas vezes, essa é uma escolha que nem aparece no rol de prioridades na faixa dos 20 anos. E não é uma questão de egoísmo. É uma mudança de comportamento que, na minha opinião, dificilmente terá volta. Especialmente para a grande massa da população que precisa ralar muito para ter uma vida um pouco mais digna.

O problema que vejo é a falta de informação. Todas as mulheres precisam ser informadas desde sempre sobre os riscos de se deixar a maternidade para uma fase mais tardia. Deveríamos ser informados sobre essa realidade desde a primeira consulta ao ginecologista, assim como somos informadas sobre os métodos anticoncepcionais.

Mas não. Nascemos e crescemos certas de que, quando desejarmos, o filho virá rapidamente. Basta deixar a pílula anticoncepcional de lado. Assim, organizamos as nossas vidas e, quando tudo está pronto, pensamos: agora é hora! Mas a natureza segue o seu curso, e o nosso relógio biológico não pára esperando a nossa vontade.

A medicina reprodutiva ajuda, mas não faz milagres. E, ainda assim, sabemos muito bem que o preço emocional e financeiro a ser pago é caríssimo. Não quero desanimá-las ou deixá-las apreensivas. Precisamos lidar com essas informações e, ao mesmo tempo, mantermos o otimismo e a fé deque, ao final, tudo dará certo. Sem isso, fica impossível tocar a vida.

Escrito por Cláudia Collucci às 13h47
Gravidez múltipla deve ser evitada

Aumentar a taxa de gravidez com o mínimo de risco de gestações múltiplas (gêmeos ou mais) é a tendência mundial das técnicas de reprodução assistida, disse hoje o especialista espanhol Manuel Fernández, diretor do Instituto Valenciano de Infertilidad (de Sevilha, Espanha), durante o Serono Symposia Internacional, que reúne experts em reprodução humana de vários países, de hoje até sábado em Belo Horizonte (MG). O assunto já foi debatido aqui há poucos meses, quando participei do congresso europeu de reprodução humana e embriologia, que aconteceu em Copenhague (Dinarmarca), e o fato de voltar a ser destaque só mostra o quanto é importante.

Segundo Fernandez, a gravidez múltipla acarreta riscos para os bebês. “O corpo da mulher está preparado para gestar um bebê. Com gêmeos existem riscos para o nascimento prematuro e malformações. Com trigêmeos isto aumenta ainda mais”, disse ele. Nos países do norte da Europa existem normas que determinam a implantação de apenas um embrião nas fertilizações in vitro. Na Espanha podem ser implantados até três embriões. No Brasil, permite-se até quatro, o que aumenta a taxa de sucesso de gravidez, mas produz 25% de gestações gemelares.

Outra novidade foi trazida pelo especialista Pierre Ray, da Universidade de Grenoble (França). Segundo ele, a França já permite às pessoas que têm filhos com doenças genéticas, ter um outro filho por reprodução assistida para salvar a vida da criança doente. Em muitos países isto não é permitido.

A França também permite a técnica denominada “sexagem” (escolha do sexo do bebê), possível graças ao exame PGD (diagnóstigo genético pré-implantacional), criado para diagnosticar doenças genéticas no embrião. “Não existe consenso internacional sobre o assunto. Nos países anglo-saxões a sexagem é permitida, principalmente em situações em que o casal já tem dois filhos do mesmo sexo e quer um terceiro”, relata.

No Brasil a sexagem é proibida por resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina) e pela Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. “O grande debate ético é o de que os casais também queiram escolher a cor dos olhos e cabelos”, afirmou o ginecologista brasileiro Selmo Geber, coordenador do simpósio. Para Geber, as pesquisas caminham no sentido de dar soluções para as mulheres que queiram retardar a maternidade ou que necessitem de tratamento de quimioterapia e radioterapia, que causam a infertilidade. “O congelamento de óvulos e de tecido ovariano poderá proporcionar a gravidez futura. A técnica ainda é experimental mas sabe-se de alguns casos clínicos na Bélgica e em Israel”, informou.

Segundo Selmo Geber, diferentemente do espermatozóide, que continua viável mesmo após um longo congelamento, o óvulo congelado raramente mantém a capacidade de produzir um embrião. Já o congelamento do tecido ovariano é mais promissor por ser o ovário rico em estruturas chamadas folículos, que têm potencial para se tornarem óvulos. O procedimento é feito com a retirada de fragmentos do ovário, por meio da videolaparoscopia (cirurgia endoscópica), que posteriormente são congelados. O evento reúne em Belo Horizonte, cerca de 200 especialistas do Brasil e do exterior.

Infelizmente não consegui ir para MG participar do congresso. Estou em Bauru (SP), onde acabo de entrevistar uma pessoa fantástica: professor P-I Branemark, um sueco de 75 anos que descobriu o fenômeno da osseointegração. Ou seja, graças a ele, temos hoje o implante dentário e todo e qualquer implante no corpo que requer o uso de titânio. Mas isso é uma outra história. Aguardem, a reportagem sai no domingo.

Escrito por Cláudia Collucci às 18h01
Preço diferenciado

Na edição de hoje da Folha, publiquei uma reportagem sobre os remédios para reprodução assistida, que estão sendo vendidos com preços diferenciados dependendo do médico que prescreve a receita. A idéia da reportagem surgiu aqui, no blog, depois de algumas denúncias sobre a prática. Eu, Renata Baptista e Isabelle Moreira Lima (duas amigas da Folha que me ajudaram no levantamento de preços) conseguimos comprovar que a diferenciação ocorre mesmo.

Escolhemos aleatoriamente alguns médicos (de serviços de reprodução públicos e privados) e os principais medicamentos hoje indicados em todas as fases do tratamento. Batata: os preços são diferentes para pelo menos metade do grupo de médico pesquisado. Por decisão editorial, não revelamos os nomes dos médicos até porque, por mais esquisita que seja essa prática, não dá para provar nada contra a conduta médica.

Mas fica o alerta: antes de comprar os medicamentos, pesquisem muito. E pechinchem: várias das distribuidoras cobrem as ofertas dos concorrentes. Leia a reportagem na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1209200508.htm

PS - Tenho recebido algumas mensagem com questões que gostaria de responder diretamente aos autores, mas os mesmos não têm deixado e-mail para resposta. Peço, por favor, que o deixem porque não publicarei comentários apócrifos

Escrito por Cláudia Collucci às 09h34
As mil faces de um US transvaginal

Existe um instrumento mais íntimo na vida da mulher tentante do que um ultra-som transvaginal?

O acompanhamento da ovulação, a confirmação da implantação do embrião no útero, as primeiras batidas do coração do embriãozinho. Lá está ele, testemunha ocular de todas essas emoções.

Pena que ele não seja apenas portador das emoções positivas. As estimulações ovarianas frustradas, seja porque seus ovários não responderam às estimulações, seja porque responderam bem demais e causou um hiperestímulo, lá está ele, impassível, revelando os fatos nus e crus.

Sem falar dos abortos retidos. Aquela expectativa toda para ouvir os batimentos cardíacos do bebê. E nada... Mas o asséptico falo branco está ali, pronto para a próxima. Longe de despertar qualquer sentimento erótico, ele irrita.

Receber a visita deste constante olho óptico dentro de nós, incomoda muito. E incomoda mais quando as notícias não são as esperadas. A vontade, às vezes, é de atirá-lo longe e gritar: CHEGA! CANSEI DE TANTA INVASÃO DE PRIVACIDADE! É quase uma relação passional, de amor e ódio, por mais maluco que isso possa parecer.

Mas os meses vão passando e a vontade de tentar mais uma vez vem a tona. Você entra na salinha, lá está ele, vestido com a camisinha, pronto para invadir novamente as suas entranhas. E então ele lhe parece mais familiar, quase como um (a) amigo (a) com quem você compatilha seus sonhos mais íntimos. E é tanta intimidade que só falta você falar:  "Pô, cara, vê se ajuda de alguma forma. Tô precisando tanto de uma boa notícia!"

 

Escrito por Cláudia Collucci às 12h49
A história de Cris, mãe aos 41 anos

Acabo de receber uma mensagem da Cris, pessoa muito querida que me acompanha desde o início dos trabalhos nessa área de reprodução assistida, há cinco anos. Nunca lhe faltam palavras de incentivo e carinho às tentantes. É figura sempre presente no fórum de discussão do UOL, meu "filho" muito querido que já se emancipou.

Assim como tantas mulheres, Cris tentou muito a maternidade. Foram quase quatro anos que envolveram uma inseminação e três tentativas de FIV (Fertilização In Vitro) sem sucesso. Passou por quatro médicos e de um deles chegou a ouvir a afirmação de que suas trompas estavam bastante comprometidas e engravidaria apenas com uma FIV ou ICSI.

O mesmo médico, ao avaliar o espermograma do marido, disse que ele nunca engravidaria uma mulher, de forma natural, pois a morfologia de seus espermatozóides era "péssima". As FIVs não deram certo. Algo maior esperava por Cris.

Enquanto isso, ela rezava o terço, fazia novenas para Maria Desatadora dos Nós, Nossa Senhora, Santa Rita, Jesus Cristo, tomava florais, fazia simpatias, tomava vacinas...Enfim, Cris fez tudo e mais um pouco para viver a experiência da maternidade. Até que desistiu de ser mãe biológica. Estava triste, esgotada de tanto sofrimento. Mas não se deu por vencida. Ela mesmo nos conta esse momento:

"Arregacei as mangas, e fui à luta. Recusava-me a ser uma mulher amarga, me apegando somente àquilo que não tinha em minha vida! Temos sempre duas opções: neste caso, ou eu viveria o resto de minha vida, com esta corrente pesada amarrada em meus pés, lamentando-me por não ter conseguido uma gravidez, e tendo inveja de mulheres com seus bebês e sua lindas barrigas, me revoltando contra DEUS, ou me olharia no espelho, vendo a pessoa que sou, com minhas qualidades e defeitos, olhando à minha volta e VALORIZARIA TUDO AQUILO QUE DEUS ME DEU DE LINDO: minha família, meu pai, minha mãe, a educação valiosa que deles recebi, minhas sobrinhas, meu marido, meu trabalho, meus amigos, meu apartamento-lar, minhas pernas, meus braços, minha saúde, meu coração, minha vontade de fazer as pessoas mais felizes, meu BRILHO DE SER HUMANO!!! Escolhi a segunda opção...e por incrível que pareça, minha vida ficou muito mais leve, estava mais feliz, minha vida estava colorida de novo, mesmo sem filhos!

E foi nesse estado de paz consigo mesma que Cris, em janeiro deste ano, descobriu que estava grávida. Aos 41 anos, sem nenhum tratamento. Seu bebê Alexandre nasceu no dia 24 de agosto, com 49 cm e 3,330 kg. Ela estava com 35 semanas e 6 dias de gestação. Ambos estão lindos e felizes. Para as tentantes, Cris deixa a seguinte mensagem:

"SÓ DEUS,NOSSO PAI MAIOR, É QUEM SABE A HORA CERTA PARA QUE ACONTEÇA TUDO EM NOSSA VIDA. SINTO MUITO POR AQUELAS QUE PERDERAM A FÉ, MAS A VERDADE É APENAS UMA - ELE SE REALIZA COMO SER SUPREMO, ATRAVÉS DE NOSSAS PRÓPRIAS EXPERIÊNCIAS E É SOMENTE PELA CRENÇA NESTE SER MAIOR QUE CONSEGUIREMOS CHEGAR AOS NOSSOS SONHOS !!

O que eu fiz foi desistir de minha vontade e colocá-la LITERALMENTE NAS MÃOS DE DEUS _QUE FOSSE FEITA A VONTADE DELE, E QUE EU SERIA FELIZ_ FOSSE QUAL FOSSE A SUA VONTADE!

E TEM MAIS: DESCONFIO QUE O BEBÊ VEM, QUANDO ELE SENTE QUE ESTAMOS FELIZES!

BOA SORTE, DE CORAÇÃO, TORÇO MUITO PARA QUE ESTA DÁDIVA ACONTEÇA NA VIDA DE TODAS VOCÊS!

Escrito por Cláudia Collucci às 17h43
NASCE 1º BEBÊ QUE FICOU CONGELADO POR SETE ANOS E FOI LEGALMENTE ADOTADO

 Um artigo no jornal italiano "Corriere della Sera" informa o nascimento do primeiro bebê que, enquanto embrião, ficou congelado durante sete anos e depois foi adotado por um casal infértil. Seria o primeiro bebê no mundo a nascer sob essas condições, segundo o jornal.

O menino Gerard (foto) nasceu na clínica Quiron, em Barcelona (Espanha). Pesa 3,340 quilos e mede 50 cm. Os italianos o chama de "il primo fiocco di neve", ou, o primeiro bebê congelado.

Nesse caso, a novidade é que a adoção do embrião foi legalmente reconhecida e consentida, bem diferente da situação que hoje ocorre hoje no Brasil em que embriões são adotados, mas ninguém fica sabendo. O segredo é mantido a sete chaves pelo casal e pela clínica.

A história do bebê é bem interessante. Eva Tarrida, a mãe de Gerard, tem 41 anos. Seu marido foi vítima de câncer, fez quimioterapia e ficou estéril. Ao procurarem o Instituto Marqués, em Barcelona, decidiram adotar um dos 1.700 embriões congelados na clínica desde 1990.

Gerard passou os últimos sete anos dentro de um botijão de nitrogênio a -196 graus centígrados. Em 1997, seus pais fizeram um tratamento na clínica e tiveram gêmeos. Restaram três embriões, abandonados. Em dezembro do ano passado, dois sobreviveram ao congelamento e foram transferidos para o útero de Eva. Um deles, Gerard, se fixou e nasceu no último dia 3. Em algum lugar da Espanha, estão os seus irmãos gêmeos, hoje com sete anos.

Na Espanha, desde 2003, há uma lei que permite a adoção de embriões. Já existe inclusive um programa internacional de adoção. O casal que resolver adotar um embrião paga 2.550 euros pelo tratamento, já que a mulher precisa ter o organismo preparado para receber o embrião no seu útero. O sucesso da gravidez é de 33%, segundo o artigo.

A notícia do nascimento de Gerard está sendo comemorada especialmente pela Igreja Católica, contrária à destruição dos embriões para a obtenção de células-tronco. Não vou entrar nesse mérito, mas considero a iniciativa espanhola bem interessante. Leia mais sobre o assunto no endereço eletrônico

http://www.corriere.it/Primo_Piano/Cronache/2005/09_Settembre/03/embrione.shtml

É necessário, o quanto antes, que o Brasil aprove uma lei que não só regulamente a adoção dos embriões congelados como os demais procedimentos de reprodução assistida. Assim como a Lei de Biossegurança já permite que embriões congelados sejam utilizados em pesquisas com célula-tronco acho mais do que justo que os casais que desejam adotar um embrião encontrem amparo legal para isso.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h53
Médicos e laboratórios: relações espúrias

Termino mais uma semana com náuseas. Infelizmente, não ainda pela gravidez, mas sim em razão das denúncias que venho apurando sobre as relações espúrias (como bem definiu o bioeticista Marco Segre) entre os médicos e a indústria farmacêutica. Publiquei uma reportagem na segunda-feira http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2908200501.htm e a outra, neste domingo http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0409200501.htm. Por ora, vou me ater nessa área da fertilidade, que todas (os) nós estamos cansadas (os)de saber o quanto de dinheiro movimenta.

Pois bem: não é de hoje que sei da existência de muitos médicos da área da reprodução assistida que mantêm relações nada éticas com a indústria farmacêutica. Isso fica claro nos congressos científicos que já participei, nos eventos que os laboratórios patrocinam, a cada compra que se faz de remédios nas distribuidoras de medicamentos e na absurda banalização da fertilização in vitro no Brasil.

A alegação é que, sem ajuda da indústria, não há atualização médica e qualquer realização de eventos seria inviável. Acho bem razoáveis esses argumentos, mas, creio é possível haver parceria calcada na ética. A impressão que tenho, baseada em milhares de relatos das leitoras nos últimos cinco anos, é que está ficando cada vez mais raro uma investigação bem-feita das causas das dificuldades de gravidez e da adoção de tratamentos menos complexos, como a inseminação artificial.

Muitos médicos têm a cara de pau de indicar uma FIV já na primeira consulta. E por que há tanto interesse nesse método? Porque, suspeita-se, tem muita gente ganhando percentuais sobre cada gonadotrofina vendida, por exemplo. Há médicos, inclusive, que estariam fechando acordos financeiros a longo prazo com determinados laboratórios em troca da prescrição, também a longo prazo, dos seus medicamentos.

E sabe quem está pagando isso? Todos os que desembolsam absurdas quantias por remédios que estão há anos no mercado e que nunca apresentaram redução de preço.

Queria muito escrever com todas letras os nomes dos laboratórios e dos médicos sobre os quais recaem muitas suspeitas, mas, sem provas, não dá. Um dia, quem sabe. Estou trabalhando duro para que isso ocorra porque, repito, estou enojada com tanta falta de ética e de caráter.

Estou cansada de assistir, impotente, tantos casais sofrendo por não ter acesso aos tratamentos e, ao mesmo tempo, tanto médico ficando milionário às custas dessas relações deploráveis. Hipócrates deve estar se revirando na tumba. É claro que há médicos éticos, que ainda mantêm os seus ideais de sempre pensar, em primeiro lugar, no paciente. Mas, infelizmente, não são muitos. 

Sei que essa é uma área de muita vulnerabilidade. Um casal com dificuldade de gravidez paga qualquer preço para ver seu sonho realizado. Não foram um nem dois nem três e-mails que recebi de pesssoas que venderam carros, terrenos, casas para bancar um tratamento de reprodução assistida. E, muitas delas, ainda não viram o sonho realizado. É preciso ter os pés bem plantados no chão. As chances de gravidez por meio da Fertilização In Vitro ainda são pequenas, não passam de 30% a cada tentativa.

Nós, mortais, pouco podemos fazer senão nos informar muito. Um bom começo é, no mínimo, desconfiar de um médico que indique uma FIV ou uma ICSI sem que haja um motivo muito claro para isso: trompas obstruídas e baixa qualidade dos espermatozóides, por exemplo.

No site da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana há um artigo em que fica muito claro o protocolo que deve ser seguido nos casos de dificuldade de gravidez. Apesar de meio técnico, vale a pena vocês lerem: http://www.sbrh.med.br/artigostra_tecnicas.asp

Escrito por Cláudia Collucci às 19h50

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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