Olá, teclo hoje de Nuremberg, ainda na Alemanha. Já fizemos a chamada rota romântica alemã, com muitos castelos e florestas douradas pelo outono. Agora, nosso rumo é Praga, onde devemos chegar dentro de dois dias. Abaixo, deixo para vocês um texto escrito já há algum tempo, baseado em um caso real. Tenho certeza de que muitas de vocês, de uma forma ou de outra, já viveram experiência semelhante.

 

A gravidez da melhor amiga

Tudo parecia sob controle. Ela pensava em ter um bebê, já havia deixado os métodos anticoncepcionais de lado há dois anos, mas a demora da gravidez não a incomodava muito. Não aparentemente. Às voltas com suas obrigações do dia-a-dia, só se dava conta de que a gravidez estava tardando quando menstruava. Ainda assim, era uma tristeza rápida. Novamente se absorvia em seus projetos profissionais e assim ia tocando a vida. Pensava que talvez ainda não fosse o momento certo, que ainda tinha questões emocionais importantes para resolver à respeito da maternidade.

Certo dia, ao cair da tarde, toca o telefone. Era sua melhor amiga que, trêmula de emoção, contava-lhe a novidade: estava grávida. Como não podia deixar de ser, ela se emocionou muito com a notícia, e, juntas, choraram por alguns minutos. Chegava ao fim a luta da amiga, que havia passado por várias investigações, incluindo uma laparoscopia, e que faria uma inseminação no mês seguinte. As duas tinham dividido juntas a angústia da demora da gravidez. Conversavam sobre os sonhos relacionados à maternidade, sobre as reações quando se aproximava o Dia das Mães, sobre o medo de a gravidez não acontecer. Ela bem sabia o quanto a amiga tinha sido forte e determinada nessa batalha e o quanto ela merecia essa imensa felicidade.

Mas foi só desligar o telefone para ser tomada uma avalanche de emoções contraditórias. Queria só estar feliz pela amiga, porém não conseguia. Sentia-se abandonada, traída. A sensação era de que o mundo havia ficado preto-e-branco. O chão havia sido tirado dos seus pés. Ao mesmo tempo, sentia-se egoísta por não estar plenamente feliz. Olhava-se no espelho e via ali refletida a imagem do pior ser que um dia já habitou essa terra.

Tentava, a todo custo, entender o que estava acontecendo. Afinal, já havia recebido tantas notícias de gravidez nos últimos tempos e nunca tinha se abalado dessa maneira com nenhuma delas.

Aos prantos, ligou para o terapeuta e marcou uma sessão extra. Conversaram por quase duas horas. Finalmente, ela deu vazão a fatos que o seu inconsciente havia sublimado a respeito da gravidez. Falou dos seus medos e das tristezas mais intrínsecas. Lavou, torceu e secou a alma.

Saiu do consultório mais serena, certa de que, assim como a amiga, logo, logo ela também teria a sua barriga. E, juntas, embalando os seus bebês, ainda iriam dar boas risadas dessa história toda

Escrito por Cláudia Collucci às 12h00

Queridas (os), teclo hoje de Heidelberg (Alemanha). Depois de alguns dias nublados, o sol resolveu nos presentear com lindo entardecer. O espetáculo ainda é maior porque tudo está dourado por causa do outono. Estou encantada com a variedade de cores nas matas. Minha tendinite melhorou e agora espero, enfim, relaxar de fato. Preparei abaixo um texto para vocês sobre temperatura basal. Espero que gostem. Beijos e até a próxima semana.

Verdades e mentiras da temperatura basal

Uma das questões que mais suscitam dúvidas entre as mulheres que estão tentando engravidar naturalmente diz respeito à temperatura basal, usada para detectar os dias mais férteis do ciclo menstrual. Antes de ficar neurótica com a medição e se frustrar cada vez que a temperatura não apresentar alteração, é bom atentar para algumas questões. A primeira delas é entender como funciona essa tal de temperatura basal.

Ela é a temperatura do corpo de uma pessoa, que acaba se acordar, depois de ter dormido durante seis horas ou mais e antes de fazer qualquer movimento ou de sofrer qualquer alteração emocional. Os melhores termômetros para a medição da temperatura são os digitais que, além de serem mais cômodos, guardam na memória a temperatura. Mas atenção: só tire a temperatura se realmente dormiu seis horas ou mais.

É importante que a temperatura seja medida sempre da mesma forma (pela boca, vagina ou reto). E, preferencialmente, na mesma hora. Outra coisa é muito importante: a temperatura deve ser medida antes de qualquer atividade física. Nada de levantar-se para ir ao banheiro, tomar água ou de sacudir o termômetro para baixar o mercúrio. Também é proibido fumar ou falar.

Mas o que pouca gente sabe é que a elevação da temperatura basal ocorre quando já aconteceu a ovulação, nunca antes da ovulação. Portanto, quando o termômetro registrar o aumento da temperatura, já se passaram várias horas desde a ovulação. Teoricamente a gravidez ainda é possível, mas, o casal deve ter mantido relações sexuais também antes. A recomendação para quem deseja engravidar é transar dia sim, dia não, ou pelo menos três vezes por semana (não mais de uma vez ao dia, segundo os médicos).

Quando não há um aumento de temperatura, significa que não houve ovulação. Se a temperatura se mantiver alta por mais de dezoito dias, é quase certo de que houve gravidez. Mas lembre-se: tudo isso é bem empírico. Só o exame de sangue (Beta HCG) poderá confirmar uma gravidez. Feitos os comentários, vai aí o meu conselho: evitem ficar obscecadas com isso. Por mais que a ansiedade seja grande, n~ao reserve os melhores momentos da sua vida sexual apenas para os dias férteis. Namorem porque namorar é bom por si só. Às vezes, nessa ânsia pela gravidez, podemos nos esquecer disso. E prazer é fundamental. Sempre. 

Escrito por Cláudia Collucci às 12h09

Conforme o prometido, segue um dos textos que já havia deixado pronto para vocês. Andei abusando na escrita e no carregamento de malas e minha mão voltou a doer muito. Por isso, não vai dar para escrever mais. Estou em Paris, ainda envolvida com trabalho. A partir de sexta, entro em férias de fato. Beijocas

Aahh... esses testículos

Uma das principais causas de infertilidade masculina é a varicocele, varizes nos testículos que impedem a passagem dos espermatozóides, que afetam 15% da população masculina e estão presente em 40% dos homens com dificuldade de engravidar suas parceiras.

O problema é que, por assintomática na maioria das vezes e pela falta de hábito dos homens de consultar um urologista, a varicocele passa despercebida e, geralmente, só é diagnosticada quando há dificuldade de gravidez e o casal inicia a investigação da infertilidade.

Muitos médicos defendem que a cirurgia de correção (a melhor é a microcirurgia, feita com auxílio do microscópio) deve ser realizada o quanto antes, se possível antes de homem pensar em ser pai, porque quanto mais o tempo passa, mais fica prejudicada a qualidade dos espermatozóides.

Aí começa a novela: fazer a cirurgia de reversão ou uma ICSI, uma variante da Fertilização In Vitro. A maioria dos médicos ligados à reprodução assistida indica de cara a ICSI. Já urologistas mais conservadores defendem que a cirurgia deva ser feita  porque há grandes chances de o homem engravidar a mulher naturalmente em até um ano após a intervenção. Uma revisão de 15 trabalhos científicos mostra que em 66% dos casos, a cirurgia pode melhorar a qualidade seminal. O problema é que nem sempre a melhora do sêmen se traduz em aumento real de chance de gravidez. O por quê? Ninguém ainda consegue explicar isso com muita exatidão.

Os defensores da cirurgia também argumentam que, mesmo quando não há gravidez natural, a melhoria do sêmen causada pela correção pode levar à mudança do tratamento. Se antes, em razão da má qualidade seminal, a gravidez só era possível por meio da ICSI, agora ela por ser conseguida através de uma inseminação, muito mais barata.

A ICSI é uma técnica de reprodução assistida indicada para casos de infertilidade masculina grave. Os médicos buscam os melhores espermatozóides no saco escrotal e com apenas um é possível fertilizar o óvulo no laboratório e depois transferir o embrião ao útero da mulher.

Uma coisa que me espanta é que há muitos médicos indicando a ICSI baseados apenas em resultado do espermograma, sem ao menos examinar os testículos dos homens.

Dois casos me chamaram a atenção: um homem com câncer nos testículos e outro com sérios problemas genéticos que passaram por consultas em clínicas de reprodução assistida, cujos médicos responsáveis não perceberam os seus reais problemas de fertilidade. Indicaram a ICSI, que foi feita sem sucesso. Nesses dois casos, os casais procuraram um outro especialista que diagnosticou o problema e desaconselhou prosseguir com as tentativas de gravidez.

O mais triste é que casos semelhantes a esses são muito mais freqüentes do que a gente imagina. Portanto, um conselho: desconfiem do médico que não esgotar todas as possibilidades de investigação do problema. No caso do homem, além do exame físico, é importante que sejam feitos pelo menos dois espermogramas.

No caso da mulher, todos os fatores envolvidos na fertilidade hormonal, cervical, tubário, peritonial e uterino- têm de ser investigados.

Em medicina, não existe o melhor. Existem sim profissionais mais bem preparados, que estão sempre atualizados, que têm uma clínica bem equipada, por exemplo. Mas, sobretudo, é preciso que sejam éticos e humanos. E que não tenham nos olhos apenas dois cifrões.
Escrito por Cláudia Collucci às 12h42

Espermograma não é teste de fertilidade

Não é de hoje que sabemos que as causas de infertilidade estão igualmente distribuídas entre homens e mulheres. Essas causas são bastante variadas, mas todas levam a uma mesma condição: alteração tanto na quantidade quanto na qualidade dos espermatozóides. Vasectomia, varicocele, problemas congênitos, imunológicos, sequelas de doenças sexualmente transmissíveis, câncer e seus tratamentos sequelas de cirurgias como hérnias, cirurgias da próstata, colo da bexiga, reto, além de hábitos como o tabagismo, álcool e drogas, estão relacionados com as causas da infertilidade no homem.

Porém, muitos médicos ainda perdem um tempo precioso ‘virando a mulher de ponta cabeça‘ em vez de pedir, de cara, um espermograma ao homem, um exame muito mais simples e barato do que toda a parafernália a que a mulher deve se submeter para a investigação dos possíveis fatores que estão dificultando a gravidez.

É importante saber, porém, que apenas um espermograma não basta. Pelo menos duas análises de sêmen devem ser requisitadas antes de o médico emitir uma conclusão sobre o caso. O intervalo recomendado entre as análises seminais é de pelo menos uma semana. O sêmen deve ser coletado após um período de abstinência sexual de dois a cinco dias. Geralmente, há diferenças significativas entre um espermograma e outro. Isso dá um nó na cabeça do casal, que passa a desconfiar de tudo e de todos.

Nesse momento, tentem manter a cabeça fria. Os resultados podem ser influenciados por diversas variáveis, como tempo de abstinência sexual antes da coleta, o método de coleta, o tempo e a temperatura durante de transporte (se a coleta for feita em casa) e, principalmente, o tipo de tecnologia usada pelo laboratório. Geralmente, segundo os médicos, os espermogramas realizados em clínicas de reprodução humana são mais confiáveis do que os realizados nos grandes laboratórios.

O que a gente percebe é que muitos homens ficam irritados quando há indicação para um segundo exame, ainda mais quando o primeiro teve um bom resultado. É importante ressaltar que o espermograma não é um teste de fertilidade, pois muitas vezes não se observam diferenças significativas nos resultados dos homens que, pelos parâmetros do exame, permanecem inférteis, daqueles que conseguem engravidar suas mulheres.

O fundamental é que, diante de uma alteração no primeiro espermograma, o homem procure um urologista com especialização em infertilidade masculina, chamado de andrologista, porque, assim como o ginecologista geral, o urologista geral também não tem noção sobre o assunto para uma avaliação mais pormenorizada das condições gerais do sistema reprodutivo masculino.

Outra coisa: por mais bem intencionado que seja um ginecologista ele não está habilitado para medicar um homem com baixa produção de espermatozóides, fato que, frequentemente, é mencionado pelas leitoras.

Não existe, comprovadamente, nenhum medicamento que melhore a qualidade do esperma. Também o tratamento das alterações seminais quase nunca é feito por meio de medicações hormonais. Antes de introduzir os hormônios, o homem deve ser investigado, não só com o espermograma, mas também com exame físico, dosagens de hormônios no sangue.

Diferentemente das mulheres que têm uma boa resposta com os indutores de ovulação, a maioria dos homens não responde a esse tipo de tratamento usado para estimular a produção de espermatozóides. Houve um consenso brasileiro de urologistas que estabeleceu que o uso indiscriminado dessa medicação não traria qualquer benefício ao homem. Em um primeiro momento, alguns homens respondem bem ao tratamento, apresentando melhora no espermograma, porém, sabe-se que não necessariamente ele volte a responde nos meses seguintesr. Além disso, embora possa haver melhora da quantidade de espermatozóides, mas não há evidências de que isso não interfira na taxa de gravidez

Estilo de vida

Há vários estudos demonstrando que homens fumantes têm dez vezes mais chances de sofrerem alteração no seu sêmen do que homens que não fumam. O interessante é que já se observou melhoria no resultado dos espermogramas após seis meses da suspensão do uso do fumo, do álcool e das drogas. Há também inúmeros medicamentos que podem interferir no processo de espermatogênese, como os derivados das sulfas e os esteróides anabólicos, aqueles que muitos homens usam nas academias para ficar com o aspecto ‘bombado‘. Outro fator que deve ser levado em conta na investigação da infertilidade masculina é o tipo de trabalho desempenhado. A exposição ao calor, à irradiação ionizante, aos metais pesados e aos pesticidas podem prejudicar em muito a gravidez. Na maioria dos casos, o simples afastamento desse ambiente de trabalho pode normalizar a produção de espermatozóides
Escrito por Cláudia Collucci às 08h49

Licença e férias

Queridas (os), como eu já havia comentado, uma tendinite na mão e no antebraço direito me derrubou Estou usando uma tala chatíssima e antiinflamatórios. O mais terrível é tentar digitar com a mão esquerda. É uma catação de milho só... A boa notícia é que a partir de segunda, estou de férias. E, por uma conjunção de bons fatores, embarco amanhã para a Europa, mais precisamente Paris. Ainda resolvo alguns compromissos profissionais, mas, a partir da próxima quinta, o marido chega por lá e vamos curtir as nossas tão sonhadas e merecidas férias.

Ao longo das últimas semanas, andei pesquisando temas interessantes para esse período e, semanalmente, espero mantê-los atualizados com novos posts. Só não garanto que vou conseguir responder aos comentários, especialmente em razão dessa limitação física temporária.

Em relação às dezenas de comentários e questões levantadas no post anterior, sobre a Síndrome dos Ovários Policísticos, pedi à querida dra. Cláudia Gazzo que elaborasse um artigo em que esclarecesse as questões mais recorrentes levantadas pelas internautas. Em razão do grande número de dúvidas (mais de 60), é impossível para mim neste momento respondê-las. Além do mais, há muitas questões técnicas que só mesmo um médico especialista no assunto poderá esclarecê-la. Portanto, tão logo a Cláudia escreva, o artigo será publicado, combinado? Vou dando notícias para vocês. Beijos. 

Escrito por Cláudia Collucci às 08h38

Aahh... esses ovários

O problema chega a afetar 10% das mulheres na idade fértil, mas parece que só ganha importância no momento em que passa a protagonizar a dificuldade de gravidez. É a SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos), que responde por quase 40% dos casos de infertilidade conjugal.

Descrita pela primeira vez em 1935 por Stein e Leventhal na Rush University em Chicago (EUA), a doença é um enigma para os médicos. Setenta anos após a sua "descoberta", ainda falta consenso na definição da síndrome e de como tratá-la.

Alguns médicos recomendam que as portadoras da SOP, quando não desejam engravidar, usem pílulas anticoncepcionais para corrigir a irregularidade menstrual e, dessa forma, "proteger" os ovários. Mas, ainda hoje, muitos profissionais nada fazem a respeito da síndrome.

A estimativa é que 29% das portadoras apresentem irregularidade menstrual e 51%, ausência de menstruação. O hirsutismo (excesso de pêlos) está presente em 69%. Nem vou entrar aqui nos problemas causados à pele (excesso de oleosidade) e ao cabelo (queda), que, sozinhos, já seriam suficientes para segurar um outro texto.

Diante da dificuldade de gravidez, a mulher com SOP enfrenta outro problema: encontrar um tratamento eficaz. Ocorre que parte delas costuma não responder bem ao citrato de clomifeno, o indutor de ovulação mais "light".

Uma opção tem sido o letrozole (Femara no Brasil), que, associado ao FSH, pode reduzir um pouco o custo da medicação e teoricamente, evitar o risco de hiperestímulo. Porém, o número de estudos com a droga ainda é pequeno e inconclusivo.

Quando induzidas com a gonadrotrofina, algumas mulheres costumam responder bem demais, recrutando muitos folículos no ovário. Com isso, há risco de hiperestimulo ovariano. Para evitá-lo, os médicos recomendam congelar os embriões e só transferi-los em ciclos seguintes.

Muitas mulheres só vão descobrindo essas facetas da SOP quando já estão no campo de batalha das tentativas. E ela surge como ardiloso inimigo que vai pregando peças aqui e acolá. Há casos, por exemplo, de mulheres que procuram o médico pensando em uma simples estimulação ovariana e, quando vêem, já estão tendo que decidir se fazem ou não uma FIV (Fertilização In Vitro), com risco de terem que congelar os embriões. Maluco isso, não? 

Além da dificuldade de gravidez, 44% das gestações de mulheres com SOP podem acabar em aborto, segundo trabalhos científicos recentes. Esses mesmos estudos mostram uma redução nessa taxa de aborto para cerca de 5%, quando a mulher está utilizando medicação para controle da resistência a insulina.

Por isso, é bom estar atentas e, na dúvida, esclarecer todo o passo-a-passo do tratamento com o seu médico.

Escrito por Cláudia Collucci às 18h22

O mundo é uma barriga *

De repente, o mundo passou a ser uma barriga. A qualquer momento, ao cruzar uma mulher na rua, seu olhar se fixava na barriga da transeunte. E eram tantas as barrigas_redondas, pontudas, altas, baixas_, tantas que a sensação que ela tinha era que só a sua permanecia reta, lisa. Talvez porque não enxergava mais as barrigas iguais as suas. Pouco lhe interessava admirar as mulheres bonitas, esbeltas, com seus corpos perfeitos. A beleza passou a ser sinônimo de uma imensa barriga e seios volumosos.

E ela olhava as barrigas com o mesmo olhar ávido de criança na vitrine de doces ou de brinquedos. Não era um olhar de inveja, mas um olhar de desejo, de também ter aquela barriga. Outrora já teve preocupações com a estética, com a deformação do corpo durante a gravidez. Mas agora nada disso tinha importância.

Ás vezes, olhava-se no espelho e se imaginava grávida. Chegava a colocar uma almofada sob a roupa para que a imagem espelhada fosse ainda mais real. Outras vezes, deitada, acariciava a barriga como se dentro dela já crescesse um novo ser. Repentinamente, as fantasias eram interrompidas por um pessimismo sem fim.

Achava uma grande besteira aquelas viagens e queria simplesmente apagar da sua memória esses pensamentos. Acordar no dia seguinte e esquecer que desejava tanto aquela gravidez. Em seguida, pensava: desejo por desejo, não seria mais lógico desejar acordar grávida? Mas a tristeza era tamanha que até fantasiar com isso fazia doer a alma. E ela se achava uma maluca com todos esses pensamentos.

Lembrava de uma peça de teatro que assistira sobre a histeria feminina. O roteiro, baseado em fatos reais, contava a história de uma mulher que tinha sido internada em um hospício porque, na visão da família e dos médicos da época, tinha enlouquecido por não poder engravidar. Passava os dias embalando a boneca como se fosse o filho que nunca teve.

Embora nem sonhasse naquela época com uma gravidez, a história daquela mulher provocou-lhe um frio na espinha. Foi assombrada por um temor que nunca sentira e, ao dormir, chegou a sonhar com a cena. Depois esqueceu e nunca mais voltou a se preocupar com aquilo.

Por que agora essa cena voltou a lhe assombrar?, perguntava a si mesmo. Não havia o menor sinal, o menor diagnóstico que embasasse o medo de uma não-gravidez. Conhecia todos os recursos tecnológicos e até teria condições financeiras para utilizá-los. Mas ainda sonhava com a gravidez natural, aquela que viria sem a necessidade de tanta interferência externa. Sim, ela se permitia a sonhar com isso, embora as amigas achassem aquilo tudo um grande absurdo.

Mas, tal como as fases da lua, aqueles sentimentos negativos iam minguando e o otimismo voltava a habitar o seu ser, crescendo, crescendo. E, novamente, lá estava ela fazendo as pazes com a sua barriga lisinha. Pelo menos aquele jeans apertado que tanto amava ainda lhe caía perfeitamente bem.

* Apesar de dividir algumas dessas angústias, esse não é um texto autobiográfico. Reuni aqui situações descritas por várias leitoras.

Escrito por Cláudia Collucci às 12h58

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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