Mamãe Odete

Depois das portas fechadas,

Depois das opiniões médicas contrárias,

Depois dos bens vendidos,

Depois do emprego perdido,

Depois do amor desfeito,

Odete, aos 47 anos, é mamãe.

Dandy e Ricardo nasceram no último dia 22, na 32ª semana de gestação. Assim como a mamãe, nasceram guerreiros, lutando contra a prematuridade.

Para quem não a conhece, Odete é antes de tudo uma amiga muito querida. Foi uma das primeiras leitoras a acessar a minha coluna na Folha Online, há cinco anos, e desde então sempre esteve muito presente na minha vida. Nos lançamentos dos meus livros, nas minhas palestras, no meu casamento, estava sempre ali, na primeira fileira, com aquele coração que não cabe no peito de tão grande.

Na sua luta por filhos, ouviu de vários médicos o conselho de desistir. Escutou quase tudo: que estava velha demais, que estava gorda demais, que tinha miomas demais, que tinha dinheiro de menos.

Mas essa fera não desistia. Desempregada, chegou a rifar os eletrodomésticos para bancar os tratamentos. Foram tantas as portas que bateu e tantos "nãos" que ouviu até que encontrou uma porta aberta para a realização de uma FIV (Fertilização In Vitro). Entrou de cabeça nesse último fio de esperança.

Beta HCG positivo. Ultra-som mostrando dois embriõezinhos pulsando. Sangramentos. Sustos e mais sustos. Passou a gravidez praticamente de repouso, foi aconselhada a desistir de um dos bebês em razão do não-crescimento fetal a contento, mas, de novo, qual uma leoa na defesa das crias, Odete encheu-se de certeza de que sua menininha tão desejada sobreviveria.

E lá está Dandy, com pouco mais de 700 gramas, na UTI neonatal do HC, dando a todos uma lição de determinação, de fé e de sede de vida. Hoje, ao receber um e-mail de Odete com as primeiras fotos dos bebês, não me contive e fui às lágrimas.

Acredito sim que tudo na vida tem a sua hora certa de acontecer. Mas nada cai do céu. E a história da guerreira Odete é uma prova incontestável disso.

PS - Infelizmente ontem, dia 14, Dandy não resistiu a uma infecção. Foram 20 dias de vida. Odete, querida guerreira, lembre-se que lá "no céu de estrelas", como bem citou a Fabi, Dandy estará olhando por você e pelo irmãozinho Ricardo.  

Escrito por Cláudia Collucci às 16h01

Novas tecnologias às tentantes

e uma dica para as grávidas

 

Para os tentantes

Um novo teste de fertilidade masculina capaz de avaliar a estrutura do DNA do espermatozóide começa a ser usado no Brasil. O exame, chamado de "Teste da Estrutura da Cromatina Espermática", identifica a quantidade de espermatozóides com DNA defeituoso numa amostra de sangue.

Hoje, os exames disponíveis conseguem analisar apenas o formato dos espermatozóides, a mobilidade e a quantidade em amostras coletadas. Pensava-se que, para fecundar o óvulo, o sêmen deveria conter 14% de espermatozóides com formato normal, 50% com boa mobilidade e 20 milhões de unidades mililítricos.

Hoje, sabe-se que não adianta o espermatozóide se enquadrar no padrão do espermograma se 30% deles ou mais tiverem DNA defeituoso. Nos Estados Unidos, esse teste já é rotina há dois anos. É indicado, principalmente, aos casos de infertilidade sem causa aparente e aos maridos acima de 50 anos ou expostos a agentes tóxicos. Nas clínicas brasileiras, o exame vai custar cerca de R$ 300 e demora cinco horas para ficar pronto.

Para as tentantes

Quem sofre da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), uma das principais causas de infertilidade, e que provoca alterações do ciclo menstrual, aumento dos hormônios masculinos, excesso de pêlos (hirsutismo), acne, obesidade e resistência à insulina, tem uma alternativa que já começa a ser testada no Brasil: a maturação dos óvulos no laboratório.

Após a estimulação ovariana, os óvulos são retirados antes que estejam maduros. Feito isso, simula-se o ambiente do ovário com substâncias que apressam a maturação. Depois segue-se o processo tradicional de fertilização in vitro.

Para as grávidas:

Praticar hidroginástica durante a gravidez aumenta em até 21,5% o volume de líquido amniótico (fluído que envolve o embrião, preenchendo a bolsa amniótica) na gestante. O líquido _fundamental para o desenvolvimento do bebê_ é o principal mecanismo de defesa do feto contra possíveis traumas na barriga.

A constatação desse benefício da hidroginástica surgiu em estudo realizado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) com gestantes entre 19 e 36 anos, no Hospital das Clínicas de Campinas. As gestantes foram submetidas a aulas de hidroginástica três vezes por semana.

O líquido amniótico é importante para proteger o feto e também para o seu desenvolvimento. É ele que realiza toda a troca de fluidos do feto, como eliminar a urina. Além disso ele contribui para a formação do tubo gastrointestinal do neném.

O estudo reforça a tese de que a hidroginástica não causa nenhum prejuízo nem para a mãe nem para a criança. Entre as mulheres analisadas, nenhuma teve parto prematuro e nenhum bebê nasceu com baixo peso. Além disso, todas as mães conseguiram manter o peso considerado ideal durante a gravidez.

Escrito por Cláudia Collucci às 20h44

Ao bebê que ainda não veio

Meu futuro bebê querido,

Domingo, pensei muito em você. Estava numa festa familiar de aniversário, que aconteceu em um parque de diversões, rodeada de muitas crianças e algumas mamães grávidas dos segundo/terceiro filhotes. Ficou praticamente impossível não sentir a tua falta: na minha barriga, no meu colo ou em algum daqueles brinquedos que tanto alegrava a criançada.

Em cada uma daquelas crianças, ficava imaginando você. Na esperteza e independência da pequena Heloisa, que, no alto dos seus dois anos, dava um baile nos pais, fugindo por debaixo das mesas e querendo se juntar aos irmãos maiores que pulavam de brinquedo a brinquedo.

Na garra e persistência do bebê Clark, que, nascido no sexto mês de gestação e submetido a uma complicada cirurgia cardíaca, está pleno de saúde. Aos nove meses, ensaia os seus primeiros passinhos e balbucia os "mama" e "papa". Na comunicativa e divertida Catherine, que, aos oito anos, é dotada de uma sensibilidade extrema e faz amigos por onde passa.

Enfim, uma a uma, aquelas crianças carregavam um pouco das qualidades que sonho para você. Vê-las tão felizes, sendo apenas crianças, foi como tomar uma injeção de ânimo e de esperança de que a sua chegada está próxima.

Não senti inveja das barrigudas e tão tampouco me entristeci quando uma delas perguntou se eu estava grávida em razão do meu vestido solto, a la Vitória, da novela "Belíssima". Retruquei com um belo sorriso sincero: ainda não, mas certamente estarei até o próximo aniversário.

Escrito por Cláudia Collucci às 13h18

Posicionamento dos médicos mineiros

sobre o comércio de óvulos humanos

A Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (SOGIMIG) manifesta sua preocupação frente ao relato de comércio de óvulos, fato que já preocupava a entidade e que agora chega à opinião pública através de uma reportagem do jornal "Folha de São Paulo". Intitulada "Clínicas médicas trocam óvulos por check-up", a matéria foi publicada no último domingo, 12 de fevereiro de 2006.

Segundo a reportagem, que prima pela minuciosa apuração dos fatos ao expor um cenário preocupante na área médica, "jovens universitárias têm sido recrutadas por clínicas de reprodução para doar óvulos a mulheres acima de 40 anos com dificuldade de gravidez. Em troca, as instituições dizem que oferecem check-ups ginecológicos" e outros, "métodos contraceptivos". Como exemplifica a matéria, a troca também envolve dinheiro.

Trata-se de comércio de óvulos, algo inaceitável em qualquer instância, mas sobretudo se praticado por aqueles que devem ter como princípio, mais do que qualquer outro profissional, o respeito à vida. O que nos preocupa sobremaneira é que fatos isolados levem a opinião pública a crer que esta é uma prática aceita entre os médicos mineiros e possam macular um Estado que se tornou referência nacional na área de reprodução assistida justamente pela competência científica e ética.

Que fique claro à população que não somos, de forma alguma, contra a doação de óvulos, um avanço científico que beneficia um grande número de casais que não podem ter filhos e que necessitam da ciência para a realização do sonho da maternidade. Simplesmente, lutamos para que a ética e a transparência guiem tais procedimentos e garantam a segurança dos pacientes na busca deste sonho.

É também nossa missão esclarecer para a sociedade que a mulher que se submete a um tratamento de fertilização in vitro necessita obrigatoriamente se submeter aos procedimentos de indução da ovulação e retirada cirúrgica de seus óvulos. Faz parte do tratamento. O que ela está fazendo é doar os óvulos excedentes que ela produziu. Esta mulher que doa seus óvulos passa por um risco necessário com um objetivo nobre: tornar-se mãe.

Por outro lado, as mulheres que se submetem à doação em troca de dinheiro realizam um procedimento cirúrgico que nunca teriam indicação e infelizmente correm um risco desnecessário por motivo pecuniário. Existem outros equívocos que necessitam de esclarecimentos antes que sejam percebidos como verdades pela população, como, por exemplo, a necessidade, defendida por alguns profissionais, de se retirar óvulos para diagnosticar a fertilidade da mulher. Isto não existe nem nunca existiu e nos parece uma forma fraudulenta de convencimento.

São muitos os que compartilham de nossa preocupação. Nos últimos dias, a SOGIMIG recebeu diversas manifestações de pacientes, organizações não governamentais, jornalistas, médicos e associados solicitando posicionamento desta associação de classe, além de mais informações sobre o relato do comércio de óvulos.

A inexistência de uma lei específica que condene esta prática não é justificativa para deixarmos de lutar pelos pressupostos éticos que devem reger não apenas o exercício da medicina, mas também as relações humanas. É ético doar óvulos em troca de exames? É ético trocar óvulos por métodos contraceptivos? É ético vender óvulos? No que diz respeito ao Código de Ética Médica, o Artigo 43 do Capítulo 3 e o Artigo 75 do Capítulo VI são claros em condenar tais atitudes.

A SOGIMIG teme que práticas como essas possam comprometer a evolução da medicina nesta área, como tristemente ocorreu recentemente na Itália. Como é de conhecimento geral, a reprodução assistida foi praticamente banida naquele país após prática inadequada de uns poucos médicos – um retrocesso histórico e uma perda para os casais inférteis daquele país.

O Conselho Federal de Medicina é claro em seu posicionamento através da Resolução CFM nº 1.358/92, artigo IV, quando diz que "A doação nunca terá caráter lucrativo ou comercial". A SOGIMIG, por sua vez, com o intuito de nortear seus associados na melhor prática ética da reprodução assistida já protocolou consulta no Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais para levantar questionamentos sobre todos estes pontos. Temos convicção de que medidas cabíveis serão tomadas frente à publicação da referida matéria.

ASSOCIAÇÃO DE GINECOLOGISTAS E OBSTETRAS DE MINAS GERAIS

Escrito por Cláudia Collucci às 19h43

A acidez vaginal pode impedir a gravidez? *

O ambiente vaginal é extremamente favorável ao crescimento de bactérias por causa da umidade da mucosa vaginal e da presença de glicogênio livre. A vagina contém normalmente bactérias intestinais, da pele e outras que, em algumas ocasiões, devido a alterações do meio ambiente vaginal, podem facilitar a sua multiplicação. Esses microorganismos são mantidos em equilíbrio no ecossistema vaginal controlados pela predominância dos bacilos de Doderlein e de outras bactérias produtoras de ácido lático.

Esse equilíbrio depende da virulência da bactéria, da imunidade da hospedeira (mulher) e da adequada produção de ácido lático que permita manter a acidez vaginal num pH (concentração de íons hidrogênio) entre 3,5 e 4,0. Portanto, a presença de bactérias e fungos na vagina é normal mas,  se houver desequilíbrio do seu ecossistema, um ou outro microorganismo pode se multiplicar, originando as vaginites por Tricomonas ou Cândida e da vaginose Bacteriana (Gardnerella vaginalis)

Quando procuramos na literatura especializada de infertilidade notamos a ausência total de capítulos dedicados a relação entre a alteração do pH vaginal e as vaginites e as causas de infertilidade. Ainda assim, quando não há outra razão para a dificuldade de gravidez, muitos médicos fazem essa associação e indicam soluções caseiras, como o banho de assento com bicarbonato ou chá de camomila. Esses recursos podem melhorar o pH, mas não há comprovação de que vão melhorar as chances de gravidez. 

Sabe-se que o pH vaginal é ácido e que os espermatozóides não conseguem sobreviver neste pH. Mas esta explicação é simples demais. Sabemos que os espermatozóides são depositados durante a ejaculação no meio vaginal, protegidos pelo líquido seminal e não isolados. O líquido seminal, inicialmente “coagulado”, é lentamente diluído pela acidez vaginal e seus componentes alcalinos funcionam como um tampão. Ao líquido seminal se associa a ação alcalinizante (básica, oposto de ácido) das secreções vaginais que surgem durante a excitação sexual, bloqueando a acidez vaginal em segundos e mantendo o pH adequado à sobrevida espermática por entre 6 e 16 horas.

Tempo mais que suficiente para que os espermatozóides possam penetrar pelo cérvix através do muco cervical, escapando da ação deletéria dos íons hidrogênio. É difícil entender como uma vulvo-vaginite poderia alterar de tal forma a acidez vaginal a ponto de conseguir contrabalançar todo este mecanismo fisiológico de controle da acidez vaginal.

* baseado em texto publicado pela equipe do Centro de Reprodução Humana de Campinas

Escrito por Cláudia Collucci às 12h04

Abaixo, postei quatro textos meus sobre a doação de óvulos, que saíram na edição de hoje da Folha de S. Paulo. Creio que, a partir deles, dá para ter uma noção de quanto a questão é polêmica, até entre os médicos. Minha idéia com essa matéria foi mostrar que, em um país que inexiste lei sobre a reprodução assistida, as clínicas vão criando suas próprias.

Defendo que essa questão seja regulamentada o quanto antes, sem moralismos. Não sou contra a doação de gametas (óvulos ou espermatozóides). Ela deve existir sim, porque beneficia muitas mulheres, mas dentro de princípios éticos e sérios. Não considero a doação de óvulos tão simples como a doação de sangue, por exemplo. Apesar de anônimas, essas doadoras precisam estar acessíveis caso ocorra algum problema com o bebê.

Exemplo: já houve um caso de um bebê gerado por doação de óvulo que nasceu prematuro e começou a apresentar muita hemorragia. Os médicos não sabiam se o problema era causado pela prematuridade ou por algum fator genético, o que mudaria a conduta. A doadora foi chamada pela clínica, se submeteu a exames que descartaram o problema genético e tudo ficou resolvido. Por isso, repito: não podemos nos furtar desse debate.

Clínicas médicas trocam óvulo por check-up

Bruno Miranda/Folha Imagem
Procedimento cirúrgico para retirada de óvulos que serão doados para mulher que fará tratamento


CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Jovens universitárias têm sido recrutadas por clínicas de reprodução para doar óvulos a mulheres acima de 40 anos com dificuldade de gravidez. Em troca, essas instituições afirmam que oferecem check-ups ginecológicos e métodos contraceptivos.
Porém, três mulheres relataram à Folha que receberam de R$ 800 a R$ 1.500, em dinheiro, pela "doação" dos óvulos. Elas pediram sigilo em relação aos nomes das clínicas -uma de São Paulo e outra de Minas Gerais- em razão de um compromisso firmado com as instituições. Procuradas pela reportagem, as clínicas negam a compra de gametas.
Apesar de inexistir lei que regulamente procedimentos de reprodução assistida no país, o CFM (Conselho Federal de Medicina) veta o comércio de óvulos e espermatozóides. A infração pode levar à perda do registro profissional.
Os EUA são o único país que considera legal o comércio de células reprodutivas. Páginas na internet oferecem, por até US$ 15 mil (R$ 32.400), óvulos de mulheres com as mais diversas características físicas e intelectuais.
Na doação de óvulos, a mulher recebe injeções de hormônio na barriga para estimular o ovário. A retirada é feita com uma agulha pela vagina, sob sedação. Há risco de hemorragia e reação alérgica.
Além de passarem por exames, as doadoras preenchem formulários com as características físicas (cor da pele, dos olhos, peso e altura), tipo sangüíneo e doenças que já teve. Algumas clínicas fazem o perfil psicológico e pedem fotos das mulheres quando bebês.
Na clínica do urologista Roger Abdelmassih, 30 universitárias, com idades entre 23 e 26 anos, estão inscritas como doadoras. Segundo o médico, as jovens doam em média dez óvulos a cada estimulação e, às vezes, repetem o procedimento. "São poucas as que aceitam uma segunda vez."
Segundo ele, as universitárias são abordadas por assistentes sociais que vão às faculdades e as convidam a avaliar a fertilidade. Na clínica, são informadas de que a análise dos óvulos complementa o check-up da saúde reprodutiva. "As que topam fazer a estimulação ovariana são convidadas a doar seus óvulos."
Além de saciar a curiosidade de saber se são férteis, Abdelmassih alega que as jovens doam por altruísmo. "Tem gente ainda assim, boas e solidárias, graças a Deus."
Na clínica Huntington, a mulher que precisa do óvulo paga o tratamento da doadora, em geral uma jovem que precisa da fertilização in vitro pois o marido é infértil. "Não existe doação altruísta", diz o médico Eduardo Motta, professor na Universidade Federal de São Paulo.
A doação compartilhada já teve parecer favorável no CRM (Conselho Regional de Medicina) do Distrito Federal, mas não é prevista na resolução do CFM que regula o tema no âmbito federal.
Roger Abdelmassih afirma que a idéia de procurar jovens doadoras ocorreu em razão do desconforto que sentia pedindo óvulos excedentes às clientes.
O ginecologista Selmo Geber, da clínica Origem, de Belo Horizonte (MG), diz que já aceitou "duas ou três" doações de mulheres já mães em troca de DIU e laqueadura. "Elas é que vieram até a clínica à procura de métodos contraceptivos, mas, como não podiam pagá-los, propuseram doar os óvulos."
Ele diz que, na sua clínica, a forma mais comum de obter óvulo é por "pareamento": a mulher que precisa do óvulo indica uma parente jovem disposta a fazer a doação a uma pessoa não conhecida. Outra paciente, preferencialmente de outra cidade, na mesma condição, faz o mesmo.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 10h47
Doação compartilhada divide os médicos

DA REPORTAGEM LOCAL

Especialistas em reprodução assistida divergem sobre a doação compartilhada de óvulos. Enquanto uns defendem o procedimento, por ser a única chance de maternidade para uma parcela das mulheres, outros o consideram ilícito por gerar benefícios aos médicos que o fazem.
Para a ginecologista Maria do Carmo Borges, presidente da SBRA (Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida), a doação compartilhada é "plausível" se as regras forem claras e previamente estabelecidas.
Em sua clínica, no Rio de Janeiro, as receptoras pagam o tratamento das doadoras. Somando os dois procedimentos, ela diz que o custo fica em torno de 20% superior às fertilizações in vitro tradicionais porque a receptora não terá gastos com medicamentos para a indução.
O médico Edson Borges, da clínica Fertility, tem opinião diferente. Ele considera a doação ilícita porque, em última análise, envolve algum tipo de benefício. "Qualquer troca é questionável."
Borges diz que hoje só trabalha com doações espontâneas. Segundo ele, 78% das suas pacientes assinam um termo autorizando a doação de óvulos caso haja excedentes após o tratamento. "As que não o fazem e preferem congelar os embriões geralmente se arrependem."
Para Eduardo Motta, da Unifesp, as mulheres mudam de opinião sobre a doação após o tratamento. "Elas têm a intenção de doar, mas, depois, preferem fertilizar e congelar os embriões."
Na opinião de Motta, desde que feita dentro de princípios éticos e bem definidos, a ovodoação compartilhada "é do bem" e, muitas vezes, a única possibilidade de a mulher ser mãe. "Até hoje, 100% das mulheres que doaram ou que receberam óvulos no nosso serviço estão satisfeitas."
O médico José Gonçalves Franco Júnior, diretor-executivo da Rede Latino Americana de Reprodução Assistida, diz que a falta de doadoras espontâneas é um problema para as clínicas e, em razão disso, a situação abre margem para o surgimento de alternativas questionáveis do ponto de vista ético.
Sobre a doação compartilhada, ele levanta a seguinte questão: "E se a doadora não produzir óvulos suficientes para ela e para a receptora? Quem será priorizada?", diz.
Franco Júnior reforça que não condena o procedimento, até porque já o fez algumas vezes. Porém, hoje prefere trabalhar apenas com doações espontâneas, que não chegam a 10% do total das aspirações de óvulos realizadas na sua clínica, em Ribeirão Preto (SP).
Na clínica Huntington, no Rio de Janeiro, as doações compartilhadas também são as principais vias de obtenção de óvulos, segundo o médico Marcio Coslovsky. "Há mulheres que possuem bons óvulos, mas não podem pagar. Outras, com uma situação financeira melhor, que precisam de óvulos doados para ser mães. A doação compartilhada atende a essas duas pontas sem afrontar o código de ética."
As mulheres que necessitam de óvulos doados representam hoje 20% do público das clínicas de reprodução assistida do país e formam filas à espera de doadoras.
A Folha conversou com dez das principais clínicas brasileiras e em todas elas há de 20 a 30 mulheres aguardando óvulos para fazer fertilização in vitro.
Em geral, são mulheres acima de 40 anos que, em tese, têm menos de 5% de chances de ter um filho. Com os óvulos doados por mulheres mais jovens, as chances de gravidez sobem para 50%.
(CLÁUDIA COLLUCCI)

Escrito por Cláudia Collucci às 10h45


Comércio de óvulos é ilegal, dizem juízes

DA REPORTAGEM LOCAL

A troca de óvulos por exames ou outros procedimentos médicos e a ovodoação compartilhada-em que uma paciente doa parte de seus óvulos para outra mulher, que custeará todo ou parte do seu tratamento- são ilícitas por se configurar um comércio de células reprodutivas, avaliam juízes ouvidos pela Folha.
"A troca de óvulos é um comércio sem dúvida alguma. A doação de qualquer parte do corpo humano deve ser totalmente gratuita. Não pode estar vinculada a pagamento em espécie ou qualquer meio que gere benefício", afirma o juiz Pedro Maringolo, professor de direito da Universidade Mackenzie, em São Paulo.
Na avaliação da juíza criminal Deborah Ciocci, doutora pela USP em direito penal e reprodução assistida, assim como o leite materno, o sangue, os órgãos e os tecidos, a doação de óvulos e espermatozóides não pode envolver negócio lucrativo.
"A lei civil considera o corpo humano objeto fora do comércio. Assim, é ilícito qualquer contrato oneroso a respeito de óvulos, espermatozóides, pré-embriões e empréstimo de útero. A única possibilidade é a doação por altruísmo", explica a juíza.
O artigo 15, da lei nº 9.434/97, estabelece que comprar ou vender tecidos, órgãos ou partes do corpo humano é crime, com pena mínima de três anos de reclusão. A mesma pena é prevista para quem promove, intermedeia, facilita ou aufere qualquer vantagem com a transação.
Ainda assim, explica Ciocci, não há ilegalidade nas doações compartilhadas porque não existe crime por analogia. "Mas não deixa de ser uma prática ilícita." Em razão desse entendimento, ela considera "inaceitável" a prática desse tipo de doação.
"A prática contraria a dignidade, pois permite desvios em razão da figura de um intermediário, o médico." Ciocci avalia que o médico acaba se beneficiando com a doação compartilhada porque recebe os honorários médicos pelos dois tratamentos.
A juíza lembra que a necessidade de proibição de qualquer tipo de transação com o corpo humano e seus elementos é orientação mundial. "Tanto que o genoma humano é considerado patrimônio da humanidade."
Na opinião de Maringolo, a prática da doação de óvulos está quebrando um dogma jurídico. "Até agora a maternidade era certa. Com a doação, quem é a mãe? Quem doou ou quem recebeu o óvulo? É fundamental que a sociedade discuta essas questões."

Conselho federal
Na opinião de Pablo Pedro Magalhães Chacel, vice-corregedor do CFM (Conselho Federal de Medicina), as trocas de óvulos ou a ovodoação compartilhada sugerem um "lucro conceitual". "Não me parece uma coisa comercial, lucrativa", avalia.
No entanto, ele acredita que o assunto deva ser tratado nos conselhos regionais de cada Estado onde a prática esteja ocorrendo. Em 1992, quando era conselheiro no Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Chacel deu parecer favorável à prática de doação compartilhada em um hospital público de Brasília.
Essa decisão de Chacel é sempre citada como exemplo pelas clínicas especializadas em reprodução como uma espécie de "jurisprudência" para a prática das doações compartilhadas.
Porém, ele afirma que a consulta foi realizada para uma situação específica. "Cada caso é um caso. Essas decisões devem ser tomadas após discussão dentro dos conselhos regionais", diz.
Sobre as denúncias de compra de óvulos, ele é enfático: "É totalmente ilegal". No entanto, ele lembra que para que seja aberta uma investigação no CFM é necessário uma denúncia formal com apresentação de provas.
Para Chacel, o grande problema no país é a falta de uma lei federal regulamentando os procedimentos de reprodução assistida. "Há uma enorme quantidade de projetos tramitando no Congresso, uma verdadeira colcha de retalhos."
(CLÁUDIA COLLUCCI)

Escrito por Cláudia Collucci às 10h44

Mulheres dizem que cederiam os óvulos de novo

DA REPORTAGEM LOCAL

Mulheres que doaram óvulos -em troca de tratamento, exames ou dinheiro- afirmam que não se arrependem e que repetiriam o procedimento.
A gerente Érika Costa, 28, fez na última sexta-feira a sua segunda doação de óvulos em menos de um ano. Ela produziu 12 óvulos e doou metade a uma mulher que pagou pelo seu tratamento. Na primeira vez que doou, nem ela e nem a receptora engravidaram.
Érika e o marido, o empresário Roberto Costa, 40, dizem que a opção foi mais pela possibilidade de ajudar alguém do que pela questão financeira. "Somos muito bem resolvidos. A partir do momento que doei os óvulos, eles não me pertencem mais", diz a gerente.
Na noite anterior à aspiração dos óvulos, o casal fez uma oração para que tanto Érika como a receptora tenham sucesso no tratamento. "Tenho certeza que nós duas vamos engravidar", diz a doadora.
A estudante paulista A.L., 25, diz que "doou" óvulos no ano passado a uma clínica de São Paulo e recebeu R$ 1.200 pelo procedimento. Ela soube dessa possibilidade por meio de uma amiga que fazia tratamento na clínica. "As injeções [de hormônios] são chatas e eu tive muita retenção de líquido, mas acho que doaria de novo."
Em dezembro do ano passado, C.D., 27, conta que doou óvulos a uma clínica de Belo Horizonte por R$ 800. "Precisava do dinheiro e não me arrependo. Se me chamarem, faço novamente", afirma.
L., conta que fez a doação em troca de exames ginecológicos. "Fiz sem receber nadinha em troca. Estava interessada mais nos resultados dos exames. Tenho amigas que também fizeram e não receberam nada em troca a não ser os exames. Estavam interessadas em engravidar e uma delas está grávida e feliz."

Receptoras
Entre as receptoras, impera a lei do silêncio. Segundo a psicóloga Débora Seibel, mais de 90% delas não pretendem contar aos filhos ou à família sobre o óvulo doado. "Oriento-as no sentido de que não devem se sentir culpadas porque não estão cometendo nenhum delito. São questões que precisam ser trabalhadas."
Para ela, não existe a possibilidade de "normatizar" essa opção. "Há muitas fantasias. Primeiro, ela precisa renunciar a carga genética para não viver uma negação constante. Quando deixam as fantasias de lado, ficam mais tranqüilas", afirma.
A psicóloga Flora Chitose Goto pensa diferente. Para ela, a criança precisa conhecer o seu sistema familiar. "Quando se estabelece um segredo desse nível, podem surgir graves conflitos emocionais na vida dessa criança", avalia.
Ela diz que já atendeu um menino fruto de doação de sêmen e conta que, durante as discussões do casal, o marido costuma dizer "não agüento o seu filho". "Gerou uma confusão muito grande na cabeça da criança, que alternava momentos de extremo carinho e de agressividade."
(Cláudia Collucci)

 

Escrito por Cláudia Collucci às 10h43
Teste de proteína prevê parto prematuro
 
 
Bebê prematuro

Uma boa notícia para todas que temem um parto prematuro, situação que pode ocorrer com qualquer gestante e que implica em sérios riscos aos bebês. Foi desenvolvido um teste de proteína que pode revelar aos médicos se uma mulher terá parto prematuro. Os cientistas da Universidade de Yale, que fizeram um estudo sobre o teste, dizem que ele também pode indicar infecções que levam ao nascimento do bebê antes do tempo.

Os pesquisadores chegaram a esta conclusão depois de retirar amostras do líquido amniótico de 131 grávidas para verificar o desenvolvimento dos pulmões dos bebês. Outros exames também foram realizados, como a medição do nível de leucócitos e de glicose no sangue. Se uma infecção estiver presente, o teste de proteína tem resultados diferentes daqueles mostrados com um líquido amniótico saudável.

O cientista que liderou a pesquisa, Catalin Buhimischi, também ressalta que o teste é duas vezes mais rápido que testes realizados em laboratórios. "Conseguimos agora detectar infecções em um estágio inicial. Com esse resultado, podemos dar um tratamento imediato para a mãe e o bebê e prevenir o parto prematuro."

A pesquisa recebeu um prêmio de melhor estudo em partos prematuros de uma agência de saúde independente nos Estados Unidos que procura melhoras para a saúde de bebês. Atualmente, médicos observam sintomas como contrações regulares e dilatação cervical para saber quando o parto deve acontecer.

Mas, no momento em que esses sinais estão aparentes, já pode ser tarde demais para interferir com remédios que podem impedir o trabalho de parto. James Walker, porta-voz do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, disse que o teste pode ser útil, mas é perigoso, então só deveria ser usado em casos graves.

"O problema com esse teste é que ele depende do líquido amniótico. E para obtê-lo, é necessário inserir uma agulha na mulher grávida - o que consiste em um pequeno risco para o bebê."

Escrito por Cláudia Collucci às 11h10

Doação de óvulos

Percebo que é cada vez mais freqüente as dúvidas e os questionamentos sobre a doação de óvulos. Não há no Brasil lei federal que regule essa questão. Os médicos seguem as normas do Conselho Federal de Medicina, segundo as quais a doação deve ser voluntária e espontânea. Doadora e receptora não podem se conhecer e não pode haver relação comercial.

Acontece que alguns passarinhos andam me soprando que a doação de óvulos não está tão altruísta assim. Existem médicos pagando para que mulheres doem seus óvulos às clientes das suas clínicas. O valor pago (entre R$ 1.000 e R$ 2.000) já vem embutido no tratamento.

Entendo que dificuldade em se obter óvulos para doação e algumas clínicas têm feito programas de troca entre as pacientes. Algumas pagam o tratamento da outra em troca dos óvulos excedentes. Outras clínicas têm oferecido check-up grátis para que as potenciais doadoras se animem.

Doar óvulos é bem mais complicado do que doar esperma. Para começar, a mulher tem de se submeter a uma estimulação ovariana com hormônios. Para colher os óvulos, ela será levemente sedada e o médico fará a aspiração retirando, um a um, com uma agulha que é introduzida na vagina.

Dificilmente alguém, simplesmente por questão de bondade ao próximo, doará seus óvulos.

Também existem questões de foro íntimo que precisam ser respeitadas. Algumas mulheres me relataram que não doariam óvulos porque, ao fazê-lo, ficariam imaginando se ele irá ou não resultar em um bebê e de como seria esse bebê, que, geneticamente, é seu filho. Não é tão simples como doar sangue.

Conflitos também existem para quem recebe óvulo doado, embora muitas mulheres tentem esquecer desse fato. Falei recentemente com uma mulher que viveu essa situação nove anos atrás e hoje está mergulhada em um imenso conflito. Separada do marido, ela já foi ameaçada pelo mesmo de contar a verdade para a filha. Apesar de amar profundamente a filha e nunca ter parado para pensar que ela não é sua filha biológica, essa mulher vive uma imensa culpa por ter omitido esse fato da garota. Ao mesmo tempo, fica aterrorizada com a ameaça do marido.

Enfim, como esse, há muitos outros conflitos emocionais que também envolvem a doação de espermatozóides. Enquanto o casal está bem, tudo corre nas mil maravilhas. Basta um conflito sério, como a separação, para as titicas voarem todas pelo ventilador.

Escrito por Cláudia Collucci às 21h05

Mais histórias de abandono

Gente, o que está acontecendo? As pessoas endoidecerem de vez? Mais três histórias de abandono de bebês surgiram hoje. Uma delas, trágica: um recém-nascido foi encontrado morto em um rio em Canoas(RS). Outro teria sido encontrado em Manaus e um terceiro foi abandonado numa rua de Belo Horizonte. Ainda não estou interada sobre as duas primeiras histórias.

O outro bebê abandonado em BH, uma menina, foi encontrada em uma calçada na rua das Gaivotas, no bairro Vila Clóris, em Belo Horizonte (MG), na madrugada desta quarta-feira. Ela foi socorrida pela PM e passa bem. Ela possuía apenas uma identificação umbilical, de número 292, que poderá ser usada na localização da mãe. Não se sabe quanto tempo ela passou na calçada, mas ela não ficou ferida. O bebê estava envolto apenas por uma fralda de pano.

A outra menina, encontrada na lagoa da Pampulha em BH, será registrada nesta quarta-feira como Letícia Maria Cassiano. O registro é provisório e poderá ser alterado por quem assumir a guarda da criança. O nome foi escolhido pela juíza do caso. Letícia significa alegria e Maria é uma homenagem a Nossa Senhora, em agradecimento por ela ter sobrevivido.

Todas essas histórias, que nos deixam estupefados, também nos ensinam muito. A história de Letícia é particularmente cheia de simbolismos. Todos nós vivemos situações que não gostaríamos de estar vivendo na travessia da lagoa que existe dentro de nós. Mas, tal como Letícia, podemos decidir o nosso próprio destino se usarmos os recursos que temos, por mais frágeis que sejam, para fazer ecoar o grito da nossa salvação, diz a psicóloga Kátia Ricardi de Abreu, especialista em Análise Transacional.

"Não importa se tudo parece grande demais, não importa se estamos nauseados diante de espetáculos decepcionantes da vida real. O que importa, é acreditar que a vida é inspiração divina. O tempo dirá o que esta criança vai fazer com a vida dela. Por hora, este frágil bebê nos ensinou a reagir diante do mal, do perigo, do abandono, da desproteção. Tal como o pedaço de madeira seca que a impediu de afundar e morrer, sempre poderá haver uma idéia, um pensamento, uma ação, um grito de esperança dentro de cada um de nós", resume Kátia.

Escrito por Cláudia Collucci às 12h05

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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