Novidades em endometriose
 
Pedi ao dr. Carlos Petta, responsável pelo Ambulatório de Endometriose da Unicamp, um resumo do que aconteceu no Simpósio Internacional de Endometriose, realizado no final da semana passada no Hospital Sírio Libanês em São Paulo, do qual, infelizmente, não pude participar.
 
Um ponto alto do simpósio, mencionado por Petta e pelo dr. Maurício Simões (HC-USP), que também coordenou o evento, foi a presença da dinamarquesa Lone Hummelshoj, secretária da Sociedade Mundial de Endometriose e co-fundadora da Associação Dinamarquesa de Endometriose.
 
Lone, que não é médica, abriu o evento e falou sobre a importância de os médicos e pacientes trabalharem juntos dos grupos de apoio, dos trabalhos multidisciplinares e de que médicos que entendam e escutem as necessidades de suas pacientes. No sábado à tarde, depois do evento, médicos se reuniram com mulheres portadoras da doença para tirar dúvidas.
 
Foram apresentadas também várias pesquisas que estão sendo realizadas em endometriose, desde investigações genéticas, imunológicas, novas técnicas cirurgicas até pesquisas com médicos para avaliar a atitude dos ginecologistas frente a mulheres com sintomas de endometriose. Uma coisa bacana mencionada pelo dr. Maurício é o fato de que cada vez mais é possível diagnosticar a endometriose por meio de exames de imagem, evitando, em muitos casos, a laparoscopia. 
 
Para Carlos Petta, entender a atitude e como pensam os médicos pode ajudar a entender porque se demora tanto para fazer o diagnóstico de endometriose. Durante o evento, também foram selecionadas as opiniões de vários especialistas e de vários médicos que responderam perguntas pela internet.
 
A partir delas, serão elaboradas guias de conduta em endometriose. Essas guias poderão ajudar médicos e pacientes na hora de decidir qual a melhor conduta a ser seguida em casos de mulheres com endometriose, já que o tratamento da doença ainda gera controvérsia entre médicos. Dúvidas sobre a doença podem ser esclarecidas diretamente com o especialista pelo e-mail: cpetta@attglobal.net
Escrito por Cláudia Collucci às 17h38

Mimo de mãe

Há momentos de dor na vida da gente que só mesmo o colo de mãe pode torná-los suportáveis. Nesta semana, ainda me recuperando de uma cirurgia chatíssima (hemorroidectomia), com um pós-operatório doloridíssimo, não sei o que teria sido de mim sem a dona Regina por perto.

De fala mansa, sorriso tímido, olhar delicado e mãos mágicas na cozinha, minha septuagenária mãezinha fez de tudo para minimizar a minha dor: de sopinhas deliciosas a santinho na cabeceira da cama. Senti-me novamente com sete anos de idade, quando extrai as amígdalas, e ela me dava colheradas de sorvete na boca. Puro mimo.

Mas o que seria de nós sem o mimo das nossas mães? Aquele mimo na dose certa e na hora certa, sem exageros. Aquele mimo que toca a alma e que, quando acaba, deixa um buraco em você. Aquele mimo que você torce para um dia poder também dá-lo ao seu filho. Aquele mimo que, de tão vital, deveria fazer parte da Declaração dos Direitos Humanos.  

Ontem, dona Regina teve de voltar para Ribeirão Preto, nossa terra natal, depois de cinco dias ausentes do resto da família. Na despedida, aquela choradeira. Pela minha reação, parecia que ela estava indo para Marte na última nave espacial. Meu marido até brincou: "olha, eu não sei fazer sopinha, mas posso aprender..." Só falta isso mesmo porque, de resto, meu amado está fazendo de tudo para tornar os meus dias menos cinzentos. 

Penso que a dor nos torna mais sensíveis, e, ao mesmo tempo, nos abre os olhos para as pequenas coisas que, no dia a dia, passam batidas ou a gente pensa que são bobas demais para serem valorizadas. Coisas como ter uma família e amigos tão adoráveis, que, nesses dias, têm se revezado em gentilezas e carinho. Coisas como ter vocês por perto, ainda que virtualmente. Obrigada pelas mensagens deixadas. Amei todas elas.

Escrito por Cláudia Collucci às 15h48

De molho

Gente, tive de fazer uma cirurgia e devo ficar fora do ar mais alguns dias por recomendação médica. Logo darei notícias. Beijos. Cláudia

Escrito por Cláudia Collucci às 16h24

É ético escolher o sexo do bebê?

Deu na "Contigo": para terem uma menina, Isabeli Fontana, 22, e o ator Henri Castelli, 28, fizeram uma fertilização in vitro em uma clínica em São Paulo. Ela está na sétima semana de gestação. Apesar de a reportagem não entrar em detalhes sobre o tratamento, sugere que tenha ocorrido a "sexagem", ou seja, fazer uma fertilização "in vitro" para a escolha do sexo do bebê. Minhas opiniões abaixo são referentes ao tema "sexagem" e não necessariamente à atitude do casal. Aliás, a clínica nega que tenha havido a fertilização in vitro e a "sexagem". Segundo ela, Isabeli engravidou naturalmente.

Mas já que o assunto virou pauta de todas as revistas de fofocas, vamos falar um pouco sobre ele. A sexagem não é vedada por nenhuma lei, mas existe uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que proíbe a prática. O assunto é controverso. Particularmente, não acho razoável que casais que podem ter filhos por métodos naturais optem por uma fertilização "in vitro" (FIV) apenas para realizar o desejo de ter uma menina. Em nenhum lugar do mundo, exceto na Califórnia (EUA), essa prática é permitida apenas para satisfazer uma vontade.

Vale recordar que gravidezes por FIV implicam maiores riscos para o bebê e para a mãe. É preciso que existam razões um pouco mais fortes do que o mero capricho para determinar uma FIV com sexagem. O procedimento se justifica, por exemplo, para evitar doenças genéticas graves ligadas ao sexo, como a hemofilia.

Alguns médicos se divergem quando o casal, por algum motivo, tem indicação de FIV como a última alternativa para gerar um filho. Como, normalmente, o médico já seleciona entre os óvulos fertilizados um ou mais embriões que vai implantar, colocar o sexo como mais um dos critérios utilizados não parece despropositado para alguns pais e especialistas. Alguns dizem que adotam a prática em nome do "equilíbrio" ou "balanceamento" familiar.

Alguém também poderia objetar que, se todos os pais pudessem escolher o sexo de seus filhos, talvez se produzissem graves desequilíbrios demográficos. É verdade, mas não há muita chance de isso vir a ocorrer em razão do alto preço da FIV.

Há dois anos, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo começou a apurar possível infração ao código de ética médica sobre essa matéria quando especialistas em reprodução assistida declararam estar praticando a "sexagem" à revista "Veja".

O Ministério Público começou a investigar a atitude dos médicos, mas chegou a um impasse: não soube em que crime enquadrá-la porque não há no país uma lei que regulamente as técnicas de reprodução assistida.

Para os bioeticistas, um dos problemas da sexagem é o descarte dos embriões indesejáveis, o que também é proibido pelo CFM. Nesse sentido, alguns juristas entendem que o descarte de embriões pode ser caracterizado como crime de aborto. Não vou entrar nesse mérito, mas digo e repito: não acho aceitável a banalização dos tratamentos de reprodução assistida, a ponto de as pessoas acharem "bonitinho" ir à clínica de reprodução para fazer uma menina ou um menino, com a mesma naturalidade com que se vai à feira.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 15h42

Fênix

Havia dias em que ela se sentia a própria Fênix. Tal como o mito egípcio da ave que, a cada período de tempo, fazia um ninho de ramos e temperos aromáticos, ateava fogo nele e se deixava consumir pelas chamas e, depois, surgia, renovada do meio da pira, era assim, ressurgindo das cinzas, que ela assistia os dias, os meses e os anos passarem sem que do seu ventre emergisse uma nova vida.

Os egípcios associavam Fênix à imortalidade. Às vezes, ela também pensava sobre isso. Será que a vontade louca de ter o seu bebê se resumia ao desejo intrínseco de deixar descendentes? Poder encontrar alguns dos seus traços impressos no corpo do seu filho?

Ou não. A vontade poderia muito bem passar por alguma idéia estúpida e inconsciente de que ela realmente só seria uma mulher completa vivendo a maternidade de forma plena. Com começo, meio e fim. Afinal, se as amigas, as irmãs e as cunhadas haviam conseguido ter o seu bebê, por que não ela?

Sua melhor amiga havia acabado de ligar dizendo que estava grávida do surfista que havia conhecido há um mês, a colega de trabalho parou com anticoncepcional e, no mês seguinte, pimba: gravidez. E ela pensava: Meu Deus, o que há de errado comigo? Ela ovulava todo mês, tinha dois ovários e útero funcionais, com o marido estava tudo ok, por que a gravidez não acontecia?

Meio a contragosto começou as estimulações. Tentou citrato de clomifeno duas vezes: nenhum efeito. Descobriu que, assim como 15% das mulheres, era resistente a esse medicamento. Partiu então para as gonadotrofinas. Também não teve sucesso. Cansada dos hormônios e das frustrações, resolveu dar um tempo. Tentou resgatar o bem-estar que sentia antes dessa viagem angustiante, mas o turbilhão de emoções tirava toda e qualquer tranqüilidade da sua alma.

Nesses momentos, partia para o imponderável. Sim, não engravidava porque ainda não era seu momento. Porque tinha que respeitar a vontade da Natureza. Se a gravidez não acontecia, apesar de todos os bons prognósticos, tinha que se conformar em não ter tudo o que queria na vida. Tinha que abrir mão do maldito controle que sempre teve e dizer: OK, força divina, que seja feita a sua vontade.

Respirava fundo, mergulhava nos seus afazeres e tudo transcorria bem até topar com a primeira barriga na esquina, ou com o primeiro carrinho de bebê ou com a próxima notícia de gravidez. Aí ia direto para a fogueira e, tal como Fênix, se deixava queimar, queimar. A sorte é quer ainda conseguia ressurgir das cinzas, com as esperanças renovadas. Alisava a barriga e dizia aos ovários e ao útero: OK, meninos, vamos voltar ao trabalho porque temos um bebê a fazer!

* Para minhas queridas amigas Rosângela, Alessandra, Adriana e Eliana, cujos relatos inspiraram esse texto

Escrito por Cláudia Collucci às 13h48

Evans, durante entrevista em Londres

O drama de Natallie Evans

A Corte Européia de Direitos Humanos decidiu que uma mulher britânica que ficou infértil depois de submetida a um tratamento contra câncer não poderá utilizar seus embriões congelados para ter um bebê sem a concordância de seu ex-noivo.

Natallie Evans e seu ex-parceiro, Howard Johnston, usaram suas células sexuais para criar seis embriões durante tratamento de fertilização, mas, após a separação deles, Johnston retirou seu consentimento para que os embriões fossem utilizados.

Evans, 35, diz que os embriões representam sua única chance de ter um filho próprio e que o fato de lhe ser negada a permissão para usá-los constitui uma violação de seus direitos humanos.

Mas a Corte Européia manteve uma decisão anterior da Alta Corte, segundo a qual o consentimento contínuo tanto do homem quanto da mulher é necessário durante todo o decorrer dos procedimentos de fertilidade.

Numa decisão histórica, que terá implicações para muitos outros casais, os sete juízes de diferentes países da União Européia, incluindo um do Reino Unido, disseram que, embora se solidarizem com Evans, ela não poderá utilizar os embriões.

Evans agora tem uma última opção, apelar para a Grande Câmara da corte, antes de seus embriões serem destruídos. Ela recebeu o diagnóstico de condição pré-cancerosa enquanto fazia tratamento de fertilidade com Johnston, em 2000. Teve então os dois ovários removidos para evitar que a doença avançasse, e o casal congelou seis embriões para serem usados depois que ela concluísse o tratamento.

O casal se separou em 2002, e Johnston retirou seu consentimento para que os embriões continuassem a ser conservados ou fossem utilizados pela ex-namorada. Sob regras fixadas pela Autoridade de Fertilização e Embriologia Humana (HFEA), ambos os parceiros precisam consentir com o uso de quaisquer embriões criados por eles.

Evans impetrou um mandado junto à Alta Corte pedindo que Johnston devolvesse o consentimento, mas seu pedido foi rejeitado em 2003. Em 2004, a Corte de Apelações manteve a decisão. Pelas regras da HFEA, os embriões deveriam ter sido destruídos no mês passado, mas a destruição foi suspensa para aguardar a decisão da Corte Européia.

Os advogados de Evans argumentaram que negar a ela a autorização para usar seus embriões constitui violação dos direitos humanos dela e de seu direito à vida familiar. Mas, em decisão da qual 2 dos 7 juízes discordaram, a corte manteve as decisões judiciais britânicas.

Os juízes disseram: "A corte não se deixou persuadir pelo argumento de Evans de que a situação das partes masculina e feminina não pode ser vista como igual e que o equilíbrio justo só poderia ser preservado se o doador masculino fosse obrigado a consentir. A corte não aceita que os direitos do doador masculino sejam necessariamente menos dignos de proteção do que os da doadora nem considera evidente que o equilíbrio dos interesses deva sempre pender decisivamente em favor da parte feminina".

É a primeira vez que o tribunal, com sede em Estrasburgo (França), teve de tomar uma decisão sobre questões ligadas a tratamentos de fertilidade, confirmando que um embrião não tem direito independente à vida.

Johnston afirmou não ter dúvidas de que a apelação legal de sua ex-parceira vai fracassar: "O fator-chave, para mim, foi poder decidir se e quando eu crio uma família. Tudo se resume realmente a isso".

Pendengas jurídicas como essa já começam a acontecer também no Brasil. Há casos de mulheres que tentam utilizar embriões congelados após a morte do parceiro, ou depois de uma separação e encontram problemas semelhantes. No caso de Evans, a coisa é mais complicada porque essa é a única chance de ela gerar um filho biologicamente seu. Por essas e outras é que, ao autorizar o congelamento de embriões, todas as probabilidades devem ser levadas em conta. Até aquelas bem cruéis.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h47

A reprodução e o sexo

Volta e meia, esse tema aparece aqui no blog ou nos e-mails que recebo: por que quando estamos envolvidas nessa busca por um filho o tesão praticamente desaparece e a vontade de transar só existe no período fértil? Essa questão foi levantada em uma mensagem que acabo de receber de uma leitora X, que prefere não se identificar.

X me conta: "desde que estou nessa luta para engravidar, não tenho a menor vontade de namorar com meu marido, de inventar fantasias sexuais ou mesmo de renovar minhas lingeries. Nunca fui assim, tão desencanada. Sempre gostei de usar calcinhas legais, provocantes, agora qualquer uma serve. Ontem, cai em depressão quando abri a gaveta e vi que metade delas estão furadas e eu nem havia me dado conta disso. Na cama, às vezes finjo que tenho orgasmo para não magoar meu marido, mas a situação está ficando insustentável porque ele já percebeu que meu interesse por sexo está associado ao período fértil..."

O que X relata é uma situação recorrente. Pesquisas indicam que 60% dos casais com dificuldade de gravidez apresentam alterações na freqüência e no desejo sexual. Se o relacionamento não tiver uma base sólida, que permita uma troca de diálogo franca e honesta sobre todas as emoções que estão em jogo, a coisa pode se complicar.

Já é sabido que a difculdade de gravidez pode abrir caminho para outras frustrações e decepções mal resolvidas na vida do casal. E como nesses momentos as emoções ficam à flor da pele, é comum que os problemas apareçam com mais intensidade, gerando atritos e mágoas ainda maiores.

O resultado disso são as inúmeras histórias de separações, especialmente após sucessivos tratamentos. Ao longo desses anos, coleciono pelo menos 20 delas. Muitos divórcios acontecem mesmo após o nascimento do filho (filhos), sinal de que o vínculo amoroso que unia esse casal não estava tão fortalecido assim.

O que fazer? Que tal começando a não esconder a poeira debaixo do tapete? Se existe um nó no relacionamento, seja ele de qual natureza for, não adianta ignorá-lo, fingir que não existe. Por mais que doa mexer em feridas, é melhor cuidar desde já antes que se transforme em um ferimento muito maior. Um diálogo carinhoso e sincero, que se possa dividir as angústias e o medo que a situação está gerando, pode ser uma ferramenta muito útil no casamento. Ainda que às vezes a busca por um filho nos faz sentir sozinhas, desamparadas, não podemos esquecer jamais que esse é um caminho trilhado a dois. 

Aproveitando a semana da mulher que aí começa, quero deixar um beijo no coração de cada uma de vocês. E desejar que tenham muito amor, sensibilidade, coragem, força e determinação para encarar os desafios que a vida nos impõe. Por maior que seja a pressão, não esqueçam jamais a maravilha do que é ser mulher, independentemente de ter ou não passado pela experiência da maternidade. 

Escrito por Cláudia Collucci às 16h24

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

 Visitas