A cura da infertilidade, segundo

a Medicina Tradicional Chinesa

Ivy está contando as horas para ir para a maternidade. Aos 43 anos, a nossa amiga barrigudéssima vive na Itália e terá seu primeiro bebê, concebido naturalmente, depois de sete anos de luta para engravidar. A história de Ivy me impressionou muito e, por meio dela, estou descobrindo uma nova forma de desvendar os mistérios da dificuldade de gravidez. Ivy chegou a fazer tratamentos de reprodução assistida, todos em vão. Já tinha recebido indicação de partir para a doação de óvulos. Em um certo momento, porém, decidiu trilhar um caminho alternativo. Chegou em um nome desconhecido por nós aqui no Brasil, inclusive euzinha aqui: a médica americana Randine Lewis.

Randine tem um vasto trabalho na área da reprodução, baseado na Medicina Tradicional Chinesa, que começou por conta de um drama pessoal: abortos recorrentes. Depois de ter sucesso em suas gravidezes seguindo à risca as recomendações da medicina oriental, ela decidiu se especializar no assunto e foi trabalhar durante dois anos em um hospital de saúde reprodutiva na China. Voltou craque no assunto e hoje só trata a infertilidade baseada nos princípios da Medicina Tradicional Chinesa. Garante que 75% das suas pacientes engravidam nos seis primeiros meses do tratamento.

Confesso que a primeira vez que soube da história, por meio da Ivy, o meu lado de jornalista cética ficou com um pé atrás. Será???? Ainda bem que o meu outro lado, que acredita veemente que a medicina ocidental está muito longe de ser a dona da verdade, falou mais alto e encomendei pela Amazon o livro de Randine chamado  'The Infertility Cure' http://shop.thefertilesoul.com. Gente, é bárbaro! Randine é convicta de que existe um caminho natural para estimular o corpo da mulher a produzir níveis hormonais necessários para a concepção. Isso é tudo nós procuramos, não é? 

Os pilares do tratamento proposto por Randine se baseiam em dieta, acupuntura, massagens e ervas chinesas. Juntos, esses elementos equilibram, nutrem e preparam o organismo para a reprodução. Por exemplo, para a mulher com SOP (Sindrome dos Ovários Policísticos), Randine recomenda, antes de mais nada, mudança radical na alimentação. Regra número 1: corte todas as formas de açúcar e carboidrato refinados (pão e arroz brancos, por exemplo). Regra número 2: evite leite e seus derivados. Regra número 3: elimine álcool e café da sua dieta. E aí vai.

Para todas as pacientes, Randine indica óleo de peixe (1 gr ao dia), superantioxidantes OPC - Pycnogenol www.alwaysbuying.com e supergreens www.innerlightinc.com., além de acupuntura e acupressure (uma massagem chinesa, conhecida aqui no Brasil como Tuiná). O interessante é que ela orienta quais pontos do corpo devem ser estimulados em cada fase do ciclo menstrual. É claro que para entender a proposta do tratamento é preciso conhecer ou estar aberto para conhecer os princípios da Medicina Tradicional Chinesa. Por exemplo, pés, mãos e barriga frios são sinais de que o nossos rins estão 'fracos'. E, nessa situação, a gravidez fica bem difícil, segundo a médica.

O que fazer então para nutrir os rins? Além das ervas e da acupuntura, alimentos de cor negra, como feijão preto e gergelin preto torrado, é uma das indicações. Além da SOP, o livro contempla questões que a gente encontra por aqui todos os dias, como gravidez tardia, endometriose, esterilidade sem causa aparente, problema simunológicos, entre outros. A lista é longa e eu só estou no início do livro. Mas, de antemão, eu o recomendo. Porém, aviso que a obra só está disponível em inglês.   

Além da clínica onde atende mulheres do mundo todo, no Texas (EUA) http://www.easternharmonyclinic.com/, Randine dá seminários em vários locais no mundo. Ivy, por exemplo, participou de um em Londres. Ela nos relata: ``Lá fui eu em maio/2005 para a Inglaterra participar do Fertility Retreat. Ficamos em um SPA maravilhoso por 6 dias nas proximidades de Londres. Eu e mais 14 mulheres de diversos países com numerosas histórias de infertilidade, abortos espontâneos e tentativas sem sucesso de inseminação. Foi muito intenso nos 2 primeiros dias, muitas lágrimas. Tudo se baseia na Medicina Tradicional Chinesa: na acupuntura, no lidar também com a parte psicológica, no uso das ervas chinesas, na respiraçao Qigong e nos exercícios para aumentar a fertilidade, massagem uterina, nos ovários e no fêmur, na dieta Spleen Qi diet. O objetivo è equilibrar corpo, mente e espírito de modo que a concepção seja uma coisa natural...´´

Enfim, sei que nessa altura muitas de vocês devem estar com o mesmo pés atrás que eu outrora fiquei. Mas, acreditem, vale a pena pelo menos ler o livro e tirar suas próprias conclusões. Ivy, querida, obrigada pela preciosa dica e por dividir sua linda história conosco. Que Nossa Senhora do Bom Parto te proteja.

Escrito por Cláudia Collucci às 20h24

Parabéns para nós

Tinha pensado em preparar um post bem bacana para hoje, 20 de abril, aniversário de um ano do blog, mas a semana voou e eu estou enlouquecida com algumas reportagens. Uma delas vai interessar diretamente a vocês: o uso irregular do Femara (letrozol) como indutor de ovulação.

Esse remédio só tem registro no Brasil para câncer da mama em mulheres na pós menopausa. Mas não só aqui como nos EUA e Europa, vários médicos estão utilizando o medicamento para estimular a ovulação de mulheres que não responderam ao tratamento convencional.

Pois bem. Em dezembro, o próprio laboratório soltou um alerta pedindo para os médicos não utilizarem a droga como indutor porque um estudo no Canadá mostrou que ela pode causar defeitos genéticos nos fetos e abortos. No Brasil, muitos médicos nem souberam do alerta. Outros, mesmo sabendo, continuam prescrevendo porque acreditam que o estudo é frágil demais. Um dos argumentos é fato de ele não ter excluído outros fatores de risco para as malformações, como a idade avançada da mãe. Ou seja, a polêmica é grande.

Os médicos alegam que se baseiam em estudos internacionais, vários deles apresentados nos congressos de reprodução, que consideram o letrozol uma ótima opção para algumas mulheres com dificuldade de ovulação.   

É verdade, mas, na minha humilde avaliação, o fato é um só: os estudos que levaram à aprovação do letrozol como terapia no câncer da mama só envolveram mulheres na pós-menopausa. Nunca se estudou a segurança desse remédio em mulheres em idade fértil.

É por essas e outras que tenho todos os pés atrás com a indicação "off label", ou seja, por conta e risco do médico, sem aval do laboratório da droga e dos órgãos reguladores, no caso, a Anvisa. Já vemos tantos problemas com os remédios "legais", imagine um que não tem indicação para fins reprodutivos e, pior ainda, o próprio laboratório diz para não usar nessas situações.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h57

Depois do parto, a dor

Ela sempre quis ter filhos e, como a maioria das pessoas, simplesmente pensou que isso aconteceria no tempo certo. Mas o tempo foi passando, os tratamentos de fertilidade foram falhando e a única vez que engravidou, abortou na sétima semana. Por que não eu? Era pergunta que se fazia a cada notícia de gravidez à sua volta. Talvez não tivesse sido feita para ter filhos, pensava ela cheia de culpa católica e de amargura.

Não queria mais ficar feliz pelos filhos das outras pessoas. Sabia que a boa sorte delas não tinha nada a ver com ela, mas essas notícias eram como um tapa na cara. Ainda não estava aberta para a adoção. Ela queria engravidar... Será que era demais pedir isso? Ela não queria sentir culpa de querer um filho biológico. Por que não engravidava? O que havia de errado?

Tornou-se então desgostosa e perdeu seu bom humor. Lentamente as pessoas foram deixando de perguntar notícias sobre o tratamento de fertilidade. As amigas deixaram de convidá-la para os chás de bebês ou aniversários porque achavam que eram datas dolorosas demais para ela. E ela começava a se sentir uma aberração. Encontrava conforto com outras pessoas que tinham problemas de fertilidade, mas o ponto principal era que todas se sentiam muito sós...

Os parágrafos acima poderiam muito bem ter sido escritos em primeira pessoa por muitas de nós. Mas eles foram baseados em relatos que constam no livro da atriz Brooke Shields, a linda garota que, em 1980, aos 15 anos, estrelou o filme "A Lagoa Azul". Em "Depois do parto, a dor", Brooke foca suas atenções na depressão pós-parto que sofreu após dar luz a Rowan, mas reserva o primeiro capítulo para relatar sua luta para engravidar. Foram dois anos de várias inseminações e fertilizações in vitro e um aborto até conseguir engravidar com embrião congelado do último processo de FIV, aos 38 anos.

Em algumas partes do livro, a sensação era de estar lendo a minha própria história e de tantas outras milhares de mulheres que ao longo dos últimos seis anos têm me escrito, discorrendo as angústias dda dificuldade de gravidez. A obra é uma grande emoção do começo ao fim. Quando Brooke começa a retratar a depressão pós-parto, é impossível não pensar como todas nós estamos vulneráveis a enfrentar uma situação parecida.

Não há estudos suficientes que relacionem a dificuldade de gravidez e os tratamentos de fertilidade como fatores geradores de uma depressão pós-parto futura, mas, no mínimo, é bom estarmos atentas. Tenho uma grande amiga que passou por esse problema há três anos e, infelizmente, naquela época pouco pude ajudá-la, até por não ter muitas informações a respeito.

Ao terminar de ler o livro de Brooke Shields (depois de derramar rios de lágrimas), lamentei o fato de ele não ter sido lançado três anos antes. Talvez essa obra tivesse poupado um pouco o sofrimento da minha amiga. Mas fica aqui uma dica imperdível de leitura: "Depois do parto, a dor" (Prestígio Editorial); www.ediouro.com.br/prestigio

Escrito por Cláudia Collucci às 16h45

Americano faz palestra sobre SOP

 

O ginecologista Michael Peter Diamond, professor do Kamran S. Moghissi (EUA), deu hoje uma palestra na clínica do dr.Roger Abdelmassih sobre a SOP (Síndrome do Ovário Polícistico). Diamond respondeu algumas perguntas encaminhadas por mim. Dúvidas podem ser enviadas para clinica@abdelmassih.com.br

 

1 - Quais as novidades em SOP?

Diamond -  Apresentei um estudo que estamos fazendo nos EUA para avaliar a terapia com o Citrato de Clomifeno e apresentei, também, um estudo sobre a relação da testosterona com a SOP. Sabemos que a mulher com SOP tem níveis mais elevados de testosterona, e a sua evolução está sendo estudada. Por outro lado também queremos saber quais são as complicações futuras da SOP, se ela pode acarretar diabetes, arterioesclerose, doenças coronárias e metabólicas.

  2 - Mulheres com SOP tendem a ter mais dificuldades durante o processo de estimulação, com mais riscos de sofrer a Síndrome da Hiperestimulação Ovariana. Qual o protocolo que deve ser adotado para esse perfil de paciente?

Diamond - Neste caso, ficamos entre a cruz e a espada. Um excesso de medicação pode levar a um quadro de hiperestimulação ovariana, com mais óvulos e a possibilidade de gestação gemelar. Por outro lado, se não estimularmos não conseguiremos a quantidade necessária de óvulos. Existem muitos protocolos de estimulação da ovulação mas nestes casos temos que ter segurança na estimulação. Um dos modos de estimulação é iniciar o ciclo com uma baixa dose de gonadotrofina. Há três anos realizo um estudo nos EUA sobre o uso de  Citrato de Clomifeno, e Metformina  em SOP. São 620 mulheres, entre 18 e 35 anos, que foram divididas em três grupos, um usando apenas citrato de clomifeno, um usando apenas Metformina e o terceiro usando os dois. Os resultados sairão em outubro deste ano.  

3 - Mulheres com SOP que não apresentam resistência à insulina também são candidatas a receber a Metformina? Por quê?

Diamond - Sim, porque pode apresentar distúrbios metabólicos onde seria indicada a utilização da Metformina. Mesmo pacientes sem diabetes, e magras, podem ter distúrbios metabólicos e no futuro poderão desenvolver diabetes, doenças metabólicas e outras. Cerca de 40% das pacientes com SOP desenvolverão diabetes na gravidez e cerca de 20% poderão ter diabetes tipo 2.

 4 - Como devem ser tratadas as mulheres com SOP, que não apresentam outro sintoma senão o achado ultra-sonográfico?

Diamond - Esse é apenas um sinal da SOP e pode aparecer assim como obesidade, espinhas, excesso de pêlos. No estudo que estamos realizando, 90% das pacientes em geral tem sinal de ovários policísticos. A não ser que ela apresente os outros sintomas referentes não deve ser considerada portadora de SOP.

 .

Escrito por Cláudia Collucci às 16h44

Vejam só que curioso. Enquanto no Brasil trava-se discussão após discussão sobre o que é melhor para a criança: saber que é fruto de uma doação de óvulo ou esperma ou ser "poupada" dessa informação pelos pais, nos EUA não só muitas mães abrem o jogo, como há outras vão além: cria uma página para conexão entre doadores anônimos de sêmen e seus descendentes desconhecidos. Creio que a tendência no futuro é que iniciativas semelhantes ocorram também por aqui. Leiam abaixo a reportagem distribuída pela "France Presse" e publicada na edição de hoje da Folha de S. Paulo.  

Site une filhos dos doadores de esperma

Ryan Kramer, um garoto concebido com a ajuda de um doador anônimo de esperma, sempre quis saber alguma coisa sobre seu pai. Como não conseguiu encontrar o doador, ele optou pela segunda melhor opção: entrar em contato com outras pessoas que tivessem o mesmo sangue paterno que o dele: seus meios-irmãos e meias-irmãs.

Desde então, seu sonho simples se converteu em um site que já conectou quase 2.000 pessoas a seus parentes genéticos, filhos de mães que recorreram aos mesmos doadores de esperma.
Dirigido pela mãe de Kramer, Wendy, o Registro de Irmãos por Doação (Donor Sibling Registry), que funciona na internet, permite que os filhos de mais de 18 anos de doadores de esperma, suas mães e os próprios doadores se cadastrem para tomar conhecimento uns dos outros.

"No início, eu tinha apenas meu filho curioso", contou Wendy Kramer. "Ele sempre teve curiosidade em saber sobre o doador, a quem chamava de seu "lado invisível". Como sabia que talvez nunca chegasse a saber quem era esse doador, ele pensou: "Se eu tiver um irmão ou uma irmã, talvez possa enxergar essa parte invisível de mim naquela outra pessoa, já que compartilhamos metade de nosso DNA". A busca virou a página que Kramer dirige de sua casa no Colorado, http://www.donorsiblingregistry.com, que hoje tem aproximadamente 7.000 usuários. Hoje, cerca de 30 mil crianças nascem anualmente nos Estados Unidos como fruto de doações anônimas de esperma.

Com freqüência os interessados têm muito poucos dados no que se basear para buscar no site outras pessoas que compartilhem seus genes paternos. Em alguns casos, elas contam apenas com os dados técnicos sobre o doador fornecidos pelo banco de esperma. Um exemplo: "Nascido em 1960. Ascendência russa judaica e alemã protestante. Altura: 1,80 metro. Peso: 65 quilos. Tipo sangüíneo: A+. Instrução universitária, provavelmente estudante de medicina na época da doação. Motorista temporário de táxi. Alérgico a amendoim."

Em dois anos, porém, descrições resumidas como essa já permitiram a 1.857 pessoas entrar em contato com parentes consanguíneos através do site, disse Wendy Kramer. O resultado, diz, é que "pessoas estão viajando pelo país, trocando fotos e telefonemas".

O registro organiza as informações com base nas clínicas de doação e nos Estados. Dez países estrangeiros também estão incluídos -entre eles Austrália, Reino Unido, Canadá, Irlanda, Israel, Nova Zelândia e África do Sul-, mas, nesses casos, há menos informações.

Amy DeKay publicou um anúncio no site porque seu filho de 3 anos de idade tem uma doença rara, e também porque seu próprio pai morreu há pouco. "Perdi meu pai em setembro, e meu filho era muito ligado a ele. Enquanto se esforça para superar a morte de seu "papai especial", acredito sinceramente que conhecer mais crianças como ele, seus irmãos, e/ou seu doador, possa aumentar sua rede de conhecimentos e seus vínculos familiares futuros."

O Registro de Doadores de Esperma está ajudando a reduzir o estigma ligado ao fato de se ter um pai anônimo. Wendy Kramer afirma, no entanto, que é preciso haver o consentimento mútuo para encontros e outras formas de comunicação.

"Chamo a isso a redefinição da família, porque é algo que tira a família do contexto em que a vimos", diz. Mais de 360 doadores já optaram por se fazer conhecer no registro. "Fui doador por oito meses em 1990. Desde o nascimento de minha primeira filha, há quase três anos, senti uma vontade grande de começar a buscar quaisquer filhos que eu possa ter", diz um deles no site.

O médico Matthew Niedner, 34, que foi doador por vários anos, falou de sua experiência no programa "60 Minutes", da CBS. "Pode soar um pouco frio, mas não enxergo essas crianças como realmente meus filhos." Apesar disso, Niedner se disse disposto a se encontrar com qualquer pessoa de quem possa ser o pai.

Escrito por Cláudia Collucci às 11h26

 

A revista "Crescer" deste mês fez uma ótima reportagem sobre a gravidez de múltiplos, hoje um dos maiores problemas da reprodução assistida. Eu arrepio só de pensar nessa possibilidade. Já visitei muitas UTIs neonatais e entrevistei dezenas de pais de múltiplos e, em todas essas experiências, ficou muito claro como os casais estão despreparados para essa triste situação. Em sã consciência, nenhuma mãe desejaria ver seus filhos entubados, cheios de cateteres e correndo o risco de morrer a qualquer instante. E é exatamente essa situação vivida pela maioria dos pais de múltiplos, especialmente os de trigêmeos e quadrigêmeos. Fora os riscos à saúde da mãe, que também não são poucos. Não é a toa que toda Europa está hoje em campanha para reduzir o número de gravidezes múltiplas. Quando será que o Brasil vai acordar para isso? Leiam abaixo a reportagem da jornalista Mônica Brandão.

Filhos da reprodução

Rosana Putinati só queria ter um filho. Sem compreender exatamente por que suas gestações não passavam do primeiro mês, a advogada arriscou a implantação de três embriões em seu útero. Não sabia o que era prematuridade. Ou que existiam UTIs para bebês. Acabou passando três meses dentro de uma para cuidar de Diego, Giovanna e Thiago. Eles nasceram aos seis meses de gravidez, pesando cerca de 1 quilo cada um. Logo na primeira semana, viu um deles passar por uma cirurgia cardíaca e a radiografia dos outros dois mostrar sangramentos no cérebro.

No segundo dia em casa, de madrugada, teve de fazer uma massagem cardíaca em Diego, que parou de respirar. Salvou a vida do filho. Hoje, dois anos e meio depois, Rosana tem câmeras ligadas entre seu quarto e o das crianças, e uma babá que passa a noite inteira olhando se elas respiram.

A história de Rosana revela algo que pouco se fala no mundo sagrado da maternidade: vale a pena ter um filho a qualquer custo? De um lado, as clínicas de reprodução assistida comemoram cada vez mais bebês - a do médico Roger Abdelmassih alcançou, em março, a espetacular marca de 5 mil em 16 anos de existência, quase uma criança por dia. Do outro, as UTIs neonatais recebem recém-nascidos cada vez menores (alguns com menos de meio quilo e muitas seqüelas futuras), frutos de gestações múltiplas vindas dessas mesmas clínicas. Os dois lados pouco se falam. No meio ficam os pais que saem da maternidade com o colo vazio. São destruídos pela rotina desumana das UTIs. Morrem um pouco a cada dia ao ver o filho tão sonhado dentro de encubadoras, com o corpinho furado por cateteres, sem saber até quando o coração (de todos) vai bater.

Audição seletiva
Pode ser até louvável o esforço que os especialistas em reprodução fazem para ajudar casais com problemas de infertilidade. Mas, gravidez confirmada, saem de cena. Não falam sobre os riscos de uma gestação múltipla, prematuridade, seqüelas. Ou inserem essas informações entre um assunto e outro, esquecendo que o foco do casal, sedento por um filho, é outro. 'Passei por três tratamentos e perdi um bebê no início da gestação. Não hesitei em transferir cinco embriões', diz a funcionária pública Adriana Ramos Afonso, 41 anos. Ela levou uma gravidez de quadrigêmeos consciente dos riscos de perder os bebês ou seu útero. Mario César, Akeber, Mohamad e Arminda nasceram com 28 semanas, pesando entre 890 e 1.215 gramas. Ficaram dois meses na UTI neonatal.

Para Eduardo Motta, diretor da Clínica Huntington, em São Paulo, mesmo quando alerta sobre os riscos, sabe que o casal é seletivo no que escutar. 'Tento ser extremamente pessimista, mas nem sempre funciona', afirma. 'Eles não escutam com o plano emocional, pois isso está relacionado com uma experiência que não têm', diz Debora Seibel, psicanalista da mesma clínica. 'Meu médico avisou dos riscos de ter trigêmeos, mas não quis escutar. Eles deveriam ser muito mais duros. Se eu soubesse o que passaria, teria implantado apenas dois', diz a publicitária Nanna de Castro, 39 anos, que viveu três meses na UTI lutando pela vida de Yago, Isadora e Celina.

Segundo Alice Deutsch, coordenadora da UTI Neonatal da Maternidade Albert Einstein, em São Paulo, os pais têm a ilusão de que nunca acontecerá nada com eles. 'Mas acontece. Os médicos não alertam o suficiente sobre os problemas emocionais de quem tem um filho na UTI. As seqüelas, não só nas crianças, como no relacionamento, são muitas', diz. 'Se esses especialistas visitassem mais UTIs neonatais, talvez orientassem melhor as pacientes', diz Edneia Vaciloto Lima, chefe da UTI Neonatal da Pro Matre, em São Paulo.

Escrito por Cláudia Collucci às 18h08

O inevitável envelhecimento dos óvulos

 

V., 37, está trabalhando no Japão com o marido e lá pretende ficar mais quatro anos. Espera engravidar na volta, aos 42 anos. C., 45, é laqueada há dez anos, casou-se novamente e agora quer um filho, com seus próprios óvulos, do atual marido. D., 42, tenta há seis anos ser mãe, já teve uma gravidez ectópica, mas ainda reluta em partir para uma Fertilização In Vitro. S., 43, tem endometriose, mas o médico indicou o tratamento convencional (interromper a menstruação por seis meses) para depois tentar engravidar. T., 46, está em ótima forma física, com namorado novo e quer ser mãe pelas vias naturais.

 

As leitoras acima me enviaram e-mails nesta última semana pedindo orientações por questões diversas. Chamou-me a atenção, em todas elas, o problema da idade, que continua a ser subestimado tanto pelas mulheres como por alguns médicos. V. disse ter se surpreendido com a informação de que, acima dos 40, as chances de gravidez caem para 5%. Mesmo assim, pretende ser mãe só aos 42 anos. É um risco, alertei.

 

Ainda que esteja tudo bem com a saúde reprodutiva do casal, a simples idade é um fator de infertilidade. Acima dos 40 anos, aumentam os períodos em que não há ovulação e, quando há, a maioria dos óvulos não é viável. Em razão da má qualidade, cresce também as chances de doenças genéticas, como a síndrome de Down.

 

O caso de C. é também parecido. Apesar de ela já ser mãe (tem dois filhos do primeiro casamento), uma nova gravidez com seus próprios óvulos, ainda que “in vitro”, é pouco provável aos 45 anos. A partir dos 43, em razão da má qualidade dos óvulos, as clínicas de reprodução já indicam a FIV com óvulos doados.

 

D., que agora tem apenas uma trompa, também vive um drama parecido, mas ainda não havia se dado conta que, até para a reprodução assistida, seu tempo reprodutivo está se esgotando caso queira engravidar com seus próprios óvulos. S., que luta contra a endometriose, também está numa idade limite, mas o médico insistiu no tratamento convencional antes de a liberar para a gravidez. No seu caso, muitos especialistas indicam a Fertilização In Vitro direto porque a gravidez já seria o tratamento para a doença pelo fato de interromper a menstruação.

 

Já o caso de T. exemplifica uma grande parcela das mulheres que parecem ignorar o peso que tem o relógio biológico. Podemos estar lindas e maravilhosas, de corpo e alma, aos 46 anos. Aliás, é isso mesmo que todas nós queremos. As atividades físicas e um estilo de vida saudável nos deixa com o corpo ótimo, com tudo em cima, os creminhos e os procedimentos estéticos nos livra das rugas, mas ainda não inventaram uma vitamina para os óvulos. Eles seguem o seu caminho natural e nada pode deter o processo de envelhecimento.

 

Aos 46 anos, são raríssimas as mulheres com capacidade de engravidar naturalmente pela primeira vez. Não há mágicas. É essa a lição que deveria estar sendo ensinada às mulheres desde a adolescência, época em que ela começa a aprender sobre os métodos de contracepção. Não creio que isso, ensinado de uma forma natural e equilibrada, vá gerar temores antecipados.

 

Acho muito melhor do que passar a ilusória idéia de que não há problemas na gravidez tardia porque a medicina reprodutiva resolve tudo. Sim, felizmente, podemos contar com a ajuda da ciência em muitos casos. Mas sabemos como árduo esse caminho e que nem todas chegam vitoriosas ao final. 

Escrito por Cláudia Collucci às 12h12

Não estamos sós

Hoje eu acordei meio boba. Talvez porque ainda estou sensibilizada com o doloroso pós-cirúrgico, talvez porque fui acordada com muitos beijos do maridão e um maravilhoso café da manhã na cama, talvez porque o céu está azul. Talvez porque sou chorona mesmo. O fato é que ao abrir a minha caixa de e-mails, que acumula mais de 200 mensagens não lidas, deparei-me com um singelo texto de uma bibliotecária, que nada pedia, apenas agradecia:

"Prezada Claudia, fiquei sabendo da sua pessoa mais ou menos há dois meses, navegando na Internet. Neste dia eu estava muito triste, pois também sou mais uma mulher neste mundo que não pode  engravidar por vias normais. Depois que conheci seu site, consegui me sentir melhor, achava que eu era a única ter este problema no mundo, agora consigo encarar o problema de frente. Muito obrigada por nós agraciar com suas palavras tão meigas e calorosas, que nós dão forças e esperanças de um dia podermos segurar nossos bebês no colo."

Inevitavelmente fui às lágrimas porque fiquei pensando nas milhares de mulheres que nos últimos anos me enviaram mensagens. Certamente perto de 10 mil, num cálculo bem raso. Ricas, pobres, brancas, negras, católicas, evangélicas, espíritas, empresárias, profissionais liberais, donas de casa, desempregadas. Cada uma com sua história e ao mesmo tempo com uma história em comum: a dificuldade de gravidez e um imenso sentimento de solidão. Ao mesmo, fiquei  pensando como somos privilegiadas de poder dividir essas angústias e perceber que não estamos tão sós assim.

Milhões de mulheres em todo mundo vivem o mesmo dilema e a expectativa é que no futuro o problema cresça ainda  mais. Além das disfunções particulares de cada casal, sabemos hoje que somos vítimas do meio ambiente: a vida estressante, a poluição e os alimentos com agrotóxicos estão sim deteriorando a qualidade de óvulos e espermatozóides e a gente se sente refém de uma situação que independe da nossa vontade.

É claro que há alguns fatores relacionados diretamente ao tipo de vida de cada um. Por exemplo, muitas das obstruções das trompas são causadas por doenças sexualmente transmissíveis não tratadas, como a clamídia. Fumo, obesidade e anorexia também dificultam a gravidez. Mas nenhuma informação alivia aquela angústia que bate quando, ao julgarmos preparadas para a maternidade, a gravidez simplesmente não vem.

No meu mestrado em história da ciência, li textos médicos do século 17, 18 e 19 que mencionavam que as mulheres inférteis tinham tendências a se tornarem histéricas e o único caminho era o hospício. E o pior: era um tempo em que a infertilidade masculina não era sequer cogitada. A culpa da infertilidade era sempre da mulher e, em geral, ela era massacrada pela família, pelos médicos e pela sociedade.

Fiquei imaginando o quanto essas mulheres não sofreram. E como somos felizes de viver em uma época com recursos tecnológicos e conhecimento médico capazes de reverter problemas que impedem a gravidez. E mais: como somos felizes de poder compartilhar com outras pessoas esses problemas e perceber que não estamos sozinhas. Podem escrever: estamos protagonizando um capítulo na história dos direitos reprodutivos. Aquele em que as mulheres saem da escuridão que era imposta às inférteis e vão à luta, com os recursos emocionais e materiais que dispõem, em busca do sonho da maternidade.      

Escrito por Cláudia Collucci às 11h00

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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