A SOP e o uso da metformina

Tenho percebido no fórum de discussão constantes conversas sobre o uso da metformina (um anti-diabético usado para controlar a resistência à insulina) no tratamento da dificuldade da gravidez. E, mais uma vez, preocupa-me o uso, muitas vezes indiscriminado, dessa droga.

Vários estudos já demonstraram que as portadoras da Síndrome dos Ovários Policísticos, com resistência à insulina, podem se beneficiar com a metformina, especialmente, na regularização do ciclo menstrual. O aumento dos níveis de insulina causado pela SOP dificulta a ovulação e faz com que o organismo produza hormônios masculinos.

A questão é o que fazer com as portadoras da SOP sem resistência à insulina. Já ouvi vários relatos de mulheres que receberam indicação do remédio mesmo sem apresentar a resistência insulímica. Isso não tem amparo científico até onde sei. É empirismo puro. Já consultei alguns médicos sobre o assunto e percebi que há divergências entre eles.

Alguns acham que mal não faz indicar a metfomina às mulheres com SOP não-resistentes à insulina. Outros pensam o contrário e, como não existem estudos respaldando o uso da droga nesses casos, preferem não prescrevê-la. Eu prefiro engrossar o coro desses médicos.

Em recente reunião conjunta do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists e da British Fertility Society, o Dr. A. Balen, da General Infirmary, pediu cautela no uso da metformina na SOP porque as evidências sólidas sobre sua eficácia ainda são escassas.

Segundo o Dr. Balen, há muito alarde em torno do medicamento e as pacientes estão pedindo que o médico o prescreva, porém esses dados vêm de pequenos estudos. Faltam estudos clínicos com poder adequado, enquanto há outros tratamentos para infertilidade anovulatória que passaram pelo crivo e com fortes evidências.

Balen diz que a metformina está há muito tempo no tratamento do diabetes e parece ser um fármaco seguro. Da mesma forma, no contexto de mulheres que querem engravidar, não parece haver um aumento do risco para o feto. Mas, ele reafirma, é preciso ter evidências apropriadamente publicadas. Vale o alerta.

Escrito por Cláudia Collucci às 20h13

Más notícias

Por que as más notícias da reprodução assitida nunca aparecem no Brasil? Pensei nisso após ler hoje em jornais ingleses que uma mulher morreu na semana passada no hospital Leicester (Inglaterra) após se submeter a uma aspiração de óvulos, um procedimento mais do que rotineiro durante a realização da FIV. As autoridades de saúde de lá ainda não sabem muito bem o que aconteceu, mas o certo é que, após a retirada dos óvulos, ela sofreu um intenso sangramento, que evoluiu para problemas renais e morte.

No ano passado, pelo menos duas outras mulheres morreram vítimas da síndrome da hiperestimulação ovariana, uma reação anormal do organismo frente aos hormônios utilizados para o crescimento e maturação dos óvulos. A síndrome afeta 6% das mulheres, especialmente as portadoras da síndrome dos ovários policísticos, e se caracterica pela formação de muitos óvulos nos ovários. Uma das mulheres mortas, Temilola Akinbolagbe, de 33 anos, de Plumstead (sul de Londres), sofreu a síndrome e morreu de ataque cardíaco durante tratamento, feito no King’s College Hospital.

O distúrbio pode provocar rápida acumulação de líquido na cavidade abdominal, caixa torácica e em volta do coração. Também pode causar danos aos ovários, rupturas e hemorragias na cavidade abdominal, tendo como conseqüência intervenções cirúrgicas. Alguns dos sintomas que podem indicar a síndrome durante o tratamento da FIV são: dores pélvicas, náuseas, vômitos, ganho de peso,  alargamento ovariano, dificuldades respiratórias e disfunções do fígado.

Não há dúvida de que todo e qualquer procedimento médico e cirúrgico envolve riscos e, ao submeter a uma FIV, as mulheres devem ser informadas sobre eles. E mais: devem fazer, antes de iniciar o tratamento, um check-up geral da saúde, principalmente a cardíaca. Porém, nem sempre isso acontece porque são poucos os esterileutas que lembram que a mulher é muito mais do que um par de ovários com útero. E que a descarga hormonal desencadeada pelo tratamento, especialmente quando ele for longo, pode representar um risco à saúde, como já apontam alguns estudos.

No Brasil, felizmente, não há notícias de mortes envolvendo a reprodução assistida. Há quase uma década, soube de um caso de uma mulher que sofreu choque anafilático durante uma laparoscopia feita em uma clínica de reprodução e, no ano passado, pelo menos cinco mulheres foram parar na UTI com a síndrome da hiperestimulação ovariana, que, em muitas situações, pode ser prevenida. Basta interromper o ciclo ou deixar para transferir os embriões posteriormente, quando o organismo estiver mais estabilizado. Sim, interromper o ciclo pode significar perder dinheiro, às vezes, o único existente para o tratamento. O problema é que muitas mulheres que são sequer  informadas pelos seus médicos de que há alternativas para evitar a síndrome. Muitas vezes, o distúrbio é tido quase como uma fatalidade, quando, na realidade, sabemos que não é bem assim.


É por essas e outras que estou formatando um projeto para investigar a morbidade invisível da reprodução assistida, ou seja, possíveis problemas de saúde causados à mulher, associados ao tratamento, que nunca aparecem. Gostaria de contar com a ajuda de vocês para isso. Quem souber de casos, me avisem.

Sei que algumas de vocês não gostam quando eu toco em algumas feridas da reprodução assistida e já me disseram que parece que sou contra a técnica. Não sou, estejam certas disso. Condeno apenas a glamorização cega da fertilização in vitro, tida, freqüentemente, como uma técnica isenta de riscos e, muitas vezes, com indicações banalizadas.

É claro que existem inúmeros pontos positivos a favor da reprodução assistida. Afinal, sem ela, milhares de casais talvez nunca tivessem realizado o sonho da maternidade/paternidade biológica. Mas, definitivamente, a FIV não é o quadro de parque de diversões que, às vezes, a mídia e os médicos pintam. É uma técnica cara, de resultados positivos baixos e que envolve riscos. A história da ciência ainda nos dirá quais e o tamanho deles. 

Escrito por Cláudia Collucci às 22h40

Querido pai,

Sei que o presente que você mais gostaria de ganhar neste Dia dos Pais seria a notícia de que sua filha aqui está grávida e que o seu tão sonhado neto está a caminho. Mas ainda não foi dessa vez, paizão. E não é por falta de tentativa e desejo. Esses temos de sobra lá em casa. Se bem que, no último mês e nos próximos dois, com o maridão trabalhando em Goiás, as tentativas estão meio interrompidas...

Para você que teve os filhos que quis, ainda que Deus tenha levado o seu caçula para compor a orquestra de anjos no céu, deve ser difícil entender porque sua filha, que tenta levar uma vida tão saudável (sem contar o estresse, é claro) e que entende tanto sobre essa área esteja com dificuldades de uma nova gravidez. Confesso que eu também não entendo.

Recordo-me de como os seus olhos brilhavam no dia em que comemoramos minha primeira gravidez. Brindes com o Prosecco que sobrou do casamento, lembra? E você quase abriu aquela garrafa de vinho do Porto há tanto tempo guardada para uma "ocasião especial". Nem chegou a dar tempo. O aborto foi mais rápido.

Pois é, meu pai, a vida prega muitas peças e a gente fica sem entender muitas delas. Dias desses, ouvi de uma mãe que tudo o que ela mais queria era ter uma carreira bem-sucedida, viajar pelo mundo, ter um marido mais presente. Dizia ela que a maternidade havia frustrado todos os seus sonhos. Eu apenas sorri. Não havia tempo para contar àquela mulher como é estar do outro lado...

Eu só desejo que Deus permita que, quando o seu neto (ou sua neta, por que não?) chegar, você ainda esteja com essa vitalidade toda, subindo nas árvores do pomar, cultivando a sua linda horta ou andando para cima e para baixo com a sua bicicleta ou na velha camionete, para desespero de toda a família.

Pai, queria muito estar aí com você no almoço deste domingo. Mas a profissão me obriga estar de plantão na redação, à espera de mais ataques do PCC. Sei que você entende, afinal, são 20 anos desde que, independentemente da sua vontade, sua filha decidiu ser jornalista e, sendo assim, riscou do calendário datas comemorativas como Natal, Ano Novo, Páscoa, Dia dos Pais e Dia das Mães.

Mas quero que você saiba que, a cada almoço de domingo, esteja eu onde estiver, meu coração está aí com vocês. Às vezes posso ouvir suas risadas, suas ranhetices com a mãe e as reclamações de que falta tempero na salada e de que "quanto mais mulher na cozinha, mais o almoço atrasa". A bênção e um beijo, pai querido.

Escrito por Cláudia Collucci às 14h36

Um alerta às mães de prematuros

Ontem visitei o ambulatório da retina da Unifesp, onde são tratados casos de retinopatia da prematuridade, uma doença que afeta prematuros e, quando não diagnosticada a tempo, leva à cegueira. Como está crescendo o número de bebês prematuros por várias razões _entre elas, os múltiplos da reprodução assistida e o excesso de cesáreas_, as taxas da doença também crescem.

Lá havia pelo menos 40 bebês, entre eles gêmeos que foram levados ainda na incubadora. É fundamental que o bebê seja examinado logo no primeiro mês porque, quanto mais tempo demorar, mais seqüelas podem surgir.       

O ideal é que as maternidades tenham equipes capazes de diagnosticar e tratar o problema ainda quando os bebês estiverem internados, ou que, no mínimo, encaminhem a mãe a um serviço especilizado o mais rápido possível. Mas, em se tratando de certas maternidades (públicas e privadas), nem sempre isso acontece.

E veio justamente de uma maternidade pública paulista um caso que me emocionou muito. Guilherme, 1, nasceu com 900 gramas, no sexto mês de gestação. A mãe sofria de aborto recorrente. Já havia perdido três bebês antes dele. Guilherme ficou seis meses internado na maternidade, lutando para sobreviver. Conseguiu. Mas saiu de lá cego, vítima da retinopatia da prematuridade. E sabem por que? Porque não havia equipe médica qualificada para perceber que o menino tinha a doença e tratá-la a tempo. 

No ambulatório da Unifesp, o garoto foi submetido no mês passado a uma cirurgia que, na melhor das hipóteses, vai possibilitar que ele volte a enxergar vultos. Apenas vultos. É impossível não se indignar com isso. E, mais, precisamos estar atentas.

Sempre que souberem de mães que deram à luz a prematuros (abaixo das 37 semanas de gestação), um conselho deve ser dado: certificar-se de que a maternidade possui uma equipe médica com oftalmologista habitado a fazer o exame de fundo de olho do bebê. Na dúvida, procure um oftalmologista tão logo o bebê tenha alta. Os sintomas da doença são invisíveis a olho nu. As alterações só se tornarão visíveis quando há deslocamento de retina, situação que está a passo da perda de visão.

Escrito por Cláudia Collucci às 12h12


A hora e a vez deles

Não é de hoje que se estuda a relação da idade do homem com a dificuldade de gravidez da mulher. Sabe-se que após os 45 anos, a qualidade do sêmen piora muito e, quando há outros fatores associados, como o tabagismo, a situação fica ainda mais crítica.

A novidade da vez é que um estudo sobre abortos es­pontâneos (perda espontânea do bebê antes de 20 semanas de gestação) também está colo­cando o homem como possível colaborador para essa ocorrência tão triste na vida do casal. Segundo especialistas, o problema estaria da má qualidade do sêmen.

O estudo foi publicado na re­vista “Obstetrics & Gynocology” deste mês pela professora Karine Klein e por colaboradores da Fa­culdade de Saúde Pública da Uni­versidade Columbia, do Hospital Hadassa de Jerusalém e do Insti­tuto de Psiquiatria de Nova York.

O trabalho foi baseado em da­dos de 92.408 nascimentos ocor­ridos em Jerusalém de 1964 a 1976, dos quais resultaram pesquisas ou entrevistas com 13.865 mulheres. As conclusões permitiram os pesquisadores observar que, in­dependentemente da idade da mulher, o aumento da idade do parceiro estava associado regularmente ao aumento do número de abortos espontâneos.

As mulheres com parceiros de 35 anos de idade ou mais tiveram três vezes mais abortos espontâ­neos quando comparadas com gestantes cujos parceiros estão nos 25 anos ou são ainda mais jo­vens do que isso. Leia o resumo em: http://www.greenjournal.org/cgi/content/abstract/108/2/369

Talvez seja por isso que as clí­nicas de reprodução impõem o limite de 40 anos como a idade máxima para doadores de sêmen. Mas é interessante observar que os homens, em geral, demonstram pouca preocupação com o envelhecimento do seu sêmen. Talvez até por ignorarem esse fato.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 01h01

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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