Alerta nunca é demais

Recebi um e-mail de uma leitora que julgo ser importante dividi-lo com vocês. Ela me autorizou a publicação da mensagem, com a condição de não-identificá-la, porque acredita que a sua história ajudará outras mulheres a se informarem melhor antes de se submeter à reprodução assistida.

Ela deixa claro, e eu reforço isso, que a intenção não é desanimar ninguém. A ciência e a medicina estão cada vez mais avançadas e devemos nos servir delas para resolver nossos problemas, mas devemos antes de tudo questionar, pesquisar e só depois fazer. "Infelizmente eu esqueci de fazer isso e os problemas pegaram-me de surpresa. Acredito que eu poderia ter passado por tudo mais consciente dos riscos", diz ela. A seguir, o seu relato:

"Cláudia, lendo seus artigos sobre reprodução assistida, deparei com um que falava sobre a hiperestimulação ovariana e que o tratamento de reprodução nem sempre é fácil. Sou dentista e fui educada para estudar, trabalhar e depois casar e ter filhos, cumpri a risca os mandamentos da mulher moderna, só que na hora de engravidar o custo foi alto financeiramente e emocionalmente.

Fiz reprodução assistida (FIV) e tive hiperestimulação ovariana. Foi terrível, tive medo de morrer, não sabia que era tão grave. Consegui superar e minha gravidez gemelar foi adiante, mas, infelizmente, antes de completar 6 meses de gestação, eles nasceram: a menina com 600 gramas e o menino com 800 gramas e, com eles, todas as complicações da prematuridade.

A menina não agüentou 24 horas o menino viveu 3 meses em um hospital de primeira linha aqui em São Paulo. O caso era tão difícil na época que até a TV Comunitária fez uma entrevista comigo, pois a sobrevida do menino era algo atípico, pois ele era considerado prematuro extremo, teve de tudo _problemas na retina, hidrocefalia, teve que submetê-lo a diálise etc...

Perdi os dois, deixei meu trabalho, fiz terapia e jurei de pé junto que nunca mais iria fazer tratamento e não o fiz, infelizmente para mim não deu certo.

Tenho hoje um filho de 5 anos que veio pelo velho e bom método.

Cláudia, eu escrevi tudo isso, justamente para alertar que nem tudo são flores e há centenas de casos com finais felizes, mas há o outro lado da moeda que é camuflado, não divulgado e você escreveu sobre isso. As mulheres que procuram a fertilização estão ansiosas e nem sempre recebem todas as informações necessárias.

Eu acredito que um acompanhamento psicológico deveria fazer parte do tratamento de reprodução porque eu convivi com várias mulheres e os problemas são os mais variados. Gravidez envolve um sentimento muito profundo e juro que eu gostaria que alguém tivesse me alertado dos riscos da reprodução assitida e, principalmente, dos problemas da prematuridade, da UTI, da derivação, da retina, do atraso de crescimento etc...

Tive meu filho, mas nunca foi esquecer da dor que passei, da perda, da UTI, descobri que não me informei direito dos riscos. Para mim, era ir na clínica, pagar e ter! Doce ilusão! Fiz o tratamento em 1998 e tinha 36 anos."

Escrito por Cláudia Collucci às 19h05

Amigas

Uma das coisas mais gratificantes da minha vida, ao lado da minha família, é o fato de ter grandes amigas. Aquelas estão sempre do teu lado para o que der e vier. Aquelas tão diferentes entre si e, ao mesmo tempo, tão igualmente intensas e verdadeiras. Aquelas que, com gestos tão simples, tocam profundamente o teu coração. Graças às boas energias do Universo, tenho algumas dessas amigas, para ser bem exata pelo menos 10.

A Rosangela é uma delas. Foi a Rô quem me ligou falando sobre a promessa para São Cosme e São Damião e foi com ela que fui ontem até uma creche municipal entregar balas e chocolates às crianças. Combinamos de sair de casa às 7h. Eu, sempre correndo para variar, passei no supermercado 24 horas e comprei caixas de bombons e balas. A Rô já havia dito que o sapatinho era por conta dela.

Mas, ao chegar ao seu apartamento, ela não só tinha comprado três pares de sapatinhos (um azul, um amarelo e um branco), como também tinha feito, com a ajuda da filha, dezenas de saquinhos de doces amarrados com fitas vermelhas. Decidimos abrir as minhas caixas e ampliar o número de presentinhos. Fizemos quase cem saquinhos. Ao chegarmos na creche, descobrimos que haviam 300 crianças... Enfim, demos os doces às menores (que ficam separadas das maiores) e deixamos o que sobrou para a diretora distribuir o restante da melhor maneira.

Foi a maior festa. Contei às crianças o significado do Dia de São Cosme e São Damião e cada um ganhou um saquinho. Aí começou aquela confusão porque os bombons eram diferentes. No fim, deu tudo certo. Saí de lá cheia de beijinhos e de mãozinhas de areia na minha jaqueta azul. Uma maravilhosa forma de começar o dia.

Só depois soube que também era aniversário da Rô. A danada tinha ficado quietinha sobre a data. E tinha cancelado todos os compromissos na parte da manhã só para ficar comigo. Ela que já tem seus três filhos criados. Ela que luta contra um câncer da mama. Querida Rô, obrigada mais uma vez por ser tão especial e que Deus te proteja sempre.

Escrito por Cláudia Collucci às 11h57

São Cosme e São Damião: olhai por nós

Amanhã, dia 27, é Dia de São Cosme e São Damião, os santos protetores das crianças. Diz a lenda que, neste dia, a mulher que deseja engravidar deve pegar um sapatinho rosa ou azul (dependendo se quer menino ou menina), encher de balas e distribui-las às crianças.

Já tinha me esquecido disso. Mas, ontem, uma amiga muito querida me ligou dizendo: "reserve sua manhã do dia 27 porque já preparei tudo. Vamos distribuir balas às crianças." Claro que concordei imediatamente.

Depois, ri comigo mesma pensando nas coisas estranhas que nos sugerem quando enfrentamos dificuldades de gravidez. Caldo de galinha preta, joelho de porco, caldo de feijão preto e garrafadas de ervas foram as mais estranhas que chegaram até mim. Nesse ponto, sou bem seletiva...

Mas, talvez pela minha formação católica (que muitas vezes se contrapõe à minha visão cartesiana), não acho estranho fazer promessas. Muito menos para São Cosme e São Damião, pelos quais nutro um carinho especial.

No dia deles, ou seja amanhã, era também aniversário do meu irmão caçula, morto afogado aos oito anos, em 1978. Desde então, minha mãe conseguiu fazer desta data, que tinha tudo para ser muito triste, um dia especial: ela faz o mesmo bolo que fazia no aniversário do meu irmãozinho e distribui às crianças dos vizinhos em homenagem a São Cosme e São Damião. Que eles olhem por nós.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h00

As facetas que nos habitam

Um dia sem ver o sangue da menstruação é um dia de sonhos. Em dois, três, as sensações vão se multiplicando e tudo que já disseram sobre os sintomas da gravidez começamos a sentir. Os seios estão inchados, a barriga meio dura e até enjôos começam a aparecer. E damos asas à fantasia e à imaginação. Como vamos dar a notícia ao maridão? Imprimir o resultado do exame, enrolar feito um canudinho e entregá-lo dentro de um sapatinho de tricô? Ou será melhor convidá-lo para um jantar romântico e surpreendê-lo com a notícia sob a luz das velas?

Isso tudo sem ao menos fazer um teste de gravidez da farmácia. Pensamos que talvez o melhor seja esperar mais uns dias, uns dez quem sabe. Assim, não haverá erro. Aí começam alguns sinais de que a mentruação está por perto. Uma dorzinha na lombar, uma pontadinha no baixo ventre. "Xô maus pensamentos! É só prisão de ventre!", falamos a nós mesmas, incrédulas com os fatos que levam a crer uma improbabilidade de gravidez. Por mais concretos que eles sejam, como, por exemplo, só ter transado uma única vez no mês, fora do período fértil.

Nesses momentos de fantasia, pouco nos importam os fatos. A gente se esforça para não temer a decepção que nos empreita. Apesar de conhecê-la tão bem. A gente tenta ignorá-la tal como a criança que sabe que não vai ganhar o tão esperado presente de Natal. E mesmo quando nos deparamos com o sangue na calcinha ou no fundo do vaso sanitário, engolimos as salgadas lágrimas da frustração. Olhando o espelho à nossa frente, a gente diz: não vou me enterrar na tristeza. Estou ótima, tenho saúde, tenho um marido maravilhoso, uma família fantástica, uma profissão que me realiza, as coisas estão fervilhando lá fora e vou aproveitar o dia lindo que está fazendo (pode até estar nublado e chovendo...) .

Mas a gente também pode olhar no espelho e o nosso mundo entrar em colapso. E aquele sentimento maravilhoso de plenitude pelo atraso menstrual ser tomado um vazio devastador. E a gente se detesta por ter embarcado novamente naquela fantasia que já nos fez sofrer tantas outras vezes. Sentimo-nos umas verdadeiras imbecis. O mundo fica preto e branco. A vontade é de desaparecer dentro de um buraco. De não ver ninguém, de não falar com ninguém. De sermos consumidas pela tristeza ou pela raiva .

Sim, quando sofremos a dificuldade de gravidez, essas duas personalidades habitam nosso ser. Ora somos uma, ora somos a outra. O importante é não escondermos o sol com a peneira e nos respeitarmos. Se a vontade é de chorar, pois que choremos muito. Se a vontade é de afogar a tristeza num porre, que enchemos a cara (eventualmente, não faz mal a ninguém). Se a vontade é de esmurrar a porta, que esmurremos. Se a vontade é de gritar ao mundo que sim, estamos muito tristes pela gravidez que não vem, que escrevemos isso com letras garrafais nos céus.

Tudo isso é permitido. Só não é permitido fingir para nós mesmas que tudo está bem, quando na realidade está tudo péssimo. Temos que aprender a zerar, a esgotar o que não nos faz bem. O coração tem que estar livre das mágoas e das tristezas para receber o imenso amor incondicional que é a maternidade.   

Escrito por Cláudia Collucci às 10h50

Um oi de Copenhague

Queridas, estou em Copenhague (Dinamarca) cobrindo o congresso da Sociedade Europ'eia de Diabetes. Muitas coisas legais acontecem por aqui, mas, o que mais nos interessa é a questão do uso da Metformina pelas mulheres com Síndrome dos Ovários Policísticos. Falei com vários endocrinologistas e eles são unânimes em dizer que só devem tomar esse antidiabético as mulheres que, comprovadamente, têm resistência à insulina. Não há estudos que mostrem se o remédio é seguro às pessoas que não têm resistência à insulina. Fica mais uma vez o registro.

Ah! Preciso contar uma cena inacreditável que vi hoje por aqui, no centro de Copenhague: uma mulher entrou na padaria e deixou o carrinho do bebê do lado de fora, na calçada: sozinho e com o bebê (louro e de olhos azuis, claro) dentro. Ela ficou exatamente dez minutos lá dentro e o bebezinho (de no m'aximo uns quatro meses) sozinho lá fora. Fiquei paralisada e não resisti: quando ela saiu, fui perguntar se ela não tinha medo de deixar o seu filho sozinho, na rua. Ela disse que não há motivo para medo por aqui, que todas as mães fazem o mesmo. Alegou que o lugar  é pequeno (não acaberia o carrinho) e que ela não queria acordar o bebê.

Depois, em um rápido passeio por um parque em Copenhague também notei várias crianças pequenas, três ou quatro anos, brincando sozinhas com grupos de outras crianças bem longe das vistas das mães, que, em grupo, conversam sentadas num banco. Meu deu um misto de apreensão e de inveja, confesso. Fiquei pensando se eu sou muito neurótica e as mães dinamarquesas, desencanadas. Por fim, conclui que essas mães e seus bebês é que têm sorte de viver num país sem violência, sem medo. Beijos e até a volta. 

Escrito por Cláudia Collucci às 13h05

Cadastro de embriões: muita polêmica à vista

Não sei se vocês estão acompanhando a proposta da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de regulamentação de um cadastro para os embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no procedimento. A consulta pública, para críticas e sugestões, ocorreu até o último dia 26. Pelo regulamento, os embriões receberão um código nacional, que representa sua identificação única em todo país. Segundo a Anvisa, esse código, que deve acompanhar o embrião do seu congelamento até a sua utilização, deverá conter o estado de origem, o número do registro no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) da clínica de reprodução humana assistida e a identificação de cada embrião.

O tal código vai integrar o Sistema Nacional de Cadastro de Embriões (SisEmbrio), cuja criação e manutenção será de responsabilidade da Anvisa. O sistema reunirá todas as informações sobre os embriões produzidos por fertilização in vitro e não-utilizados nos respectivos tratamentos, tais como data do congelamento, sua viabilidade e disponibilidade. Também deverão ser informados dados referentes à liberação para implantação, pesquisas autorizadas e transporte do embrião, quando necessário, para armazenamento em outra instituição.

Uma rápida espiada na proposta da Anvisa nos leva a crer que quem auxiliou a agência na elaboração do texto da resolução precisa conhecer um pouco melhor o mundo da reprodução assistida. Vamos aos problemas:

1 - Muitos dos embriões congelados têm "pais", ou seja, são casais que não conseguiram engravidar no ciclo "a fresco" (em geral, porque a mulher sofreu hiperestimulação ovariana) e pretendem tentar novamente com os embriões congelados. Ou são casais que já tiveram seus filhos, que ainda não decidiram o que fazer com os embriões restantes e que, em geral, pagam para mantê-los congelados. Ou seja, o fato desses embriões não terem sido utilizados não significa que estão disponíveis. Poderia a Anvisa determinar o seu registro no SisEmbrio sem autorização dos "donos"?

2 - O texto da resolução fala em cadastrar embriões inviáveis? O que seria embrião inviável para a Anvisa? O fato de estarem congelados há mais de três anos não os tornam inviáveis para a reprodução. Já temos notícias de gravidezes com embriões que estavam há mais de dez anos congelados. A Anvisa também considera embrião inviável aquele que teve seu desenvolvimento interrompido por ausência de divisão celular. Ora, todo mundo sabe que as clínicas nem chegam a congelar o embrião que não têm capacidade biológica para gerar uma vida. Ou será que a Anvisa considera como "inviável" o embrião que não passou no teste de diagnóstico pré-implantacional, ou seja, aqueles que apresentam malformações incompatíveis ou não com a vida. Também é fato que, hoje, muitos casais que fazem esse teste autorizam o descarte dos seus embriões mesmo que as malformações sejam compatíveis com a vida, como a Síndrome de Down. Esse, aliás, é um outro vespeiro que voltaremos a falar brevemente.     

3 - As clínicas de reprodução, em nenhum lugar do mundo, congelam embriões separadamente. Em geral, são congelados até quatro embriões em uma mesma palheta. Segundos médicos, se houver a obrigatoriedade de se congelar embriões separadamente, em palhetas diferentes, vai aumentar muito a exposição deles às soluções crioprotetoras e não há segurança de que isso não cause efeitos deletérios, ou seja, que se tornem inviáveis para qualquer coisa.

4 - Do que jeito como foi elaborada, a resolução prejudica o anonimato dos doações de embriões congelados, pois acaba levando a um registro civil desse embrião, caracterizando-o quase como um indivíduo. Ou seja, abriu-se aí um novo paradigma. Então, para a Anvisa, o embrião é uma vida?

Penso que seja extremamente útil uma regulamentação nessa área porque, muitas vezes, algumas atitudes me lembram a "casa da mãe joana" (não vou generalizar; tem muita clínica séria, mas existem outras...). Porém, convenhamos, é preciso que essa resolução seja elaborada de forma responsável e, mais do que isso, por pessoas que entendam de verdade desse mundo da reprodução assistida. Temos ótimos profissionais no Brasil, ligados a universidades públicas de renome, muitos dos quais dão aula no exterior sobre a área. Também penso que nenhum passo deve ser dado sem consultar primeiro os responsáveis por esses embriões, ou seja os casais. Bom, eu acho que esse tema ainda vai dar pano para manga, mas aconselho quem já fez FIV e possui embriões congelados ou quem ainda pretende fazê-la (e, sendo assim, corre o risco de vir a ter embriões congelados) que acompanhe de perto essa polêmica. 

 

Escrito por Cláudia Collucci às 17h07

Nossos genes, nossos filhos

Queridas (os), depois um sumiço rápido devido ao excesso de trabalho, viagens, etc, cá estou de volta. Hoje, quero falar um pouco de adoção, um tema que, coincidentemente, tem estado presente na minha vida nas últimas semanas.

Recebi pelo menos cinco mensagens de leitoras relatando o feliz processo de adoção pelo qual passaram, participei de uma banca de avaliação do Cebrap sobre um projeto de pesquisa cujo tema dialoga com reprodução assistida e adoção e, por último, fui convidada a escrever o prefácio de um livro de uma leitora que conta sua história de mãe adotiva de uma linda garotinha e mãe biológica de um garoto muito fofo. Isso sem contar a novela "Páginas da Vida" que tem abordado o tema de uma forma muito eficaz, na minha avaliação.

Mas vamos primeiro às mensagens. Uma das leitoras, Juliana, permitiu-me a dividir com vocês a história dela:

"Meu nome é Juliana, li vários testemunhos na sua coluna da Folha e gostaria de compartilhar a minha experiência nestes tão especiais 10 meses. Há dois anos atrás, meu marido fez seu último espermograma que teve como resultado esterilidade (0% de espermatozóides vivos). Foi diagnosticada esterilidade sem causa aparente ou congênita. Estávamos casados havia dois anos, fomos a vários especialistas e a partir daí optamos pela adoção. Por motivos morais, religiosos e por produção 0 de espermatozóides viáveis nunca optamos por qualquer ajuda artificial. Depois de nove meses de entrada na papelada no fórum veio o nosso filho. O JP veio com um dia de vida, lindo, perfeito. Foi maravilhoso esperar a vinda dele (sabíamos que a corajosa mãe bio, escolheu o melhor para seu filho quando ele ainda tinha cinco meses intrauterinos). Gestei o JP de coração, fiz enxoval, pintei o quartinho e preparei tudo para sua vinda _Neste momento enquanto compartilho com você esta experiência, olho pra ele deitado em minha cama dormindo como um anjo, tão maravilhoso. Quando está acordado não é tão anjinho não, tá muito levado com seus 10 meses_. Bem, quando ele estava com 9 meses, me descobri grávida! Como poderia ser? A ciência estava errada? Bem, não conseguimos achar uma resposta. Ficamos muito felizes eu e meu marido. Agora nosso filho teria um irmãozinho (a). Só que ao completar 6 semanas tive um aborto e infelizmente perdemos nosso segundo filhinho (possível ovo cego). Neste último mês me vi grávida, coisa que jamais poderia pensar com o resultado dos exames. Foi uma experiência tão maravilhosa quanto ao receber meu bebê num saguão de hotel (quando buscamos o JP). Uma experiência curta mas que concretizou em meu coração uma certeza ... a de que não há diferença no amor que eu senti por meus dois filhos. Digo isso porque gostaria de incentivar a adoção. É algo maravilhoso e inexplicável. Amar sem restrições."

O relato da Ju é uma prova de que viver a maternidade de uma forma plena independe de gestar um filho biológico na barriga. Não são os mesmos genes presentes naquele pequenino organismo que nos fazem sentir mais ou menos mães. É a vocação para a maternidade e, como diz a Ju, aprender a amar sem restrições. Mas a coisa não é tão simples.

No estudo que mencionei acima, houve um dado bem interessante observado pela pesquisadora. Também na adoção o casal tende a procurar um filho parecido com suas características biológicas. Daí a imensa preferência por brancos ou, no máximo, por pardos. Muitos alegam que essa opção é para que a criança não seja discriminada. Será mesmo? Ou será que estavamos pensando ainda  na nossa transcedência? E, se assim o for, quem poderá prejulgar como certa ou ou errada essa atitude? 

Existe hoje um movimento grande para a adoção de crianças negras, deficientes ou mais velhas, que, em geral, são as mais excluídas do processo. Creio que o país ainda está longe de conseguir essa meta. Preconceito? Medo da exposição? Vergonha? São tantos os sentimentos que permeiam essas questões que qualquer avaliação seria superficial. Mas torço muito para que a fila das crianças "rejeitadas" ande. Não porque as pessoas se tornaram mais caridosas ou coisas do gênero. Mas porque aprenderam a amar incondicionalmente. Como uma mãe.

Escrito por Cláudia Collucci às 10h53

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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