Coisas de americanos

Para nós, a cena acima parece quase impensável: uma reunião de famílias que fizeram reprodução assistida e tiveram filhos nascidos por meio do sêmen de um único doador. Não parece cena de filme de ficção?

Mas não é. O caso real aconteceu no mês passado em Asheville (EUA). Tudo começou quando Rebecca Biggers, dona de um salão de beleza, viu pela TV a notícia sobre a criação de um site www.donorsiblingregistry.com através do qual filhos gerados por meio da doação de sêmen de um único doador pudessem se encontrar e trocar experiências. Ela decidiu então que, junto com a sua companheira Michelle Knight, encontraria os "meios-irmãos" da sua filha, Remi, 2, gerada com esperma doado em uma clínica de reprodução americana.

O ponto de partida foi procurar, pela Internet, pessoas que haviam utilizado sêmen do California Cyobank, um dos mais conhecidos bancos de esperma dos EUA, mais especificamente de um determinado doador: um francês, que gosta de equitação, animais e corrida, que diz ter inteligência acima da média, que é alto, esguio, com cabelos castanhos escuros e ondulados. Essas eram características que constavam na ficha do doador que fica no banco de sêmen. É por meio dela que o casal escolhe o doador de esperma.

Daí em diante foi fácil. Em poucos meses, cinco crianças _entre 1 e 3 anos_ geradas com o sêmen do doador francês foram encontradas por Bigger na California, no Texas e no Tennessee. As famílias decidiram então tirar "férias" de uma semana e se reunir em duas casas alugadas na região de Asheville. Foi a maior festa, com cobertura da imprensa e tudo!

A choradeira começou já no aeroporto. Todos ficaram emocionados de ver, reunidos, cinco "meio-irmãos" que, em circunstâncias normais, jamais iriam se encontrar. Os cinco têm traços em comum: o mesmo queixo, os mesmos olhos verdes e grandes. Agora, as famílias pretendem se ver pelo menos uma vez por ano. “Eu chorei a semana toda. Cada uma dessas crianças têm uma pequena parte da outra. Seria muito egoísmo da nossa parte de privá-las de conhecer seus 'meio-irmãos'."

Eu concordo com essa última frase da Rebecca, apesar de ter consciência de quão polêmico e de foro íntimo é esse tema.  Particularmente, penso que todos nós temos o direito de conhecer a nossa história desde o início. Porém, entendo e respeito quem pensa de outra forma.

O fato é que, com a internet, o anonimato das doações de sêmen e de óvulos está ameaçado. Mesmo que não se revele nomes ou endereços dos doadores, só as informações sobre suas características e o local onde foi feita a doação bastam para uma busca na internet, ainda mais quando se tem um serviço organizado como o americano. Desconheço que hajam movimentos parecidos no Brasil, mas não acho nada impossível que, em breve, essa "moda" americana de se buscar os "meio-irmãos" da reprodução assistida encontre adeptos por aqui também.

Escrito por Cláudia Collucci às 16h33

Luz no fim do túnel

Já começo a receber e-mails de leitoras tristes com as festas natalinas que se aproximam. Sim, de novo, teremos um Natal e o presente que tanto desejamos ainda não estará nos nossos braços. Por mais equilibradas que sejamos _ou tentamos ser_, não tem como não viver essa dor. E também são inevitáveis os "por quês?????". Mas, penso eu, sempre existe luz no fim do túnel _e não é a do trem (rs)_ basta estarmos com o coração aberto para percebê-la.

Às vezes, uma palavra expressa um pouco desta luz. É o caso da mensagem que reproduzo abaixo. Ela foi escrita pela querida Denise Lage, que, após sete FIVs frustradas, adotou uma menina, e depois, na oitava FIV, engravidou e deu à luz a um menino. Leiam:

"DEUS NUNCA DEIXA NINGUÉM SEM FILHO. Basta que nos sintonizemos com seus planos. Eu fiz 7 FIVs antes de adotar minha menina. Mas meu coração já sabia que não dariam certo. Eu sabia que minha filha vinha de outra barriga. Dito e feito. Quando parti para a adoção, fiquei apenas 5 meses na fila. E na primeira FIV após minha menina chegar; POSITIVO!

Meu menino está com 1 ano e 10 meses, é alegre e carinhoso como nunca vi qualquer criança. Me abraça e diz: "MAMÃEZINHA QUELIDA!"...como se soubesse como foi desejado, esse anjo que desceu do céu. Quando o negativo vier, fiquem tristes, sim! Mas só na hora...depois, levantem a cabeça e sigam em frente na busca da maternidade. No futuro, vocês vão ver que TUDO É UMA QUESTÃO DE TEMPO DETERMINADO. E cada uma aqui, tem seu tempo. Acreditem em vocês!"

E por falar na Denise, ela acaba de lançar um livro muito interessante. Em "Receitas de um Coração de Mãe", ela dá dicas de como melhorar o relacionamento de mães e filhos, entre outras cositas. Fiz o prefácio do livro e o dr. Eduardo Mota, a apresentação. Quem tiver interesse, a venda pode ser feita por meio do site da autora
www.saborfelicidade.theblog.com.br, ou pelo e-mail: docelivro@uol.com.br. O livro custa R$ 14,90.

Escrito por Cláudia Collucci às 15h05

A chegada da "super ICSI"

 

SUPER-ICSI

Olhem bem as imagens acima e notem a diferença. O que vocês vêem são espermatozóides. No quadro da esquerda, aparece o gameta aumentado em 400 vezes, tal como como ele é visto nos microscópios instalados nas clínicas de reprodução que oferecem a ICSI. No quadro da direita, os espermatozóides são vistos por meio de uma lente de aumento seis mil vezes mais potente. Neste fim de semana, participei de um simpósio internacional de reprodução humana, realizado pela clínica do dr. Franco Júnior, em Ribeirão Preto, e a "super ICSI" foi um tema de destaque, apresentado pelo cientista italiano Severino Antinori. Sim, aquele mesmo polêmico, que diz ter criado três clones. Leiam a entrevista que fiz com ele e que foi publicada no "Cotidiano" de domingo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1211200611.htm 

Para quem não está muito familiarizado com os termos, ICSI quer dizer "injeção intracitoplasmática de espermatozóide". É uma técnica belga, criada em 1992, através da qual um único espermatozóide é introduzido no óvulo. É indicada especialmente quando o fator de infertilidade é masculino. Em geral, esse procedimento é realizado utilizando um microscópio que permite a visualização do espermatozóide com um aumento de 400 vezes. Hoje, uma das hipóteses que explicariam as falhas de embriões viáveis e as taxas de abortamento precoce na ICSI são os danos no DNA dos espermatozóides. Algumas pesquisas já demonstraram que os danos no DNA estão correlacionados diretamente com a presença de vacúolos na cabeça dos espermatozóides que, dificilmente, são vistos com atuais lentes.

A novidade agora é a "super ICSI" (o nome foi dado pelo dr. Franco Júnior que começou a usar a técnica neste mês). Por meio de um sofisticado sistema de lentes de amplificação de imagens, os espermatozóides são vistos com um aumento de 4.000 a 6.000 vezes. Isso permitiria a visualização com segurança dos vacúolos. Em estudos comparativos, pesquisadores israelenses e franceses verificaram que, com a antigo ICSI, as taxas de gravidez obtidas eram de 25%. Com o "super-ICSI" as taxas de gestação atingiram 60% em casos de alterações do esperma.

O resto da técnica continua o mesmo. Ou seja, o que muda é que, com melhores lentes, os espermatozóides são mais bem selecionados, melhorando os resultados do tratamento. Pareceu-me lógico, mas ainda aguardo estudos mais abrangentes sobre o custo X benefício da "super ICSI". Perguntei ao Severino Antinori se, com essa nova "roupagem", a ICSI se torna mais segura. Afinal, já cansamos de ler estudos mostrando que, nessa técnica, há 50% mais chances de má-formações fetais em comparação com as taxas que já ocorrem nas gestações espontâneas. Ele respondeu que serão necessários mais estudos, mas acredita que sim, os índices de má-formações devem cair. Para ele, os problemas ocorrem justamente por falhas na seleção dos espermatozóides.

Mas atenção: os médicos dizem que a "super ICSI" estaria indicada apenas para casos selecionados, por exemplo, casais que tiveram sucessivas falhas no tratamento. Isso porque o custo do procedimento é alto, especialmente no que diz respeito ao fator tempo. A seleção de espermatozóides com as atuais lentes, por exemplo, demoram em média 40 minutos. Com essas que aumentam até 6.000 vezes, cada análise demora de duas ou três horas. Por dia, uma clínica de reprodução bem conceituada chega a fazer de sete a oito ICSI, o que significaria deixar a equipe de biólogos/laboratoristas quase 24 horas no ar fazendo seleção de esperma.

A impressão que tenho é que realmente há coisas básicas a se resolver na reprodução assistida, como "enxergar" melhor os gametas (óvulos e espermatozóides) que estão sendo usados em uma FIV ou ICSI. Eu que estudo há pelo menos sete anos essa área, não fazia idéia de que a visão atual dos espermatozóides era tão "míope".  

Escrito por Cláudia Collucci às 16h29
 

Papai do céu

Como você já sabe, hoje é o meu aniversário. E só tenho a agradecê-lo por cada instante da minha vida. Pela minha ótima saúde, pela minha maravilhosa família, pelos meus encantadores amigos e amigas, pelo meu amado marido e pela profissão que sempre sonhei.

Também quero agradecê-lo pelas pedras que você tem colocado no meu caminho. Elas têm me transformado em um ser humano melhor, mais compreensivo, mais tolerante, mais humilde e mais cônscio dos meus limites.

Elas têm me feito enxergar que as coisas não acontecem apenas porque desejamos ou batalhamos por elas. Mas porque existe uma certa lógica invisível nos acontecimentos, ainda que não a compreendamos.

Isso não quer dizer que eu simplesmente aceite essas pedras. O tempo todo, minha luta é para tirá-las do meu caminho porque, confesso, tenho dificuldades em lidar com elas. Afinal, não sou uma escorpiana por acaso.

Não sei as surpresas que você me reserva para o próximo ano, mas, se for possível, peço-lhe apenas que me dê forças para não desistir nunca dos meus sonhos. Peço-lhe que, a cada dia, renove as minhas esperanças e a minha crença de que o maior milagre é a vida. E que devo agradecê-la a cada despertar.

E, se este for o momento para eu ser mãe, que me traga a tranqüilidade e paz para gerar e dar à luz a um bebê sadio. Mas, ainda que com toda a ajuda da ciência a gestação não estiver nos seus planos, que me traga a mesma tranqüilidade e paz para adotar um bebê. O meu coração não faz distinção e está aberto para aceitar o que tiver que ser.  À benção, papai do céu.

Escrito por Cláudia Collucci às 13h47

"Quero ser mãe"

Há exatos seis anos, saía do forno meu primeiro livro "Quero Ser Mãe", uma obra que conta histórias de casais que recorreram à reprodução assistida. Foi a primeira vez que mergulhei nesta fascinante área e dela nunca mais saí. Naquela época, nem sonhava em ser mãe. Recém-chegada a São Paulo, o que importava era minha carreira profissional e acadêmica. O livro foi escrito por sugestão do meu conterrâneo, dr. José Gonçalves Franco Júnior, que me alertou da lacuna que havia no mercado editorial brasileiro.

As pacientes se queixavam da necessidade de ler histórias de pessoas que passavam pelo mesmo problema. Topei a empreitada de cara e, durante dois meses, tirei uma licença no jornal e viajei o país entrevistando os casais. Foi uma experiência inesquecível! Chorei, ri, emocionei-me muito. E, para fechar com chave de ouro, consegui uma entrevista exclusiva com a Fátima Bernardes contando como foi o tratamento e a gravidez dos trigêmeos.

Após o lançamento do livro, comecei uma coluna na Folha Online e depois, este blog. Seis anos se passaram e, neste período, coleciono quase 20 mil mensagens e meio milhão de acessos no blog só neste ano. Sem contar o fórum de discussão sobre infertilidade do UOL que nasceu e cresceu junto com coluna e hoje, para minha alegria e orgulho, ganhou suas próprias asas.

Por essas e outras tantas razões, tenho um carinho imenso pelo livro "Quero ser mãe", o berço de todo esse trabalho. Infelizmente, problemas com a editora fizeram com que ele não ganhasse novas edições. Somente agora, meu contrato com a antiga editora chegou ao fim e eu estou livre para negociá-lo com outras empresas. Mas, independentemente do que reserva o futuro, fiz um acordo com a antiga editora e, em troca dos direitos autorais que me eram devidos, recebi os últimos 50 exemplares, que estavam em poder de distribuidores pelo país.

Assim que recebi o pacote, decidi presenteá-los a uma amiga que acompanhou toda essa trajetória e hoje passa por dificuldades financeiras. Minha idéia é que ela comercialize e fique com a renda da venda desses livros. Algumas de vocês a conhecem. É a nossa guerreira Odete, que, depois de mais de dez anos de luta, neste ano, realizou o sonho de ser mamãe. Acho que meus livros não poderiam estar em melhores mãos. Portanto, quem tiver interesse em adquirir um exemplar, pode contatar diretamente a Odete pelo celular 11-99864766. O e-mail dela danngab22002@yahoo.com.br está com problemas, portanto, o melhor caminho é mesmo via celular.

Escrito por Cláudia Collucci às 21h51

A aceitação da dor

Há dias que, assim como os céus de São Paulo em tardes de tempestade, nossa vida se transforma em um breu. A gente olha para os lados, procura aquela fé, aquele otimismo que sempre nos acompanha e não encontra nada. A não ser um imenso vazio, uma melancolia que parece não ter fim.

Ao nosso redor, tudo continua da mesma forma. O nosso emprego está garantido, continuamos amando e sendo amadas e os nossos amigos estão ali para o que der e vier. Mas nada disso parece importar. Qual uma marca d’água, a tristeza parece intrínseca à alma.

E a gente se incomoda com isso. Se cobra por achar que não há motivos para o baixo astral. Que, apesar dos pesares, nossa vida é ótima. Mas que tolice essa mania de não aceitar as trevas da nossa vida! Felizes são aqueles que conseguem aplicar o princípio da dualidade do Yin e Yang, representado pelo símbolo chinês do Taiji Tu.

Diagrama do Taiji Tu (太極圖)O diagrama do Taiji simboliza o equilíbrio das forças da natureza, da mente e do físico.  O preto e o branco integrados num movimento contínuo de geração mútua representam a interação destas forças.

Segundo esse princípio chinês, duas forças complementares compõem tudo que existe, e do equiliíbrio dinâmico entre elas surge todo movimento e mutação. Essas forças são o Yin _o princípio passivo, feminino, noturno, escuro, frio e o Yang _ o princípio ativo, masculino, diurno, luminoso, quente.

Os exemplos não incluem qualquer juízo de valor e não há qualquer hierarquia entre os dois princípios. Assim, referir-se a Yin como negativo apenas indica que ele é negativo quando comparado com Yang, que será positivo. Ou seja, os opostos complementam-se; positivo não é bom ou mau, é apenas o oposto complementar do negativo.

Como já comentei com vocês, sou simpatizante do budismo e, na medida do possível, tento aplicar os seus princípios no meu dia-a-dia. Mas, ao mesmo tempo não posso negar as minhas raízes judaico-cristãs. E essa história de aceitar a dor, seja ela pela dificuldade de gravidez ou por doença ou morte de alguém muito querido, transforma-se numa tarefa bem difícil. Às vezes, quase impossível. Nesta semana estou assim: dolorida.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h29

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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