A gravidez e seus mistérios

A atriz Julia Roberts, 39, acaba de anunciar que está grávida de seu terceiro filho com o câmera Danny Moder. O casal já tem os gêmeos Phinnaeus Walter e Hazel Patrícia, de 2 anos. Na época, houve boatos de que os bebês seriam frutos de uma fertilização in vitro. Os sites especializados na vida das celebridades comentam que a notícia foi uma surpresa para pessoas próximas dos dois, já que Julia teve dificuldade para engravidar a primeira vez.

Não vejo mais surpresa neste tipo de notícia. Foi assim também com a igualmente famosa Brooke Shields e com tantas outras anônimas que já relataram suas histórias neste blog. Coincidentemente, na semana passada encontrei uma colega, repórter da Globo, também grávida do terceiro filho. A gravidez do primeiro foi por meio da FIV e dos outros dois, de forma natural.

E aí vem a inevitável pergunta: por que tantas mulheres sofrem dificuldades para engravidar do primeiro filho e depois os caminhos da maternidade se abrem?

Às vezes, se abrem tanto que precisam ser "fechados". Uma leitora contou-me recentemente a seguinte história: Durante cinco anos, ela fez quatro FIVs. Na última, aos 41 anos, o médico sugeriu que ela tentasse a gravidez com óvulos doados para melhorar as chances de sucesso. Ela insistiu em fazer com seus próprios óvulos e engravidou de gêmeos.

Um ano depois engravidou naturalmente e pediu para fazer uma laqueadura porque o número de filhos ficou muito além do que ela e o marido planejaram, além do fato de ela já ter 44 anos.

Há muitas hipóteses que poderiam explicar esses casos. Um deles seria o "desbloqueio psicológico" possibilitado pela gravidez do primeiro filho. Uma situação semelhante é aquela em que a mulher engravida após adotar um filho. Outra hipótese seria que a primeira gravidez "ajustaria" o organismo para futuras gestações. E assim por diante.

Desconheço estudos científicos que expliquem esses casos, mas creio que eles nos mostram que há aspectos emocionais no processo de gravidez subestimados pelos médicos, especialmente quando se trata da Esca (esterilidade sem causa aparente).

Por isso, considero o acompanhamento psicológico fundamental nos casos de dificuldade de gravidez. Muitos homens e mulheres apresentam questões, conscientes ou inconscientes, que podem bloquear o que tanto desejam, ou seja, a gravidez. Tocar nessas feridas não é um processo fácil e tampouco rápido. É preciso, sobretudo, coragem para falar dos medos mais íntimos, dos fantasmas mais intrínsecos.

Mas, vencida a resistência natural de nos expormos, o resultado costuma ser renovador. Que 2007 seja um ano muito fértil em todos os aspectos da nossa vida. E um brinde à nossa resistência!

Escrito por Cláudia Collucci às 15h42


Alimentar a esperança

Mais um Natal, mais um fim de ano. Para muitas de nós, bate aquela inevitável angústia por conta do tão sonhado bebê que ainda não veio. Neste ano, porém, não vou me estender na descrição desta dor porque todas nós a conhecemos muito bem. Dispensa apresentações. Quero aproveitar a data para lembrar de várias amigas, leitoras assíduas deste blog, que, depois de muita luta, vão passar este fim de ano com seus bebês no colo ou com eles já na barriga.

São histórias comoventes como também são as nossas. E a principal lição que deve ser extraída é do não abandono do sonho de ser mãe. Sim, os tratamentos de reprodução assistida são caros, desgastantes, agridem o nosso corpo e, muitas vezes, a vontade é de desistir. E não são poucas as que desistem de lutar por um filho biológico. Partem para a adoção ou então encontram outras formas de exercer a maternidade. Respeito e acredito veemente que todos os caminhos são válidos e realizadores. Desde que guiados pelo coração.

Histórias como a nossa guerreira Odete, mais de uma década na luta por um filho e que hoje embala o seu Ricardinho, ou da Cris que já tinha recebido a sugestão médica de tentar a gravidez com óvulos doados e hoje, aos 43, está grávida do segundo filho (os dois, de forma natural), ou da Ivy que engravidou após um tratamento com a medicina tradicional chinesa e tantas outras que agora me fogem à memória são combustível mais do que suficiente para deixar a nossa chama da esperança acesa.

Tenho certeza de que a nossa vez vai chegar, de uma forma ou de outra. Por meios naturais, pela reprodução assistida ou através da adoção. Só não podemos alimentar a desesperança. Sim, ela está sempre à nossa espreira. A cada Beta HCG negativo, a cada menstruação. E é comum nas datas festivas que se aproximam essa dor ficar ainda mais exarcerbada. Talvez porque, em razão de fatores culturais, no nosso inconsciente já está impressa aquela imagem de família feliz, com pais e filhos reunidos embaixo da árvore de Natal. E quando não conseguimos reproduzir esta imagem, dá uma sensação de vazio enorme. Dias desses, uma amiga solteira, na faixa dos 40 anos, me falava dessa angústia sob um outro ponto de vista. Ela já não pensa em ser mãe, mas queria muito ter um companheiro do seu lado.

Muitas de nós já temos esse companheiro, homens com H maiúsculo que estão do nosso lado para o que der e vier. E que, muitas vezes, são deixados de lado nessa luta pela gravidez porque, é comum, encaramos essa batalha como se ela pertencesse apenas a nós mesmas. E um fosso vai se formando na relação. É por essas e outras que tantos casamentos acabam após o nascimento do tão sonhado filho. É claro que, outras vezes, o buraco já existia e ficou ali camuflado, à espera de que filho pudesse tampá-lo. Triste ilusão.

Amigas, o momento é de respirar fundo. Primeiro passo: tomar um banho de purificação e limpeza (ferva dois litros de água e junte folhas de eucalipto, alecrim, arruda e sal grosso. Desligue o fogo e deixe em infusão até atingir a temperatura desejada. Depois, é só tomar o banho do pescoço para baixo). Segundo passo: ficarmos lindas e perfumadas para confraternizar com a família e os amigos. Terceiro passo: não esquecer do enorme sorriso nos lábios. Não de fingimento. Mas porque, apesar de a vida ainda não nos ter dado o presente que tanto desejamos, ela nos oferece, a cada dia, mil outras razões para ser feliz. Um beijo e um feliz Natal para todas vocês. E que 2007 seja o ano da visita da cegonha para todas nós!!! 

Escrito por Cláudia Collucci às 15h48

Casais querem embriões com mal genético

Essa é surpreendente. Casais com doenças decorrentes de problemas genéticos têm procurado as clínicas de reprodução para... gerarem filhos também com problemas genéticos. Uma pesquisa que sondou 190 clínicas de reprodução assistida nos EUA revelou que 3% delas já haviam selecionado embriões com defeitos genéticos, a pedido de casais, para uso em tratamentos de fertilização in vitro. A divulgação do levantamento foi feita pelo médico Darshak Sanghavi, em artigo escrito para o jornal "The New York Times" no último fim de semana.

O procedimento tem sido solicitado por casais com defeitos genéticos, como nanismo e surdez hereditária. Eles recorrem ao diagnóstico genético pré-implantação (PGD, na sigla em inglês), usado até então para evitar que as crianças nasçam os problemas genéticos. Agora, a intenção é inversa: selecionar embriões que carregam o gene da surdez ou do nanismo, por exemplo, e descartar os embriões "saudáveis".

Ter filhos com o mesmo tipo de deficiência, alegam esses casais, seria uma forma de tornar as crianças mais próximas dos pais. O estudo citado por Sanghavi, liderado pela pesquisadora Suzana Baruch, da Universidade Johns Hopkins, reflete uma tendência de casais a tratar suas anomalias genéticas mais como traços culturais do que como doenças. O estudo não deixa claro se esses casais tinham algum problema de fertilidade ou se recorreram à reprodução assistida para, deliberadamente, terem seus filhos de acordo com sua preferência.

Não faço idéia se fatos semelhantes estão acontecendo também no Brasil. Até onde sei, o diagnóstico pré-implantacional tem sido utilizado largamente por mulheres acima dos 40 anos (às vezes, até antes) e também estão sendo descartados embriões com doenças compatíveis com a vida (síndrome de Down), por exemplo, e aqueles com sexo não desejado pelo casal (o que chamamos de sexagem).  

Apesar de acreditar que a escolha de um tratamento de reprodução seja de foro íntimo do casal e de não me surpreender mais com as barbaridades éticas que acontecem nessa área, essa revelação me deixou de cabelo em pé. Na minha avaliação, a "seleção negativa" de embriões representa o desvirtuamento da técnica da PGD. Também vou precisar de muito mais argumentos para me convencer de que a surdez e o ananismo são "traços culturais" e não doenças. E me pergunto: os pais dessas crianças têm o direito de fazer essa escolha por elas?

Escrito por Cláudia Collucci às 15h27

A vontade do embrião

Embriao em desenvolvimento.O título acima pode soar meio estranho, mas estou certa de que ele faz algum sentido. Sei que é díficil a gente imaginar que um embrião, serzinho com pouco mais de uma centena de células, pode ter vontade própria, ainda mais se tivermos uma visão absolutamente cartesiana de mundo. Porém, carrego comigo a idéia de que o embrião tem sim uma certa autonomia. E, surpreendentemente, descobri nas últimas semanas que alguns médicos e psicólogos também comungam dessa mesma hipótese.

Vamos aos fatos: por que muitas vezes um embrião tecnicamente perfeito, segundo os padrões médicos, não se implanta no útero ou interrompe o seu desenvolvimento nas primeiras semanas de gestação?

E por que embriões e fetos submetidos a cruéis tentativas de abortos sobrevivem são e salvos?                                                                                                                                                                                                         

Os mais céticos podem dizer que se trata de coincidência ou de questões relacionadas à fisiologia que não ainda não podem ser explicadas pela tecnologia atual. Dezenas de pesquisas estão sendo feitas pelos centros de reprodução mais renomados do mundo tentando desvendar qual o mistério da não-implantação de embriões tidos como excelentes. Por outro lado, casos de bebês que sobrevivem a situações das mais inóspitas possíveis dificilmente são objetos de pesquisas, mas surpreendem até mesmo os mais incrédulos profissionais da medicina.

Dias desses, uma obstetra contava o caso de uma mãe que tentou abortar uma gestação de pouco mais de 12 semanas. Ela usou 30 Citotecs (oral e vaginal). Como não obteve o sangramento esperado, enfiou uma agulha de tricô que quase perfurou o útero. Sofreu uma hemorragia gravíssima, ganhou uma infecção terrível e, ainda assim, o bebê sobreviveu. E nasceu perfeito, sem nenhuma seqüela, para a surpresa da equipe médica que atendeu o caso. Já entrevistei muitas mulheres que passaram por situações semelhantes e nem elas próprias acreditavam como o bebê pôde sobreviver e nascer saudável.

É por essas e outras razões que fica difícil a gente não supor que, sim, os embriões e os fetos têm vontade própria. E, quando se trata da vida, a impressão que tenho é que alguns se agarram a ela de forma atávica, como se estivessem predestinados a nascer, custe o que custar.

Por outro lado, seguindo esse mesmo raciocínio, por que há embriões que "não querem viver"? Os mais espiritualistas diriam que ainda não é chegada a hora deles e que, portanto, não há razão para eles desejarem viver. Outros diriam que todo ser humano, desde o momento em que é gerado, caminha para morte. Sim, faz parte do ciclo da vida ser gerado, nascer, viver e morrer. Assim, eles estariam só "encurtando" o caminho. E os mais pragmáticos diriam simplesmente que eles morrem porque não têm condições morfológicas ou genéticas de continuarem vivos.

Muitos podem achar uma tremenda bobagem isso tudo, mas, para quem tem visão holística do mundo (e eu me incluo nessa), a hipótese da autonomia do embrião faz sentido. E, ao mesmo tempo, tira um pouco do peso que invariavelmente recai sobre a mulher quando o assunto é a dificultade de gravidez. Seja porque há um problema de saúde específico, seja porque está em uma idade tardia para a maternidade, seja por qualquer outro motivo, lá está a culpazinha impregnada na alma.

Mas vocês já pararam para pensar quantas mulheres engravidam nas situações mais inacreditáveis possíveis, naquelas em que até os médicos dizem se tratar de um milagre? Pois eu conheço dezenas dessas histórias. E aí fico pensando: ou elas acontecem porque, realmente, há muitos milagres ou, parafraseando William Shakespeare,"existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."    

Escrito por Cláudia Collucci às 11h31


A espera

Esperar costuma gerar uma ansiedade enorme. E, quando se trata da gravidez tão sonhada, a espera pode se tornar um verdadeiro martírio. Esperar o atraso menstrual, o resultado do Beta HCG, do primeiro ultra-som que vai detectar as batidas cardíacas do bebê, da amniocentese e assim por diante. Cada etapa vem carregada de angústia e o que deveria ser um período mágico acaba se transformando em algo próximo a um pesadelo. E, se não adotarmos cuidados especiais , isso se estende para depois do nascimento do bebê.

Avalio que uma das razões para essa ansiedade exacerbada está na falta de um diálogo com nós mesmas. Temos dificuldade de introspeção, de observação, de reflexão. Estudamos e discutimos sobre o mundo que nos cerca, dos genes às galáxias, mas não aprendemos a velejar nas águas do nosso eu mais profundo. Vivemos a vida sem penetrar no seu tecido mais íntimo. Ao queremos tudo para ontem, custe o que custar, tornamos-nos predadores de nós mesmos.

Creio que grande parte da ansiedade, da depressão e de outras doenças psíquicas está no fato de a gente não saber desenvolver um auto-diálogo capaz de nos fazer repensar sobre nossas perdas e frustrações. Lendo a obra "Os segredos do Pai Nosso - A solidão de Deus", do autor Augusto Cury, que faz um estudo da oração mais conhecida do mundo, tive a certeza disso.

Achei um trecho particularmente interessante. Ele diz que a "ansiedade patológica é originada por três grandes fenômenos: as preocupações existenciais, os pensamentos antecipatórios e a dificuldade de desenvolver a arte da contemplação do belo, de extrair prazer dos pequenos estímulos da rotina diária, como um abraço, um breve diálogo ou a imagem de um lírio do campo."

Ele diz mais: "Quem vive atolado de preocupações e sofre pelos eventos futuros se enclasura nos pântanos da sua própria ansiedade e do humor depressivo".

Porém, não devemos confundir a ansiedade patológica com a ansiedade vital. Essa última nos é fundamental, ela fomenta nosso ânimo, a inventividade, a inspiração e a superação. A dificuldade de gravidez tem me tornado sedenta de auto-conhecimento. Pergunto, penso, raciocino. Reconheço minhas limitações e tenho como consolo a convicção de que a vida é um espetáculo, seja lá qual for o final.

E o maior alimento da vida é o amor. O amor por nós mesmos, pelos nossos semelhantes por cada ser vivo que habita esse planeta. O amor promove a liberdade, realça a auto-estima e reascende a esperança. Que tal a gente exercitá-lo verdadeiramente? 

PS - E por falar em amor e auto-conhecimento, convido a todos para visitar a exposição "Um outro jeito de se ver", de uma amiga muito querida, a Luz Castañeda. A Luzia, seu nome verdadeiro, é uma mulher que admiro muito. Foi minha professora e orientadora no mestrado que fiz na PUC. Uma pessoa cheia de vida, alegre e que contrastava com ar sisudo da academia. Certo dia, a Lu, como eu carinhosamente a chamo, resolveu dar um tempo na sua bem-sucedida carreira acadêmica e se dedicar à arte terapia. Na exposição, vocês poderão conhecer um pouco do seu trabalho. No site www.luzcastaneda.com.br também poderão ter acesso a um pouco da sua história. A exposição acontece no Willis Harman House / Antakaranaa, até o próximo dia 16, das 8h às 18h. O espaço fica na rua Lisboa 328, Pinheiros / São Paulo – SP. Abaixo, uma das suas obras.

 
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Escrito por Cláudia Collucci às 10h45

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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