Quando o homem falha

"Estou muito triste. Todas as vezes que eu falo para o meu marido que estou no período "fértil", ele falha na cama comigo...Não bastassem todas as tristezas e angústias do tratamento, as cobranças dos familiares e conhecidos direta ou indiretamente pelo nosso primeito filho, agora tenho que enfrentar mais essa...nem eu nem ele estamos sabendo lidar com mais esse empecilho, pois, quando acontece, fico me sentindo feia, rejeitada e ele fica se sentindo menos homens que os outros, morre de vergonha e tristeza..."

O trecho acima foi extraído de uma mensagem enviada pela Cintia ao fórum de infertilidade. Embora esta seja uma situação muito comum ao casal que enfrenta a dificuldade de gravidez, é preciso atenção para que ela não se torne crônica e insustentável. Já vi muitos casamentos acabarem por razões semelhantes. Alguns, mesmo depois do nascimento do tão aguardado filho.

Não há nada mais broxante para vida sexual do que sexo com hora marcada, injeções na barriga, tratamentos fracassados e todas as dificuldades que a infertilidade nos impõem. Em geral, as mulheres se sentem desgastadas físicamente, energeticamente e emocionalmente. E, definitivamente, não há como estar morrendo de tesão em situações assim. Imagine então o homem! Nós, mulheres, costumamos ter uma visão um tanto quanto machista dos sentimentos masculinos.

Foi nos embutida a idéia de que homem que é homem sempre está ali, de "pau duro", pronto para uma transa. E quando ele broxa, ainda mais naquele tão aguardado período fértil, a tendência é nos sentirmos ainda mais péssimas, com a auto-estima no lixo. É como se falássemos para nós mesmas: que merda!, além de não engravidar, nem mesmo tesão eu desperto mais no meu marido?!?!!

E o pior, o mais terrível: nesses momentos, costumamos olhar nossos companheiros como se fossem  objetos, meros depositários dos espermatozóides necessários para fecundar nossos óvulos. Sim, tornamo-nos egoístas, voltadas única e exclusivamente para a nossa dor. E, muitas vezes, não dá para ser diferente mesmo, não dá para querermos que a nossa porção "madre Teresa de Calcutá" surja examente neste momento... Em geral, isso tudo termina em lágrimas, em pedidos mútuos de desculpas e a vida segue o seu rumo.

O que me preocupa, porém, são as erosões provocadas neste solo. Não adianta só esperar a chuva passar. É preciso cuidar para que uma cratera, igual aquela do metrô, não se abra no relacionamento, engolindo tudo o que estiver pela frente, inclusive, nós mesmas. Portanto, se aquelas estratégias habituais, como jantares românticos e viagens, não estiverem sendo suficientes para manter a harmonia conjugal, não hesitem em procurar uma terapia de casal. É uma ótima oportunidade para revitalizar a relação e enxergarmos o outro como ele é: com seus medos, inseguranças, virtudes e defeitos. E enterrar de vez aquela fantasia infantil de príncipe encantado.

Escrito por Cláudia Collucci às 15h17

Dr. Jorge Hallak, não desista

Em razão de uma entrevista dada no final de semana passado ao jornal "O Estado", o dr. Jorge Hallak está sofrendo críticas e ameaças de processos por todos os lados. As clínicas de reprodução estão furiosas por ele ter soltado todos os cachorros, revelando o submundo da reprodução assistida. Leia a íntegra da entrevista: http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2007/01/14/ali-1.93.19.20070114.8.1.xml

Eu, particularmente, não me surpreendi com o teor da entrevista. A maioria das denúncias, como a falta de um diagnóstico fechado antes da indicação da FIV, a prática ilegal da sexagem, a venda de óvulos entre outros constam em reportagens que fiz nos últimos anos.

Além disso, vocês estão cansadas de lerem neste blog depoimentos de leitoras relatando barbaridades sobre algumas condutas médicas. O que eu acho mais triste nesta história toda é que os médicos sérios da área da reprodução assistida sabem disso tudo, mas nada fazem.

Deveriam, sim, denunciar as más práticas e, por que não, exigir apuração das denúncias. É uma forma de mostrar que existem vozes que discordam dos evidentes abusos existentes na reprodução assistida.

Gente, essa idéia de ter um filho a qualquer preço não é brincadeira. Segundo Hallak, 30% dos casos de infertilidade masculina são de origem genética. Esses indivíduos precisam ser diagnosticados porque não têm espermatozóide no testículo, são azoospérmicos, portanto, segundo Hallak,  não adianta fazer reprodução assistida. E porque aqueles que conseguem ter filhos transmitirão as alterações genéticas a seus descendentes.

Em alguns casos, os filhos serão inférteis, mas, em outros, há um risco de até 25% de nascer com um problema grave, inclusive fatal, entre eles a fibrose cística. O emprego do ICSI, que deveria ser o último recurso para um casal que não consegue ter filhos, tem sido sim banalizado e, em algumas clínicas, virou a primeira opção porque é mais cara, rápida e dá mais chances de gravidez. Mas a que preço?

Eu, particularmente, sou favorável ao uso racional das técnicas de reprodução assistida, com indicações precisas e casos específicos. Em nenhum lugar do mundo há apoio para a banalização dessas técnicas, que ainda são caras, pouco efetivas (afinal, são apenas 30% de chances de sucesso) e com mais riscos à saúde da mãe e do bebê.

Enfim, dr. Jorge Hallak, imagino a pressão que esteja sofrendo após essa entrevista, mas peço que não desista. Nós, mulheres na luta por um filho, agradecemos.

Escrito por Cláudia Collucci às 17h27

Cuidado com a raiva!

Um novo estudo, realizado apenas com mulheres, sugere que sentir raiva ou fúria não faz mal para o coração feminino mas que expressar externamente a hostilidade pode aumentar o perigo para as mulheres, se em combinação com outros fatores, como idade, diabete e níveis elevados de gordura. Nos homens, a presença dessas emoções aumenta o risco de doença cardíaca -

De acordo com o cardiologista Noel Bairey Merz, diretor de Saúde da Mulher do Centro Médico Cedars-Sinai, a expressão aberta de raiva direcionada a outras pessoas ou a objetos inanimados parece ser o aspecto mais "tóxico" da hostilidade para o organismo feminino.

Os autores da pesquisa analisaram diversos aspectos ligados à raiva, incluindo cinismo, temperamento hostil, agressão e fúria reprimida. Apenas a raiva expressada mostrou ter valor na hora de prever se a mulher enfrentaria um risco maior de problemas cardiovasculares, e apenas quando associada a outros fatores de risco.

Segundo o cardiologista, esse resultado é diferente do detectado por outros cientistas em homens, "particularmente jovens, nos quais os índices de hostilidade aparecem associados a doenças coronárias". O trabalho está publicado na edição de dezembro de 2006 do periódico Journal of Women´s Health.

Escrito por Cláudia Collucci às 11h23

O que os outros dizem

Hoje dei uma olhada no fórum de discussão ligado a este blog e duas questões me chamaram a atenção: uma é sobre o impacto negativo da opinião dos outros sobre a nossa vida. Vejam o trecho da mensagem da Regina: "Fiz minha primeira tentativa agora dia 18 e o resultado foi negativo, perdi o chão, sai de mim.  Perdi minha fé, alegria não posso ver bebê que choro, sei que tenho que reagir mas não consigo. Ninguém sabe como e a dor, só dormindo que passa. Quando acordo, e olho são mais 24 horas de tristeza. Sei que não estou bem, tentando superar, mas não consigo, só choro. Vejo as pessoas me olhando com olhar de dó, de pena. Até eu estou com pena de mim. Na minha cabeça só vem uma pessoa que me falou que não acreditava que na minha barriga tinha um bebê, só quando estivese grande e ela visse que acreditaria. Como esta pessoa foi má!!"

Regina, minha querida, você está vivendo um momento de luto, é essa a razão para tanta tristeza. A cada tratamento, a gente deposita todas as esperanças. Esquecemos que essas técnicas de reprodução são ainda muito falhas, que as chances de fracasso são muito maiores que as de sucesso. A não-gravidez por si só já é um fardo muito grande. A vida fica cinza e tudo perde a graça mesmo. É um estado depressivo, que precisa de cuidados para não se tornar crônico. Há caminhos alternativos que podem te ajudar a baixar a ansiedade e reenergizar o seu organismo, a acupuntura é um deles.

Agora, por que fazer desse fardo um peso ainda maior? Por que dar importância a opiniões de pessoas tão insensíveis como essa que você mencionou? Temos de manter distância de pessoas que nos empurram para baixo. Sal grosso nelas! Nesses momentos em que nos sentimos no fundo do poço, é fundamental erguemos nossos braços para as pessoas queridas, que nos dão colo, carinho e nos erguem rumo à luz. Tenho certeza de que você tem ao seu lado pessoas assim. Agarre-se a elas e passe uma esponja nas palavras que tanto te machucaram. Esse tipo de pessoa não merece a sua raiva ou a sua dor. Apenas a sua indiferença.

Outro assunto que vem me chamando a atenção são opiniões pessoais sobre médicos. Vi várias mensagens de leitoras expressando opiniões favoráveis e desfavoráveis sobre um médico X e um médico Y. Na minha opinião, é uma discussão que não leva a lugar nenhum. É claro que podemos ter nossas opiniões pessoais e expressá-las quando nos for pedida, mas, fazer disso quase uma disputa, um rinque, acho meio exagerado. O que me impressiona na área da reprodução assistida é que, às vezes, os médicos são vistos quase como marcas de um produto, do tipo: "fulano de tal é o melhor, ele lhe dará o bebê que tanto deseja!".

Ledo engano! Durante o processo de uma reprodução assistida, parte do sucesso é atribuído a um excelente laboratório e a uma equipe de profissionais competentes, o médico é apenas um deles. Eu, particularmente, considero que os biólogos que vão manipular os embriõezinhos tenham um papel ainda mais fundamental. Os processos de fertilização in vitro seguem um protocolo. É como se fosse uma receita, que você pode ir adaptando um pouco aqui, pouco ali, mas a essência é praticamente a mesma. Mas há questões subjetivas que podem cruciais, como uma relação médico-paciente permeada por confiança e respeito. Isso não se conquista da noite para o dia.

É justamente por isso que essa relação parece tão distante na área da reprodução assistida. Em geral, as pessoas procuram esses profissionais para um fim: ter um bebê. Mal conversam, mal conhecem e já iniciam o processo. Quando não dá certo na primeira, na segunda tentativa, partem para o próximo e assim sucessivamente. E, quando conseguem o objetivo, idolatram aquele profissional como se fosse Deus. Agora, quem poderá dizer que a responsabilidade do sucesso é apenas dele? Novamente aqui percebo como é forte essa tendência de delegarmos para um outro o nosso bem-estar.

É por essas e outras que, cada dia mais, me convenço que a cura dos nossos males está em nós mesmos. Sim, precisamos dos médicos e das tecnologias. Eles estão aí para nos servir. Mas jamais confiaria em um profissional que não me enxergasse por inteira, sobretudo, nas questões emocionais. Mais uma vez eu bato nessa tecla: a dificuldade de gravidez não é uma doença, não é uma apendicite que você vai lá, tira o apêndice e tudo está resolvido. Além das questões físicas que, é claro, podem estar presentes, ela esbarra em tantas outras subjetivas e tão igualmente importantes. E, infelizmente, muitos médicos continuam tendo uma visão míope sobre história toda.

Escrito por Cláudia Collucci às 11h43

Menopausa precoce:
saiba como identificá-la

Tenho recebido muitos e-mails de mulheres pedindo informações sobre menopausa precoce, uma situação para lá de chata, especialmente quando se trata de mulheres que ainda desejam engravidar e se vêem arriscadas a não realizar este sonho, pelo menos com seus próprios óvulos.

Para essas mulheres, a menopausa chega antes dos 40 anos. Os sintomas são claros: ela fica um ano ou mais sem menstruar com sintomas específicos, como irregularidade menstrual, fogachos, insônia, perda de memória, irritabilidade, fadiga excessiva, sudorese noturna.

Para fechar o diagnóstico é preciso a comprovação de alteração da dosagem hormonal. Os exames de sangue são importantes porque, na menopausa precoce, devem indicar uma diminuição de E2 (estrogênio) e um aumento das gonadotrofinas FSH e LH.

Não existe uma causa única para a falência ovariana prematura (FOP). Ela pode ocorrer por vários fatores como o histórico familiar. A idade da menopausa não está relacionada à época da primeira menstruação, mas sim quando a mãe e as irmãs dessa mulher entraram em menopausa.

Existem trabalhos que mostram interligação das idades da mãe com a da filha, porém esta não é a regra geral para uma FOP. Há também outros fatores externos que podem antecipar a menopausa, como remoção dos ovários ou de grande parte deles e tratamentos contra o câncer, por exemplo.

A radioterapia e quimioterapia têm como objetivo impedir o crescimento celular. Porém, não atingem apenas as células malignas, mas as que também estão sadias. Por isso, entre outros efeitos colaterais, os tratamentos anti-câncer podem levar a uma falência prematura dos ovários.

Também há doenças genéticas específicas, como as que provocam alterações do cromossoma X, a Síndrome de Turner ou a Síndrome do X Frágil, que podem ser consideradas possíveis causas da falência prematura dos ovários.

A melhor forma de prevenção ainda é visitar regularmente o ginecologista. Quanto mais cedo diagnosticado o problema, mais mais chances há de iniciar um tratamento para evitar ou amenizar o problema.

Escrito por Cláudia Collucci às 20h40

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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