A busca pela serenidade

Durante o processo de despedida de um modelo que já não cabe mais, tema do post anterior, é fundamental a busca pela serenidade. Como define o monge beneditino Anselm Grün, a serenidade é uma atitude interior que impede que algo nos aborreça com facilidade. É conseguir deixar o medo para trás, livrar-se da pressão de ter de fazer tudo perfeito. Liberar-se das cismas e preocupações antecipadas. Conseguirei ou não engravidar? O tratamento vai ou não dar certo? Por que "todas" as mulheres engravidam e têm seus bebês com facilidade menos eu? Ou seja, estar serena é sentir-se livre para o momento, livre para aquilo que está acontecendo comigo agora e não ficar presa às preocupações futuras.

Novamente, volta aqui o tema do adeus. Os sábios de todos os tempos aconselham que abandonemos o apego às coisas e, especialmente, ao conceito que as pessoas têm sobre nós. Não é raro lermos no fórum de discussão depoimentos de mulheres que ficam arrasadas com os comentários maldosos que ouvem sobre a dificuldade de gravidez ou quando descobrem que suas amigas, cunhadas ou irmãs engravidaram antes delas.

Não acho que devamos destruir ou reprimir nossas emoções. Mesmo que tentássemos, seria praticamente impossível porque elas fazem parte da natureza humana. E, além do mais, quem se preocupa em demasiado em ir contra as suas paixões (no sentido de emoções, sentimentos fortes), acaba sempre ocupado demais com elas. Podemos sim lidar com elas de tal forma que não nos dominem.

O psiquiatra italiano Roberto Assagiole sugere um ótimo exercício para essas situações: dizer a nós mesmas: "estou com medo. Mas eu não sou o meu medo. Eu tenho problemas, mas eu não sou os meus problemas. Estou com raiva, mas eu não sou a minha raiva". É muito interessante porque, dessa forma, é possíver enxergar o medo e os demais problemas quase como em terceira pessoa, tornando mais fácil a tarefa de lidar com eles. É como estar no olho do furacão. Ao redor, tudo está caótico, mas no centro, no olho, reina a tranqüilidade, a serenidade.

Sei que não é uma tarefa fácil. Nosso dia-a-dia, pelos mais diferentes motivos, nos dá mil e uma razões para estarmos estressados, angustiados e insatisfeitos com o que temos. E toda essa história de serenidade, às vezes, parece mesmo conversa de monge. Afinal, como ser sereno diante da dor, da tristeza e das frustrações. Como quebrar esse ciclo vicioso sem ter que se trancar num mosteiro zen?

Um dos caminhos para alcançar um maior equilíbrio nas nossas vidas, ensina o monge alemão Grün, seria começar um trabalho de abandonar o ego. Nosso ego nunca descansa. Ele quer sempre brilhar, sempre comandar, sempre ter tudo e nos leva a ter a ilusão de que temos tudo sob nosso domínio, de que conseguiremos tudo o que queremos. E quando isso não acontece, pimba: lá estamos nós tristes, deprimidos, derrotados, para baixo.

Pelo o que entendo das colocações de Grün, não se trata aqui da gente destruir nosso ego porque, afinal, sem ele ninguém vive, mas sim, não se tornar refém dele. Trata-se de manter uma distância interior do ego para encontrar nosso verdadeiro eu, para nos afirmarmos internamente e chegarmos a um acordo com a gente mesma.

Dizem que foram os antigos sábios chineses que iniciaram a pregação pela serenidade. Eles acreditam que o verdadeiro nasce quando abandonamos nossas fantasias e pretensões. De certa forma, isso é o oposto do que a gente normalmente pratica. Muitos de nós vivemos sob a pressão de que precisamos mudar tudo. A atitude da serenidade diz outra coisa: deixe as coisas como estão, aceite-as e medite sobre elas. Só então poderá tocar nelas com cuidado e configurá-las a seu bel prazer.

Por fim, o monge Anselm Grün nós dá outra boa dica para exercitar a serenidade: só olhe para as coisas que estão à sua frente, olhe para sua casa, para seu marido, para você mesma sem a intenção de querer mudar nada, abandonando seus conceitos pré-formados. Alegre-se com o que está aí e sinta-se nas coisas, naquilo que elas lhe dizem. Tenho certeza de que, pelo menos por alguns momentos, você sentirá uma profunda paz interior, verá beleza onde até então não havia graça alguma. E então as coisas vão desabrochar.      

Escrito por Cláudia Collucci às 20h17
O processo de adeus

Meu último dia na Espanha foi para lá de inspirador. Deixamos o hotel em Madri às 12h e, como o nosso vôo só sairia 13 horas depois, decidimos aproveitar o ensolarado dia para passear de carro nos arredores de Madri. No final do dia, estávamos em Alcalá de Henares, a terra natal de Miguel de Cervantes, aquele lugar que eu já comentei em post anterior que tem monte de ninhos de cegonhas.

Sentamos na praça central da cidade, onde a vida fervilhava. Montanhas de carrinhos de bebê, crianças correndo de um lado para outro, casais jovens se beijando, casais idosos passeando de mãos dadas, noivas tirando foto nos canteiros de multicoloridas rosas, enfim, pessoas e situações de todos os tipos. Foi quando me lembrei que no dia seguinte seria o Dia das Mães no Brasil. Na Espanha, já tinha sido no domingo anterior.

E também recordei que, neste ano, a data chegou sem alarde, sem causar efeito negativo sobre mim. Nos dois anos anteriores, que sucederam o aborto que sofri, esse dia esteve carregado de tristeza, melancolia e projeções do que poderia ter sido passá-lo com o meu bebê no colo. 

Ao me lembrar disso, olhei para o meu marido, que, sentado ao lado, recebia no rosto os últimos raios de sol do dia. Fiquei emocionada em pensar como a nossa vida tem sido intensa nos últimos anos. Quis fotografá-lo ali, de olhos fechados e relaxados, mas a bateria da máquina fotográfica tinha chegado ao fim. Então, apenas o abracei. E chorei. Não porque estava triste, mas porque estava certa de que, exatamente naquele momento, estava sendo encerrado um ciclo de sofrimento. E não foi preciso ter um Beta positivo nas mãos para sentir essa sensação de alívio.

O que eu sentia ali era fruto de um amadurecimento, de uma certeza de que a minha vida, a minha felicidade não poderia mais se resumir na busca por um filho. Não que eu tenha parado a vida em função disso. Pelo contrário, ela continuou bem agitada, porém, um pouco mais triste. Falei e já escrevi sobre isso inúmeras vezes, mas, naquele momento, senti como se a minha alma estivesse dizendo adeus a um estilo de vida que não me cabe mais, ou seja, sofrer pelo o que não tenho. 

Em hipótese alguma era um adeus de desistência, abandono ou fracasso. O psicólogo Wagner Canalonga, sacerdote da Sociedade Taoísta de São Paulo, resume bem isso em uma recente reportagem na revista “Vida Simples”: o adeus é como atravessar uma porta, deixando um ambiente para entrar em outro. A mesma porta que se fecha atrás de você, impossibilitando seu retorno para o primeiro cômodo, permite sua entrada no novo aposento. Em outras palavras, o fim é sempre o começo de uma outra história. Ter isso claro traz uma compreensão diferente e mais leve do que está por vir.

Na última década da minha vida, fiz muitas apostas e, na imensa maioria, graças ao Universo, tenho obtido êxito. Viajei e aprendi muito, conheci pessoas fantásticas, mas, em muitas ocasiões, pensava que ter um filho seria abdicar desses prazeres. O mesmo pensamento passava pela cabeça nas intermináveis jornadas de trabalho. Como caber um filho na minha agitada vida? Era uma freqüente pergunta interior.

Comecei então um longo processo de despedida dessa Cláudia ansiosa, que queria tudo para ontem e um filho para daqui nove meses. E se frustrava imensamente a cada menstruação, como se aquele sangue fosse sinônimo de repetidas derrotas. Presa a esses sentimentos, nem se lembrava que aquele momento representava também o início de um novo ciclo e que o luto permanente não deixava espaço para uma nova vida.

Como dizia o mitólogo norte-americano Joseph Campbell, “negar a própria bem-aventurança ou tornar-se surdo diante dos apelos da alma pode trazer conseqüências até para o organismo”. E foi exatamente isso que aconteceu: nunca estive tão adoecida.

O processo de adeus se fez necessário. E a filósofa Dulce Critelli, também na reportagem da “Vida Simples”, resume bem isso: O verdadeiro adeus surge quando a pessoa já entendeu qual é seu destino e refletiu muito a respeito do que precisa se desembaraçar para seguir adiante em seu caminho”. E o que entendi é que um filho, biológico ou adotivo, cabe perfeitamente na minha vida, ao lado dos outros inúmeros projetos que tenho para os próximos anos. O meu filho virá para somar e não para dividir ou subtrair qualquer coisa que seja.

O interessante é que, nesse processo de despedida de um estilo de vida que já não mais nos serve, aparecem reflexões para lá de filosóficas: Quem sou eu? Qual o sentido da minha vida? É possível que vamos passar a existência procurando respostas para essas duas perguntas e, quando estivermos bem velhinhas, elas vão continuar sem solução porque, afinal, faz parte da natureza humana formular questões sem respostas.

Mas foi refletindo sobre elas é que me lembrei de uma pergunta feita, anos atrás, pela minha médica acupunturista: “afinal, por que você quer ser mãe?” Confesso que, na hora, a primeira resposta que me veio à cabeça foi: “quero ser mãe porque quero, oras bolas!” É claro que, rapidamente, elaborei uma resposta mais inteligente, mas, de qualquer forma, foi uma resposta racional. Naquela época, é possível que eu estivesse muito mais preocupada em colocar um fim às cobranças externas de maternidade do que ouvir o meu coração. 

Agora, vendo aquele pôr-do-sol na pracinha de Alcalá de Henares, com a cabeça recostada no ombro do meu amor e companheiro de todas as horas, a resposta veio como um sussurro: quero ser mãe para aprender a amar e me entregar incondicionalmente, para transmitir os valores que firmemente acredito e para tornar a minha vida ainda mais rica e feliz!!!

Escrito por Cláudia Collucci às 19h41
Mais gordura (boa) na nossa vida

A última edição da revista "Saúde!", da editora Abril, traz uma importante reportagem para nós, que desejamos engravidar. Trata dos perigos de uma alimentação sem gorduras que, entre outras coisas, desregula os hormônios e diminui as chances da gestação. Pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, publicaram recentemente um artigo no periódico científico Human Reprodution, da Sociedade Européia de Reprodução e Embriologia, que avaliou os hábitos alimentares de 18.555 voluntárias durante oito anos.

A constatação dos cientistas foi que cardápios muito desengordurados estão relacionados à infertilidade. No grupo que só consumia laticínios desnatados, por exemplo, houve diversas manifestações de problemas ovulatórios. A gordura participa ativamente da produção de hormônios sexuais. E quando os níveis hormonais estão aquém do normal, a ovulação acaba prejudicada.

O colesterol (o bom, obviamente) tem um papel muito importante na fecundação, pois é responsável pela fabricação do hormônio feminino estrógeno. A família das gorduras também participa da composição de membranas celulares e colabora para o aproveitamento das vitaminas A, D, E e K.

Importante: não é qualquer gordura que nos faz bem. Nada de ir se entupindo de picanhas, batatas fritas, sorvetes e outras porcariadas. Como já falamos aqui, quem engorda demais, também acaba sofrendo de distúrbios hormonais. Precisamos consumir as gorduras certas. E quais são elas? Poliinsaturadas: presentes em alimentos ricos de ômega 3 (salmão, atum, sardinha e óleo de canola e ômega 6 (óleo de soja, por exemplo); Monosaturadas: que estão em grande quantidade no azeite, no abacate e na noz macadâmia.

As gorduras saturadas, que estão na manteiga, no chantilly, na carne vermelha e no leite, não devem ser banidas totalmente porque, de certa forma, protegem nossos órgãos, mas devem ser consumidas com parcimônia, em pequenas quantidades. A vilã de sempre continua sendo a gordura trans, que ainda aparece em biscoitos, sorvetes, tortas entre outros. Ela é ruim tanto porque prejudica a ovulação como também porque aumenta as taxas de colesterol ruim, situação nada desejável durante a gestação.

Bom, fica aí a dica. E eu sigo com a minha consciência mais tranqüila depois de ter me entupido de azeites, jamon (presunto espanhol), queijo de ovelha, tortillas, paellas e outras delícias da cozinha espanhola...

Escrito por Cláudia Collucci às 09h30
As cegonhas e a maternidade


 Cegonhas em Chiclana

A foto imensa acima é de um ninho de cegonha. Encantei-me com vários deles a caminho de Cadiz, na costa da Andaluzia (Espanha), onde estou passando alguns dias de férias. As cegonhas brancas costumam instalar os seus ninhos em zonas onde possam encontrar alimento (gafanhotos, grilos...).

Em Chiclana de La Frontera, onde há mais de cem ninhos, pude observar vários deles instalados sobre placas de sinalização em estradas e postes de energia elétrica _lugares mais do que insólitos. Em Alcalá de Henares, a terra natal de Miguel de Cervantes (autor de "Dom Quixote"), que fica a 30 km de Madri, há outras dezenas de ninhos instalados em prédios com mais de 500 anos e que abrigam igrejas, monastérios e universidades. Como a cidade é pequena e os prédios estão reunidos no centro histórico, é um espetáculo a parte observar o trânsito nas cegonhas no céu.

Desconheço o motivo que levou esses pássaros a instalar seus ninhos em locais incomuns (pelo menos para mim), mas, sua batalha pela sobrevivência, é, no mínimo, emocionante. Soube que desde 1982 a Província de Cádiz é, anualmente, um dos locais escolhidos pelas cegonhas para fazer seus ninhos, construídos geralmente entre meados de abril e junho. Ali, as crias permanecem mais 56 dias após o nascimento.

Durante o acasalamento, é a fêmea que tem a iniciativa e realiza complexas coreografias de posturas e carícias acompanhadas de crocoares(som característico que realizam entrechocando as partes superior e inferior dos seus bicos). Bom, vocês já perceberam que eu estou apaixonada pela história das cegonhas. Ainda mais com o "Dia de las Madres" se aproximando...

A mensagem que eu quero deixar para vocês é a seguinte: por mais árduo que tenha sido a nossa luta pela maternidade, nosso ninho já está feito. E nossa cria, seja por meio dos nossos ventres ou não, em breve estará ocupando o lugar dela nas nossas vidas.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 12h17
Filhos adotivos

Na última quarta-feira, tive mais um belo aprendizado. Estava em Granada, na Andaluzia (Espanha), quando vi nos jornais locais um grande destaque para a adoção de quatro crianças africanas. Os pais adotivos, todos espanhóis, passaram três meses naquele país tentando regularizar a situação para, enfim, trazer para Granada os pequenos, que viviam em abrigos já que os pais biológicos haviam morrido de Aids. Depois de um contato com os jornais locais, consegui localizar um dos casais que, coincidentemente, morava perto do hotel onde eu e meu marido estávamos hospedados.

E aí conheci uma linda história de amor incondicional. Carmen Lúcia, 39, é casada há dez anos com Juan Carlos, 45. Há oito anos tentavam uma gravidez sem sucesso. Diagnóstico: ESCA (Esterilidade sem Causa Aparente). Chegaram a fazer duas FIVs e por causa do desgate dos tratamentos frustrados e tudo mais quase que o casamento acabou. Ambos concluíram que haviam chegado a um limite e começaram a reavaliar o papel da maternidade/paternidade nas suas vidas. Afinal, se queriam um filho, deveriam partir para uma busca mais real e que envolvesse menos sofrimento. Daí surgiu a idéia da adoção.

Por meio de grupos na internet, descobriram outros casais que estavam na mesma luta, alguns nem haviam feito tratamentos para engravidar. Optaram diretamente pela adoção. E o mais interessante _e o que é bem diferente da realidade brasileira_ é que todos optaram por adotar crianças negras. Entre outros motivos, por serem as mais disponíveis. Para eles, nem a cor da pele e nem a idade tinha muita importancia. Eles queriam mesmo eram ser pais.

E conseguiram. A chegada das crianças no aeroporto de Granada foi uma festa. Centenas de pessoas, entre amigos e parentes dos pais adotivos, foram recepcioná-las com cartazes e presentes. Enfim, Carmen passará o "Dia de las Madres" com sua filha Maria, 3, já devidamente instalada em um quartinho todo rosa e cheio de bonecas. E com um sorriso que mal cabe na boca.

E eu sigo mais uma semana pela Espanha na companhia do maridão. Já colocamos na cabeça que esta será nossa última viagem sem filhos. Por isso, estamos fazendo altas "despedidas": pegando estradas e parando onde der vontade, bebendo ótimos vinhos, namorando e andando, andando muito...  

Escrito por Cláudia Collucci às 09h38

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

 Visitas