Fertilizando a dor

"Essa semana não foi muito feliz para mim. Após tentativa de FIV, veio resultado. Muito choro, tristeza e vergonha de mais uma vez não ter conseguido. Desisto, estou com raiva, não quero mais isso para minha vida, quero pensar diferente e ser diferente. Será possível?"

O desabafo acima é da nossa amiga Luciana, mas poderia ser de qualquer uma de nós. Quem já não se sentiu exatamente assim neste processo de tentativas frustradas de gravidez? Há momentos em que a vontade é sim de desistir de tudo, de acordar um dia sem este desejo que, às vezes, parece dilacerar a alma.

Chega a dar saudade do tempo em que ver um barrigão de grávida nas ruas não nos despertava inveja ou vontade de chorar. E que receber a notícia da gravidez de uma amiga e de uma parente era só motivo de alegria...

E a menstruação, então? Que saudade daquele tempo em que ela era tão aguardada e que a sua chegada era recebida com tanta alegria! Dava vontade até de dançar no banheiro de tanta felicidade!

Que saudade daquele tempo em que a realização dos nossos desejos só dependia da nossa vontade. Quero viajar, quero uma roupa nova, quero fazer um curso. Economizo, dou duro e pronto: tudo resolvido!

Dá muita raiva sim desses sonhos cuja concretização foge ao nosso alcance. Eles nos mostra o quanto somos impotentes, o quanto não temos controle de absolutamente nada nessa vida, o quanto somos... humanos. Eles nos tira daquele pedestal que, muitas vezes, nos colocamos por auto-proteção, medo de sofrer ou por arrogância mesmo. E nos coloca de frente com nossos medos mais intrínsecos.

Quando chegamos neste ponto, temos dois caminhos a seguir:

1 - nos tornarmos chatas, amarguradas e de mal com a vida

2 - transformarmos esse sofrimento todo em auto-conhecimento

Se a opção for a segunda alternativa, não hesite em buscar ajuda. Se você acredita nos benefícios da análise, da ioga, do tai chi, da meditação, da acupuntura, mergulhe nessas experiências.

Posso garantir que, com o tempo, o peso da gravidez que tarda a chegar vai ficando muito menor. Você descobre encantos que até então não enxergava porque a ansiedade havia dominado a sua vida. Você descobre a possibilidade de fertilizar os seus dias de outras formas, recuperando a sua criatividade e aquela alegria que parecia ter desaparecido. E você vai se sentir muito feliz com a vida que tem.

 *

Soube ontem que uma amiga muito querida está em vias de adotar uma menina de sete anos _ já conseguiu a guarda provisória. Ela e o marido fizeram uma única FIV, que não deu certo, e, para não ficar na loucura e no sofrimento das tentativas frustradas, decidiram mudar o curso, partindo para a adoção. Estão radiantes! Olha só o recadinho dela:

"Posso dizer que a maternidade e paternidade se realizam de uma maneira tão impressionante, tão avassaladora, que eu cheguei a agradecer a FIV não ter dado certo. Se eu tivesse engravidado, provavelmente, não teria conhecido essa pessoa tão especial que é a nossa filha"

Escrito por Cláudia Collucci às 20h06
Dizer sim à totalidade da vida

Foi uma semana difícil. Estive envolvida desde a última terça-feira na cobertura do acidente da TAM, mais especificamente, entrevistando familiares das vítimas e traçando um pouco do perfil de cada uma. Uma tarefa árdua para mim, já que sempre tenho a tendência de comungar um pouco do luto alheio. Por que? Talvez por ainda ter lutos a serem elaborados ou pela simples razão de ser impossível passar indiferente por essa tragédia e todas as suas nuances.    

Mas hoje acordei com uma energia diferente. O céu estava muito azul e lá fora o sol brilhava. Depois de colocar em dia algumas das tarefas adiadas em razão de 15 dias de trabalho sem folga e de almoçar fora com o maridão, tirei a tarde para ler um pouco. E como acho que nada dessa vida é por acaso, vejam só as preciosidades que encontrei em alguns livros e revistas:

“A vida é boa acima de tudo; é boa por si mesma; o raciocínio nada conta para isso. Não se é feliz por viagem, riqueza, sucesso, prazer. É-se feliz porque se é feliz. Como o morango tem gosto de morango, assim a vida tem gosto de felicidade. O sol é bom, a chuva é boa; todo ruído é música. Ver, ouvir, cheirar, saborear, tocar não é mais do que uma sucessão de felicidades. Mesmo as dores, o cansaço, tudo isso tem um sabor de vida. Existir é bom, não melhor do que outra coisa, pois existir é tudo, e não existir é nada. Bem, talvez seja essa a grande chave do mais completo e apaixonado amor pela existência: ama-se tudo nela, da tristeza à angústia, da manhã radiosa ao começo de uma paixão, da lágrima e do peito doído à arte. É uma aceitação incondicional.”

Trata-se de um trecho de uma obra do pensador Alain, pseudônimo do francês Émile-Auguste Chartier (1868-1951). A leitura caiu como um presente, depois de uma semana tão estressante. E, é claro, esse pensamento cabe em qualquer área da nossa vida. É apenas uma outra forma de dizer: "seja feliz com a vida que você tem". Sim, eu sei que, em determinadas situações, como na incessante busca pela maternidade, essa frase é muito bonita, mas parece que não é adequadas ao nosso quebra-cabeça. Mas acredite: ela é perfeita. Basta que nos apropriemos dela, que ela realmente encontre eco dentro nós.    

O mitólogo Joseph Campbell acrescentaria: “Diga ‘sim!’ à totalidade da vida, tanto ao prazer quanto à dor. Mergulhe com alegria nos sofrimentos do mundo. O imenso privilégio da existência é ser exatamente quem você é. A mudança extraordinária que pode acontecer internamente com base nessa diferente forma de apreciação pela existência em si pode trazer de volta um encantamento que talvez tenha se perdido."

“Felicidade ou amargor? Será preciso sempre escolher? Pode-se fazê-lo? Parece-me que, antes, cumpre aprender a amar os dois”, escreveu o filósofo francês André Comte-Sponville no livro Bom Dia, Angústia. “A dor e a angústia fazem parte do real (...). A sabedoria está na aceitação do real, não na sua negação. O que de mais natural, quando se sente dor, do que gritar? O que mais sábio, quando se está angustiado, do que aceitá-lo?

E não é que tudo isso é a mais pura verdade?

Escrito por Cláudia Collucci às 17h44
Mulher recupera fertilidade após receber tecido ovariano de irmã

A notícia vem da agência France Presse. Uma mulher que havia se tornado estéril após um tratamento com radioterapia voltou a ser fértil depois de passar por um transplante de tecido do ovário fornecido por sua irmã, anunciou ontem (10/07) o ginecologista belga Jacques Donnez. Ela ainda não conseguiu engravidar, mas menstrua e produz óvulos.

O transplante foi feito há um ano, mas só foi divulgado agora. "A paciente continua tendo seus períodos menstruais de forma regular. A função de seus ovários foi restaurada, assim como suas chances de conceber naturalmente", informou o médico por meio de um comunicado. Jacques Donnez é chefe do setor de ginecologia e andrologia da clínica Saint-Luc, em Bruxelas.

Em 2005, o médico americano Sherman Silber, do hospital Saint Luke de Saint-Louis (Missouri), havia publicado resultados de transplantes de tecidos de ovário entre irmãs gêmeas idênticas, o que elimina os riscos de rejeição.

Na ocasião, o tecido transplantado no ovário atrofiado veio de uma irmã que não é gêmea mas era considerada compatível com a receptora. "Não houve rejeição ao transplante, apesar da ausência de um tratamento imunossupressor [que desliga o sistema de defesa do organismo]. Seis meses mais tarde, voltaram todas as funções normais", explicou o professor Donnez.
 
Após uma tentativa de fecundação in vitro, dois óvulos foram extraídos e fecundados por injeção de um espermatozóide, com o qual foram obtidos dois embriões. Porém, ela não engravidou.

A paciente de 35 anos que recebeu o transplante havia se tornado estéril aos 18 anos depois de passar por uma radioterapia. Na mesma época foi submetida também à quimioterapia e recebeu um transplante de médula óssea de sua irmã. O anúncio foi objeto de uma publicação prévia na revista científica "Human Reproduction".

A equipe do professor Donnez, ligada à Universidade Católica de Louvain (UCL), já tinha conseguido um feito inédito em 2004 com o nascimento de Tamara, primeiro bebê gerado com o transplante de tecido de ovário retirado por precaução de sua mãe e congelado antes que a mulher fosse submetida a uma quimioterapia.
 
Achei a notícia bárbara, mesmo que a mulher ainda não tenha conseguido a gravidez. É uma luz que surge no caminho das mulheres que tiveram câncer e, em razão da quimio e da radioterapia, tornaram-se inférteis. Mas como isso deve demorar um pouco para se tornar uma prática clínica, é bom que as mulheres que passarem por situações desse tipo discuta com seus médicos a possibilidade de congelar seu próprio tecido ovariano ou, se for caso, já fazer um tratamento de reprodução assistida e congelar os embriões antes do tratamento. 

Escrito por Cláudia Collucci às 17h58
O que fazer com os embriões congelados?

Essa questão deve voltar à tona neste mês, quando o Supremo Tribunal Federal decidirá sobre o artigo da Lei de Biossegurança, aprovada em 2005, que autorizou as pesquisas com embriões. Cabe aos ministros do STF manter ou não a permissão para que os cientistas usem em suas pesquisas as células desses embriões, conhecidas como células-tronco embrionárias.

Os pesquisadores afirmam que isso é necessário para obter novos tratamentos para doenças. Os opositores das pesquisas dizem que elas ferem o direito à vida, pois cada embrião seria um ser humano em potencial. Defendem, por exemplo, que esses embriões congelados sejam adotados por casais com dificuldade de gravidez.

Parece-me claro que estamos diante de um choque de valores: o progresso científico, a fé religiosa, o direito à vida e o direito à saúde. Mas, para além desse choque, caberá ao Supremo responde a uma questão prática que nos interessa: o que fazer com os embriões congelados nas clínicas de reprodução assistida?

Não dá para negar que a defesa do progresso científico é um valor legítimo. Em tese, as células-tronco extraídas de embriões têm o potencial de se transformar em qualquer tipo de tecido do organismo. Mas não dá para ignorar também que um embrião é uma vida em potencial: se for colocado num útero e se fixar a ele, pode se desenvolver até virar um bebê.

Aí que vem a grande questão: a ciência tem o direito de interferir nessa vida, mesmo que em nome do alívio para o sofrimento de outros seres humanos? Gostaria muito de ouvir o que vocês pensam sobre isso.

Depois de acompanhar tantos relatos de falhas na implantação de embriões no útero _e também sentir essa dor na minha própria pele_, às vezes, fica difícil atribuir a um pré-embrião o mesmo status de um bebê. Na melhor das hipóteses, o embrião implantado no útero tem apenas 28% de chance de produzir uma gestação.

Ou seja, as chances de insucesso nessa fase do tratamento ainda são bem maiores do que de sucesso, infelizmente. Então, como acreditar que a vida começa no momento da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, como defendem algumas religiões?

Talvez seja por dúvidas como essas que os casais que têm embriões armazenados em clínicas de fertilidade apóiam a utilização deles em estudos científicos. Recentemente, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins (EUA) decidiram sondar a opinião de casais que se submeteram a tratamentos de fertilidade e que tinham embriões congelados nos centros de tratamento.

Elas escolheram nove clínicas de fertilização nos EUA e enviaram mais de 2.000 questionários a casais escolhidos ao acaso. Das 1.020 pessoas que responderam que ainda tinham embriões em estoque, 49% disseram que provavelmente doariam alguns ou todos os embriões para a ciência. Quando a pergunta mencionava especificamente pesquisas com células-tronco, a proporção de doadores chegou a 62%.

Pouco se fala em adoção de embriões congelados por casais com dificuldade de gravidez, o que seria uma outra opção viável. Aqui também é interessante avaliar o motivo pelo qual os casais se sentem mais confortáveis em doar seus embriões para pesquisa do que para adoção. Será o incomôdo de conviver com a dúvida de ter ou não ter um filho biológico andando por aí?

O fato é que a decisão do STF poderá ter implicações sobre os direitos à paternidade e à maternidade. A Lei de Biossegurança deixou a cargo dos pais a decisão sobre o destino dos embriões. Mas a questão é: se o tribunal considerar o descarte de embriões inconstitucional, o que acontecerá com as clínicas de fertilização? Os casais não poderão mais congelar embriões e terão menos chance de ter filhos? As mulheres que engravidaram por fertilização in vitro e não desejarem gerar mais bebês serão obrigadas a ter os embriões excedentes implantados no útero? Durma-se com um barulho desses.

Escrito por Cláudia Collucci às 12h09
As novidades do congresso de reprodução

Duas notícias divulgadas na 23ª conferência anual da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, que acontece em Lyon, na França, ganharam repercussão internacional nesta semana. Uma delas foi sobre o primeiro bebê concebido após um óvulo imaturo ter sido “amadurecido” no laboratório e congelado antes de ter sido fertilizado in vitro (FIV). A criança, uma menina, nasceu no Canadá. Outras três mulheres estariam grávidas por meio desse procedimento.

Dois grupos de mulheres poderão ser beneficiadas por essa técnica: as jovens com câncer que vão poder retirar seus óvulos antes da quimioterapia, que pode deixá-las inférteis, e as mulheres com a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP). Como muitas de vocês sabem, as mulheres com SOP, em geral, produzem vários folículos todo mês e, em muitos casos, não há um dominante, o que dificulta a ovulação e, conseqüentemente, a gravidez. Quando estimuladas com hormônios, podem não responder a algumas medicações ou produzir dezenas de óvulos, sofrendo a chamada síndrome da hiperestimulação ovariana.

A grande sacada é que o procedimento não envolve hormônios para estimular a ovulação, o que pode ser arriscado para essas mulheres. Ou seja: os óvulos imaturos são retirados de um ciclo natural. Na pesquisa feito pelos médicos canadenses, eles coletaram óvulos de 20 mulheres com SOP e os amadureceram em tubos de ensaio usando um coquetel de nutrientes desenvolvido pelo grupo.

A notícia é bacana, mas deve ser vista com cautela.  É preciso mais pesquisa antes de a técnica poder ser considerada uma opção segura para mulheres com câncer. Também é necessário muito mais para assegurar que não haverá defeitos genéticos em bebês nascidos por meio dessa técnica.

No que diz respeito às mulheres com SOP, a técnica pode resolver a questão dos óvulos, mas não resolve o processo de implantação do embrião no útero. Parece que a síndrome também afeta a qualidade do endométrio, a camada que reveste o útero.

Bom, a outra notícia é a da advogada canadense que conseguiu a primeira permissão para doar óvulos para a própria filha. A menina, por sua vez, poderá dar à luz meios-irmãos caso decida usar esses óvulos para engravidar no futuro por fertilização in vitro. A filha, que tem sete anos de idade, é portadora da síndrome de Turner, uma doença genética que a torna infértil. Então sua mãe decidiu congelar os próprios óvulos na esperança de dar a ela a oportunidade de ter um bebê com genes semelhantes aos dela mesma.

Este é o primeiro caso de doação de óvulos de mãe para filha. Embora não envolva nenhuma tecnologia nova, ele abre questões éticas, já que Flavie geraria meios-irmãos. A mãe disse que decidiu fazer a oferta porque as únicas opções disponíveis para Flavie seriam aceitar óvulos de uma parente em segundo grau ou de uma estranha.

Não se sabe ainda se os óvulos terão qualidade quando, no futuro, forem descongelados. Também ninguém sabe se menina vai querer utilizá-lo. Mas a questão já está dando o que falar. É mais uma da série: “O que ainda falta para acontecer no mundo da reprodução assistida?”

Escrito por Cláudia Collucci às 15h47

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

 Visitas