Era uma vez um parto

Às vezes, a vida nos coloca em situações para lá de interessantes. Até a semana passada, estive envolvida na elaboração de um caderno especiais sobre hospitais de São Paulo, que a Folha publicou ontem. Coube a mim, entre outras coisas, fazer os perfis das maternidades mais bem avaliadas pelos médicos, no caso, a Maternidade São Luiz, a Pro Mater e a Santa Joana. A experiência mais marcante foi acompanhar uma cesárea. Eu e a fotógrafa entramos todas parementadas no centro cirúrgico para acompanhar o parto.

Antes, lembrei-me dos exercícios de pranayama, técnica utilizada na Índia há milhares de anos que nos ensina a assumir o controle da nossa respiração para ganhar energia e acalmar a mente. E lá fui eu: inspira pelo nariz inflando o abdome, segura um pouco a respiração e expira lentamente soltando todo o ar. E olha que eu precisava de toda calma mesmo porque, além de ser a primeira vez que acompanhava um parto, tinha sido examente ali, naquele centro cirúrgico obstétrico, que três anos atrás havia me submetido a uma curetragem após o aborto espontâneo.

Para minha surpresa, agüentei firme. Confesso até que durante o ato cirúrgico cheguei a esquecer que se tratava de um parto. Na minha vida de repórter de saúde, já acompanhei outras cirurgias e, apesar de não gostar muito desse ambiente, não fico impressionada com a sangüeira toda envolvida nessas situações. Entre médicos e enfermeiras, haviam oito profissionais ao redor da gestante. O bebê estava meio inclinado na barriga da mãe e deu um certo trabalho para retirá-lo com segurança.

Até aquele momento, não via nada de romântico, de sublime. A cesárea é uma cirurgia como outra qualquer. Mãe e pai ficam tensos, não vendo a hora daquilo tudo terminar e ter seu bebê nos braços. Os profissionais também têm protocolos a seguir e quando algo sai um pouco fora do script, dá-lhe tensão. Ao fim da cesárea, quando a mãe já começava a ser suturada, acompanhei um desses momentos de angústia: sumiu uma toalhinha usada para enxugar o sangue.

Ao começar o parto, havia sido aberto um pacote com dez e, no fim da cirurgia, há que se ter dez toalhinhas sujas. Procura daqui, procura dali, e nada de achar a bendita. Uma enfermeira começou a procurar no recipiente que servia de lixo, tirava uma por uma e ia contando e a conta só chegava nos nove. Era uma cena surreal: a mãe querendo saber se o filho era perfeito, se estava tudo bem com ele e, atrás dos panos que tampavam sua visão dos trabalhos médicos, a única preocupação do momento era saber onde estava a décima toalhinha. Um médico me sussurou: "se a gente não encontrar, vamos ter que abrir de novo para checar se não ficou dentro dela". Graças a Deus a toalhinha foi achada em outro lixo e tudo acabou bem. Respirei aliviada.

Só então pude ver aquele serzinho fofo, de 3,330 g, sendo limpo e pesado pela enfermeira. Ele chorava muito, talvez pelo susto de nascer em meio a tanta luz e a tanta gente. O pai também chorava incessantemente, enquanto acariciava a mãozinha do seu primogênito. A mãe, exausta, sorria e também chorava. Sai da sala assim que o bebê foi para o colo dela. Pensei que havia chegado o momento de estarem sós, de curtir o rebento que foi tão desejado. Foram quatro anos de luta contra a endometriose e uma laparoscopia até a gravidez, de forma natural, se concretizar.

Já na saída do centro cirúrgico, orgulhosa por não ter aberto o berreiro, comentei com minha amiga fotógrafa: Não tô nem acreditando. Passei por isso tudo sem derramar uma lágrima!!!". Nem terminei a frase. Na porta do centro, um outro pai chorava e falava com filhinha que estava no berço aquecido e seguia para o berçário: "acabou a moleza, minha querida. Agora é com você, filhona. O papai está aqui para o der e vier!!!". Nessa hora, me senti filha e mãe, mãe e filha e explodi em lágrimas. Os que estavam ao meu redor, idem. O clima de emoção deu logo lugar para umas boas risadas: ao ver a família toda atrás da porta, esperando para fotografar o bebê, o pai desandou a gritar: mãe, ela é a minha cara, é igualzinha a mim!!! 

Escrito por Cláudia Collucci às 15h26
Teremos nossos próprios filhos?

"Infelizmente só lemos isso: NEGATIVO. Eu mesma já disse isso quatro vezes!!! Como as clínicas colocam de 40% a 50% de sucesso nas fertilizações??? Isso é mentira!!!! E quando temos um positivo, temos na sequência um aborto!!! Quando vai chegar a nossa vez???"

Dias desses vi essa mensagem da Felícia no fórum de discussão do blog. E fiquei com ela na cabeça. Por mais triste que possa aparecer, ela reflete sim a realidade: os índices de sucesso ainda são muito pequenos, não passam de 30%, segundo as pesquisas internacionais sérias desta área.

Não dá para negar a existência de um marketing enganoso praticado pelas clínicas de reprodução. E também não dá para entender o motivo pelo qual o preço de uma técnica com quase 30 anos, como é a FIV, seja ainda tão exorbitante.

Em parte, pode-se atribuir os altos custos aos medicamentos e insumos, todos importados. Mas não dá para entender o preço dos honorários médicos, do trabalho da clínica em si. Há anos em que nada muda, em que os protocolos de tratamento são exatamente os mesmos.

Em alguns lugares, paga-se pela reputação do médico que encabeça a equipe. Mas isso se traduz em aumento de chances de gravidez? Duvido. Sinceramente, não confio nos índices propagados pelas clínicas. Como não há nenhum órgão que controla essas estatísticas, elas podem ser perfeitamente manipuladas.

Nos últimos anos, vendeu-se uma imagem muito colorida da reprodução assistida, quase uma fazedora de milagres. "Está com dificuldades de gravidez? Os seus problemas acabaram! Faça uma FIV e tenha o seu bebê tão sonhado" É esse o peixe que tem sido vendido pelas clínicas.

E o que eu tenho visto ao longo desses sete anos em que me dedico à pesquisa do assunto e, especialmente nos últimos três em que tenho vivido a dificuldade na própria pele, é uma faceta bem diferente: muitos negativos, muitos abortos, muito desgaste físico, emocional e financeiro.

E, no meio deste tortuoso caminho, vamos nos perdendo de nós mesmas. Vamos nos esquecendo de quem éramos antes de entrar neste olho de furacão. O mundo parece ficar cinza. Nossa auto-estima vai para o espaço porque bate aquela inevitável sensação de fracasso. E nos sentimos sozinhas, profundamente sozinhas.

Guardadas as devidas particularidades e histórias de cada um, isso acontece, muitas vezes, porque os profissionais que nos assistem parecem ignorar esse efeito perverso das sucessivas tentativas frustradas. Eles continuam nos enxergando como ovários, úteros, endométrios. Não como um ser completo. Não vejo isso como negligência, mas sim como o reflexo do que se transformou a nossa medicina ocidental em todas as suas áreas.

Por isso tudo, confesso a vocês, estou meio bodeada deste mundo da reprodução assistida. E isso não tem nada a ver com o desejo de ser mãe. Hoje estou mais certa do que nunca de que a maternidade não combina com esse sofrimento todo. Concordo que temos de investigar os fatores que impedem a gravidez, tratá-los quando necessário, mas tudo tem um limite, especialmente quando não há nada de concreto que esteja causando essa dificuldade de gravidez.

Precisamos estar atentas a esse limite para justamente não transformar o sonho de ser mãe em amargura, em tristeza, em desesperança. Temos de dizer sim à vida que temos hoje e jogarmos para o Universo a decisão do que não depende de nós.

Teremos nossos próprios filhos, gerados nas nossas barrigas? Talvez sim, talvez não. Penso que, em última instância, isso não depende de nós, nem dos tratamentos que estão por aí. Depende de uma lei universal maior, que muitos, como eu, chamam de Deus. A única certeza que tenho certeza é que há no mundo filhos para todas nós. Basta que os enxerguemos.

Escrito por Cláudia Collucci às 12h14
Pais de proveta

O mundo da reprodução assistida cada vez mais nos apresenta questões para lá de instigantes. Uma das que mais me surpreenderam no último mês foi apresentada numa reportagem do NY Times. É um relato do terapeuta familiar Thomas Anthony Donahoe, 50 anos, solteiro, que no final dos anos 80 havia feito várias doações de sêmen para uma clínica de reprodução em Cambridge, Massachusetts (EUA).

Ele conta que em dezembro passado atendeu uma ligação dessa clínica, perguntando se poderia receber um adolescente que estava indagando sobre seu doador de esperma. Nos EUA, a pessoa que nasce por meio de doação de óvulo ou esperma pode ter acesso aos dados do seu pai/mãe biológica quando atinge a maioridade.

Ele concordou que o menino ligasse, mas confessa que a perspectiva do encontro provocou nele ansiedade e excitação. Thomas temia as possíveis responsabilidades financeiras que pudessem surgir nesse território jurídico não muito definido. Ao mesmo tempo, sentiu-se animado e curioso para conhecer a pessoa que surgiu daquele processo de reprodução.

Dois dias depois, ele e o garoto se encontraram em um restaurante. Antony, o filho biológico, fez várias perguntas: Se conhecia muitos casais de lésbicas (o sêmen de Thomas foi usado por um casal de lésbicas, mães de Antony), por que ele havia doado o esperma e se a família de Thomas tinha doenças sérias que ele pudesse ter herdado.

Thomas contou que na época da doação de sêmen uma ex-namorada havia ligado e dito que uma enfermeira amiga estava procurando um doador para sua clínica. Ele havia sofrido um acidente e gostou da proposta de ganhar US$ 40 por cada doação. No total, ele havia feito umas 50 doações de sêmen no período de dois anos (ele não contou essa parte da história a Antony).

Thomas relata: "Pensei que deveria agir de uma maneira que ele aprovasse, uma maneira que mostrasse que eu era um pai capaz e confiável, apesar de nunca ter sido. Nos últimos 17 anos algumas vezes eu pensei nesses meus possíveis filhos: quem eram, quantos, onde, especialmente porque a enfermeira do centro de doação disse que minhas receptoras tiveram inseminações positivas. Senti alívio por finalmente ter conhecido um dos meus rebentos."

Thomas e Antony se encontraram outras vezes: viram fotos de quando eram pequenos, jogaram boliche, foram ao cinema. O último encontro aconteceu em janeiro último, antes de o garoto voltar para o colégio na Califórnia. Ele conta: "Nos encontramos em frente a uma das mais antigas capelas de Cambridge, a Christ Church. Enquanto ele trancava a bicicleta, percebi pela primeira vez o endereço: Zero Garden Street. Achei estranhamente adequado. Eu estava mais consciente que nunca de que não o havia criado como meu filho e ele não me considerava seu pai. No ponto zero poderíamos pelo menos adaptar nossas expectativas sociais a essa falta de história."

Thomaz diz que conhecer o seu filho foi bom para matar sua curiosidade e para uma reavaliação da vida. Tão bom que no dia do último encontro com Antony ele ligou para o centro de reprodução para aprovar qualquer futuro contato com outros filhos. Pouco mais de uma semana depois desse telefonema, ele chegou em casa e ouviu na secretária a voz de uma garota que se apresentou e disse, parecendo nervosa: "- Ãh... estou ligando para você... e... gostaria de conversar com você sobre ser meu doador, acho que vou tentar de novo mais tarde. Tchau."

Achei essa uma bonita história para contar nesta tarde do Dia dos Pais.

Escrito por Cláudia Collucci às 17h05
Uma homenagem aos pais e aos "tentantes"

O dr. Rodrigo Pagani nos enviou o texto abaixo como uma homenagem ao Dia dos Pais. Aproveito para desejar a todos os pais e a todos os homens "tentantes" um grande dia.

Recebi outro dia pela internet, um daqueles textos sem autores que geralmente apago sem ler. Por algum motivo, este me chamou a atenção a ponto de não somente lê-lo, mas de fazer uma reflexão sobre a importância de ser pai. O texto fala de um sentimento único que envolve a relação pai e filho e que me permito transcrevê-lo:

“Existia na Romênia, um homem que dizia sempre a seu filho: Haja o que houver, eu sempre estarei ao seu lado. Nesta época, um terremoto gigantesco arrasou várias construções lá existentes. Ao ver o ocorrido, o homem correu para casa e verificou que sua esposa estava bem, mas seu filho nesta hora estava na escola. Foi imediatamente para lá e encontrou-a totalmente destruída, não restando uma única parede em pé. Tomado de uma enorme tristeza ficou ali, se lembrando do seu filho e da sua promessa não cumprida.

Seu coração estava apertado e sua vista apenas enxergava a destruição. Mentalmente, percorreu inúmeras vezes o trajeto que fazia diariamente segurando sua mãozinha. Até que resolveu fazer em cima dos escombros, o mesmo trajeto. Portão...corredor...virou a direita...e parou em frente ao que deveria ser a porta da sala.

Começou, então, a cavar com as mãos. Nisto chegaram outros pais, que embora bem intencionados, e também desolados, tentavam afastá-lo de lá dizendo que não adiantava o esforço porque não sobrara nenhuma criança viva. Ninguém o ajudava, e pouco a pouco, todos se afastavam, dizendo: Saia daí, não está vendo que não pode ter sobrado ninguém vivo?

Mas não se afastava dali. Passaram-se várias horas e já exausto, dizia a si mesmo que precisava saber se seu filho estava vivo ou morto. Até que ao afastar uma enorme pedra, sempre chamando pelo filho, ouviu:  Pai, eu estou aqui! Tem mais alguém com você? - perguntou o pai.

- Sim, dos 36 da classe, 14 estão comigo; estamos presos em um vão entre dois pilares. Estamos todos bem! Pai, eu falei à eles: “Vocês podem ficar sossegados, pois meu pai irá nos achar: Haja o que houver, meu pai estará sempre ao meu lado”.

- Vamos, abaixe-se e tente sair por este buraco.

- Não! Deixe-os saírem primeiro. Eu sei que, haja o que houver, você estará me esperando!”

Houve um tempo em que a infertilidade masculina era tratada com ervas e poções. Não ter filhos era visto como uma condenação para o homem, e, entre os reis e nobres, significava uma catástrofe a ameaçar a sucessão e toda a linhagem. A infertilidade era considerada, assim, um castigo divino.

Em compensação, hoje, é tratada com as mais variadas intervenções e tratamentos, permitindo a muitos homens, que antes seriam tidos como inférteis definitivamente, a dádiva da paternidade. Não é à toa que o ditado ancestral indica como marcos de sucesso na vida plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.

Plantar a árvore simboliza nossos deveres com o ambiente, a vida material tocada com equilíbrio e generosidade. Escrever o livro simboliza a dedicação também à cultura, à vida espiritual, sem a qual o sucesso material torna-se vazio. O papel dos livros vem das árvores e, como a indicar a relação conseqüente entre vida material e cultural.

 Ter o filho simboliza a continuidade da vida, uma forma de retribuir pela vida, gerando nova vida. Também não é à toa que a origem das palavras sêmen e semente é a mesma, significando, no fundo, renascimento. Por isso, os avanços no tratamento da infertilidade masculina representam a possibilidade de futuro, de renascimento, para muito mais homens, a se tornarem fonte de novas vidas, ou, em uma palavra, pais.

Assim sendo, desejo àqueles que são pais um excelente Dia e que pratiquem a paternidade diariamente. Àqueles que ainda não o são, e que se assim o desejarem ardentemente e quiserem partilhar dessa alegria única, nunca desistam. Por fim, queridos filhos, Felipe e Eduardo (que chega em dezembro), haja o que houver, eu sempre estarei ao lado de vocês.

O urologista Rodrigo Pagani é docente do Departamento de Urologia do Hospital das Clínicas e chefe do Laboratório de Andrologia do Centro de Reprodução Humana Mário Covas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Email: rodrigopagani@uol.com.br

Escrito por Cláudia Collucci às 11h20

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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