As francesas e a licença-maternidade

Fiquei sem conseguir postar mensagens por alguns dias porque a maratona na França foi pauleira, mas achei ótima a repercussão do último post. O tema abriu o leque para ouvirmos opiniões das mais diversas, concordantes e dissonantes com a autora, o que é fantástico!

Mudando de assunto e, ao mesmo tempo continuando no tema, observei ao vivo e a cores esse boom de maternidade que a França está presenciando. Duas francesas próximas a mim tornaram-se mães nos últimos meses. Uma delas, Marie, aliás, comentou há dois anos que não tinha a menor vontade de ser mãe e que, no futuro, pretendia adotar uma criança. Reencontrei-a feliz da vida no último sábado, com Suzana nos braços. Os planos de adoção continuam valendo porque, diz ela, não pretende engravidar novamente.

A questão passa pelo pragmatismo: perde-se muito tempo com a gravidez e o pós-parto, argumentou Marie. Há três meses de licença maternidade, ela não vê a hora de voltar ao trabalho em uma multinacional, o que deve acontecer no próximo mês. Bem na verdade, ela não parou de trabalhar: levou um monte de afazeres para casa e, entre um sono e outro do bebê, lá está ela ralando, definindo novas estratégias para colocar em prática tão logo retorne oficialmente ao trabalho.

Isso não novidade para Marie. Filha da executiva Anne, ela foi para a creche aos quatro meses de idade e acha perfeitamente natural que ocorra o mesmo com a filha. Comentei com ela sobre o projeto de lei brasileiro de ampliar a licença maternidade de quatro para seis meses com o propósito de melhorar o vínculo mãe e bebê, além de incentivar a amamentação. Ela, uma workaholic assumida, disparou: "a idéia é nobre, mas não é prática. Quem se ausenta por sete meses está fora do negócio."

Para ela, "a empresa não pára, mudam os sistemas, as tecnologias, portanto, quando a mulher voltar, estará desatualizada e menos competitiva". Já tinha ouvido argumentos parecidos por aqui de empresários e especialistas em RH, mas achei que eram visões muito pró-empresas...

Vários paises já concedem licença-maternidade superior a quatro meses (16 semanas), podendo, em alguns casos, chegar a até um ano. Na Noruega, na Dinamarca, na Venezuela e em Cuba, a licença é de 18 semanas. Já no Canadá, na França e na Polônia, esse período é variável. Na Itália, a licença é de cinco meses e, em três outros países que adotam períodos superiores aos do Brasil, esse benefício é contado em dias: Rússia (140 dias), Ucrânia (126 dias) e Suécia (480 dias).

A Suécia é um caso à parte, pois, a partir de 1974, tornou-se o primeiro país do mundo a transformar a licença-maternidade em um benefício remunerado para ambos os pais, com o objetivo de estimular os homens a assumirem um papel mais ativo na criação dos filhos e propiciar ainda uma divisão mais igualitária das tarefas domésticas.

Segundo a legislação sueca, até o terceiro mês a licença é para o pai e para a mãe e, a partir dessa data, o casal tem que optar sobre qual dos dois continuará de licença, mesmo que a mãe ainda esteja amamentando. Esse período pode ser ainda alternado, para que tanto pai quanto mãe possam se revezar na licença-maternidade.

A conclusão que chego é a seguinte: em muitas empresas e em muitos países, a valorização da mulher e o apoio à maternidade já são realidade e até onde sei a  ampliação da licença não tem potencial para destruir uma posição conquistada depois de pelo menos três décadas no mercado de trabalho.

Segundo os autores da proposta, a longo prazo, a tendência é que as vantagens saltem aos olhos das empresas. O raciocínio é simples: uma funcionária que amamenta por mais tempo terá um bebê mais saudável, e, portanto, faltará menos ao trabalho para cuidar do filho. Ainda que não amamente, terá um vínculo mais profundo com a criança e trabalhará mais tranqüila, o que tende a se converter em aumento na produtividade. Torço para que isso realmente aconteça.

 
Escrito por Cláudia Collucci às 16h02
Livro enumera 40 razões para não ter filhos

No momento em que a França lidera os índices de taxa de fecundidade na União Européia, um livro que traz 40 razões para não ter filhos está provocando o maior rebuliço por aqui. Ah, sim, estou em Paris participando de um evento em saúde que reúne jornalistas de 25 países.

O livro No Kids lança um apelo para que as pessoas não tenham descendentes e diz que o controle da natalidade "é a única esperança" para uma sociedade melhor. Lançado pela Editora Michalon, já vendeu 45 mil exemplares e está nas listas dos mais vendidos na França.

A autora, Corinne Maier, psicanalista e economista, não é chegada mesmo no politicamente correto. Em 2004, ela já havia causado polêmica na França quando lançou "Bom dia Preguiça", no qual ensinava como manter o emprego trabalhando o menos possível. Logo depois da publicação, ela foi despedida da companhia de energia francesa EDF.

"Franceses, enfim a verdade: as crianças são o inferno. Quarenta razões para não ter filhos são ainda bem pouco. Em nosso país, líder em natalidade na Europa, só há uma única solução: a contracepção", escreve a autora em seu site na internet para explicar seu novo livro. Segundo Maier, 43 anos e mãe de dois adolescentes, de 13 e 11 anos, "quanto mais a natalidade aumenta, menos as pessoas dizem que são felizes".

Para ela, filhos "custam caro, poluem e sobretudo afundam a existência das pessoas". "Para os filhos, devemos renunciar a todo o resto, como lazeres, vida de casal, amigos, sexo e mesmo sucesso social no caso das mulheres. E isso, durante 20 anos, até que a maravilhosa criança radiante se transforma em um jovem sem futuro, um desempregado, um perdedor", diz ela.

O livro aborda inicialmente o desejo de ter filhos, definido como "uma aspiração idiota". Depois a autora analisa a fase "metrô, trabalho, crianças, não obrigado" e diz em outro capítulo que filhos são "aliados do capitalismo". Maier escreve também que as pessoas ficarão "certamente decepcionadas com os filhos" e conclui com a seguinte questão "por que se matar por alguém que será um excluído no futuro"?

Para a autora, os filhos impedem as pessoas de desfrutar da vida. "Acreditem, eles serão criativos nessa área. Eles ficarão doente quando você quiser sair para se divertir e vão atrapalhar quando você fizer uma festa com os amigos". A escritora utiliza frases pesadas para defender suas idéias, como, por exemplo, "você vai carregar seu filho durante décadas. Um verdadeiro fardo do qual será difícil ficar livre.

Maier afirma que o fato dela mesma ter tido filhos permite que ela tenha a independência necessária para falar sobre o assunto. "Se eu não tivesse filhos, achariam que sou uma velha amarga".

Fica muito claro que o único proposto da autora é a provocação.  Ser ou não ser mãe é uma opção que deve ser respeitada porque é uma decisão de fóro íntimo de cada mulher. Tenho várias amigas que decidiram não passar pela maternidade e são muito felizes dessa forma. Mas, como pessoas queridas que são, simplemente respeitam a decisão de quem deseja tanto um filho. Como eu, como você.

A autora em questão parece não estar muito preocupada em respeitar a decisão daquelas que querem ser mães. O real objetivo é chocar, usando os argumentos mais pobres que já li. E, é óbvio, a grande meta é vender milhares de exemplares do livro já que, agora, desempregada, ela vive disso.

E Paris continua linda!!!!

**** Em tempo: No domingo, dia 16/9, quem for ao parque Ibirapuera poderá fazer teste de fertilidade e esclarecer dúvidas com especialistas em medicina reprodutiva, gratuitamente, entre as 9h e as 15h. Haverá ainda uma caminhada, com início às 9h30. Quem se inscrever para a caminhada no site www.sapientiae.org.br receberá uma camiseta no local. Os interessados devem ir ao portão sete do parque.
Escrito por Cláudia Collucci às 12h09
"Mulher que não engravida, Deus não abençoa"

O título acima é um trecho literal de uma mensagem da Vivinha, que nesta semana encaminhou uma mensagem relatando a saga que viveu nos últimos quatro anos de tentativas de gravidez até finalmente optar pela adoção e estar feliz da vida com seu Gabriel nos braços. Vivi conta que cresceu ouvindo a frase "mulher que não engravida, Deus não abençoa" e que sofreu muito com a gravidez que não vinha, embora hoje, depois muita terapia e com a chegada do filho adotivo, tenha resolvido essa questão.

Fiquei pensando na quantidade de mulheres que ainda devem estar com idéias muito parecidas a essa na cabeça. Tenho várias amigas na área da psicologia e, segundo os seus relatos, há muitos casos de mulheres que engravidaram depois de desatarem alguns nós emocionais, especialmente nas suas relações com as mães e os pais. Hoje, cada vez mais, a ciência volta os seus olhos para as doenças psicossomáticas e as somatizações, mostrando que a "cura" de muitos dos nossos males está na cabeça.

Entrevistei ontem um psiquiatra da PUC Campinas que está lançando um livro ("Da emoção à lesão") justamente sobre esse tema: como nossas emoções podem nos adoecer. As histórias vão de infartos a câncer e revelam que as emoções represadas representam um grande perigo à nossa saúde. Ele buscou estudos científicos muito bem embasados mostrando as alterações provocadas pelo eixo hipófise-hipotálamo (lembre-se que é exatamente esse eixo o responsável pelo funcionamento dos nossos hormônios...) e outras gândulas como a tireóide e a supra-renal e o impacto disso no desenvolvimento de doenças.

Há exemplos de homens e mulheres que desenvolveram câncer ou sofreram infartos depois de uma grande perda (morte de um ente querido ou mesmo a separação) e por aí vai. No jornalismo de saúde, costumo ser bem cética com tudo que não tenha embasamento científico, que não seja amparado em estudos prospectivos e randomizados. Mas quando se trata deste tema, das doenças psicossomáticas, não tenho a menor dúvida da sua existência e da importância dos profissionais da saúde mental (psicólogos e psquiatras) neste processo.

Penso que, independentemente de se conhecer ou não a causa de uma dificuldade de gravidez, todos os casais que passam por essa situação deveriam receber atenção psicológica. Não só para ter a oportunidade de remexer em coisas escondidinhas no inconsciente que nos levam a um constante auto-boicote como também para nos livrar de mitos absurdos como este do título, que nos remete a uma época de total obscurantismo.

Falo especificamente da Idade Média, em que a maternidade era definida pela tradição judaico-cristã como o momento em que a mulher se afastava do pecado de Eva e se aproximava de Maria, a virgem que pariu o salvador do mundo. A partir do século 17, há relatos médicos de que a mulher que não conseguisse engravidar era considerada um ser física, moral e psiquicamente incapaz. Às portas do século 20, ainda havia médicos que acreditavam que a maternidade era uma característica indispensável à mulher saudável e incompatível com a sexualidade.

Chega a assustar o fato de que as primeiras vozes em defesa de uma maternidade consciente, ou seja de a mulher poder optar entre ser mãe ou não, só surgiram nas primeiras décadas do século passado, ganhando força com o movimento feminista. A escritora francesa Elisabeth Badinter é uma das porta-vozes dessa conquista. "O instinto maternal é apenas uma parte da natureza feminina que muda de acordo com as variações socioeconômicas, da história e com as circunstâncias materiais em que vivem as mães", escreveu ela no livro "Um amor conquistado - o mito do amor materno".

Hoje, embora disfarçado, ainda há muito preconceito envolvendo a mulher que passa pela infertilidade. Podemos observá-lo em desabafos de nossas leitoras sobre comentários maldosos que ouvem das "amigas" ou mesmo de familiares, e também nas novelas televisivas. Invariavelmente a mulher que não pode ter filho aparece como a vilã, a desequilibrada (lembram da personagem Nazaré, interpretada pela Renata Sorrah?). Não seria essa mesma visão, com roupagem diferente, da Idade Média? Por isso, é preciso muita atenção para não cair em ciladas nem do nosso inconsciente nem da nossa sociedade. Ninguém merece que o fardo da dificuldade de gravidez, que já é pesado por si só, fique ainda mais insustentável. 

Escrito por Cláudia Collucci às 14h30
Os efeitos do estresse na fertilidade

Fiquei feliz por saber que está crescendo o time de pesquisadores que  investigam a sério os efeitos do estresse crônico na ovulação, e, conseqüentemente, nas chances de a mulher engravidar. Em suas pesquisas, a médica Sarah Berga, da Universidade Emory (EUA), examina como o estresse crônico altera os sinais cerebrais enviados ao hipotálamo e provoca a redução dos níveis de dois hormônios cruciais para a ovulação.

Em um pequeno estudo com 16 mulheres publicado em 2003 no periódico "Fertility and Sterility", Berga demonstrou que a ovulação foi restaurada em sete dentre oito mulheres que se submeteram à terapia comportamental cognitiva, contra apenas duas em oito que não se submeteram à mesma terapia. A terapia cognitivo-comportamental é um tipo de psicoterapia que utiliza de um conjunto de técnicas no tratamento dos distúrbios emocionais e do comportamento, com objetivo de modificar reações emocionais e comportamentos que nos prejudicam.

Em 2006, no periódico "The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism", Berga informou que as mulheres que não ovulam apresentam níveis excessivos de cortisol, um hormônio do estresse, no fluído cerebral. "O estresse crônico, seja ele emocional ou físico, sobrecarrega o corpo. Somos capazes de aceitar que o estresse está vinculado à doença cardíaca, mas não à fertilidade", afirmou a médica em entrevista ao "The NY Times".

Para a médica, uma parte das mulheres não engravida porque é estressada e não se beneficiará com as técnicas de fertilização in vitro. "Idealmente, seria bom que médicos e pacientes entendessem o vínculo entre estresse e fertilidade de forma que eles soubessem quando oferecer algum tipo de intervenção."

Ela exemplifica: "a terapia comportamental cognitiva é um programa de 16 semanas relativamente simples e barato que às vezes acaba com a necessidade de uso de drogas e procedimentos caros e arriscados." Na entrevista, Berga diz não ser contra ao uso de medicamentos para fertilidade, mas acha que eles deveriam ser indicados para quem realmente precisa deles.

Concordo em gênero, número e grau com a dra. Berga. E poderia citar inúmeros casos que conheço de pessoas que engravidaram quando conseguiram relaxar de VERDADE. Relaxar parece simples, mas não é. Nosso inconsciente prepara a cada momento armadilhas muito bem elaboradas que nos deixam presas em teias que provocam muita confusão na nossa vida. Começar a entender esse mecanismo de auto-sabotagem e criar estratégias para neutralizá-lo (com meditação, yoga, dança ou qualquer outra coisa que realmente te faça feliz) é crucial para o nosso bem-estar físico e mental.

Escrito por Cláudia Collucci às 11h51

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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