Nascem os gêmeos gerados a partir de óvulos maturados em laboratório

A dica é da nossa leitora Cintia, que viu a notícia na BBC News. Nasceram na Inglaterra os primeiros bebês gerados a partir de óvulos que foram maturados em laboratório. Os gêmeos, cujos nomes não foram revelados, vieram ao mundo no último dia 18. O tratamento foi feito no centro de fertilidade de Oxford, a única clínica do Reino Unido a ter licença para fazer tal tratamento.

 

A técnica se chama IVM (In Vitro Maturation), ainda é considerada experimental e é indicada, especialmente, às mulheres que sofrem riscos com a estimulação ovariana usada na FIV tradicional, especialmente as portadoras de SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos), que têm mais chance de desenvolver um hiperestímulo dos ovários.

 

Chamada de Síndrome da Hiperestimulação Ovariana, essa intercorrência pode afetar até 20% das mulheres submetidas à estimulação ovariana com hormônios _1% dos casos pode acabar em morte. Eu mesma já senti na pele o que é passar por isso...

 

Por isso, a notícia vem como um alento para quem teme enfrentar essa situação. Também não deixa de ser uma possibilidade de barateamento da técnica já que a quantidade de hormônios utilizada é muito menor do que na FIV tradicional.

 

Uma das desvantagens colocadas pelos cientistas é que as taxas de gravidez ainda são menores do que a FIV tradicional. Apenas 400 bebês nasceram no mundo por meio da IVM_contra os 2 milhões da FIV tradicional. 

 

A diferença entre as duas técnicas é a seguinte: na FIV tradicional, como muitas de vocês já sabem, a mulher toma diariamente injeções de hormônio para aumentar o número de óvulos e fazê-los crescer. Cerca de duas semanas depois, já maduros, eles são aspirados e fertilizados com os espermatozóides no laboratório. Depois, os embriões são transferidos ao útero.

 

Na nova técnica, a mulher precisa de uma única injeção. Os óvulos imaturos são retirados com um ultra-som e maturados em laboratórios por dois dias e, então, fertilizados. Depois, como na FIV tradicional, os embriões são transferidos para o útero.

 

Na comunidade científica, a notícia ainda é vista com cautela. Ainda será necessário ampliar o número de pesquisas e de nascimentos de bebês por meio dessa técnica para saber, por exemplo, se ela é segura. Há dúvidas se a maturação no laboratório pode prejudicar a qualidade do óvulo, aumentando o risco de deformidades genéticas no bebê. 

Escrito por Cláudia Collucci às 20h44
A reprodução e o descaso médico

“Tenho 49 anos (meu marido 29) e venho tentando engravidar sem acompanhamento há quatro anos. Gostaria que me indicasse médico/clínica em Curitiba/PR ou arredores, para me orientar tanto pelo método normal, com medicamentos e em último caso, inseminação artificial.”

“Tenho 26 anos e há seis tento engravidar sem nenhum sucesso. Fiz vários exames de sangue e todos deram normal, fiz também ultra-som e minha médica disse que tenho "polimicrocistico". Meu marido fez o espermograma e acusou uma taxa  baixa. Fui ao especialista em reprodução e ele me falou que mesmo assim, se pegarmos o dia certo conseguiríamos engravidar...”

“Tenho 37 anos e dois filhos, um de 18 outra de 16. Casei novamente e gostaria de saber se pode ser revertida a minha cirurgia (o médico disse ter amarrado as trompas) isso já fez 9 anos. Ainda tenho chance de engravidar? A inseminação é a única alternativa? Por favor me oriente, meu marido me pressiona, estou desesperada. Fui em um médico que apenas disse não ter mais volta a cirurgia, Será verdade?”      

 

“Tenho 41 anos e 3 filhos e, depois do terceiro filho, fiz laqueadura, tirei as duas trompas. Agora quero engravidar, tem como isso ser possível com inseminação artificial?

“É um prazer poder falar com você. É maravilhoso ter alguém para compartilhar nossas dúvidas nessa luta diária pelo direito de ser mãe, uma luta que é acompanhada de muita angústia e tristeza pela incerteza, em alguns casos pelo descaso de alguns médicos, levando-nos a impossibilidade de ser mãe. No meu caso a falta de informação foi crucial, levou a perda das minhas duas trompas (salpingite). Após dez anos de tentativas, soube que não havia possibilidade de engravidar, somente pela fertilização in vitro.”

 

“Sou 'juntada' há dois anos e há seis meses venho tentando engravidar. Meu médico receitou-me Tenag, mas não consegui ainda engravidar.
Queria saber mais sobre o Clomid, pois acho que o Tenag não adiantou.
Queria muito engravidar ainda esse ano. Será que consigo?
E se eu tomar os dez comprimidos vai fazer mal para meu organismo?”
 

 

Os trechos acima foram retirados de mensagens que recebo diariamente de leitoras. Apesar de fazer parte da minha rotina há quase oito anos (desde quando comecei a coluna na Folha Online), algumas dúvidas me deixam angustiada pelo fato de perceber que há médicos abandonando suas pacientes, deixando de esclarecer questões muito simples que as poupariam de um imenso sofrimento.

 

Vejamos a primeira questão. Será que nenhum médico alertou essa leitora que, aos 49 anos, as chances dela conceber naturalmente um bebê são mínimas, inferiores a 1%, devido, entre outras coisas, à má qualidade dos óvulos? Ou que, exatamente por esse motivo, uma inseminação ou uma fertilização in vitro também são inviáveis? Será que algum médico explicou a ela que a única chance de conceber nesta idade provavelmente será por meio de uma doação de óvulos?

 

A segunda dúvida nos mostra o quanto alguns médicos desconhecem os protocolos de investigação e tratamento da infertilidade. A jovem está há seis anos tentando uma gravidez, tem ovários policísticos, o marido apresenta baixa contagem de espermas e o único conselho de o médico é ir tentando, até “pegar o dia certo”. Como assim, cara pálida?????

 

A dúvida seguinte diz respeito à laqueadura. A leitora fez a cirurgia há nove anos, ou seja, quando tinha 28 anos, e agora, arrependida e pressionada pelo novo marido, quer engravidar novamente. O médico diz que a reversão não possível. Mas será que não é mesmo? A única forma de saber isso é por meio da laparoscopia, o que, na mensagem original, ela não menciona ter feito. Há casos em que realmente não é possível fazer a recanalização das tubas ou por não haver mais tecido suficiente ou em razão de aderências, mas há outras situações de tremendo sucesso. Tudo é uma questão de avaliar o estado atual das trompas e ver se a reversão da laqueadura é possível. É mais barato e, sendo possível a recanalização, as chances de gravidez são até superiores às da reprodução assistida.

 

A outra leitora nos conta que, durante dez anos, tentou engravidar ignorando o fato de não ter as duas trompas. Como é possível um médico retirar as duas trompas de uma mulher e não informá-la que, com isso, estariam encerradas as chances de ela engravidar naturalmente? Quem pagará por essa década de angústia e frustração? Esse médico merece ou não responder a processo?

 

A última leitora nos conta que está tomando um medicamento fitoterápico para engravidar. Dei uma pesquisada na bula do remédio e lá diz que ele é indicado para corrigir irregularidades do ciclo menstrual, síndrome pré-menstrual, hiperprolactinemia, e “Infertilidade devido a níveis diminuídos de progesterona ou hiperprolactimenia”. Não sei se houve alguma investigação anterior que tenha embasado o médico a receitar o tal fitoterápico, cuja ação sobre a infertilidade, pelo que pesquisei, não tem eficácia comprovada. Sem conseguir a gravidez (em seis meses de tentativas....), a leitora quer saber se tomar os dez comprimidos de Clomid vai fazer mal...

 

Sim, querida leitora, pode fazer muito mal, especialmente se você não tiver nenhuma indicação para recebê-lo. Primeiro é preciso saber se você está ovulando, se as suas trompas estão desobstruídas, se o espermograma do seu marido está normal, essas coisas básicas, mas que seu médico parece ignorá-las. E se tudo isso estiver normal, saiba que, em geral, demora-se até um ano para se conseguir engravidar naturalmente.

 

Desculpem-me a minha evidente irritação. De forma alguma ela está relacionada às leitoras que enviaram suas mensagens em busca de uma luz no fim do túnel. Na medida do possível, tenho o maior prazer de ajudar no que estiver ao meu alcance. Mas, sinceramente, penso que o descaso com que alguns médicos tratam suas pacientes chega a ser criminoso. Está mais do que na hora de o poder público, as sociedades médicas, as agências reguladoras, os conselhos de medicina atentarem-se para esse problema e fazer valer a política dos direitos reprodutivos no nosso país.

 

É louvável e extremamente importante que homens e mulheres tenham verdadeiramente acesso aos métodos contraceptivos, meta do atual ministro José Gomes Temporão,  mas também é igualmente importante que os casais que passam pela dificuldade de gravidez encontrem igual amparo, seja por meio de médicos qualificados, seja através de tratamentos preconizados e validados pelos protocolos internacionais.    

Escrito por Cláudia Collucci às 14h53
Viagra pode ajudar na implantação do embrião no útero?

Quem conhece o mínimo deste mundo da reprodução assistida, provavelmente já se sentiu como uma ratinha de laboratório, usando, paralelamente aos indutores de ovulação, estrógenos, progesteronas entre outros, medicamentos "off label", ou seja, que não foram aprovados para este fim (nem pelo fabricante nem pelos órgãos reguladores de medicamentos), mas que nossos médicos receitam por conta e risco, apoiados muito mais em potenciais promessas do que em estudos bem fundamentados.

Dois anos atrás, acabei comprando uma briga com alguns médicos depois de denunciar o uso do letrozol (Femara), aprovado pelas agências reguladoras para tratamento do câncer da mama, como indutor da ovulação. Naquela ocasião, médicos brasileiros estavam ignorando um alerta do fabricante da droga, que condenava o seu uso para fins reprodutivos. Baseada em um estudo canadense, a Novartis (fabricante da droga) divulgou um aviso mundial dizendo que o medicamento poderia causar defeitos congênitos e abortos se usado na reprodução assistida. Alegando que não conheciam o aviso ou que não acreditavam no risco, especialistas em reprodução continuaram receitando o remédio.

Não sei como está o uso do letrozol hoje, mas situações semelhantes, ou seja, o uso "off label" de determinadas drogas, continuam acontecendo. A mais comum tem sido a indicação da aspirina e da heparina (antitrombolíticos e vasodilatadores) durante o tratamento de fertilização in vitro por se suspeitar de problemas imunológicos. Aliás, está virando moda atribuir a supostos "problemas imunológicos" toda e qualquer dificuldade de gravidez sem causa aparente. Está parecendo a tal da "virose", que hoje explica 99% de tudo o que aparece nos prontos-socorros. De gripe a intoxicação alimentar, é virose... A sensação que eu tenho é que, quando não se consegue explicar determinada situação, opta-se pelo caminho mais fácil e, muitas vezes, sem nenhuma investigação de que dê suporte.

Bom, sobre a aspirina acabo de ler um artigo publicado na revista científica "Fertility and Sterility" dando conta que não há evidência científica de que o uso do medicamento aumente as chances de sucesso de fertilizações in vitro e ICSI. Conforme observou Arri Coomarasamy (Guy’s Hospital, London, UK) e seus colegas, não há estudos suficientes e consistentes que justifiquem o uso da aspirina nos tratamentos de reprodução assistida.

Eles analisaram sete estudos randomizados e controlados que compararam aspirina com placebo em 1.241 mulheres em tratamento de FIV ou ICSI e concluíram que não houve aumento na taxa de gravidez e nem nos índices de nascidos-vivos com o uso do medicamento. As taxas de aborto e de gravidezes ectópicas também foram semelhantes nas duas situações. Esses resultados contradizem outros estudos anteriores que sugeriam que pequenas doses de aspirina podiam melhorar as taxas de gravidez.

Situação semelhante acontece com a metformina, um antidiabético que também tem sido indicado para mulheres com a SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos), mesmo quando não há obesidade ou resistência à insulina associada à SOP. Outro estudo, dinamarquês, publicado na mesma revista, diz que o tratamento só é eficaz quando indicado às mulheres obesas.

"Metformina não é efetiva para todas as mulheres", alertou B.Trolle (Aarhus University Hospital) e seus colegas, "e toda cautela tem que ser adotada para evitar o uso indiscriminado [da metformina]." Os benefícios (regularização dos ciclos menstruais, queda nos níveis de testosterona e dos níveis de açúcar no sangue, entre outros) só foram observados nas mulheres obesas. Nas não-obesas, os resultados da metformina foram os mesmos encontrados com o uso do placebo. E como sabemos que nenhum medicamento é inofensivo, é bom mesmo botarmos as barbas de molho...

Esse tema me chamou a atenção porque li nesta semana uma reportagem sobre o nascimento de um bebê a partir de um embrião que havia ficado oito anos congelado. Sua mãe tinha feito duas tentativas anteriores de transferências de embriões congelados, sem sucesso. Partiu para adoção e, oito anos depois, chamada pela clínica para decidir o que fazer com os cinco embriões criopreservados, ela e o marido decidiram transferi-los para o útero.

Três embriões sobreviveram ao processo de descongelamento e foram transferidos. Mas três dias antes da transferência, a mãe tomou Viagra, cujo composto vasodilatador aumenta a quantidade de sangue no útero, fazendo crescer a espessura do endométrio. Para o médico que conduziu o caso, o uso do Viagra teve papel importante no sucesso da gravidez.

A notícia, em um primeiro momento, me deixou muito feliz porque sei que hoje um dos maiores mistérios na fertilização in vitro são as baixas taxas de implantação do embrião no útero materno. Se o Viagra vem a ajudar, maravilha, temos muito a comemorar, pensei com os meus botões.

Mas meu entusiasmo esfriou um pouco quando, ao procurar na literatura especializada pesquisas que justificassem o uso do Viagra para esse fim (implantação), quase nada encontrei. Tomara que seja apenas uma dificuldade minha de beber nas fontes certas...Tomara que o uso "off label" do Viagra na reprodução assistida traga realmente algum benefício e que não seja apenas mais uma promessa que, a qualquer momento, poderá ser derrubada por estudos mais consistentes.     

 

Escrito por Cláudia Collucci às 16h27
Hospital São Paulo abre inscrições para programa de infertilidade

O setor de Reprodução Humana do Hospital São Paulo, ligado à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), abriu as inscrições para o programa de infertilidade, que oferece todos os tipos de tratamento em reprodução assistida. Os casais interessados devem participar das palestras no dia 10 de novembro ou 1º de dezembro. As inscrições podem ser feitas pelo tel: 08007723322.

O setor existe há 15 anos e realiza todos os tipos de tratamentos para a infertilidade, com procedimentos médicos gratuitos e quase todos os tipos de exames sem custos aos pacientes. O casal arca com a responsabilidade de pagar a medicação necessária, alguns exames e, em alguns casos, a internação hospitalar. Eles iniciam os tratamentos após participarem de palestras que esclarecem os problemas existentes e o que se pode fazer.

Todos têm custos, por cada tentativa, que variam de R$ 2 mil (inseminação) a R$ 7 mil (fertilização in vitro), sempre relativos a medicamentos, exames e procedimentos não cobertos pelo SUS. Os procedimentos médicos e grande parte dos exames são gratuitos. Em clínicas particulares, os mesmos serviços têm preços que variam de R$ 15 mil a R$ 50 mil. No caso de reversão de laqueadura, o índice de sucesso é de 80%, sendo que a paciente deve arcar com custos dos fios cirúrgicos e internação.

O programa do Hospital São Paulo também possui banco de sêmen e um programa de ovodoação, único público existente no Brasil. Esse programa é indicado para mulheres mais velhas, ou que, por vários motivos, não têm óvulos. Ainda dentro do programa são realizados tratamentos de reprodução assistida para pacientes HIV positivos, com risco quase zero de contaminação da criança. Além de tratamentos para pacientes com traumatismos raquimedulares.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h51
Cláudia, 40, dá luz ao 18º filho

Parece ficção, mas não é. Ela se chama Cláudia, tem 40 anos e deu à luz Adriely no último sábado. E pasmem: é o 18º filho dessa ex-gari. O bebê nasceu em Jundiaí (SP), com 2,8 quilos e 47 cm. Cláudia conta ter passado por 27 gestações _com nove abortos espontâneos. Só agora foi submetida a laqueadura.

Alagoana, Cláudia teve o primeiro filho aos 11 anos, em Palmeiras dos Índios (139 km de Maceió). Doze dos seus filhos vivem em Alagoas com familiares e ela não os vê desde 2001. Duas meninas foram adotadas.

A mulher vive em uma casa de dois cômodos em Várzea Paulista (63 km de São Paulo), com três filhos _com 12, 6 e 3 anos_ e agora a bebê. "Dormimos eu e mais duas crianças na mesma cama. Não temos geladeira e a TV é emprestada", disse Silva à repórter Renata Baptista, minha amiga.

O pai da caçula é um vizinho de 15 anos, amigo do filho de 12 anos de Silva. "A família dele está ajudando, mas não estamos mais juntos", afirma. Os outros três pais de seus fi­lhos não contribuem com as despesas.

Ela diz que até o 17º filho, nada sabia sobre os métodos anticoncepcionais, mas que, mesmo sabendo, o 18º "escapou". Agora, Cláudia diz que o maior desejo é ter um emprego para criar os filhos. "Tem dia que eles voltam da escola e não tenho nada para dar. Queria falar com o Gugu [apresentador do SBT] para ver se ele me arrumava um emprego."

Cláudia, minha xará, você pertence à minha geração, embora nossas vidas tenham tido trajetórias diferentes. Aos 11 anos, quando você paria seu primeiro bebê, eu ainda, muito provavelmente, brincava de bonecas. Aos 18, quando você já tinha engravidado ao menos meia dúzia de vezes, eu estava na faculdade e, ao mesmo tempo, já trabalhando como jornalista. Você passou quase 15 anos da sua vida grávida. E passei quase 15 anos da minha vida estudando, trabalhando, viajando o mundo, namorando.

E, neste período, não sobrou muito tempo para pensar em bebês. Quando a vontade chegou, a vida resolveu colocá-la à prova, com abortos e dificuldade de gravidez. Porém, não lamento nada disso. Creio que, desde então, essas dificuldades me trouxeram humildade, perseverança e fé. Já não peço mais a Deus uma gravidez bem-sucedida, peço a bênção da maternidade, seja ela de que forma for.

Sei que, provavelmente, você não lerá esta mensagem, já que não tem computador e mal sabe ler e escrever, mas, na minha meditação de hoje à noite, vou mandar uma mensagem para você: cuide de Adriely da forma como você nunca conseguiu cuidar dos seus outros filhos. Batalhe, sim, por um emprego, mantenha contato com seus outros filhos e comece uma nova vida de mãe aos 40.  Um beijo, sua xará Cláudia.  

Escrito por Cláudia Collucci às 19h51
Nós, a menina e a mãe

O caso da menina recém-nascida que foi atirada pela mãe de uma janela no rio Arrudas, em Contagem (MG), é mesmo de doer o coração. Segundo a maternidade onde a menina está internada, ela passou por exames que diagnosticaram comprometimento cerebral severo, devido ao tempo em que ela permaneceu sem respirar. A bebê segue em coma.

Para nós, que lutamos tanto por uma gravidez ou para conseguir manter a gestação até o fim, casos como esse cortam a alma. Estou desde domingo evitando ler a notícia, mas não consegui mais fugir dela.

A mãe, uma jovem de 25 anos, deu à luz na madrugada de domingo, colocou a criança em uma sacola e a jogou no rio, da janela da sua casa. Na segunda, foi autuada em flagrante pela Polícia Civil por tentativa de homicídio. Ela permanece internada _sob escolta_ porque a polícia teme que sofra linchamento.

Por mais cruel que seja esse caso, não consigo sentir raiva dessa mãe. Tenho pena, muita pena. Não sei quais motivos a levaram a praticar um ato tão vil , mas não posso acreditar em premeditação, em maldade pura e simplesmente.

Em momentos como esse, ninguém quer saber das razões do ato, até porque é difícil aceitar qualquer justificativa. Não podemos esquecer, porém, que, muito provavelmente, tudo começou com uma gravidez indesejada.

Vocês, mais do que ninguém, sabem o quanto defendo a vida, mas não consigo ver essa situação de maneira míope, apenas me juntando a uma massa que vê essa mulher em forma de um monstro.

O país precisa não só rever a legislação sobre o aborto mas também oferecer alternativas às mães que não desejam seus filhos. Será que se essa jovem tivesse tido um amparo emocional durante a gestação, em que pudesse ter explicitado esse não-desejo da maternidade e, ainda, ter tido a opção de dar à luz em um lugar seguro, podendo deixar o bebê para adoção, ela teria praticado um ato dessa natureza? Pode ser que sim, pode ser que não, afinal casos de psicose no pós-parto estão largamente documentados.

No fim, nada muda a tristeza de ver um bebê em coma, sua mãe presa e, provavelmente, com grandes chances de condenação na Justiça. Nessas horas, em que tantas mulheres lamentam o fato de ainda não serem mães, fica muito difícil mesmo ver alguma coerência nesta vida.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h58

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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