Orgasmo feminino não está ligado à fertilidade ou reprodução, diz filósofa da ciência

"Por que as mulheres não sentem tanto prazer como os homens", pergunta-nos a Jéssica no post anterior. A indagação me levou a pesquisar um pouco sobre as últimas teorias sobre o orgasmo feminino e cheguei a um livro muito interessante de uma filósofa da ciência que afirma que o orgasmo ou o prazer feminino não tem ligação com a fertilidade ou com a reprodução, como acontece no mundo masculino.

Os cientistas evolucionistas nunca tiveram dificuldade de explicar o orgasmo masculino, uma vez que é tão fortemente atrelado à reprodução. Mas a lógica darwiniana que se esconde por detrás do orgasmo feminino permanece difícil de ser compreendida. As mulheres podem ter relações sexuais e até mesmo ficarem grávidas – cumprindo seu papel para a perpetuação da espécie – sem experimentar sequer um orgasmo. Então, a questão é: qual seria propósito evolucionista do orgasmo feminino?

Há mais de quatro décadas, cientistas levantaram uma variedade enorme de teorias, questionando, por exemplo, que o orgasmo encoraja as mulheres a fazerem sexo e, por conseguinte, a se reproduzirem; ou ainda que o ápice do prazer feminino induz as mulheres a contribuir para o fortalecimento e manutenção da saúde dos homens, aumentando as chances de continuação de suas decendências.

Contudo, em um novo livro, a Drª Elizabeth A. Lloyd, filósofa em ciência e professora de biologia na Universidade de Indiana, dá especial atenção a 20 teorias e, ao mesmo tempo, as classifica como deficientes. Segundo ela questiona no livro “O Caso do Orgasmo Feminino: Tendência na Ciência da Evolução”, o orgasmo feminino não possui nenhuma função específica evolucionária.

Antes de tudo, Lloyd diz que a teoria mais convincente é a que foi apresentada em 1979 pelo Dr. Donald Symons, um antropólogo. O texto apregoa que os orgasmos femininos são simplesmente artefatos – um produto do desenvolvimento paralelo dos embriões masculino e feminino nas primeiras oito ou nove semanas de vida.
 
Nessa fase embrionária do ser humano, são formados vários reflexos nas vias nervosas e nos tecidos, incluindo-se o orgasmo, diz Lloyd. Como parte do processo de desenvolvimento, os hormônios masculinos saturam o embrião e a sexualidade é definida. Nos meninos, o pênis desenvolve-se – juntamente com o potencial de ter orgasmos e ejacular –, enquanto “as fêmeas se apropriam dos canais nervosos para o orgasmo, inicialmente tendo o mesmo objetivo físico”.

Os mamilos nos homens têm, similarmente, os mesmos vestígios, aponta Lloyd. Enquanto nas mulheres os mamilos servem a um propósito específico, os mamilos nos homens surgem para ficar, simplesmente, no estágio inicial do desenvolvimento embrionário.

O orgasmo feminino, diz a Drª Lloyd, “é para diversão”. Ela comenta que os cientistas insistem em achar uma função evolucionária para os orgasmos femininos nos seres humanos ou então que eles investem na crença de que a sexualidade das mulheres deve ser exatamente paralela à do homem ou ainda que eles estão convencidos de que todas as peculiaridades deveriam ser “adaptações”, ou seja, servem a uma função evolucionária.

Teorias sobre o orgasmo feminino são significantes, ela acrescentou, porque “as expectativas masculinas sobre a normalidade da sexualidade feminina, sobre como as mulheres vão agir, são construídas em torno dessas noções”. E os homens são os que refletem, imediatamente, na questão de que as mulheres são ou não são sexualmente adequadas”, continua Lloyd.
 
No ponto central da tese de Elizabeth A. Lloyd está o tema que trata da freqüência com que ocorrem orgasmos femininos numa relação sexual. Para tal, ela analisou 32 estudos, conduzidos ao longo de 74 anos.

Quando o coito não é “satisfatório”, significa que ele não foi acompanhado pela estimulação do clitóris. Normalmente, isso acontece a somente um quarto dos orgasmos das mulheres estudadas ou muito freqüentemente durante o ato, ela observou.

De cinco a dez por cento das mulheres nunca tiveram orgasmos. Ainda que muitas fiquem grávidas. Os números apresentados por Lloyd são inferiores aos que foram apresentados pelo Dr. Alfred A. Kinsey em seu livro de 1953, “Comportamento Sexual no Organismo Feminino”. Os estudos de Kinsey descobriram que de 39% a 47% das mulheres relataram que elas sempre, ou quase sempre, tinham orgasmos durante a relação sexual.

Mas Kinsey, disse Lloyd, incluiu orgasmos realizados através de manipulação do clitóris. Lloyd diz não ter dúvida de que o clitóris é uma adaptação evolucionária, com a finalidade de criar excitação, conduzindo ao ato sexual e à reprodução. Mas, “sem uma ligação com a fertilidade ou a reprodução”, acrescenta Lloyd. (Com ajuda do "NY Times")

Escrito por Cláudia Collucci às 11h55
Planos vão oferecer laqueadura e vasectomia, mas não amparam quem se arrepende

A partir de 2008, os planos de saúde passarão cobrir laqueadura, vasectomia e DIU. Ainda que o custo será, de alguma forma, repassado aos usuários, é uma boa notícia. Mas ainda está longe de representar as necessidades de um planejamento familiar correto. Primeiro porque o inverso não será verdadeiro, ou seja, quem se arrepender da laqueadura ou da vasectomia não encontrará amparo nem nos planos de saúde, nem no sistema público de saúde.

O Brasil ostenta o nada honroso título de campeão mundial de laqueaduras. 40% das nossas mulheres estão laqueadas. Há estudos que apontam que de 10% a 20% delas se arrependem da escolha. Um dos fatores que colaboram para que isso aconteça é a idade em que foram laqueadas. Quanto mais nova, maiores as chances de arrependimento.

As mulheres jovens são as que ainda podem viver mudanças consideráveis na vida, como a perda ou troca de parceiro, morte de um dos filhos e, com isso, poderá querer ficar grávida novamente. É um direito delas. O mesmo acontece com os homens.

Entre as mulheres, ainda existe o mito de que a laqueadura é algo facilmente reversível. Não é. Tanto a laqueadura quanto a vasectomia são procedimentos de esterilização definitivos. Obviamente, em casos específicos, pode-se tentar a reversão. Tudo depende do tipo de técnica utilizada na laqueadura e das condições das trompas da mulher. O índice de reversão, com sucesso, fica em torno de 15% a 20%, quando então a mulher consegue engravidar novamente.

Se a reversão não for possível, o caminho é a FIV (Fertilização In Vitro), que todas nós sabemos que também não é nada fácil. As chances de gravidez, quando muito, atingem 30%.

Mais uma vez eu pergunto: quando o direito de ter filhos, garantido na Constituição, terá vez neste país? Não acho que os sistemas de saúde tenha a obrigação de sair distribuindo FIVs sem nenhum critério, até porque os recursos são finitos e as necessidades sem fim.

Penso, porém, que a reprodução assistida, obedecendo a protocolos internacionais (que pregam que a FIV só deve ser feita em último caso, esgotados todos os outros recursos de baixa complexidade), tem sim que fazer parte da política nacional de direitos reprodutivos tanto no sistema público como no suplementar de saúde.

Lembram que anos atrás o Ministério da Saúde anunciou em rede nacional essa oferta. Alguém viu alguma coisa acontecer? A portaria foi engavetada e nada aconteceu. Com os planos de saúde foi a mesma coisa. Alguns anunciaram que ofereceriam o tratamento e depois recuaram.

Todas as grandes conquistas na área da saúde, especialmente as de acesso a medicamentos, só acontecem na base da pressão das pessoas que sofrem na pele o problema. É fazendo protestos, é pressionando o parlamentar. Se não há pressão, a leitura que se faz é a de que não há demanda. E ninguém se mexe.

Alimentação e infertilidade

Estudo da Harvard School of Public Health publicado na edição deste mês da revista "Obstetrics & Gynecology" mostra que as mulheres que praticam uma combinação de cinco ou mais hábitos saudáveis têm risco 80% menor de ter problemas de infertilidade decorrentes de complicações no ovário, ou da falta ou irregularidade na ovulação. Os hábitos aos quais se refere a pesquisa são relacionados à alimentação e à prática de exercícios físicos.

Acompanhando um grupo de 17.544 mulheres casadas, foi constatado que aquelas que se exercitam regularmente, consomem menos gorduras trans, menos açúcar, mais proteínas vegetais do que animais, mais fibras e mais alimentos que contêm ferro não apresentam problemas de ovulação. O que mais surpreendeu os pesquisadores foi o fato de essas mulheres ingerirem também mais laticínios integrais do que desnatados.

Escrito por Cláudia Collucci às 20h57
Gravidez tem mais sucesso com transferência de embriões mais desenvolvidos

Há uma questão neste mundo da reprodução assistida que merece uma atenção especial. É a relação entre a taxa de gravidez e a taxa de nascidos vivos. Muitas clínicas de reprodução alardeiam índices altíssimos de sucesso de gravidez, mas nada dizem ou são pouco enfáticas sobre suas taxas de nascidos vivos. Ou seja, quantas dessas gravidez culminaram no nascimento de um bebê? Não é exatamente esse o objetivo final? Vejo essa falta de informação como um problema porque não há um órgão oficial no país que nos informe sobre isso. As clínicas de reprodução são as únicas que detém essas informações, mas podem perfeitamente manipulá-las ao seu bel prazer. Afinal, trata-se de um rentável negócio...

 

Comecei a refletir sobre isso em razão dos inúmeros e-mails que ando recebendo de mulheres que relatam, felizes da vida, a tão sonhada gravidez após tratamentos de reprodução assistida e, semanas depois, voltam a me escrever informando sobre o aborto. São situações para lá de tristes, mas que se fôssemos guiadas apenas pela racionalidade (o que não somos, ainda bem!!), já estaríamos preparadas. Afinal, um quarto das gravidezes resulta em abortos até a 12ª semana de gestação. Ou seja, entre um teste de gravidez positivo e ter nosso bebê nos braços há um longo caminho... 

 

Algumas pesquisas isoladas apontam que nas gravidezes por meio da FIV, o índice de abortos nessa fase inicial pode ser até maior. Uma das razões seria a transferência para o útero de embriões imaturos ou ruins do ponto de vista genético. O que nos leva a crer que a seleção natural, aquela feita pelo organismo da mulher, ainda é muito melhor do que a seleção feita no laboratório, ainda que com o auxílio dos mais potentes e modernos microscópios e outros equipamentos.

 

O fato é que de vez quando aparece alguma luz no fim do túnel. Li neste mês um artigo publicado na revista "Human Reproduction" que as mulheres que se submetem à FIV têm uma vez e meio mais chances de conceber e dar à luz ao seu bebê se o embrião for transferido para o útero em estágio de blastocisto, ou seja, numa etapa mais avançada de desenvolvimento, em vez de ser transferido no estágio inicial, o que normalmente acontece. Isso significa deixá-lo mais tempo no laboratório para se obter uma seleção embrionária melhor.

 

No processo natural de gravidez e concepção, o embrião se implanta na parede do útero em estágio de blastocisto. Então, se temos um embrião em laboratório neste estágio, ele teria um grande potencial de implantação. Hoje, muitas clínicas preferem transferir embriões com 4 a 8 células, em vez de blastocistos _que já têm mais de 16 células_ por receio e insegurança em relação aos efeitos do meio de cultura prolongado (líquido rico em nutrientes que imitam os presentes no corpo da mulher, onde os embriões são colocados após a fertilização, enquanto aguardam a transferência para o útero). Se a cultura não se encontra em ótimas condições, poderá haver o comprometimento da viabilidade dos embriões, com diminuição das chances de sucesso do tratamento.

 

Por outro lado, a cultura prolongada pode oferecer uma certa seletividade embrionária, ou seja, pode-se obter um número maior de embriões com parada do crescimento e, mesmo, com desenvolvimento anormal (altas taxas de fragmentação), determinando, de forma mais precisa, quais os melhores embriões, ou seja, os que estão mais aptos à implantação, que é o que, afinal, mais importa. Por isso, quem estiver neste processo de FIV, essa é uma questão importante a ser discutida com o médico.  Mesmo que à primeira vista possa parecer uma situação técnica demais.  

Escrito por Cláudia Collucci às 12h57
O abandono do ego

"Depois da 2ª ICSI sem implantação, estou desistindo das tentativas. Aliás, só de ouvir falar em fertilização eu já me arrepio, me dá calafrios, meu corpo chega a enrijecer... acho que traumatizei pelo desgaste emocional. Não quero e não vou nunca mais passar por isso e observando esse meu sentimento que vem autêntico e intenso, ao mesmo tempo que com uma tranquilidade incrível, percebo a grande ironia da vida: vejo agora a adoção com olhos tão amorosos! Mas só conquistei essa paz com ajuda psicológica antes, durante e depois da tentativa. Para mim, deveria ser obrigatório que as tentantes tivessem acompanhamento psicológio nesse processo. As clínicas deveriam já incluir no pacote e facilitar o acesso o máximo possível, inclusive financeiramente. Sem isso os casais ficam sem o principal resguardo, o emocional, em qualquer resultado que se apresente."

A mensagem acima é da nossa querida Silvana, mas estou certa de que ela ecoa em muitas de nós. Pelo menos para mim, ela faz total sentido. Chega um momento nesta trajetória de tentativas frustradas de gravidez, seja por falhas de implantação ou por abortos recorrentes, que a gente se sente mesmo tal qual o mito de Fenix, antes do renascimento. Ou seja, só o montinho de cinzas. Ao mesmo tempo, se bem trabalhado emocionalmente, este período de dor pode ser altamente transformador e significar um verdadeiro renascimento.

Em outras palavras, esse momento deve passar pelo abandono do ego. Nosso ego quer sempre comandar, sempre ter tudo e nos leva a ter a ilusão de que temos tudo sob nosso domínio, de que conseguiremos tudo o que queremos. E quem passa pela dificuldade de gravidez ou de conseguir manter a gestação até o fim sabe muito bem o quanto é difícil admitir que não temos controle algum sobre esse processo. Por mais que desejamos, que batalhamos, a sensação é de uma interminável luta.

Não penso que devamos destruir nosso ego, mas sim, não se tornar refém dele. Trata-se de manter uma distância interior do ego para encontrar nosso verdadeiro eu, para nos afirmarmos internamente e chegarmos a um acordo com a gente mesma. Os antigos sábios chineses diziam que o verdadeiro nasce quando abandonamos nossas fantasias e pretensões. De certa forma, isso é o oposto do que a gente normalmente pratica.

Muitas de nós vivem sob a pressão de que precisamos tentar a gravidez a qualquer preço, custe o que custar. Mas é preciso estar atentas aos nossos limites, que são totalmente individuais. Para algumas, uma ou duas tentativas de FIV são bastante para se jogar a toalha. Outras, seguem tentando, tentando. Certa vez conheci uma mulher que estava na sua 14ª tentativa de FIV, já tinha gasto todas as suas economias com os tratamentos, feito dívidas bancárias e pretendia continuar tentando. Loucura? Não poderia e nem gostaria de julgá-la, mas penso sim, como coloca a Silvana, que uma ajuda psicológica teria sido fundamental para ela. A busca pela maternidade/paternidade toca em questões muito profundas do nosso ser, nos leva a reavaliar as relações com os nossos próprios pais e, não raras as vezes, encontramos muito lixo escondido sob o tapete. 

A atitude da serenidade diz: em momentos de crise, deixe as coisas como estão, aceite-as e medite sobre elas. Só então poderá tocar nelas com cuidado e configurá-las ao seu bel prazer. É mais ou menos sobre isso que versa o desabafo acima da Silvana. E é exatamente neste estágio que eu me encontro: serena, plena e feliz pela vida que tenho hoje!

Ontem, meus amigos me proporcionaram a melhor festa de aniversário da minha vida. Todos paramentados de máscaras, óculos estilizados, pulseirinhas iluminadas, plumas etc, dançamos e cantamos até altas horas de hoje. E em meio àquela bagunça, eu me vi exercitando a serenidade: apenas olhando para cada uma daquelas quase cem pessoas queridas, abraçando-as e agradecendo ao Universo por colocar no meu caminho seres tão especiais. Estendo o mesmo agradecimento ao fato de vocês estarem sempre por perto, ainda que virtualmente. Suas histórias, seus desabafos, suas vitórias, seus fracassos, toda essa carga de emoção pura e verdadeira deixa minha vida ainda mais rica. Obrigada pela confiança e pelo carinho de sempre!

Escrito por Cláudia Collucci às 12h12
Falhas de implantação do embrião no útero podem estar ligadas a problemas genéticos

Sucessivas falhas de implantação do embrião no útero e os abortos de repetição podem estar relacionados a embriões portadores de desordens genéticas que só podem ser verificadas por meio do diagnóstico pré-implantacional. A conclusão não é novidade entre os especialistas de reprodução assistida, mas poucos casais são informados sobre isso durante o tratamento.

Ao produzirem embriões tidos como de "ótima ou excelente qualidade" do ponto de vista morfológico, desconhecem o fato de que esses mesmos embriões podem possuir aneuploidias, ou seja, aberrações nos cromossomos que dificultam a sua implantação no útero e que só podem ser verificadas por meio de um exame genético bem caro chamado de PGD (Preimplantation Genetic Diagnosis).

Em muitos casos, esses embriões defeituosos até chegam a implantar no útero, mas, nas primeiras semanas de gestação, tende a parar de se desenvolver, ocorrendo o aborto. Muitas dessas aneuploidias são incompatíveis com a vida, outras, como as síndromes de Down e de Turner, não.

Por essa razão, algumas clínicas já começam a indicar o diagnóstico pré-implantacional às mulheres acima de 35 anos que se submetem à FIV (Fertilização In Vitro). Sabe-se que, a partir dessa idade, 43% dos oócitos podem ter má-formações. O PGD permite separar os embriões portadores da desordem genética e transferir para o útero materno apenas os embriões saudáveis.

O estudo é feito através da biópsia de uma ou duas células dos embriões, que depois será analisada pelo número de cromossomos ou determinada doença gênica, sem que ocorra um dano para o embrião com a remoção dessa célula. O "screening" é feito para as aneuploidias mais freqüentes que envolvem os cromossomos 13, 16, 18, 21, 22, X e Y. Durante o processo de diagnóstico, os embriões são mantidos em cultura até a obtenção do resultado. Em seguida, será feita apenas a transferência dos embriões normais.

Para muitos especialistas, os benefícios do diagnóstico pré-implantacional são tão óbvios que deveriam fazer parte dos protocolos de tratamento da mulher com idade avançada, falhas de implantação, aborto de repetição e com histórico de doenças genéticas na família (síndrome de Down, por exemplo).

Soube, por exemplo, de um caso de uma mulher de 40 anos que já tinha filhos do primeiro casamento e procurou uma clínica de reprodução paulista porque queria engravidar de uma menina. Fez a FIV, produziu "ótimos embriões" (classificados como A e B), que foram submetidos ao diagnóstico pré-implantacional para que fossem selecionados apenas os embriões meninas. Essa prática, chamada de sexagem, é proibida pelo Conselho Federal de Medicina, mas a maioria das clínicas desobedece a norma.

Pois bem: para a surpresa do casal e do médico que conduzia o tratamento, todos os embriões avaliados (cinco no total) apresentavam trissomias (três cromossomos em vez do par normal de cromossomo) ou monossomia (apenas um representante de um cromossomo). Os embriões apresentavam as síndromes de Down, de Turner ou outras anomalias incompatíveis com a vida. O casal decidiu descartar todos os embriões e encerrar a busca pela filha.

Recentemente também acompanhei outro caso de uma mulher de 39 anos que, depois de uma primeira falha de implantação de quatro embriões tidos como "excelentes", decidiu, numa segunda FIV, submeter outros cinco embriões, também tidos como "excelentes" ao diagnóstico pré-implantacional. Outra surpresa: apenas um era geneticamente normal. Três carregavam defeitos genéticos incompatíveis com a vida e um quarto era portador de Down.

Um fator que impede a disseminação deste teste genético é o custo. Cada embrião custa em média R$ 800 para ser biopsiado e ainda é cobrada uma taxa média de R$ 2.500 pelo laboratório que faz a análise. Ou seja, no fim, o custo total é quase o preço de uma FIV (Fertilização In Vitro), o que se torna inviável para a maioria dos "tentantes".

Mas nem por isso os casais devem deixar de ser informados sobre essa questão. Fiz uma rápida enquete com um grupo de dez mulheres acima de 35 anos que passaram por sucessivas falhas de implantação ou por abortos recorrentes e apenas duas foram alertadas pelos médicos de que o problema poderia ser decorrente de aberrações cromossômicas do embrião e que não haveria outra forma de verificar isso senão o diagnóstico pré-implantacional. É muito pouco em tratando de um tratamento tão oneroso do ponto de vista financeiro, físico e emocional.

Não entendo o motivo de muitos médicos continuarem indicando sucessivas FIVs, ou partirem para duvidosos tratamentos imunológicos, sem antes fazer essa análise do embrião _ou pelo menos alertar o casal para a importância dele. Não entendo porque muitos médicos continuam vendendo a ilusão de que os casais produzem "ótimos ou excelentes" embriões sem informá-los de que essa é apenas uma meia-verdade, ou seja, só vale para a questão morfológica.

Creio que abrir o jogo com o casal, de forma clara e objetiva, apresentando todas as hipóteses e meios de diagnósticos possíveis para corroborá-las ou descartá-las, já seria um bom começo para, no mínimo, poupar o sofrimento pela falta de respostas vivido durante o processo de reprodução assistida.  Quem quiser saber mais sobre esse assunto, há um ótimo artigo no site da Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida: http://www.redlara.com/pec_dat_trabalho_diagnosticogenetico.asp  

Escrito por Cláudia Collucci às 17h13

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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