Um filho para chamar de meu

Mais um Natal se aproxima, mais uma virada de ano bate à nossa porta. Em geral, é um momento em que nossa sensibilidade está à flor da pele por vários motivos. Cansaço decorrente da agitação do ano todo, lembranças dos entes queridos que já se foram, saudade daqueles que ainda não chegaram. Nesta semana, essa saudade bateu forte algumas vezes, com fatos que me remeteram ao filho que ainda não está presente. Um deles foi o espetáculo "Quebra Nozes", o mais tradicional balé natalino, com 150 bailarinos no palco.

Encenado em dois atos, o balé narra a história de Clara, uma garota que se encanta por um boneco quebra-nozes que ganha no Natal. Quando todos vão dormir, Clara vai à sala para brincar com seu novo presente e, ao adormecer, entra no mundo da fantasia. É nos países imaginários das Neves e dos Doces, que Clara e seu brinquedo vivem um aventura repleta de romantismo.

Na quarta, levei Catherine, minha sobrinha de 9 anos, para assistir ao espetáculo comigo. Foi uma noite linda, nos divertimos à beça, mas, em alguns momentos, desejei muito que na outra cadeira ao meu lado estivesse um filho (a) para chamar de meu (minha). Foi mais do que um desejo, foi uma saudade, uma dor de ausência, como se esse filho já existisse de fato e, por algum motivo, estivesse afastado de mim.

Hoje, essa saudade voltou novamente. Depois de uma caminhada pela manhã, deitei no chão do corredor e iniciei alguns exercícios de respiração e relaxamento. Em um dado momento, tive a sensação clara de ver uma criança pequena sair do quarto (que hoje é escritório, mas que será o quarto do meu bebê) e correr na minha direção. Não sei se foi um sonho rápido, se foi alguma premonição, se foi uma viagem astral. Só sei que foi tocante e, é óbvio, abri o berreiro.

Esse foi um ano muito exigente. Fiz minha primeira FIV (Fertilização In vitro), sofri uma hiperestimulação ovariana (com todos desconfortos e riscos associados a ela) e produzi 23 embriões, que tiveram de ser congelados. Duas transferências já aconteceram e, por enquanto, nada de gravidez. Na primeira delas, tinha certeza do sucesso. O primeiro Beta deu positivo, mas com resultados muito baixos.

Um novo exame na semana seguinte enterrou as esperanças. Revivi o luto do aborto que sofri há três anos. A terapia, a meditação, a yoga e a acupuntura me ajudaram a não deprimir, a encontrar na dor algum aprendizado. Aprender que, em momentos de crise, o melhor é deixar as coisas como estão, aceitá-las e meditar sobre elas. Foi o que eu fiz. Na segunda transferência, a dor já foi menor e até brinquei como o "homem" lá em cima: "é um teste, né? mais essa cacetada é para ver até onde vai esse meu estado zen?" 

O fato é que chego ao fim deste ano com algumas certezas: de que vou transferir em breve o restante dos embriões congelados, e, de novo, entregar nas mãos do Universo o resultado dessa aventura; de que não vou repetir a FIV e nenhum outro tratamento de reprodução assistida; de que entrarei em breve na fila para adoção. Às vezes penso se essa saudade que sinto não seja de um filho que, em algum lugar, já está à minha espera. Quem sabe? 

E, para terminar, quero deixar um presente virtual a cada uma (um) de vocês: uma flor de Lótus, venerada na Índia e no Japão por ser o símbolo da espiritualidade, a mais admirada de todas as flores. A semente de Lótus pode, por exemplo, ficar mais 5.000 anos sem água, somente esperando a condição ideal de umidade para germinar. Ela nasce na lama e só se abre quando atinge a superfície, onde só então mostra suas luminosas e imaculadas pétalas, que são autolimpantes, isto é, têm a propriedade de repelir microrganismos e poeiras. É também a única planta que regula seu calor interno, mantendo-o por volta de 35ºC, a mesma temperatura do corpo humano. O botão da flor tem a forma de um coração, e suas pétalas não caem quando a flor morre, apenas secam. Assim, para os chineses, o passado, o presente e o futuro estão simbolizados, respectivamente, pela flor seca, pela flor aberta e pela semente que irá germinar. Um beijo e Feliz Ano Novo para todos!

Escrito por Cláudia Collucci às 18h33
Gravidez tardia e o exercício da maternidade

“Hoje tenho filhos biológicos, de 2 e 6 anos, mas também apresentei dificuldade pra engravidar. Quando tinha 36 anos fui a 5 médicos e a resposta foi unânime: você só engravidará se fizer tratamento. Ainda mais nessa idade!! Relutei à idéia, achava que seria melhor adotar. Enquanto pensava, meu casamento acabou. Aos 39, conheci meu atual marido e aos 40 engravidei naturalmente. Ouvi tudo o que foi comentário negativo ao fato de eu estar grávida do primeiro filho naquela idade. Mas, a despeito de tudo, correu tudo maravilhosamente bem. Certa de que devia tentar outro filho, fui deixando rolar, embora todos me olhassem com desconfiança e certa pena, por estar iludida com essa possibilidade. Com 43 anos, engravidei naturalmente mais uma vez e a alegria da gestação e do filho saudável se repetiu”

 

“Acabei de voltar da licença-maternidade do meu segundo bebê, prestes a completar 44 anos. Deixo minha mensagem para continuar a dar força para as tentantes mais maduras. Após 3 anos de tentativas (3 FIV, 1 IA), engravidei do Alê (hoje com 2 anos) naturalmente, aos 41 anos. Cinco meses depois do nascimento do nosso nenem, meu ex-marido (estava casada há 7 anos) nos deixou. Foi uma fase terrível, mas não deixei a peteca cair, apesar da tremenda depressão pós-parto. Sete meses depois do abandono conheci uma pessoa linda, que me conquistou tratando o Alê como seu próprio filho. Dele, engravidei na primeira vez que fizemos amor sem camisinha, para minha surpresa, aos 43 anos!! Ele não tinha filhos e hoje temos dois bebês lindos e acima de tudo saudáveis! Fases difíceis existem para nos deixar mais fortes.O importante é nunca perdermos a fé, e plantarmos sementes boas. Não importa em qual solo germinarão, mas os frutos virão, com certeza!”

 

Recebi essas duas maravilhosas mensagens da Lígia e da Cris, respectivamente. Elas são apenas um pequeno exemplo de como a vida é mesmo fantástica. A despeito de todos prognósticos da medicina reprodutiva, essas mulheres engravidaram naturalmente, após os 40 anos, quando a natureza quis. Isso me fez refletir o quanto essa história de relógio biológico é relativa e, ao mesmo, o quanto ela nos deixa neuróticas. É comum observarmos pessoas mais aflitas com a idade que vai avançando e, conseqüentemente, com a queda natural da fertilidade, do que com o real desejo de ter filhos.

 

Muitas vezes, essa vontade de ter filhos se confunde (ou se associa) a uma vontade de “querer provar que eu posso ter filhos”. Seria uma espécie de auto-afirmação do nosso poder de fêmeas-geradoras. E toda a busca fica focada mais no desejo de gravidez, de poder exibir a imensa barriga, do que na maternidade em si. São muitas as mulheres que me escrevem relatando esses desejos ambíguos e que se cruzam a todo momento. Relatam o quanto se sentiram plenas durante a gravidez, orgulhosas de suas barrigas, e, depois do parto, vivenciaram o choque de ter um bebê nos braços e, então, aprender a exercer a maternagem, ou seja, os cuidados materiais e biológico com os filhos.

 

Não devemos confundir maternidade com maternagem. Maternidade é algo muito mais amplo, é um espaço de acolhimento, que não precisa estar atrelada a um só pessoa e muito menos a um filho bilógico. A função materna pode ser exercida por todos para os quais nossa presença no mundo é significativa, é a garantia de que somos recebidos e aceitos, de que este mundo pode ser nossa casa, nosso abrigo, nosso berço e nosso colo. Logo, maternidade não é coisa só de mulher. É coisa de quem ama e quer ser amado, de quem cuida e quer ser cuidado e assim por diante. Podemos exercê-la no dia a dia com a nossa família, com nossos amigos e até mesmo com aquela pessoa que a gente nem conhece, mas que, de repente, surge na nossa frente precisando de ajuda.

 

Foi o caso hoje de uma velhinha que tropeçou na calçada, bem em  frente ao meu prédio, no momento em que eu e meu marido chegávamos em casa. De tão assustada com o tombo, ela tremia e não conseguia se lembrar do telefone da sua casa. Parecia uma criança indefesa, assustada. Colocamos ela para dentro de casa, demos água com açúcar, fizemos curativo no joelho que sangrava um pouco e eu fiquei segurando a sua mão e conversando com ela. Aos poucos, ela foi se acalmando, lembrou-se do endereço e meu marido foi levá-la em casa porque eu tinha outro compromisso. Ao vê-la se afastando, percebi que estava tomada por um imenso sentimento de maternidade. Eu me sentia mãe daquela idosa e, ao mesmo tempo, sua filha e sua neta. Foi emocionante!

 

Penso que se esse conceito de maternidade, que se traduz pelo cuidado com o outro, fosse mais difundido, até mesmo o casamento teria mais "qualidade de vida". Desculpe-me o atalho, ou seja, mudar de um assunto para outro tão repentinamente. Mas precisava de um gancho para comentar uma outra questão abordada nas mensagens acima: o fim do casamento após a dificuldade de gravidez. Isso é mais comum do que a gente pensa. Nesses meus sete de anos de colunista da área da reprodução, observo esse fato freqüentemente. Venhamos e convenhamos: enfrentar o drama da infertilidade é um osso duro de roer para qualquer casal, por mais unidos e amorosos que sejam. Mas, quando o casamento já está frágil, a situação pode representar a última pá de cal que faltava para enterrar de vez o relacionamento.

 

Por isso, é fundamental o diálogo, a troca de sentimentos, o cuidado um com o outro. Definitivamente, essa é uma dor que precisa ser dividida com o parceiro, não dá para vivê-la sozinha. E se não encontramos esse aconchego no outro, é um bom momento para reavaliar a relação. É claro que haverá momentos em que, por mais que o outro esteja disponível, pronto para dar colo, nossa vontade é mesmo de ficar só e, de preferência, desaparecer do mundo. Lembram do pó mágico da Emília, do Sítio do Pica Pau Amarelo? Em certas situações, não dá vontade de ter um pouquinho dele, falar "pirlimpimpim" e sumir? Mas já que não temos o pó mágico, desejo que todas nós possamos exercer a maternidade no nosso dia-a-dia, sem o medo da entrega, da decepção. E, como já dizia o poeta Thiago de Mello, que possamos confiar no outro como um menino confia em outro menino.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 19h37
Mãe-vovó

O mais recente caso de uma sexagenária que deu à luz um bebê, na Alemanha, reacendeu o debate sobre o direito de as mulheres engravidarem em idade tão avançada. Afinal, é legítimo ou não usar a FIV (Fertilização In Vitro), com óvulo doado, para gerar um filho nessa idade, questionam médicos e bioeticistas?

A mulher, de 64 anos, é a mais velha a ser mãe na Alemanha e engravidou no exterior, já que o tratamento nessa faixa etária é proibido por lei naquele país. Ela utilizou o esperma do marido e o óvulo de outra mulher. A mulher, de origem turca, mora na cidade alemã de Aschaffenburg, no sul do país. Há anos ela e o marido tentavam ter filhos, sem sucesso, segundo a imprensa alemã. A criança passa bem.

Para o presidente da Associação Alemã de Medicina Reprodutiva, Ulrich Hilland, a gravidez é um "abuso do progresso da medicina". "Eu não acho que os pais poderão cumprir com seu dever de cuidar da criança até que ela amadureça", disse o médico. O jornal Die Welt também defendeu, em um artigo, que "crianças tenham o direito de ter pais que possam criá-los e protegê-los."

A romena Adriana Iliescu está no "Guinness", o livro dos recordes, como a mulher que deu à luz na idade mais avançada, aos 66 anos. O parto ocorreu em janeiro de 2005. Ela fez três tentativas de fertilização, com óvulos e espermatozóides doados, em nove anos.

A gravidez em idade tão avançada preocupa os médicos em razão dos maiores riscos e complicações para a mãe e o bebê. Como em todos esses casos os óvulos são doados, o risco de problemas genéticos é menor porque o material genético é de mulheres jovens. Mas há outros riscos. O problema não é a idade em si da grávida, mas o fato de, com o avançar dos anos, haver mais chances de a pessoa ter hipertensão, diabetes, transtornos renais ou cardíacos etc. Cada ano que passa, os riscos são maiores porque há uma sobrecarga natural dos órgãos.

Existe também o questionamento se a mulher terá condições de cumprir a função materna no futuro. Ao mesmo tempo, há especialistas que defendem que muitas das discussões sobre os problemas da gravidez tardia são preconceituosas. Afinal, as clínicas de reprodução estão cheias de homens acima de 60 anos querendo ter filhos com mulheres mais jovens. Então, se a saúde de uma mulher acima de 60 anos estiver perfeita (o que é raro), muitos médicos não vêem objeções na gravidez nessa fase da vida.

Eu penso que a autonomia de a mulher querer ter um filho por reprodução assistida, independentemente da idade, deve ser respeitada, mas defendo que ela seja MUITO BEM esclarecida dos riscos dessa aventura. E você, o que pensam sobre isso?

Escrito por Cláudia Collucci às 11h43

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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