Proteínas facilitam a gravidez! Será???

Há duas semanas, o "Jornal Nacional" destacou: proteínas facilitam a gravidez! A reportagem falava de uma pesquisa com 52 pacientes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que teria identificado proteínas capazes de facilitar a gravidez de mulheres que recorrem à fertilização assistida para ter filhos.

Foram acompanhadas mulheres de 24 a 42 anos que tentavam ter um bebê. O foco da pesquisa foi o endométrio, tecido que reveste o útero. Em todas as mulheres que levaram a gravidez adiante, o médico identificou a presença de três proteínas.

E todas as que não tiveram sucesso apresentaram uma quarta proteína estudada, considerada um fator inibidor da gestação. Os médicos disseram acreditar que, monitorando essas proteínas, será possível determinar o melhor momento para a fertilização, o que pouparia as pacientes de desgastes físico, emocional e financeiro. Além do "JN", a mesma notícia foi enviada para toda imprensa pela Secretaria Estadual da Saúde.

Acontece que a história não é bem assim. Pelo menos é que dizem alguns médicos renomados da área da reprodução assistida, igualmente pesquisadores. Em primeiro lugar, um estudo feito com um número tão pequeno de pacientes e com tantas variáveis, não pode concluir nada, afirmam eles. Seria necessário pesquisar centenas, milhares de mulheres. Condutas médicas só podem ser mudadas mediante evidência científica, o que ainda existe neste caso. 

Além do mais, a proteína em questão (claudin-4) não é novidade nenhuma no mundo da reprodução assistida. Ela foi descrita em 1997 e desde então vem sendo estudada como marcadora de implantação embrionária. Porém, não há uma definitiva conclusão até o momento.

Segundo o ginecologista José Franco Júnior, a expressão do RNA para a claudine 4 e de outras proteínas supostamente ligadas a marcação endometrial do processo de implantação necessita de uma biópsia de endométrio em ciclo anterior, o que limita o emprego desses marcadores na rotina médica. Além disso, durante a estimulação ovariana (ciclo de FIV), ela costuma variar seu perfil de expressão, ou seja, apresentar resultados opostos.

Nenhum grupo no mundo usa uma marcação endometrial prévia (porque há mais de mais de 500 proteínas que se expressam no momento da implantação) como critério de cancelamento de ciclo de FIV/ICSI, como sugeriram os médicos do HC na reportagem do "Jornal Nacional", alerta Franco Júnior.

A divulgação de uma tema dessa natureza, com tamanho estardalhaço, mais atrapalha do que ajuda porque, antes de mais nada, cria falsas expectativas. Soube que, depois da reportagem, inúmeras mulheres começaram a pedir para que seus médicos solicitem a dosagem dessa proteína (claudine-4) e de outras antes da realização de um ciclo de fertilização "in vitro".

Como não há evidência científica, essa conduta na rotina das clínicas não tem a menor justificativa. Não há nenhum trabalho científico publicado atestando a obrigatoriedade da realização de um perfil protéico endometrial antes da FIV e tampouco a sua eficácia.

O ginecologista Artur Dzik também partilha da mesma opinião. Para ele, o tema da implantação embrionária é a chave da medicina reprodutiva moderna e quem resolver esse impasse será fortíssimo candidato a "prêmio nobel". Portanto, meninas, a implantação embrionária continua sendo sim um mistério, uma imensa caixa-preta desse mundo da reprodução humana.

Escrito por Cláudia Collucci às 16h54
Mulher com implante de tecido no ovário engravida pela segunda vez

Médicos oncologistas dinamarqueses conseguiram que uma mulher engravidasse, pela segunda vez, após receber um implante de tecido do ovário. O feito é inédito no mundo. O implante foi realizado após a paciente ter se submetido a um tratamento contra o câncer.

Como a quimioterapia costuma deixar as mulheres estéreis, os médicos utilizaram a técnica de retirar e congelar o tecido antes que a mulher recebesse o tratamento. Uma vez curada do câncer, o tecido foi reimplantado, de acordo com o jornal "Fyens Sitftidende".

Stinne Holm Bergholdt, natural da Odense (Dinamarca) e de 31 anos, que já deu à luz a uma criança em 2007, não precisou de inseminação artificial para ficar grávida pela segunda vez. Ela teve um câncer nos ossos diagnosticado em 2004.

Antes de iniciar a quimioterapia, o tecido ovárico da paciente foi retirado e conservado congelado a 196 graus abaixo de zero até ser reimplantado no final do tratamento. Andersen e Erik Ernst, do hospital dinamarquês de Skejby em Aarhus, foram os oncologistas encarregados de realizar a intervenção com essa técnica.

Segundo o "Fyens Stistiftende", outras quatro mulheres no mundo deram à luz uma vez após terem se submetido a um reimplante do tecido ovariano e superar um câncer.

Não é uma ótima notícia?

 

Escrito por Cláudia Collucci às 19h53
O que fazer quando o marido não quer filhos?

Algumas amigas mais jovens, perto dos 30 anos, andam se queixando da inflexibilidade dos maridos para o assunto filhos. A sensação que eu tenho é que esse desejo tem aparecido mais cedo para elas do que para eles. O interessante é que a história é sempre a mesma: relacionamentos estáveis, há mais cinco anos, carreiras profissionais e situação financeira relativamente estáveis também. Coincidentemente, recebi a mensagem abaixo da Patrícia, que muito enriquece esse debate que eu quero fazer com vocês:

Querida Claudia,

Meu nome é Patrícia, sou casada há 5 anos e meio e tenho 28 anos. Minha questão está antes de tentar a gravidez. Por isso gostaria de ouvir alguma sugestão sobre minha questão. Meu marido não quer ter filhos, diz que ainda não está preparado, que nao é hora para isso. Ele está em uma fase de crescimento profissional e busca por estabilidade financeira, além de querer conhecer diversos lugares no mundo. Moramos fora do Brasil há um ano e as oportunidades realmente são muito boas.

Sempre que falavamos no assunto as desculpas surgiam: faculdade, pós-graduação, carro novo, cursos, carreira, vida financeira, e o assunto "filhos! ficava e fica sempre por último. Eu quero e muito ter filho, engravidar. Tomo anticoncepcional há 9 anos direto. Sempre que recebo a notícia de que alguma amiga ou alguém da família que está grávida o assunto aflora; eu fico muito alegre por isso e também acabo vivendo um pouco estas gravidezes, procuro sites na internet, penso em que roupinha seria legal comprar para dar de presente e por fim, me imagino grávida.

Não sei o que faço, pois se o problema fosse eu, ou se estivessemos tentando e fazendo algum tratamento, tudo bem, mas estou antes disso. A frustração foi maior quando ouvi que agora não é o momento, que ele não está preparado para mudar a vida de casado sem filhos para casado com filho, que ainda não está no coração dele este desejo. Ao ser questionado por mim quando podemos iniciar o processo a resposta é sem alternativas para mim: não sei.

Sei que você é uma excelente profissional e lendo seu blog percebo que muitas mulheres também o lêem, tendo talvez problemas ou vivendo situações muito mais difíceis que a minha, porém já mergulhadas no processo. O meu caso é antes de iniciar qualquer tentativa. Gostaria de alguma ajuda ou sugestão, como devo conduzir este assunto.

Ana, imagino o quanto essa situação te faça sofrer. E penso que uma forma de trabalhar isso tudo é sendo muito franca com seu marido, abrir o coração mesmo. Espere uma ocasião que vocês estiverem num clima legal, de muito amor, sem estresse, e diga a ele o quanto você deseja esse filho, o quanto você sonha em ser mãe e o quanto sofre com essa falta de perspectiva em realizar esse sonho. Proponha um planejamento, um acordo. Se ele continuar resistindo à idéia, tornando-se inflexível, a decisão volta para você sobre o que fazer.

Conversando com a psicóloga Luciana Leis sobre essa questão, ela me disse que isso aparece bastante em vários pacientes. Segundo ela, na maioria das vezes, o filho faz parte do "contrato" de casamento dos casais, porém, quando o tempo de cada um para permitir a chegada de um filho em suas vidas é diferente, ou então, não existe o desejo de filhos em um dos parceiros, a questão pode complicar. "Muitas pessoas podem inclusive se sentirem traídas por seus companheiros(as), já que o plano do casal não é o mesmo", diz Luciana.

A psicóloga afirma perceber que muitos homens que tiveram problemas no relacionamento com a figura paterna, ou que assumiram precocemente o papel de pai (devido à morte do mesmo ou ausência dessa figura), têm dificuldades em entrar em contato com a paternidade. Na maioria das vezes, idealizam um modelo de pai que teriam que ser para compensar as faltas do que tiveram, que fica praticamente inatingível, sendo necessário um tempo de terapia para trabalharem-se essas questões, tornando, assim, a paternidade mais possível ou chegando-se à conclusão de que essa realmente não será uma escolha.

Luciana avalia que não há como ter um filho dentro de um casamento se essa realmente não for uma escolha de ambos. Diante desse impasse, o casal precisa reavaliar o "contrato" de casamento e perceber se é possível continuar juntos sem filhos ou não, cada um precisa olhar para as suas prioridades internas para fazer essa escolha. Muitos casais podem escolher ficarem juntos em nome da relação e dos sentimentos que vivem sem terem filhos, porém, para outros, o projeto de filhos pode ser muito importante para um dos parceiros e até mesmo mais forte do que o relacionamento que estão vivendo.

Luciana lembra do filme "Juno" (ainda em cartaz em São Paulo), onde a mulher decide assumir a maternidade sozinha frente à dúvida de ter filhos do marido e eles se separam, em meio a um casamento que também parecia não estar mais tão bem. "Acredito que o casal fique frente a um impasse entre continuar sem filhos e juntos ou buscar um outro parceiro(a), para dar continuidade à um projeto pessoal que lhe é mais importante, sendo que essa escolha precisa ser individualmete muito bem avaliada para ser posta em prática."

É isso, Patrícia. Espero que essa discussão seja útil no seu processo. Um beijo e boa sorte. Cláudia

Escrito por Cláudia Collucci às 15h20
A inveja das barrigas alheias

Como controlar a nossa inveja pelas barrigas alheias? Esse é um tema recorrente aqui no blog seja por meio dos posts seja por meio das mensagens de muitas de vocês. E também é um assunto que aparece freqüentemente nos consultórios de psicologia. É sobre isso que a psicóloga Luciana Leis escreve no artigo abaixo:

 

Inveja e culpa em meio à infertilidade

 

Desde que nascemos nos são passados valores por nossos familiares para que possamos ser “boas meninas” e, no futuro, “boas mulheres”. Assim, são esperados pensamentos, atitudes e sentimentos “nobres” para sermos aceitas e amadas pelos que nos rodeiam.

               

Ser amável, educada e gentil; não sentir raiva, ódio ou inveja são alguns dos exemplos de qualidades esperadas para pessoas consideradas “boas”. Porém, sentimentos menos nobres também fazem parte do mundo emocional de todas nós, e, no entanto, nem sempre podemos e/ou conseguimos reconhecê-los, o que pode causar diversos danos emocionais.

    

A vivência de infertilidade é por demais frustrante e, na maioria das vezes, traz em seu bojo sentimentos de raiva (por exemplo, quando perguntam por que você e seu marido não têm filhos), inveja (quando uma amiga engravida assim que pára de tomar a pílula), sensação de fracasso (por tentar engravidar todo mês e o “não” vir  confirmado a cada menstruação), entre muitos outros.

 

Todos esses sentimentos, rechaçados pela sociedade e – quase sempre – por nós mesmas, em vários momentos são experimentados e logo em seguida bloqueados, não sendo permitido que tenhamos contato com eles para não irmos contra um modelo ideal que os outros sonharam para nós.

 

Lembro-me de uma paciente que se culpava muito por invejar a irmã, que engravidara antes dela, e, a cada menstruação, acreditava estar sendo castigada por Deus por esse sentimento. Outra paciente suportava calada todas as cobranças de amigos e familiares por receio de ser indelicada caso dissesse que não queria falar sobre esse assunto, quando, na verdade, este cabia somente a ela e ao marido.

 

Há necessidade de certa flexibilidade emocional e permissão para que alguns sentimentos hostis possam ser reconhecidos e vivenciados sem culpa em meio à dificuldade de gravidez. Nossos sentimentos e atitudes nem sempre são “enobrecedores” e nem têm obrigação de ser. Sendo menos rígidas e mais tolerantes com nós mesmas, abrimos a possibilidade de vivenciar a totalidade de nossas emoções, boas ou más, tornando-nos, assim, mais humanas.

 

Quem quiser mandar mensagem para a Luciana Leis , o e-mail dela é: luciana_leis@hotmail.com

Escrito por Cláudia Collucci às 17h56
Irlanda troca ingresso para festivais de música por esperma

 

Por conta da crise nos estoques de bancos de sêmen, os centros de reprodução irlandeses resolveram inovar lançando a campanha "Esperma por ingressos". A intenção é trocar doações de esperma por entradas em qualquer festival de música na Europa. Este aí em cima, por exemplo, é para um festival em Amsterdan (Holanda).
 
Nos últimos quatro anos, os bancos de sêmen na Irlanda apresentaram uma queda de 40% nas doações de esperma. Segundo o site da campanha  http://www.spermfortickets.com/index.html, qualquer cidadão da União Européia pode participar.
 
O lema da campanha é o seguinte: "We need sperm donation...You need festival tickets...Wanna strike a deal?" Traduzindo: Nós precisamos de doação de esperma. Você precisa de tickets para festivais. Vamos fechar negócio? 
 
As amostras de esperma poderão ser mandadas via correio para os bancos de fertilidade em contêineres especiais. O kit enviado pelos doadores é bancado pela "Esperma por ingressos".

A idéia é atrair doadores mais jovens do que a média. Os ingressos para os festivais de música são bancados pela campanha, mas passagens aéreas e acomodação não estão incluídos.

No Brasil, essa moda não tem chance de pegar, pelo menos oficialmente. O Conselho Federal de Medicina proíbe qualquer tipo de negócio envolvendo gametas (óvulos e espermatozóides). Mas a gente sabe que a coisa não é bem assim.

Mesmo ferindo as regras do CFM, há clínicas que pagam ou oferecem outras vantagens (tratamentos de reprodução ou check-up grátis) às mulheres que doarem óvulos. Já os homens, pelo menos até onde eu sei, não ganham nada em troca da doação de espermatozóides. Há estoques de esperma suficientes nos bancos das clínicas.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 16h23

E para encerrar a semana, cujo assunto de principal relevância foi a sessão do STF (Supremo Tribunal Federal) que iria decidir a liberação ou não das pesquisas com células-tronco embrionárias, divido com vocês o artigo de uma querida amiga, a advogada bioeticista Patrícia Bono, publicado originalmente no site jurídico "Ultima Instância". É uma análise muito bem formulada, como é de praxe tudo o que a Patrícia escreve, com a qual concordo plenamente.

Início da vida e a discórdia sobre o artigo 5º da Lei de Biossegurança

Patricia Bono

Pesquisa em células-tronco embrionárias é o novo carro chefe das discussões entre bioeticistas e biojuristas de plantão. Não que o tema seja novo, mas tomou outro tempero desde que foi votada uma nova norma jurídica, pelos nossos congressitas, a Lei nº 11.105/05 (Lei de Biossegurança), que, logo após, o presidente tratou de sancionar.

Se a história tivesse parado por aí, o discurso de proteção à vida (que implica na reprimenda ao Brasil na pesquisa com células-tronco, clonagem terapêutica, aborto, reprodução humana assistida, entre outros) feito pelos religiosos e pessoas que entendem que a vida se inicia com a concepção (leia-se "com o encontro dos gametas") teria tido um ponto final.

Mas, em decorrência da tentativa de dar caráter de inconstitucionalidade à Lei de Biossegurança, promovida pelo então procurador-geral da República, Claudio Fonteles, a coisa tomou outro caminho, quando ele propôs uma Adin (ação direta de incostitucionalidade) no STF (Supremo Tribunal Federal).

No Brasil sabemos quando alguém morre, pois existem dispositivos normativos indicando a morte cerebral, o que, aliás, facilita a retirada de órgãos, na conformidade da lei, que resulta na possibilidade de vida para muitos enfermos e, na grande maioria dos casos, em uma real melhora em sua qualidade de vida.

Mas a Adin pretende mesmo é saber quando a vida começa. Se a inconstitucionalidade arguida pelo procurador se cristalizar, o Brasil passa a pensar legalmente da mesma forma que várias religiões, em especial a Católica, que defende o início da vida na fecundação, ou seja, no encontro dos gametas e no surgimento de um inédito código genético, mesmo que este "corpo" que detém tal DNA não tenha meios efetivos de se desenvolver, nascer e ser titular de direitos e obrigações, conforme indica o artigo 2º de nosso Código Civil.

Se a postura for esta, estarão impedidas as pesquisas com relação às células-tronco embrionárias, ou seja, células indiferenciadas que são retiradas de embriões inviáveis para uma gravidez, ou que estejam congelados há mais de três anos.

E, impedidas as pesquisas nestes embriões inviáveis, por uma simples questão de lógica, eles terão um destino certo: o lixo.

E pelo que parece, os defensores do início da vida na ocorrência da concepção, bem como o procurador que aponta a inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança entendem que o lixo é um destino zilhões de vezes mais ético que a utilização desses mesmos embriões inviáveis para pesquisas que podem, num futuro muito próximo, livrar de sofrimento os enfermos de acidentes vasculares cerebrais, diabetes, mal de Parkinson, Alzheimer, entre outras tantas possibilidades.

O que me aflige não é a postura de cada Chefe de Estado ou de cada religião sobre o tema, mas sim os desdobramentos que estas mesmas posturas podem provocar.

Fala-se tanto em proteção à vida, fala-se mais ainda sobre qual o momento em que ela começa, mas ninguém se preocupou em conceituar vida. Pelo menos, não no campo jurídico. Certo está que este não deve ser o mote da lei. Todavia, seria uma ferramenta interessante que auxiliaria nossos legisladores na defesa de pessoas que, reféns de posturas que impedem o desenvolvimento tecnológico, pudessem brigar um pouco mais, ou não correr o risco de ver a ciência amordaçada.

Observe, também, que a realização de pesquisas em células-tronco embrionárias somente podem ser realizadas com a autorização dos genitores.

Temos, então, que tão importante quanto a pesquisa é o fato de que o Brasil, através da Lei nº 11.105/05, extremamente altruísta no que tange à pesquisa com células-tronco, cristalizou o direito de escolha. E talvez esse fato também afronte as perspectivas do citado procurador ou dos religiosos que perseguem o engessamento de biopesquisas através de leis. Ora, o Biodireito não tem essa função.

Independentemente do resultado alcançado no dia 05 de março de 2008, durante o julgamento da ação citada, uma norma se sedimentará no acervo jurídico do país. E possibilitar o aborto, a reprodução humana assistida, a pesquisa em células-tronco embrionárias no Brasil, entre outras tantas tecnologias que vão surgindo, significa dar aos cidadãos o direito de escolher sobre seu futuro.

Significa, também, tirar da marginalização as mulheres sem recursos financeiros que correm risco de vida ao buscar a realização do abortamento em clínicas de reputação duvidosa; significa dar alento e a possibilidade de se ter um filho para aquele casal com problemas de fertilidade, significa dar esperança para quem sofre com alguma enfermidade, e vê a medicina com mãos atadas.

Se fala muito acerca da proteção da vida e isso é louvável. Mas só devemos nos preocupar com a vida se ela for uma expectativa? Uma promessa de vida? O que tem os defensores da proibição da pesquisa com células-tronco embrionárias a dizer às pessoas que já estão aqui e que, em decorrência de um fator patológico ou de um trauma, estão impedidas de ver seus sonhos realizados?

E mais, devemos usar dois pesos e duas medidas para analisar as tecnologias que podem dar qualidade de vida aos enfermos? Ora, na bandeira contra o aborto, quem defende a proibição indica que seu objetivo é a proteção à vida. Então, quando a Igreja Católica condena o uso de preservativos poderíamos entender que ela não se preocupa com a Aids? Alguém vai ter que fazer essa lição de casa.

Agora, se pensarmos que o embrião guarda a riqueza do que será sua vida - se vier a nascer - ou seja, o DNA, possivelmente em alguns anos também estarão impedidas as pesquisas na carga genética dos gametas, já que, estes sim, são potenciais condutores da expectativa de um novo ser.

Uma proibição dá margem ao surgimento de outra. E de outra. E esse, como já dito, não é o objetivo do Biodireito. Os teólogos costumam dizer que o dogma "não matarás" tem uma ligação íntima com a questão da alma, o que significa que, com a fecundação, uma nova alma se formou e, realizando-se pesquisas em embriões, esta mesma alma se perderia. O que me incomoda é pensar que o lixo é um lugar melhor para essa alma que o implemento de qualidade de vida dos enfermos que poderão ser amparados pelo resultado das pesquisas. Essa aritmética é muito infeliz.

Se a ciência e a religião quase nunca andaram de mãos dadas, folgo em saber que ainda vivemos em um país laico, que prevê a separação dos poderes e entre eles não se encontra um destinado à religião. A religião é uma escolha de foro íntimo e assim deve ser mantida. Não pode qualquer uma delas pretender mudanças na legislação já posta, que impedirá melhora na qualidade de vida de tantos brasileiros.

O que é mais coerente é deixar que as pessoas escolham o destino do produto da junção de seu DNA. Aliás, tal postura não impede que as pessoas contrárias à Lei de Biossegurança não autorizem a pesquisa sobre seus embriões.

Se o STF confirmar a constitucionalidade da norma que trata de biossegurança, evitará que uma "multidão" de embriões sejam destinados ao lixo, e também estará consagrando o direito de escolha de pessoas que não comungam dos dogmas de várias religiões, jogando um pouco de luz sobre a momentânea névoa do obscurantismo que pairou sobre o Brasil.

As pesquisas sobre as células-tronco embrionárias não pretendem reduzir ao sentido biológico ou genético o que entendemos por vida, mas sim, traçar uma nova possibilidade de futuro para os nossos doentes e dar a cada um de nós a possibilidade de escolher qual será o destino de nosso código genético. E se tivermos tal possibilidade, porque não fazê-lo?

Nenhuma das pessoas envolvidas nas pesquisas com células-tronco embrionárias está dizendo que o embrião não é vida, mas sim que o resultado das pesquisas certamente vai ajudar as pessoas que já estão aqui, entre nós, neste momento. E para minha sorte, os fósforos da Inquisição não podem mais ser usados. 

Escrito por Cláudia Collucci às 14h26
Até que ponto os embriões congelados são inviáveis?

Teremos nesta semana, a partir de quarta-feira, o julgamento mais importante dos 180 anos da história do STF (Supremo Tribunal Federal): a liberação ou não de pesquisas com células-tronco de embriões humanos. A tendência é que os ministros, a maioria católicos, votem pela liberação, apesar da forte pressão contrária da Igreja Católica.

O interessante é que, neste debate todo, não vi sequer um comentário de uma parte da população que deveria estar bem atenta e se posicionando a respeito: os casais que têm embriões congelados nas clínicas. Afinal, o que pensam eles? Uma pesquisa feita pela clínica Fertility, com cerca de 700 casais, detectou que mais da metade deles doaria seus embriões congelados para a pesquisa.

Não só na Fertility mas como em outras clínicas _por exemplo, o centro de reprodução humana Franco Júnior, em Ribeirão Preto, que detém mais de 90% dos embriões congelados em condições de serem usados em pesquisas_, os casais costumam ser muito mais favoráveis à utilização dos seus embriões para pesquisa do que para a doação a outro casal com dificuldade de gravidez.

Talvez a opção se justifica pelo fato de que é mais confortável saber que seus embriões tiveram um fim consumado no laboratório, pelo "bem da ciência", do que ficar pensando que eles podem ter se implantado no útero de uma outra mulher e que no futuro eles poderão se encontrar com seus filhos e, meu Deus, quem sabe o que pode acontecer a partir daí...

Sou inteiramente favorável à liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias. Pesquisá-las é muito importante para compreender e futuramente tratar várias doenças degenerativas, como mal de Parkinson, diabetes, doenças cardíacas e até câncer. Mas me incomoda um pouco neste debate afirmações de que os embriões congelados há mais de três anos são inviáveis e que "jamais se implantariam no útero".

Não é bem assim. Nesses últimos dez anos, entrevistei ao menos seis casais que tiveram bebês a partir de embriões congelados há mais de cinco anos. Pelos critérios da Lei de Biossegurança, seriam inviáveis, não é? O último caso foi emblemático e já o contei aqui neste blog no ano passado: após quatro tentativas frustradas de fertilização in vitro, entre 1997 e 1999, uma mulher teve um filho gerado a partir de um embrião congelado durante oito anos.

O casal já tinha desistido das FIVs e adotado um menino, quando foi chamado pelo centro de reprodução para decidir o que fariam com os cinco embriões congelados há quase uma década. Aos 41 anos, a mãe optou por transferir dois embriões, já que três não sobreviveram ao processo de descongelamento. Seis meses depois nasceu Vinícius, pesando apenas 1,2 kg e medindo 36 cm. Hoje está ótimo.

Sei que ao lembrar essa história, corro o risco de vê-la sendo usada por grupos que defendem a proibição das pesquisas com células-tronco por julgarem que a vida tem início quando o espermatozóide fecunda o óvulo e que, por isso, o embrião já teria direitos semelhantes aos humanos já nascidos. Por experiência própria, também não posso concordar com essa tese.

Por conta de uma hiperestimulação ovariana na minha primeira FIV, precisei congelar meus embriões. Nas clínicas de reprodução, é praxe fotografar um-a-um os embriões que serão congelados. Lembro-me que, na primeira vez que vi as fotos daqueles montinhos de células, enxergava neles meus futuros filhos. Imaginava que aquelas seriam as primeiras fotos do bebê e já tinha até legenda para elas: você, no segundo dia de fecundação, com cinco células. 

Mas aí começaram as transferências dos embriões congelados, todos considerados de ótima qualidade morfológica. Foram três transferências, somando dez embriões, e nenhum implantado até o momento. Ainda restam cinco embriões congelados. Confesso que hoje, ao olhar as fotos dos embriões, só enxergo montinhos de células agrupadas.

Tal como a carruagem da Cinderela que volta a ser abóbora à meia-noite, o sonho de considerar embrião sinônimo de filho se desfez. É claro que sempre resta uma pontinha de esperança, ainda mais quando me lembro, por exemplo, de histórias como a do bebê Vinícius. São elas que ainda não me deixam ser arrebatada totalmente pelo pragmatismo da ciência.

Escrito por Cláudia Collucci às 16h41

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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