Antes de adotar, é preciso elaborar o luto pelo filho não-gerado

Aproveitando a proximidade do Dia das Mães e o recém-aprovado cadastro único de adoção no país, a psicóloga Luciana Leis nos escreveu um artigo muito interessante sobre o tema. Assino embaixo as colocações, especialmente quando ela diz que, antes de partir para a adoção, é preciso elaborar o luto pela perda do filho biológico que não foi gerado.

 

Penso que elaborar esse luto não significa, muitas vezes, enterrar em definitivo o sonho de gestação. Conheço dezenas de histórias de gravidezes improváveis após uma adoção. O importante, porém, é reconhecer que as tentativas frustradas de gravidez implicam luto e elaborá-lo é fundamental para o  exercício de outras formas de  maternidade.

 

Adoção: Abrindo novos caminhos para a maternidade e paternidade

 

A maioria das pessoas- tanto homens quanto mulheres- possui dentro de si o desejo de ter filhos, de poder continuar existindo através de um outro que o represente.

         Porém, não necessariamente, isso tem a ver com continuidade genética, já que é possível também se fazer existir por meio de valores e atitudes passados a uma criança com a qual não há laços consanguíneos.

         Nem todas as famílias possuem uma configuração na qual há continuidade genética, uma vez que, as relações parentais que se formam nas famílias adotivas são baseadas fundamentalmente em laços de amor que unem seus membros.

         A palavra “adoção” significa cuidar, considerar, se apropriar; é também o ato de dar um lar a crianças que não puderam ser criadas por seus pais biológicos; e significa ainda, dar a possibilidade de ter filhos à pessoas que tiveram problemas com a fertilidade ou que optaram por cuidar de crianças sem ter laços biológicos.

         No caso de casais com dificuldade de gravidez, nota-se que a adoção surge como uma outra porta que pode ser aberta a caminho da maternidade e paternidade. No entanto, para que essa porta possa se abrir, é necessário que o luto pela perda do filho biológico possa ser vivenciado.

         Não há como adotar uma criança, de forma saudável, sem se passar pelo processo de aceitação e elaboração da infertilidade, pois é justamente após esse processo que o casal pode, aos poucos, abrir espaço emocional para a chegada do filho de uma outra forma, diferente da idealizada, mas uma forma possível e não menos satisfatória.

         Faz-se relevante destacar também, que o desejo de ajudar uma criança não é suficiente para que a adoção se dê, pois não estamos falando de um ato de amor ao próximo e sim, da constituição de uma família, dentro da qual é necessário que essa criança tenha um lugar de filho, assim como qualquer filho biológico. A criança adotiva precisa se sentir escolhida e desejada por seus pais.

         Portanto, a adoção sempre implicará em tomar para si algo que antes era estranho e que, com o tempo, poderá se tornar muito familiar. Coloco para finalizar uma questão: Muitas mulheres não conseguem adotar os próprios filhos, será que são mães?

 

Luciana Leis- e-mail: luciana_leis@hotmail.com

Escrito por Cláudia Collucci às 15h25
Cadastro nacional de adoção será lançado na terça e vai unificar listas

Será lançado na próxima terça o Cadastro Nacional de Adoção, que pretende reunir, em seis meses, informações completas sobre os pretendentes de um lado e de outro (quem quer adotar e que está disponível para adoção). Uma das principais vantagens da iniciativa é unificar as listas e evitar que elas fiquem restritas às comarcas, que em geral abrangem um município ou região, como acontece hoje.

Com o cadastro, idealizado e coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os candidatos a pais não precisarão mais fazer inscrições separadas em cada comarca onde gostariam de avançar no processo de adoção. Os interessados em adotar uma criança de qualquer ponto do país poderão encontrar um filho no outro extremo com a consulta ao cadastro que será feita pelos juízes da Infância e da Adolescência.

Já conversamos sobre o assunto no início do ano, mas agora a coisa parece que é para valer. Alegro-me, sobretudo, porque há pessoas influentes no governo federal e no Senado preocupados com a questão. Um exemplo é o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, que está fila de adoção há dois anos. Ele e a mulher querem uma menina de até dois anos, morena ou branca. Carvalho tem dois filhos e uma filha do primeiro casamento.

A senadora Patrícia Saboya (PDT-CE) é outra que está engajada nesta questão. Em 2006, ela adotou Maria Beatriz, hoje com três anos. Saboya, que é mãe de três jovens (19, 23 e 24 anos), diz que vai batalhar bastante para ser a relatora da Lei Nacional de Adoção, quando chegar ao Senado. Antes disso, a lei terá que ser aprovada no plenário pela Câmara.

Aliás, na Câmara há um outro aliado, o autor do projeto de lei sobre adoção, deputado João Matos (PMDB-SC). Ele e a mulher já tinham três filhos adultos quando resolveram adotar Cleber, à epoca com dez meses. Aos 15 anos, o menino morreu vítima de um tumor cerebral.

Vamos esperar que o cadastro realmente consiga atingir seu objetivo e que a lei de adoção seja vista como prioridade na Câmara e no Senado.

Escrito por Cláudia Collucci às 16h50
Ter ou não ter filhos: eis a questão!

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha e publicada neste último domingo na Folha revela dados bem curiosos sobre a fecundidade no Brasil. Primeiro, o que não chega a ser uma grande novidade, é o fato de que quatro em cada dez filhos não foram planejados. Isso acontece tanto entre os mais pobres como entre os estão no topo da pirâmide social.

Outro dado da pesquisa foi verificar que a grande maioria dos entrevistados (60%) não estão satisfeitos com as escolhas que fizeram em relação aos filhos: 24% teriam menos filhos, 21% teriam mais e 15% não teriam filhos. Essa última constatação, aliás, foi a grande surpresa da pesquisa, segundo os demógrafos. É sobre ela que eu gostaria de discorrer hoje porque esse assunto (não ter filhos) esteve presente no meu dia-a-dia durante a última semana.

Pelas mais diversas razões, mulheres do meu círculo familiar e de amizade, que já são mães, têm tentado me desencorajar da busca pela maternidade. Usam como argumentos desde a liberdade e os prazeres que uma vida sem filhos nos dá até os conflitos entre pais e filhos que, em geral, surgem na adolescência e início da vida adulta.

No final da semana passada, uma tia de Ribeirão Preto (frustrada no casamento e cansada da dependência financeira das filhas em relação à ela) insistia: "Claudiiiinha, você que é feliz de não ter filhos. Filho só dá dor de cabeça. Aproveita a sua vida." Pouco tempo depois, minha prima seguia a mesma linha de raciocínio: "Se eu soubesse que ter filhos seria esse inferno, teria evitado. Não tenho tempo para mais nada, me olho no espelho e não me reconheço mais. Sua vida é que é ótima", disse ela, mãe de três filhos, sendo que último acabou de ser diagnosticado autista.

E não adiantou eu argumentar o contrário, de que a maternidade pode ser encarada sim de uma forma mais leve mesmo levando em conta todas as mudanças e turbulências que estão associadas a ela. Em outras palavras, elas sutilmente me disseram que minha visão sobre filhos era míope justamente porque eu não os tinha. Não quis insistir mais pois seria perda de tempo.  

O assunto só estava começando. Durante a semana, foi a vez de três das minhas amigas (todas com nível superior e boa situação financeira) reclamar de suas respectivas proles. Uma delas foi mãe na adolescência (aos 16 e 18 anos) e tem dois rapazes com 25 e 27 anos. "Cláu, esquece essa história de filho. Se eu pudesse voltar no tempo, não teria tido nenhum. Continua aproveitando a sua vida, fazendo as suas viagens, os seus cursos. Acredite em mim, sua vida dessa forma é maravilhosa", disse ela, no auge da revolta pelo fato de os dois filhos estarem perdidos, sem saber o que fazer da vida e ela se vendo na obrigação de sustentá-los financeiramente.

A outra amiga, mãe de uma garota de 10 anos com dificuldade motora em razão de ter nascido prematura, reclama que nunca mais teve paz de espírito desde o nascimento da garota. "Tenho medo de que ela não consiga ter uma vida independente de mim. É uma angústia permamente, um peso. Sinceramente, se eu soubesse que ser mãe seria esse sofrimento, não teria sido. Aliás, não teria nem casado", desabafou ela, também injuriada com o marido ausente.

Também usou esses mesmos argumentos minha outra amiga, que é mãe de um garoto de 14 anos, bom aluno no colégio, obediente, mas, como qualquer outro adolescente, começa a ter suas crises e está batendo de frente com a mãe. Na semana passada, ela soube que o filho havia experimentado cigarro na saída da escola, e o mundo dela quase caiu....

É curioso ouvir essas opiniões e desabafos de pessoas tão próximas e, ao mesmo tempo, acompanhar a luta de tantas mulheres em busca de um filho. Não só acompanhar como também fazer parte desta luta. Penso que muitas das frustrações, de ambos lados, de quem quer ter filhos e de quem se arrepende de tê-los tido, resida em projeções idealizadas da maternidade. É um tremendo erro colocar nos filhos a expectativa de nossas realizações pessoais. Com ou sem filhos, não podemos nos esquecer de que somos seres únicos e que a construção do nosso bem-estar depende única e exclusivamente de nós.

Projetar nos filhos ou mesmo nos maridos a nossa expectativa de felicidade é uma grande cilada e, se não acordarmos a tempo, corremos o risco de ver a vida passar sem, contudo, ter conseguido vivê-la da forma plena e intensa. O que sei, minhas amigas, é que sou feliz sim (pelo menos a maior do tempo) com vida que tenho hoje. Não sei se serei mais ou menos feliz na condição de mãe. O que eu espero é nunca abandonar meus sonhos e meus projetos de vida. E neles cabem, sim, a dor e a delícia da maternidade.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 10h57
A hora de dizer basta

Olá queridas, venho aqui dizer a vocês que sempre me acolheram, me deram conselhos e, principalmente, força durante minha luta, que desisti de fazer tratamentos para engravidar.

Minha última tentativa de, ao menos, ovular, foi em fevereiro. Estou nessa luta há quatro anos e nunca consegui uma ovulação sequer por conta da SOMP, embora tenha uma excelente reserva ovariana. Emagreci, usei Clomid, Femara, Menopur, Gonal F e nada. Até que, enfim, cansei e decidi colocar minha vida, meu sonho de ser mãe definitivamente nas mãos de Deus.

Talvez eu ser mãe neste momento não é o propósito dele para mim e eu demorei a entender isso. Se um dia Ele quiser, Ele vai me dar o bebê que tanto sonho, mas somente se Ele quiser porque não vou mais me martirizar por uma criança que desejo mas não vem. É muito dinheiro gasto, muita lágrima derramada, muitas outras coisas deixadas de lado por uma luta inglória.

A última recomendação do meu médico é que eu faça uma cauterização dos microcistos, mas eu resisto a essa idéia diante da possibilidade de ter menopausa precoce ou aderência dos ovários em outros órgãos (isso foi ele próprio quem me disse).Durante este tempo acompanhei a luta e as conquistas de várias e sempre muito fiquei feliz com as vitórias que aqui foram relatadas pois via que havia casos mais complicados que o meu em que as meninas obtiveram sucesso. Ficava triste também com as decepções das amigas que, como eu, não conseguiram realizar seu sonho. Enfim, muita sorte a todas as tentantes e gravidinhas. Fiquem com Deus. Mari

Querida Mari, leio a sua mensagem às vesperas da transferência dos meus últimos embriões congelados e me identifiquei com cada palavra do seu texto. Nunca tive problemas para ovular. Já engravidei espontaneamente e, na minha primeira e única FIV, produzi 23 embriões, todos considerados bons e ótimos do ponto de vista morfológico. Mas, como você coloca, talvez não seja esse o momento para uma gravidez. Talvez não seja esse o caminho escolhido por Deus para eu exercer a maternidade. Neste último ano, a cada negativo nas mãos, questionei muito até que momento eu tentaria. Vivi toda espécie de emoção: da tristeza à raiva. Hoje, porém, não me martirizo mais.

Não acho que a luta até aqui tenha sido inglória. Tenho aprendido muito nesse processo todo e, em muitos momentos, a tentante tem se fundido à jornalista e vice-e-versa. Penso que, do ponto de vista profissional, as dificuldades de gravidez me fizeram estudar, pesquisar, fazer um mestrado, escrever dois livros e dezenas de reportagem sobre o assunto. Muito antes da era Orkut, nossa comunidade no UOL nasceu, cresceu e é um exemplo vivo de solidariedade on line. E o melhor: nesses últimos anos, as mulheres têm perdido a vergonha de falar sobre suas dificuldades de gravidez e o quanto sofrem com elas.

Enfim, para mim, as dificuldades me trouxeram processos muito ricos, muito férteis, muito criativos. Talvez, se eu já tivesse sido mãe lá atrás, nada disso teria caminhado dessa forma. Essas mesmas dificuldades me apontaram também o caminho da adoção. Então, eu agradeço sim a vida ter me dado esse desafio. Do ponto de vista pessoal, a maior lição tem sido aprender a abrir mão do meu auto-controle ou, usando as suas palavras, "colocar meu sonho de ser mãe nas mãos de Deus". Que Ele nos ajude a confiar no curso natural da vida, a enxergar nossos caminhos para a maternidade e a tirar das nossas costas o peso de um sonho que não depende apenas de nós para se realizar.

Um sonho não deve pesar nunca. Senão, vira pesadelo.

Um beijo, Cláudia

Escrito por Cláudia Collucci às 19h21
Leitora relata as angústias do pós-parto

Ana nos presenteia hoje com um emocionante relato que deve ser leitura obrigatória para todas as mulheres que desejam ser mães ou que já o são. Obrigada Ana por abrir o seu coração com a gente.

Cláudia, acho que a questão do pós-parto tem mesmo de ser discutida, pois tanto as mulheres que facilmente engravidaram, quanto as que tiveram dificuldade (no meu caso, uma videolaparoscopia para desobstruir as trompas e no mês seguinte a gravidez natural), têm pensamentos e fantasias maravilhosas sobre ser mãe. A maternidade talvez seja a melhor coisa que aconteceu na minha vida, mas teve sim um ônus e te afirmo com todas as letras NÃO FOI FÁCIL. O meu marido já tinha um filho de uma relação esporádica, então era pai, mas não sabia o que era realmente ser pai, afinal nunca morou junto com a mãe do filho dele.

Então, chegou a hora do nascimento da nossa filha, e com ele momentos transformadores e perturbadores... Eu não esperava passar por aquilo, como poderia ser se havia desejado tanto aquele bebê? E o pior de tudo, aquela falta de entendimento sobre o que estava acontecendo comigo, carregando uma tonelada de culpa por não estar feliz era reforçada diariamente pelo meu marido, que me culpava por ter uma filha tão linda e viver chorando.

O processo foi muito doloroso para ambos, pois ele depois de 8 dias (licença-paternidade), vida normal: trabalho, estudo (ele estava fazendo pós-graduação) e até um happy hour para desestressar. Eu, sozinha em casa (minha mãe já faleceu, a empregada não dormia), amamentando o dia todo, EXAUSTA e sem entender o porquê daquela tristeza imensa que me acompanhava todo o tempo.

A chegada de um filho corresponde à chegada de um novo e totalmente diferente estilo de vida _especialmente quando se trata do primogênito. O cotidiano muda radicalmente, no sentido mais literal dessa palavra. A gente se vê diante de um ser que precisa de você 100% do tempo, e que manifesta isso por meio de choro e gritos. Essa é a única comunicação que ele sabe fazer, e não é fácil se adequar a ela. Ver seu filho chorando e não saber o que significa pode ser algo muito angustiante. Além disso, toda a sua vida profissional, social, seu tempo para relaxar, suas manhãs preguiçosas do fim de semana _tudo isso lhe é arrancado bruscamente, de uma hora para outra.

A isso soma-se o delicado processo da amamentação, que é pura doação, um ato de amor. No começo, dói, machuca, assusta. Seu corpo está totalmente diferente _no meu caso, operado numa cesárea. Você fica com os órgãos soltos na barriga, e sangra por, pelo menos, 20 dias seguidos. Dorme pouco e de forma caótica. Isola-se do mundo durante o resguardo. Não bastasse tudo isso, depois de passar pela primeira semana heroicamente, de olhos fechados para todos esses incômodos e novidades, apaixonada pela filhota e seus encantos, vem a tal queda de hormônios. Todas as químicas internas que durante a gravidez estavam nas alturas, caem subitamente dias após o parto. Comigo, foi com uma semana. E veio o blues pós-parto, para não dizer, depressão.

Comecei a sentir desespero, agonia, medos intensos. Ouvir o choro da neném me causava frio na barriga. Nos primeiros dias dessa tristeza eu fingi que nada estava acontecendo, não conseguia admitir para mim mesma que não estava dando conta sozinha. Não queria precisar de ninguém... ficava pensando: "Como assim, como eu não vou dar conta de ser mãe e viver esse sonho que aguardei por tanto tempo?" Aí vem a culpa, a sensação de inadequação, a impressão de fracasso: "Que tipo de mãe sou eu?" Fiquei fritando minha alma com esses pensamentos e questionamentos até que desabei. É químico, físico, não dá para controlar essas sensações. Portanto, não há culpados, julgados e condenados.

Só que no meio dessa caos, além de ter um serzinho frágil, dependendo de mim para tudo, tive um inquisitor apontando o dedo para mim e dizendo que todo mundo tinha filho e não era esse desespero todo (fácil, quando se é apenas expectador). Esse meu desabafo não é para detonar o meu marido, que apesar de seus erros, virou muita madrugada com nossa filha, me levava para dar uma volta quando eu entrava em desespero (pode parecer se contentar com pouco, mas era uma higiene mental). É apenas um alerta para que as futuras mamães se informem de todas as mudanças que vêm com a maternidade, e os futuros papais também... Porque, pelo menos para mim, a situação só começou a melhorar quando eu e o meu marido resolvemos conversar e tentar recomeçar de uma outra perspectiva (nem preciso dizer que diante de tudo que relatei o casamento quase terminou).

Nessa conversa expus a minha fragilidade diante daquele mundo novo que se apresentava para mim e percebi que ele, apesar de já ser pai, não tinha a menor noção do papel do MARIDO nessa nova etapa. De propósito coloquei MARIDO em destaque, porque ele sabia toda técnica, dava banho, trocava fralda, colocava a neném para dormir... Mas nem desconfiava do que estava se passando comigo, e diante de uma criação machista onde o homem é o provedor e a mulher cuida do lar (apesar de os dois trabalharem e manterem a casa), ele não tinha parado para pensar que simplesmente eu não estava preparada para abrir mão de uma vida onde eu cuidava apenas de mim e somado a isso o turbilhão de emoções que a queda hormonal causa na mulher.

Então, com o passar do tempo a nossa filha foi nos ensinando talvez a melhor lição que podíamos aprender: DOAÇÃO. Eu deixava de ser a mulher independente, realizada na profissão e cheia de conquistas e passava a admitir a minha fragilidade e construir uma relação de aprendizado e afeição com a minha filha. Meu marido, aos poucos vem abandonando a capa de perfeição, com soluções prontas para todos os problemas, pois um bebê coloca à prova qualquer pseudo "sabe-tudo". Ele então entendeu que a tarefa de cuidar de um ser, passar valores, ter uma dose altíssima de paciência, disponibilidade e DOAÇÃO, é aprendida a cada dia e só a convivência, as doencinhas da primeira infância, as madrugadas insones, o cinema cancelado porque o bebê está vomitando ensinam isso ao casal.

Saldo do meu relato, o nascimento de um bebê gera uma mudança absurda na vida de um casal sem filhos, mas com diálogo, paciência e boa dose de tolerância de ambas as partes a relação se fortalece. A gente enxerga que para o conjunto funcionar temos que dar o melhor que podemos, isso significa também um cineminha a dois, uma conversa com os amigos, para que o tempo dedicado ao filho seja de intensa e profunda qualidade. E assim continuamos a nossa caminhada, errando, acertando; mas principalmente nos permitindo aprender.

Escrito por Cláudia Collucci às 14h50

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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