Vida e morte dos bebês

Duas histórias envolvendo bebês me comoveram nesta semana. Primeiro, essa dramática sucessão de mortes de recém-nascidos na Santa Casa de Misericórdia do Pará: 20 bebês mortos em apenas uma semana. A própria Secretaria de Saúde reconheceu a precariedade do hospital, dizendo que lá faltam leitos, equipamentos e médicos.

Segundo dados da Santa Casa, de 274 bebês atendidos na unidade de terapia intensiva, entre janeiro e maio do ano passado, 153 morreram. Uma média de óbito superior a 55%. Esse ano, no mesmo período, foram atendidos 269 recém-nascidos com 121 mortes, uma média de quase 45%. Venhamos e convenhamos, índices muito acima dos padrões aceitáveis em qualquer lugar do mundo. Quantos bebês ainda terão de morrer para que efetivas providências sejam tomadas? Quem será responsalizado por essas mortes?

Felizmente, nesta semana, outra história de recém-nascido teve um final feliz. Um bombeiro de Piracicaba, no interior de São Paulo, conseguiu salvar a vida de um bebê pelo telefone. Gabriel, de apenas 23 dias, engasgou com o leite. Com o nariz congestionado, parou de respirar. A família ligou para o Corpo de Bombeiros e, pelo telefone, o soldado Adriano Costa foi orientando a avó do bebê como deveria proceder:

"Coloca ele meio de ponta-cabeça, um pouquinho só"; "Vai dando tapinha bem devagarzinho na costinha dele e abre um pouquinho a boquinha dele", explicava o bombeiro.

A orientação surtiu efeito e o bebê foi reanimado. Já está em casa esbanjando saúde.

Parabéns, soldado Adriano Costa! É por profissionais assim como você que a gente ainda acredita que esse país tem jeito.

Gabriel foi internado para observação e liberado. Foto: Reprodução TV GloboO muito fofo bebê Gabriel

Escrito por Cláudia Collucci às 21h09
Saber a hora de parar
O texto abaixo foi extraído do "The New York Times". Penso que ele retrata de uma forma honesta e profunda uma possibilidade que a gente nem sempre quer pensar: não conseguir gerar nossos próprios filhos.
 
Quando Pamela Mahoney e Alex Tsigdinos se casaram, nunca pensaram que teriam dificuldades para ter um bebê. Mas, depois de 11 anos e muitos tratamentos de fertilização, eles ainda são apenas uma família de duas pessoas. Frustrados e exaustos com os procedimentos caros que nunca funcionaram, o casal finalmente desistiu. Agora o desafio é aprender a aceitar uma vida sem filhos.

Dez por cento de todos os casais têm problemas para engravidar, às vezes devido a um problema físico e às vezes por razões inexplicáveis. Mas, à medida que as tecnologias de reprodução aumentam, aumenta também a esperança de muitos casais.

Para os Tsigdinos, que moram em Los Gatos, Califórnia, os médicos foram otimistas em cada passo. Aos 29 anos, depois de dois anos tentando engravidar, Pamela Tsigdinos soube que tinha pequenas lesões no útero - um sinal precoce de endometriose, uma condição marcada pelo crescimento descontrolado do tecido uterino. As lesões foram removidas com cirurgia e os médicos mandaram-na para casa com todas as expectativas de que ela não teria mais problemas para engravidar.

O tempo passou e nada de bebê. Alex Tsigdinos foi examinado e o casal descobriu que ele sofria de varicocele, um bloqueio no fluxo sangüíneo ao pênis que diminuía sua quantidade de espermatozóides. Uma cirurgia corrigiu o problema. No entanto, mais dois anos se passaram, e nada. Durante os vários anos seguintes, o casal tentou dois ciclos de fertilização in vitro e duas sessões de inseminação artificial, isso sem mencionar abordagens não-tradicionais, incluindo acupuntura, suplementos fitoterápicos e tratamento quiroprático.

O tempo é o vilão

O tempo se tornava um vilão: para uma mulher abaixo dos 35 anos, o percentual de gravidez após uma fertilização in vitro é de 43%, mas cai para 4% em mulheres após os 42 anos. Anos de consultas médicas, contas a pagar e sonhos não-realizados também cobravam seu preço, abalando as economias do casal, sua paciência e seu casamento. Finalmente, eles deram um basta. "Eu fiz 39 anos, me olhei no espelho e disse 'até quando podemos continuar com isso?'', conta Pamela.

Há dois anos, Alex e Pamela Tsigdinos tomaram a difícil decisão de dar fim à situação: parar com os procedimentos invasivos, parar de medir diariamente a temperatura corporal basal para saber se ela perto de ovular, parar de procurar novos tratamentos - e parar de sonhar em ter filhos.

Pamela Tsigdinos sabe bem o que você está pensando: e por que não adotar? Mas ao mesmo tempo em que consideram a possibilidade, o casal acha que não é para eles.  "Não é como cara ou coroa - ou você tem um filho ou adota. Não é tão simples assim", ela disse, lembrando os esforços de amigos que buscaram a adoção.

Não está claro quantas mulheres não têm filhos, contrariando sua vontade. O estigma ligado à infertilidade e à vida sem filhos obriga muitas mulheres a silenciarem sobre seus conflitos, disse Pamela, completando que isso "não é algo que a gente quer conversar em uma festa, tomando um drinque". Quase dois anos depois, Pamela Tsigdinos, 45 anos, ainda cai em lágrimas quando fala sobre isso. "Não é um processo linear", disse. "Você aceita que vai fazer o melhor para seguir em frente, mas há dias em que tudo se torna simplesmente sufocante." 

O processo de aceitação

Especialistas recomendam que mulheres que lutam contra a decisão de interromper tratamentos de fertilização encarem sua perda como fariam com qualquer outra. "A pessoa deve atravessar um processo de luto pelo que isso representa e aceitar quem elas são nessa vida", disse Dr. Mardy S. Ireland, psicanalista de Berkeley, Califórnia, especialista em casais sem filhos.

Tratamentos contra infertilidade podem ser tão desgastantes que muitas mulheres continuam tentando, mesmo depois de as chances serem proibitivas. Aquelas que conseguem aceitar a possibilidade de que nenhum tratamento no mundo as permitirá engravidar podem encarar melhor a possibilidade de aprender a aceitar uma vida sem filhos.

"As mulheres que terão mais dificuldade em lidar com a realidade são aquelas que não tomam uma decisão", disse Ireland. As que não tomam a decisão, acrescentou, vão acordar um dia e sentir que a escolha foi tirada das mãos delas.

Ainda assim, mulheres como Pamela Tsigdinos freqüentemente caem em lágrimas ao ver uma mãe empurrando um carrinho de bebê, lutam contra a raiva que sentem de amigos que inocentemente as convidam para chás de bebê e brigam com seus próprios pais, que não aceitam o fato de que nunca serão avós.

Susan B. Slotnick, membro da Resolve, uma associação sem fins lucrativos de fertilidade, entende essa dor. Há 11 anos, ela também tomou a decisão de parar os tratamentos de fertilidade e aceitar uma vida sem filhos. "A dor nunca vai embora, na verdade", disse. "Mas é como uma dor de coluna crônica, você aprende a lidar com ela." 

Internet ajuda

Essa dor une mulheres de todos os níveis sociais que compartilham do desejo de ter filhos, e uma comunidade online em crescimento as ajuda a lidar com as muitas facetas da infertilidade. Pamela Tsigdinos, profissional de marketing de uma empresa de capital de risco, criou seu próprio blog sobre o outro lado do tratamento, o www.coming2terms.com, para ajudá-la a superar a decisão de interromper os tratamentos de infertilidade.

Após anos se concentrando em ficar grávida, a paixão de Pamela agora é se conectar com outras mulheres na mesma situação. Ela escreve sobre coisas diárias que a fazem lembrar-se da sua vida sem filhos, mas também sobre as coisas com as quais teve que lidar no caminho: como saber quando interromper o tratamento, como lidar com amigos e parentes intrometidos, como aceitar a vida sem a expectativa de ler livros infantis, ir a recitais e a festas de formatura. As mulheres e os poucos homens que comentam no blog de Pamela nem sempre concordam com suas escolhas, mas todos têm compaixão e a ajudam a se sentir melhor.

A infertilidade pode ser o tema principal na vida de Pamela Tsigdinos. Mas ela afirma que isso não a impede de aproveitar o que tem de bom na vida.  "Tenho que admitir que sou uma das mulheres mais sortudas porque tenho o marido mais paciente do mundo", ela disse. "Pelo fato de sermos somente nós dois, o tempo todo queremos assegurar que o outro esteja feliz."

 Pamela Mahoney

Escrito por Cláudia Collucci às 12h59
Reprodução assistida no SUS. Será que dessa vez é sério?

Só para não passar em branco. Na última terça-feira, dia 10, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou, em entrevista coletiva, que o Sistema Único de Saúde (SUS) passará a oferecer gratuitamente, em cerca de seis meses, tratamento de reprodução assistida a casais que não conseguem ter filhos.

A frase do ministro: "O casal que não consegue ter filhos e quer fazer uma inseminação artificial tem que pagar hoje um tratamento caríssimo, que custa entre R$ 10 mil e R$ 20 mil. O SUS também passará a oferecer esse atendimento". Alguém aqui na redação gritou: ‘Cláudia, você viu que o SUS vai oferecer tratamento de reprodução assistida? Minha resposta foi imediata: ‘Agora, só acredito vendo. Não escrevo mais uma linha anunciando uma promessa que nunca sai do papel!’.

Caro ministro, meu ceticismo tem razão de existir. No dia 6 de julho de 2005, o seu antecessor, Humberto Costa, anunciou exatamente a mesma coisa: que até dezembro daquele ano os casais poderiam fazer o tratamento gratuito pelo SUS. O que aconteceu desde então? Exatamente nada. Os casais com dificuldades de gravidez só vêm encontrando no SUS portas fechadas e desamparo. Nos poucos lugares públicos onde há oferta do atendimento, as filas são monstruosas. Acompanho a luta de uma amiga que está há quatro anos na fila do HC. Na última consulta, marcaram um retorno para... o ano que vem.

O mais triste é saber que o mesmo desamparo existe no sistema suplementar de saúde. Faz algum sentido pagarmos um absurdo de plano de saúde e não haver nenhuma cobertura em relação aos tratamentos de reprodução assistida? Faz algum sentido muitas mulheres mentirem nos laboratórios de análises clínicas, quando fazem exames vinculados ao tratamento, porque alguns planos glosam os procedimentos quando se trata de reprodução assistida? E sabem por que? Receio de arcar com os custos da gravidez múltipla (UTI neonatal etc etc).

Enfim, caro ministro, quero muito acreditar que, agora, a promessa de tratamento de reprodução assistida no SUS é para valer. Sei que tem muita gente que vai dizer: um país pobre como o nosso há outras prioridades na área da saúde. Concordo que o assunto é complexo e que o sistema não é uma torneira aberta. Mas entendo que é possível equacionar essas questões todas e fazer valer a lei dos direitos reprodutivos de forma integral: oferecer recursos aos casais que desejam e aos que não desejam ter filhos.

Hoje, existe uma multidão de homens e mulheres brasileiros que amargam a dor da infertilidade, sem condições de arcar com os caríssimos tratamentos. E se enchem de esperanças cada vez que um ministro de Estado declara que, finalmente, o sistema de saúde vai acolhê-los. Então, por favor, ministro, lembre-se deles cada vez que tocar neste assunto. A infertilidade é uma ferida aberta que, muitas vezes, parece invisível à sociedade porque as pessoas têm dificuldade de expô-la. Ainda não conseguimos nos organizar o suficiente para, a exemplo das nossas amigas portuguesas, fazermos uma marcha e sensibilizar a população para esse tema.

Lá em Portugal, no último dia 1º de junho (data em que se comemora no país o Dia das Crianças) centenas de pessoas saíram às ruas com esse fim. "Queremos dar a cara e dizer a quem pode ajudar _o Ministério da Saúde_ que existimos, que estamos aqui e precisamos de ajuda", disse à epoca Filomena Gonçalves, da Associação Portuguesa de (In)Fertilidade. Fazemos nossas as tuas palavras, Filomena.

Escrito por Cláudia Collucci às 17h07
É preciso escoar a tristeza

Dr. Ricardo me liga pedindo ajuda para a divulgação de um evento na clínica de reprodução. Diz que freqüentemente acessa o blog e que, ultimamente, vem me achando triste. Pergunta se está tudo bem e se tem algo que ele possa fazer para me ajudar. Agradeço e digo que a tristeza faz parte do processo da dificuldade de gravidez. E que eu não me furto de vivê-la e nem de dividi-la neste espaço. Do contrário, não estaria sendo honesta com vocês, minhas queridas amigas virtuais.

Disse a ele que o meu lema é sempre abrir os canais para que a tristeza escoe. Deixá-la represada é o mesmo represar um rio. Uma hora ele estoura e a inundação é sempre muito pior. Também falei para o Ricardo não se impressionar com os posts tristes porque nesse espaço também há mensagens de esperança, de otimismo e de alegrias. Afinal de contas, essa também sou eu.

Foi então que me lembrei de um episódio que aconteceu nesta semana, durante minha viagem a Chicago (EUA) para a cobertura do congresso mundial de câncer da Sociedade Americana de Oncologia Clínica. Na segunda-feira, depois de cinco dias de exaustivas conferências, passei algumas horas da minha tarde em uma mega livraria no centro da cidade. Enquanto minha amiga Mônica, também jornalista, se deliciava na seção de DVDs e CDs eu mergulhei no mundo infantil dos livrinhos interativos e brinquedos educativos.

Comprei presentes para as minhas amadas sobrinhas, para o filho recém-nascido de uma amiga e, de repente, deparei-me com um brinquedo que me encantou: uma luva interativa, que tem bichinhos em cada um dos dedos: começando por um carneirinho no dedão, passando um coelhinho azul, um sapinho verde, um porquinho rosa e, por último, um patinho amarelo no dedo mindinho. Na palma da luva, um micro-livro com historinhas dos personagens. É uma espécie de fantoches de dedos.

Veja a luva-fantoche

Tentei conter as lágrimas, mas não deu. Elas vieram com abundância. E eu chorei e continuei chorando mesmo quando uma simpática senhora passou por mim e perguntou: Are you OK? Yes, I´m ok, Tks, respondi passando as mãos nos olhos porque não havia nada por perto que pudesse enxugar as lágrimas. Sim, de novo senti saudade do filho que não estaria me esperando quando eu chegasse em casa, dois dias depois. Mas, por uma fração de segundos, pude enxergar seu rosto de criança feliz e sua risada com os meus dedos-bichinhos a fazer-lhe coscas.

 Meu laptop lindo!

O dia poderia ter terminado assim, triste e melancólico. Mas não acabou. Ao sair da livraria, acabei comprando um laptop que há muito vinha namorando. Senti a mesma alegria de 20 tantos anos atrás, quando ganhei minha primera máquina de escrever. Algumas horas depois, lá estávamos eu e Mônica brindando a aquisição com uma maravilhosa cerveja belga, em um bar perto do lago Michigan, dando muitas risadas das atrapalhadas das nossas vidas. Sim, tristeza e alegria são irmãs e podem conviver pacificamente dentro da gente. Do contrário, o mundo seria muito sem graça.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 14h53

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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