Atirei o pau no gato

Ligo para a casa da minha irmã em Ribeirão Preto e minha sobrinha Catherine, 10 anos, atende o telefone:

- Oi Tetê, tudo bem por aí?

- Oi Cacau! Você sabe que toda minha classe já sabe que eu gosto do Artur Salomão?

- Mas, Tetê... Precisava anunciar para a classe toda que você gosta do menino?

- Não fui eu, Cacau! Foi o chato do Lucas. Ele colocou no MSN e todo mundo sabe!

- E o que o Artur Salomão achou disso?

- Não sei.

- E ele também gosta de você?

- Sei lá, Cacau.

Nesse momento, ouço uma vozinha gritando perto do telefone

- Eu quéio! Eu quéio!

Pergunto:

- O que foi Tetê? É a Sofia? [minha sobrinha de 2 anos]

- É Cacau, é a chata da Sofia. Ela quer falar com você. Tchau!

- Oi Sofia! Tudo bem, gatinha?

- Cacau, muiquinha pô cê! Atiei o pau no gatotôtô, mai o gatôtô não moeueueu, dona Chicacaca dimiou cê cê do berrô do berrô qui o gato deu, miau!!!! [Ok, eu sei que a música não é politicamente correta, mas as escolinhas continuam ensinando...]

- Obrigada, meu amor! Um beijo!

- [barulho de estalo de beijo]

Do outro lado da linha, meus olhos enchem-se de lágrimas. Lembro-me de quando a minha irmã anunciou que estava grávida. Eu havia acabado de chegar de Praga e acreditava que havia engravidado na cidade dourada. Eu e o maridão tínhamos namorado muito, a viagem tinha sido perfeita. Mas não. A grávida da vez era minha mana. Mas, naquele momento, também comecei a gestar a Sofia.

Acompanhei passo-a-passo da difícil gravidez da minha irmã. Ela teve sangramento por um mês seguido e a cada ultra-som era aquela tensão. Mas lá estava o embriãozinho Sofia com o coração pulsando, pulsando.

No final da gestação, uma pré-eclâmpsia levou a uma cesárea de emergência. Sofia estava com sofrimento fetal. Em uma semana, ainda no útero da mãe, havia perdido 300 gramas. Dias depois, mais preocupações. O teste da orelhinha detectou uma possível deficiência auditiva que, depois, não se confirmou. Ufa!!!

Lembrou-me que quando tentei dar banho pela primeira vez naquele serzinho frágil, que pesava 2,5 kg. Precisei me encher de coragem, minhas mãos tremiam. Depois disso, nunca mais parei. Até hoje, quando estou em Ribeirão, todos os banhos da Sofia são meus. Ficamos um tempão brincando na banheira. E depois é aquela choradeira quando a farra termina.

Aí começa o pega-pega na cama para eu conseguir colocar a fralda nela. Quando termino, estamos as duas exaustas. Ela, invariavelmente, com fralda torta. Dou uma mamadeira para a pequena e começo a contar historinhas. Vez ou outra, ela larga a mamadeira e dá uma risada: Cacau...Parece gostar do som da palavra e repete: Cacau... Adoro ouvi-la me chamar de Cacau. É um dos momentos que mais me deixa em paz comigo mesma.

Escrito por Cláudia Collucci às 15h31
"Um dia sem perder sangue é um dia cheio de sonhos"

"Basta um atraso na menstruação para retermos o fôlego. Um dia sem perder sangue é um dia cheio de sonhos. Sentimo-nos atordoadas, enjoadas, ensonadas, com dores no peito, com incontinência na urina, tudo o que nos disseram que havia de nos acontecer se o nosso desejo mais vibrante de gravidez viesse a tornar-se realidade.

Quanto mais velhas somos, quanto mais tempo passamos a tentar, quanto mais tentativas falhadas já acumulamos, mais ardente se torna esse transe que, no entanto, no íntimo, já sabemos que é meio estúpido.

Cada vez que tentamos um tratamento novo, um novo truque, uma esperança teimosa arranja maneira de florescer no nosso coração, embora já devêssemos conhecer as limitações do jogo e ficar de cabeça fria até ao fim.

E aqueles que amamos cedem conosco. Também eles começam a sonhar. Começam a romancear. Depois chegam as más notícias, e todo este mundo tão lindo entra em colapso.

Onde ainda há minutos florescia um sentimento maravilhoso de plenitude, toma agora lugar um vazio devastador. Sentimos que não conseguimos dar nem mais um passo em frente. Detestamo-nos por termos voltado a embarcar da fantasia infantil que já nos tinha feito sofrer tantas vezes antes. E aqueles que amamos lançam-nos aquele olhar tão nosso conhecido, aquele olhar tão triste. Detestamo-nos. Sim, em momentos como esses era de muito boa vontade que nos escondêssemos dos olhos do público durante longos meses."

O trecho não-literal do prefácio que a escritora Clara Pinta Correia escreveu para um dos meus livros me veio novamente à memória. A intensidade das suas palavras dói. Talvez porque, lá no íntimo, encontram eco dentro da gente. Não se passa impune por um período menstrual quando estamos a tentar uma gravidez. Há momentos em que dói mais, há momentos em que dói menos e há outros em que a dor é visceral. O útero chora, a alma sangra. E não é apenas uma figura de linguagem. É real. Quem vive essa dor sabe do que estou falando.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h49
Mãe por nove horas

Tão logo sentei-me na poltrona ao lado, ela abriu um sorriso. No pescoço, o enorme crachá da companhia da aérea indicava que ela estava desacompanhada. Assim que o avião decolou, puxei papo. E ela foi logo falando com entusiasmo. Chamava-se Érica, tinha nove anos e morava na Itália com a mãe e o padrasto há dois anos. Pela primeira vez, havia retornado ao Brasil durante as férias (na Europa, elas acontecem em julho, agosto e parte de setembro) para visitar o pai, que mora em São Paulo, na Mooca.

Também disse que no aeroporto, o pai havia se despedido com lágrimas nos olhos. "Nunca tinha visto meu pai chorar." Comentei que o gesto demonstrava que ele a amava muito e que sentia saudades. Ela continuou: "É, e eu só vou voltar daqui há dois anos. A viagem é muito cara e ele não tem dinheiro para ir me visitar na Itália." A mãe de Érica trabalha com balconista em Bolonha e o padastro, italiano, como cabeleireiro. A menina passa o dia todo na escola, onde tem "duas" amigas. "Só vejo a mãe à noite!".

Pergunto se ela já conheceu outros lugares na Itália, ou na Europa, nesses dois anos. "Não, minha mãe e o meu padrasto viajam sempre. Minha mãe promete que vai me levar junto, mas nunca vou. Eu não sei por quê!" Minha primeira reação foi sair em defesa da mãe e disse que, provavelmente, o motivo era em razão das despesas, já que na Europa tudo custa muito caro. Mas também disse que ela tinha razão em ficar triste porque, afinal, sentia falta da mãe e queria estar mais tempo ao lado dela. Érica assentiu com a cabeça.

Na testa da menina, seguiam as lembranças das férias brasileiras: uma enorme cicatriz, fruto de um atropelamento em frente à casa do pai. "Eu olhei para os dois lados antes de atravessar a rua e não vinha nada. De repente, apareceu uma moto." Comentei: "Nossa, tua mãe deve ter ficado muito preocupada quando soube!" "Ela ainda não sabe. Não contei nada. Ela só vai ver no aeroporto, quando for me buscar", respondeu, logo mudando de assunto.

Logo, o jantar começou a ser servido. Érica preferiu massa porque o arroz que acompanhava a outra opção, com carne vermelha, tinha açafrão. "Não gosto de arroz amarelinho." E se fartou de pão. Comeu o dela e o meu. E espalhou farelos por todo canto. Até no cabelo _ela tinha feito chapinha nas madeixas_ havia restos de pão.

Depois do jantar, exausta, eu apaguei. Acordei uma hora depois com cabecinha de Érica no meu colo. Estava encolhida na poltrona, provavelmente com frio. Joguei o cobertor por cima dela, com cuidado para não acordá-la. Duas horas depois, Érica se levantou subitamente. Sonolenta, disse que queria fazer xixi. Segurei-a pelos braços e a levei para o desajeitado banheiro do avião. Forrei o assento para ela se sentar e, depois, a ajudei a lavar as mãos.

Na volta, ela se deitou na poltrona e, novamente, apoiou a cabeça no meu colo. Fiz um carinho nos seus cabelos e disse para ela tentar descansar porque tínhamos muito céu pela frente. Ela sorriu. E, talvez por estar com um sentimento maternal à flor da pele, percebi como é fácil amar uma criança. Eu havia conhecido aquela menina há pouco menos de quatro horas e já estava cuidando dela como cuido das minhas sobrinhas e como cuidaria de um filho.

Vendo-a dormir ali no meu colo, tão indefesa, pergunto-me se um dia permitiria que um filho ou uma filha pequena viajasse sozinho (a). Não, definitivamente, não. Em nenhum momento da viagem, vi os funcionários da empresa aérea perguntarem se Érica precisava de alguma coisa. E estava no pescoço dela, em letras garrafais, que ela viajava desacompanhada.

Duas horas antes da nossa chegada à Lisboa _onde eu faria uma escala para Roma e Érica, para Milão_, o café da manhã foi servido. Eu só tomei um suco e comi uma bolachinha sem sal e frutinhas. Érica estava com uma fome de leão, mas fez cara feia assim que abriu a embalagem e viu a omelete e a salsicha. "Essa salsicha tem uma cara muito estranha", comentou. Chamei uma das aeromoças e pedi uma outra opção para a menina, um pão com queijo ou algo mais saudável, o que foi atendido prontamente.

Nossa viagem caminhava para o fim. Érica estava preocupada com a aterrissagem porque na viagem de ida ao Brasil havia vomitado na chegada à Lisboa (onde fez uma escala) e ao desembarcar no Brasil. "Acho que vou vomitar de novo agora". Disse para ela se acalmar, ensinei alguns exercícios de respiração, de alongamento e de relaxamento. Ela segurou na minha mão, e o pouso aconteceu sem incidentes. "Nossa! Não senti nada!", exclamou, assim que o avião colocou suas rodas no chão.

Despedi-me de Érica com um beijo na sua testa. Disse que havia sido um prazer conhecê-la e desejei uma ótima viagem até o seu destino final. Esforcei-me para não chorar. Minha experiência maternal de nove horas tinha chegado ao fim e eu já sentia um vazio dentro de mim. Mas a lembrança de que em Roma havia um congresso de diabetes à minha espera e que, depois, teria dois dias de "férias" por aquelas ruas que parecem páginas abertas de um livro de história, devolveu-me o foco da viagem.

No corredor, já na fila indiana para sair da aeronave, mandei um último beijinho para Érica. Foi então que ela se levantou da poltrona e, com um sorriso maroto, gritou: "Qual é mesmo o seu nome?" 

Escrito por Cláudia Collucci às 11h33
Abaixo às caraminholas!

 

Algumas pesquisas parecem que são feitas com o intuito de nos enlouquecer. Ainda mais quando elas tratam de um período tão delicado como a gravidez. Pensei nisso ontem, quando vi uma pesquisa publicada pela BBC Brasil dizendo que o uso de perfumes ou cosméticos perfumados durante a gravidez pode aumentar o risco de infertilidade entre bebês meninos na vida adulta.

Segundo pesquisadores da Universidade de Edimburgo, há uma janela crucial entre a oitava e a décima-segunda semanas de gestação que determina futuros problemas reprodutivos em meninos. Os cientistas acreditam que a exposição a algumas das substâncias químicas encontradas em cosméticos durante este período pode afetar a produção de espermatozóides no futuro, mas eles afirmam que os resultados não são conclusivos.

Durante experiências com camundongos, os médicos bloquearam a ação dos androgênios – substâncias que incluem os hormônios masculinos e promovem a masculinização – e confirmaram que os animais sofreram problemas de fertilidade. Algumas das substâncias que podem bloquear esses hormônios são amplamente usadas na produção de cosméticos, tecidos para decoração e plásticos.

Segundo Sharpe, as substâncias também podem aumentar o risco de bebês do sexo masculino desenvolverem outros problemas reprodutivos na vida adulta, como câncer testicular. Ele acrescentou ainda que as mulheres que estiveram planejando engravidar devem evitar o uso de cosméticos que poderiam ser absorvidos pelo corpo.

“Há vários componentes em perfumes que nós sabemos que, em alta concentração, têm potencial de provocar efeitos biológicos, então, para ser ultra-seguro, podemos dizer que, ao evitá-los, seu bebê não sofre risco”, disse Sharpe à BBC.  “Se você planeja engravidar, você deve mudar seu estilo de vida. Essas coisas de estilo de vida não significam necessariamente que você vai causar danos terríveis ao seu bebê, mas ao evitá-las, você terá um efeito positivo.”

“Não é porque temos provas de que esses componentes, categoricamente, causam danos aos bebês, é que estudos experimentais em animais que sugerem essa possibilidade”, explica Sharpe. Mas o médico admite que as mulheres estão expostas a muitos desses componentes químicos por outras vias, já que eles estão presentes no ar e em tecidos, dentro de casa.

Celular

 

Outra pesquisa recente mostrou que mulheres grávidas que usam telefone celular podem ter mais chances de ter filhos com problemas de comportamento como hiperatividade. O estudo foi feito em conjunto pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e a Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

 

O trabalho constatou que filhos de mães que usavam o celular pelo menos duas ou três vezes ao dia durante a gravidez estavam mais propensos a ter problemas de comportamento como hiperatividade e dificuldades para lidar com emoções e relacionamentos ao chegar à idade escolar.

 

A pesquisa mostrou ainda que crianças que usam o celular antes dos sete anos de idade correm mais riscos de ter problemas de comportamento. Mas os próprios autores da pesquisa afirmam que os resultados foram inesperados e devem ser interpretados com cuidado.

 

Mães de 13.159 crianças haviam sido recrutadas ainda durante a gravidez. Quando seus filhos completaram sete anos, em 2005 e 2006, elas responderam um questionário sobre a saúde e o comportamento das crianças e sobre o uso do celular durante e após a gravidez e pelos filhos.

 

Os resultados revelaram que as mães que usavam o celular tinham 54% mais chances de ter filhos com problemas comportamentais, e os riscos pareciam aumentar se o uso era mais freqüente. Quando as próprias crianças também usavam o celular antes de completar sete anos, elas tinham, em média, 80% mais risco de ter dificuldades de comportamento.

 

Os autores da pesquisa lembram que esse é o primeiro estudo do tipo e que é necessário pesquisar mais o assunto para estabelecer se a causa dos problemas comportamentais foi, de fato, o uso do celular. Os pesquisadores afirmam, por exemplo, que os problemas comportamentais podem não ser resultado da radiação emitida pelo aparelho, mas, sim, estarem associados à pouca atenção dada à criança pela mãe que usa o celular com muita freqüencia.

 

Após anos atuando na área da saúde, não confio mais cegamente em pesquisas. Especialmente essas que os jornais publicam todos os dias com ratinhos ou com um número insignificante de pessoas. Sei que existem viéses e nem todos os estudos são controlados o suficiente para excluir todas as variáveis, que certamente podem influenciar no resultado. Continuo acreditando mais no bom senso e no que existe de referendado na medicina baseada em evidências. Por isso, meninas, abaixo às caraminholas na cabeça!

 

Escrito por Cláudia Collucci às 12h23

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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