Teste de DNA detectará 15 mil doenças em embriões
Imagem de um embrião
 
Um teste de mapeamento genético capaz de revelar a futuros pais se seus embriões carregam cerca de 15 mil doenças hereditárias poderá estar disponível a partir de 2009, segundo a equipe do instituto de pesquisas London's Bridge Center, do Reino Unido. A informação é da BBC News.

Os testes atualmente disponíveis demoram muito mais tempo para ficarem prontos e são capazes de descobrir a existência de apenas 2% dessas doenças.

No novo procedimento, chamado de karyomapping, uma única célula é retirada de um embrião de oito dias, gerado através da fertilização in vitro. Amostras de DNA são retiradas dos pais, dos avós do embrião, e geralmente de um outro membro da família afetado por uma condição relevante. Os DNAs são comparados a 300 mil marcadores específicos, permitindo que cientistas criem um mapa genético da familia.

O teste poderá detectar suscetibilidade para doenças como as síndrome de Down e Turner _já diagnosticadas pelos testes atuais_ e até para cardiopatias e câncer. "A eficácia deste procedimento é bem exaltante e o fato de ser mais rápido significa que poderá advertir casais em risco sobre doenças hereditárias", disse Mark Hamilton, diretor do British Fertility Society. 

O teste é, na verdade, uma versão mais moderna do PDG (diagnóstico pré-implantacional), desenvolvido no fim da década de 80 pelo mesmo cientista que agora criou o novo teste, Alan Handyside. O PDG é indicado para casais com histórico de doenças genéticas. Esse novo poderá ter "indicação livre". E, teoricamente, ele também poderia revelar informações sobre a cor dos olhos, altura e peso da futura criança.

É bem provável que a novidade acalore ainda mais os debates éticos sobre sua aplicação. Como o teste é muito mais abrangente do que PDG, vai detectar possíveis doenças que poderão ou não um dia afetar essa criança ou esse adulto gerado a partir da FIV.  Hamilton, diretor do British Fertility Society, questiona: "Se você pode testar para tudo, onde nós vamos estabelecer um limite?"

Eu acrescentaria: o que faremos com tanta informação? Diante de um diagnóstico de que o embrião tem uma pré-disposição para um tipo de câncer, por exemplo, vamos simplesmente descartá-lo, ainda que saibamos que o surgimento da doença depende de outros fatores e poderá nem vir a se manifestar?

Nessa situação, não estaríamos a um passo da eugenia?  

Escrito por Cláudia Collucci às 12h06
À criança que existe dentro de nós

Hoje acordei e dei de cara com a Aninha, minha sapinha de pano vestida de chita. Aninha _o nome é uma homenagem a uma amiga que amo muito_ foi comprada há três anos em uma viagem de férias com o maridão, em Visconde de Mauá. Ao entrar numa loja de bonecos de pano, fiquei encantada com a sapinha.

Imaginava que ela seria o primeiro brinquedo do meu baby. Sem o vestido, Aninha poderia virar Pedrinho facilmente, caso o bebê fosse um menino. Com o tempo, Aninha passou a ser o meu brinquedo. Quem inventou essa história de que adulto não brinca? Aninha me lembra a criança que existe dentro de mim, tantas vezes deixada de lado.

Aninha não tem essa cara divertida do sapinho da ilustração acima, mas o olhar dela é meigo e me tranqüiliza. Ela me recorda de que é preciso:

me divertir mais

dar mais risadas

levar as coisas na esportiva

não deixar me abater

abrir mão do meu auto-controle

não desistir

relaxar mesmo nos momentos difíceis

experimentar novidades

ouvir o meu coração

ver as coisas de outras formas

construir os meus castelos

superar os meus limites

arriscar-me

aprender com meus erros

confiar em mim

alimentar a esperança

agüentar firme

Talvez tenham sido essas mensagens que meu marido quis passar hoje cedo, quando saiu para trabalhar e deixou a Aninha do meu lado, enquanto eu dormia.

 

 

 

Escrito por Cláudia Collucci às 11h57
O drama dos abortos espontâneos

Comoveu-me muito o texto de N. West Moss, no "The New York Times" de ontem http://www.nytimes.com/2008/10/21/health/views/21case.html?_r=1&ref=health&oref=slogin. A escritora americana relata as dificuldades para encarar três abortos espontâneos e o turbilhão de sentimentos que envolve esse momento tão dolorido na vida de uma mulher. Parece que me vi em cada uma das suas palavras nas duas ocasiões em que passei por isso. Sim, há muita dor, mas também há uma bela mensagem de esperança. Que todas nós que estamos nessa luta possamos um dia "tirar uma foto do nosso filho no mais alto girassol". Segue a tradução do texto. Espero que gostem.

Não existem faixas rosa para usar se você sofreu um aborto espontâneo, nenhuma passeata ou camiseta para encorajar a conscientização e prevenção. E até onde temos uma linguagem para falar sobre o assunto, ela é repleta de frases superficiais: "Não se preocupe, eu também tive um", ou "Eu tive dois, e então – puf – o Davey nasceu, e nesta semana ele está se formando na faculdade". Mas, enquanto você pertence ao clube imaginário das Mulheres Sem Filhos, este é um planeta secreto de dor, praticamente invisível ao mundo externo.

Recentemente, sofri meu terceiro aborto espontâneo em um ano. Aconteceu cedo na gravidez, e foi descartado como nada grave – "gravidez química" parece ser o termo artístico. Não vamos reagir exageradamente, não há necessidade de histeria, bola pra frente. "Vamos tratar disso como se você estivesse simplesmente tendo seu ciclo menstrual", como disse meu médico.

Mas, honestamente, não é como ter seu ciclo. Psicologicamente, claro, não tem nada em comum, mas fisicamente também é diferente. Tive espasmos durante horas que deixaram minhas costelas contundidas. Quatro dias depois, eu estava de volta ao trabalho e exausta porque continuava sangrando muito – não uma quantidade alarmante, mas o suficiente para que eu agendasse as reuniões em salas próximas a um banheiro, e para me mandar para casa para cochilos de duas horas à tarde. Imagino como os homens lidariam com isso. Toda a dor, a confusão, as limpezas furtivas, a vergonha e as fugas do trabalho me parecem tão fundamentalmente femininas.

As pessoas agem como se um aborto espontâneo fosse um evento localizável num calendário, com início, meio e fim. Mas na verdade ele começa quando você sente aquela primeira pontada inconfundível dizendo que algo está totalmente errado. Ele continua através dos duros dias de sofrimento e espasmos profundos, e então serpenteia ao longo de cada dia do resto de sua estúpida vida. Provavelmente lamentarei esse aborto de alguma maneira visivelmente mediana até ter um bebê saudável ou morrer.

Fora de controle

Falar sobre abortos espontâneos é tão pesado e patético e indesejado e repleto de significado sobre idade e utilidade. A sensação de sofrer três abortos em um ano é a de que eu devo ter feito algo errado, quando a realidade é que a maioria dos abortos acontece por motivos cromossômicos fora de nosso controle.

Ainda assim, uma mulher que sofre um aborto espontâneo provavelmente se perguntará o porquê. "Deus não deve querer que eu tenha um filho", ela pode pensar, ou "Estou velha demais". Há momentos em que você sente que o aborto e as calamidades do mundo são culpa sua e que você deveria, de alguma forma, não ter esse tipo de pensamento.

Talvez não falemos de nossos abortos porque não queremos as mulheres com filhos nos olhando com pena, ou adolescentes com seu jeito imortal pensando "Isso nunca acontecerá comigo". Não queremos que famílias felizes sussurrem "Graças a Deus não é com a gente." Não queremos imaginar que os homens possam estar pensando "Se elas não podem ter filhos, por que estão aqui?"

Entretanto, não sei o que você deve dizer a uma mulher que teve abortos espontâneos. Ao mesmo tempo em que pode ser emocionante ouvir histórias de outras mulheres, pode também ser irritante: faz com que nosso momento de extraordinária tristeza se torne comum e dentro da média. Por que eu iria querer ouvir sobre seu aborto quando estou deitada no chão tentando erguer 250 quilos de fracasso, desilusão e hormônios despedaçados em meu peito?

O que posso dizer é: quero que as pessoas saibam. Não quero que seja um segredo ou uma sombra, ou algo carregado individualmente. Quero que as pessoas saibam que eu passei por algo, que estou cansada mas otimista, que fui derrubada mas não me ajude, pois posso me levantar sozinha.

É justo, acho eu, querermos testemunhas para nosso sofrimento. Mas com o sofrimento também vem a esperança. E afinal de contas, somos criaturas flexíveis. Uma amiga minha disse-o muito bem, num e-mail enviado depois que soube de minhas novidades. "Espero que você não desista", escreveu ela. "Ainda quero tirar uma foto de seu filho ao lado do mais alto girassol."

N. West Moss é escritora em Nova Jersey (EUA).

Escrito por Cláudia Collucci às 16h05
Teste prevê tempo de vida fértil da mulher

 

Especialistas em fertilidade da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, desenvolveram um teste que prevê quanto tempo de fertilidade as mulheres ainda têm pela frente. O teste mede o número de óvulos nos ovários femininos e indica qual deve ser o nível dele dentro de dois anos. O exame já está disponível em serviços de saúde da Europa e dos EUA _custa cerca de R$ 720_ com o nome de "Plan Ahead Test" (Planeje com Antecedência, em tradução literal). Veja o site do produto http://www.early-pregnancy-tests.com/planahead-test.html

O especialista em fertilidade Bill Ledger, que desenvolveu o kit para o exame, disse que está confiante de que o teste é uma previsão exata da fertilidade, e que ele espera que permita às mulheres planejar melhor seu futuro e decidir por quanto tempo elas podem adiar a decisão de ter um filho. "Se ter uma família é a coisa mais importante, é melhor você começar a tentar ter filhos na faixa dos 20 anos – não há dúvidas de que quanto mais você adia, maior a chance de decepção", disse ele.

"Mas acredito que a realidade da vida moderna é que as mulheres ocidentais, por todos os tipos de razão, estão adiando o início de uma família até chegarem à casa dos 30." Segundo o professor, "há mais pesquisas em andamento, mas esta é boa o suficiente para fazer o que diz que faz – dar às pessoas um alerta de dois anos de que a reserva ovariana delas está em declínio".

O exame mede o nível de três hormônios relacionados à fertilidade no sangue e compara os resultados com a fertilidade, em média, de mulheres da mesma idade. No terceiro dia da menstruação, a mulher entrega uma amostra de 3 ml de sangue para que seja medida a presença dos hormônios Inibina B e AMH, que entram em declínio com a menopausa, e o hormônio pituitário FSH (folículo estimulante), que tende a aumentar com a aproximação da menopausa.

Segundo os cientistas, a combinação dos três indica a "reserva fértil" das mulheres. O resultado é então comparado com um gráfico mostrando a média de fertilidade das mulheres da mesma idade. Sabe-se que a fertilidade diminui nas mulheres a partir dos 35 anos de idade, mas a de algumas mulheres diminui ainda mais cedo. Uma em cada cem mulheres inicia a menopausa aos 40 anos de idade, mas a fertilidade começa a diminuir vários anos antes.

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas não podemos ser simplistas com essa questão. E nem nos iludir achando que um resultado positivo de um teste desse tipo poderá trazer tranqüilidade. Há outros inúmeros problemas femininos, masculinos e do casal que dificultam uma gravidez para os quais não existem respostas.

Mas isso não elimina a necessidade da informação. Na faixa dos 20 anos, ninguém nunca nos explica sobre a existência de um relógio biológico. Em um piscar de olhos, já estamos nos 35 anos, 40 anos, com o tal relógio apitando desesperadamente. E não adianta virem com aquela conversa-mole de que a tecnologia está aí para nos ajudar. Quem já passou por uma ou mais FIVs (Fertilização In Vitro) frustradas já percebeu que a "maravilhosa fábrica de bebês" simplesmente não existe. A reprodução assistida pode ajudar, mas não faz milagres.

Também é verdade que mesmo que tivéssemos sido alertadas de que a melhor idade para ser mãe é na faixa dos 20 anos, a informação, talvez, não tivesse encontrado nenhum eco dentro de nós. Aos, 20, aos 30 anos, a última coisa que muitas de nós desejamos é ser mãe. A prioridade é outra _carreira profissional, por exemplo_, ou simplesmente um problema mais do que atual: a falta de homens interessados em compromisso sério. Mas isso não costuma nos tirar o sono. Afinal, pensamos, temos a vida toda pela frente. Sim, isso verdade. Mas é verdade também que temos um relógio biológico implacável. 

E é uma grande ironia porque nessa fase da vida _em que o relógio biológico grita_é que, geralmente, estamos mais seguras emocional e financeiramente, vivendo relacionamentos estáveis e certas de que poderemos ser boas mães. Mas é justamente nessa época que a cegonha parece ignorar nossos endereços. Passam voando reto.

Embora já tenha estudado muito sobre a biologia do desenvolvimento, um dia eu ainda quero entender _e aceitar_ melhor esses caprichos da Natureza...

  

Escrito por Cláudia Collucci às 19h51
Acupuntura na fertilização in vitro melhora taxas de gravidez, diz pesquisa inglesa

 

Mulheres que estão passando por um processo de fertilização in vitro têm mais chances de gravidez se incorporarem a acupuntura no dia da transferência dos embriões, revela uma metaanálise (análise de vários estudos sobre o tema), coordenada pelo médico Ying Cheong, da unidade de medicina reprodutiva da University of Southampton (Inglaterra). A acupuntura é uma técnica da medicina tradicional chinesa que envolve a colocação de agulhas muito finas em pontos de energia do corpo.

Para quem ainda não está familiarizado com os termos do mundo da reprodução assistida, transferência embrionária é que quando o embrião fertilizado no laboratório é transferido para o útero da mulher. Para os pesquisadores, as chances de o embrião se implantar no útero, resultando em gravidez, aumenta de forma significante se a mulher fizer acupuntura logo após a transferência.

Entre as mulheres que fizeram acupuntura no dia da transferência dos embriões, a taxa de bebês nascidos-vivos foi de 35%. Entre as que não fizeram o procedimento, o índice caiu para 22%. No entanto, o trabalho não registrou nenhum benefício se a acupuntura for feita nos dias posteriores à transferência, segundo Cheong e seus colegas. Eles avaliaram 13 estudos mundiais sobre o tema, que envolveram mais de 2.000 pacientes que faziam acupuntura durante o processo de FIV.

"Nossa pesquisa é uma boa notícia porque mostra que a acupuntura pode ajudar nos tratamentos de FIV. Ainda há uma controvérsia que divide os médicos sobre se a acupuntura aumenta ou não as chances de as mulheres terem seus bebês. Nós mostramos que sim, a acupuntura feita da forma certa pode trazer um significante aumento dessas chances."

O estudo será publicado na Cochrane Library's online, parte da Cochrane Collaboration, uma organização independente e internacional que avalia a eficácia de remédios e procedimentos médicos. É extremamente respeitada pelos médicos do mundo todo.

Espero que a partir de agora os médicos parem de torcer o nariz para a acupuntura e passem a enxergá-la com uma possível aliada do processo. Hoje, algumas clínicas recomendam que mulheres adeptas da acupuntura interrompam o procedimento durante a FIV para evitar possíveis interferências no processo. Contam que já houve casos em que perderam o controle do ciclo ovulatório (os óvulos romperam antes da hora, por exemplo) por conta das agulhas. Mas, diante dessas novas evidências, talvez fosse o caso de também avaliarem com mais critério o impacto da acupuntura, especialmente no dia da transferência dos embriões.

Tomara que realmente esse benefício se confirme e que seja uma luz no fim do túnel para melhorar as taxas de implantação dos embriões no útero, etapa considerada ainda o grande calcanhar de Aquiles da fertilização in vitro.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 19h04
A nuvem da infertilidade

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A figura acima (que eu não consegui publicar inteira) foi construída pela comunidade APF (Associação Portuguesa de Fertilidade) http://www.apfertilidade.org/blog/,  amigas que sempre nos visitam e replicam nossas mensagens para o além-mar. O tamanho das palavras está relacionado com a frequência com que apareceram na lista elaborada pela comunidade. Como elas dizem: "nem tudo é negro na 'Nuvem da Infertilidade'; também há clareiras e palavras com força positiva". A idéia é que a nuvem circule pelo ciberespaço, ilustrando os sentidos e as emoções da infertilidade.

Um beijo, minhas amigas portuguesas, e meu abraço virtual de solidariedade pela perda da querida Ana Cristina Batista, que morreu no início do mês vítima de uma infecção pulmonar. Ana também estava em busca de um bebê. Em uma das suas últimas mensagens  no blog da APF, em 17 de setembro, ela escreveu. "No fundo funcionamos como uma família. E quem fala é o coração muito sentido sempre presente nas nossas respostas." Sim, Ana, somos uma família e vamos sentir tua falta.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 17h27
O abandono dos filhos adolescentes

Deu no "The New York Times" e alguns jornais brasileiros, inclusive a Folha, traduziram a notícia: "Pais exaustos usam brecha na lei para abandonar adolescentes nos EUA". Em mais de 20 anos de jornalismo diário, pensei já tivesse visto e lido de tudo, mas essa história realmente me surpreendeu. Os abandonos começaram em 1º de setembro, quando uma mãe deixou o filho de 14 anos em um posto policial.

Depois disso, cinco outros adolescentes, entre 11 e 15 anos, foram largados em hospitais. A maior surpresa ocorreu na semana passada, quando um pai entregou 9 dos 10 filhos, entre 1 e 17 anos, dizendo que a mulher tinha morrido e não suportava o fardo de criá-los.

Em julho, o Estado americano de Nebraska aprovou a criação dos chamados "santuários", onde mães podem abandonar seus bebês sem medo de punições. Leis similares existem na maioria dos Estados americanos, mas a de Nebraska tem um alcance mais amplo, protegendo jovens de até 19 anos.

Para as autoridades, os abandonos se configuram um abuso à nova lei. Elaborada com o objetivo de evitar que recém-nascidos sejam deixados em locais de risco, a lei vem sendo usada para a entrega de adolescentes incontroláveis ou, no caso do pai de dez filhos, para escapar do desespero financeiro e pessoal.

Autor do projeto de lei, Arnie Stuthman, do Senado estadual, defende uma revisão para conter abusos. Mark Courtney, especialista em assistência à infância da Universidade de Washington, afirma que o que aconteceu em Nebraska "aconteceria em qualquer Estado". "Há um imenso vácuo de serviços para ajudar famílias desamparadas", diz.

Quando crianças sofrem abusos, podem entrar no sistema de assistência. Quando cometem crimes, entram no sistema penal juvenil. Mas, quando não se enquadram nessas categorias, com freqüência não têm apoio. "Consegui deixar meus filhos em local seguro antes que ficassem sem teto", disse o viúvo pai de dez filhos. "Espero que o futuro deles seja melhor sem mim por perto".

A frase desse pai me deu um nó na garganta. Que mundo é esse que está levando pais a cometerem atitudes como essa? Onde estão o Estado, os amigos, os parentes, os vizinhos, enfim as redes sociais que poderiam de alguma forma amparar essas famílias? Sim, os pais estão perdidos, sozinhos e não é apenas nos EUA.

É cada vez mais freqüente pessoas ao meu redor às voltas com problemas sérios com filhos adolescentes. Dias desses, uma conhecida, mãe de um garoto de 17 anos, viciado em crack (droga que cada dia mais atinge a classe média), confidenciou-me que a vontade dela era desaparecer. Esquecer que tinha filho, marido, casa. Estava visivelmente esgotada, exausta de quatro tentativas frustradas de internação do adolescente em clínicas de recuperação. E tendo de lidar com a situação praticamente sozinha porque o marido, desempregado, está se afundando no álcool.

Nesses momentos, as pessoas parecem varrer da mente os momentos felizes que certamente já tiveram ao lado dos seus rebentos. O amor perde espaço para a amargura, para a desesperança. Os amigos, em vez de se aproximarem, oferecerem apoio, afastam-se. As clínicas de recuperação são caríssimas, coisa de R$ 300, R$ 400 a diária! Os governos fazem questão de ignorar o problema, como se isso não fosse um problema de saúde pública gravíssimo. Os planos de saúde também se omitem. Minha colega, por exemplo, mesmo tendo um plano de saúde dos melhores, teve de raspar todas as economias para bancar o tratamento do filho. O pior é que, até o momento, tudo parece ter sido em vão. Um pesadelo!

Fico imaginando se uma lei semelhante a essa norte-americana fosse aprovada no Brasil. Por um lado, certamente evitaria que centenas de bebês fossem jogados em latas de lixo, em rios, em lagoas_como já vimos inúmeras vezes acontecer por aqui. Por outro, se também fosse estendida ao abandono de adolescentes-problemas, penso na enorme fila que se formaria em frente a esses "santuários". 

Essa história também fez lembrar dessa famosa estátua de bronze que vi nos Museus Capitolinos de Roma: a loba amamentando os gêmeos Rômulo e Remo, que, segundo a lenda, seriam os fundadores de Roma. 

Escrito por Cláudia Collucci às 19h39

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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