Indetectável

"Cansada de fazer tratamento e ter um beta negativo já tenho até medo do resultado, tem horas que nem sei porque ainda faço tratamento, tem horas que me questiono se tenho que desistir...Tive síndrome do pânico e a médica disse que teve a ver com as perdas porque para nós, que temos o corpo mexido com o tratamento, sentimos o beta negativo como uma grande perda. Um vazio que nada supre. Tenho um grande medo. Estou triste e descrente." (Daniela, 25/11, grupo de discussão infertilidade).

Ela começou a abrir o envelope, mas teve medo. Será que suportaria mais um Beta HCG negativo? Tentou se lembrar de quantas vezes nos últimos anos havia repetido a mesma cena diante de um teste de gravidez, mas desistiu. O envelope estava ali para ser aberto sob o olhar ansioso do marido. Pensou em guardar o exame na bolsa e deixar para ver o resultado longe dos olhos do mundo. Mas não conseguiu.

Rasgou o envelope ali mesmo, em frente ao laboratório. INDETECTÁVEL. As letras, em caixa alta, pareciam imensas, prestes a saltar da folha de papel, uma a uma. E pulsavam. Ou estava delirando? Ainda não foi dessa vez, amor! Foi só o que conseguiu dizer ao marido. A partir daquele instante, os olhos foram inundados por incessantes lágrimas. Da garganta, apenas o som dos soluços.

O resultado colocava um ponto final em um mês marcado por expectativa, ansiedade e espera. As injeções de hormônio na barriga, as cápsulas de progesterona na vagina de manhã e a noite lhe pareceram insignificantes perto daquela dor. O seu corpo, respondendo aos hormônios sintéticos, estava grávido. Os seios, inchados. A barriga, levemente arredondada. O apetite voraz. E sentia sono, muito sono. Como agora esquecer isso tudo? Como dizer ao corpo e à alma que não, aquilo não era gravidez?

O luto era inevitável, a sensação era de estar sofrendo um aborto ali mesmo. Por quê???? Os embriões eram de ótima qualidade, ela tinha feito tudo direitinho, cumprido à risca as ordens médicas. O que fazer agora? Desistir? Insistir na busca mesmo sabendo que poderia ser infrutífera? Teria forças para receber mais um resultado negativo? Enterraria de vez esse sonho de gravidez?

A sucessão de perguntas sem respostas provocava um tsunami na sua cabeça e ela teve a impressão de que, não fosse o abraço apertado do marido, teria desfalecido ali mesmo, em frente ao laboratório, ainda com o maldito envelope nas mãos. Quando as lágrimas enfim cessaram, mergulhou em um silêncio apático. Sentia–se estúpida de, mais uma vez, ter se entregado à fantasia infantil da gravidez.

Como era possível se permitir sofrer novamente daquela maneira? As estatísticas eram claras: as chances de o tratamento falhar eram infinitamente maiores em relação à possibilidade de gravidez. Mesmo assim, ela tinha fechado os olhos para aquele fato e acreditado, por sua conta e risco, em um quase milagre.

Agora estava ali, destituída de fé. Naquele instante, não acreditava mais em nada. Nem em Deus, nem na Ciência, nem nela mesma. A vida cheia de realizações que florescia cinco minutos atrás tornou-se, repentinamente, árida, sem sentido. E ela não se esforçou para afastar aquele sentimento devastador.

Não, não fingiria que estava tudo bem, bola prá frente, que essa era a vontade de Deus. Ela não estava nada bem e não vestiria a máscara de Poliana como tantas vezes o fizera. Uma cratera havia se aberto no peito e ela se sentia reduzida a cinzas. Ainda apostava que, consumida a dor, conseguiria, tal como a ave Fênix, ressurgir, fortalecida. Mas não tinha pressa.

Escrito por Cláudia Collucci às 13h54
Cantora jamaicana canta a dor e o precoceito que cerca a infertilidade

A dor da infertilidade, seja pela dificuldade de engravidar ou de manter a gestação até o final, tem sido expressa das mais diferentes formas: na literatura, no cinema, nas artes plásticas, entre outras. Agora, por recomendação da Associação Portuguesa de Fertilidade, acabo de conhecer uma música fantástica que retrata não só essa dor, mas também o preconceito que ainda cerca do tema.

 

O nome da música é “No Less Than a Woman (Infertility) ”, da cantora jamaicana Lady Saw. A letra ela mesma escreveu após sofrer o segundo aborto. “Eu estava mal, deprimida em meu apartamento no Queens (New York City) e então as palavras começaram a surgir. É a minha história, meus abortos e minha tristeza”, conta a Saw, 38 anos.

 

Embora tenha três filhos adotivos, Saw acredita que gerar um filho no seu útero será diferente. E, apesar do trauma dos abortos, ela diz que continuará tentando. “Às vezes fico olhando a saída das escolas e penso: “Oh Deus! Tantas crianças e nenhuma pertence a mim!. Eu amo meus filhos adotivos, tenho muito orgulho deles, mas eu adoraria a experiência de dar luz a um bebê.”

 

Saw diz que também escreveu a música como forma de denunciar o preconceito do qual são vítimas as mulheres inférteis na Jamaica. “Há muitas pessoas negativas que adoram martirizar, ridicularizar as mulheres jamaicanas que não conseguem ter filhos.” Segundo ela, essas mulheres são chamadas de “mulas” pelas outras que já têm seus filhos.

 

Vale lembrar que a mula,  resultado do cruzamento entre um jumento e uma égua, é um animal estéril porque não produz óvulos _o mesmo vale para seus irmãos burros, que não produzem espermatozóides.

 

Mais do que um grito de dor e de revolta, “No Less Than a Woman” é uma canção de amor para o filho que ainda não veio. Vale a pena ouvir. O vídeo está no You Tube, no endereço: www.youtube.com/watch?v=shzJY3msrnA

 

 

Lady Saw e seu marido Lloyd 'John John' James

 

PS - Vou dar uma sumida de uma semana por uma boa causa: descanso nas mornas praias da Paraíba. Espero voltar revigorada e com boas notícias.

Escrito por Cláudia Collucci às 11h54
Nova técnica promete dobrar taxa de gravidez na FIV

Uma nova técnica para identificar óvulos e embriões mais saudáveis promete dobrar as chances de gravidez durante a FIV (fertilização in vitro) e reduzir as taxas de aborto. Essa foi uma das novidades apresentadas durante o congresso da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, que aconteceu nesta semana em São Francisco (EUA).

Atualmente, o método mais usado para avaliar possíveis defeitos genéticos no embrião é o diagnóstico pré-implantacional (PDG), mas, conforme as mais recentes pesquisas, não há evidência científica de que o exame aumente de fato as taxas de gravidez. Por isso, ele só deve ser usado em pesquisas clínicas, segundo a Sociedade Britânica de Fertilidade. No Brasil, não existe nenhuma orientação a respeito.

Agora, pesquisadores britânicos e americanos desenvolveram um novo teste, que ainda não está disponível no mercado, mas que promete melhorar muito a seleção embrionária. O novo procedimento detecta defeitos cromossômicos chamados de aneuploídes (célula com um número cromossômico diferente do normal), que inviabilizam a gestação.

Mais da metade de todos os embriões são aneuplóides, o que significa que têm mais ou menos cromossomos do que deveriam ter. A maioria desses embriões nem chega a implantar no útero ou, se o faz, ocorre o aborto. Os que sobrevivem acabam resultando em bebês com defeitos cromossômicos (Síndrome de Down, por exemplo).

O teste dos embriões ocorre quando eles estão no estágio de bastocisto (100 a 150 células), fase em que é possível a retirada extra de células para a análise genética sem causar danos ao embrião. Com o novo sistema (hibridização genômica comparativa, numa tradução livre), é possível estudar todos os 23 pares de cromossomos contra apenas dez das atuais técnicas, segundo os cientistas que o desenvolveram.

A pesquisa divulgada no congresso envolveu 23 mulheres, que tiveram seus embriões analisados geneticamente. Dessas, duas já deram luz a bebês saudáveis e outras 16 ainda estão grávidas, mas já passaram do período de risco para abortos. Outras duas chegaram a engravidar, porém abortaram no início da gestação.

A taxa de gravidez _de 78%_ surpreendeu os pesquisadores porque as mulheres avaliadas tinham idade média de 37 anos e meio, histórico de aborto e de FIVs frustradas, condições que por si só dificultam a gravidez. Dagan Wells, da Universidade de Oxford, que liderou a pesquisa, pretende ampliar os estudos a partir de 2009 e estima que o exame vá custar em torno de R$ 8.000.

A expectativa de Wells é que, selecionando melhor os embriões, seja possível transferir apenas um deles, evitando o risco de gravidez múltipla. "As taxas de gravidez que conseguimos até agora são absolutamente fenomenais", afirmou o médico.

Segundo ele, o método também está sendo usado para analisar a qualidade genética dos óvulos antes da fertilização, por meio do exame do DNA do corpo polar (um pequeno compartimento do óvulo que guarda parte dos seus cromossomos após a fertilização).

Vamos esperar para ver se essa nova técnica realmente será um avanço no sentido de melhorar as taxas de gravidez e de nascidos vivos ou se não passará de mais um balão de ensaio da reprodução assistida.

Escrito por Cláudia Collucci às 22h29
Com martini e manicure grátis, EUA alertam jovens sobre infertilidade

A Associação Americana de Fertilidade resolveu inovar para chamar a atenção das mulheres jovens sobre a importância da preservação da fertilidade. Criou um programa educacional em que oferece gratuitamente os serviços de manicure e martini às mulheres que se interessarem em receber informações sobre o que devem ou não fazer para evitar problemas futuros de infertilidade. O programa "Martinis & Manicures" é itinerante. Começou em Nova York e agora já está em 20 cidades dos EUA. Leia mais: http://theafa.org.

Segundo os médicos que coordenam o programa, o alvo são mulheres entre 20 anos e 30 anos que, em geral, estão mais preocupadas em evitar filhos do que ser mamães. Entre as dicas estão a importância de se usar camisinhas para evitar as doenças sexualmente transmissíveis que podem afetar a fertilidade_como a clamídia_ manter o peso ideal, não fumar, não beber e nem praticar exercícios em excesso, entre outros.

Mas o principal foco será a questão da idade: quanto mais tempo adiar a gravidez, mais dificuldades as mulheres poderão enfrentar para ser mães. É incrível. Apesar desse assunto estar em permanente discussão há vários anos, ainda permanece o mito _aqui e no exterior_ de que as técnicas de reprodução assistida poderão “tapear” o tempo. Doce ilusão. Acima dos 40 anos, as chances de gravidez por meio da FIV são de apenas 20% _contra 50% na faixa até 35 anos.

Tempos atrás, a clínica Fertility, de São Paulo, fez uma pesquisa com 474 mulheres acima de 40 anos, que procuraram o local certas de que, por meio da FIV, seriam facilmente mães. Desse grupo, apenas 23% conseguiram engravidar, sendo que dessas 44% abortaram. Só 62 mulheres deram luz a um bebê. Isso mostra que pouco importa a saúde perfeita, o corpo malhado e o rosto sem rugas. Quando a questão é a fertilidade, estar com 40 anos é um divisor de águas.

Por isso, várias clínicas já estão sugerindo ovodoação a partir dos 41 anos. Ao receber óvulo doado de uma mulher mais jovem, as chances de gravidez das quarentonas se equiparam às trintonas (50%, em média). Como a ovodoação é outro mito, (quem opta por receber o óvulo de uma mulher mais jovem leva o segredo para o túmulo), permanece a impressão de que engravidar após os 40 anos é fácil. É claro que existem muitos casos que revelam o contrário. Nós temos registrado nesse espaço vários deles, alguns de mulheres que já haviam feito FIVs e, depois, engravidaram naturalmente após os 40 anos. Mas, infelizmente, são exceções. 

O impacto da idade também afeta os homens. Recentes pesquisas mostram que a idade masculina avançada interfere não só nas chances de gravidez como também na possibilidade de o bebê nascer com síndrome de Down e má-formações. Espermatozóides de homens com idade acima de 45 anos _ou que fizeram vasectomia_apresentam maior número de erros cromossômicos quando comparado ao sêmen de homens mais jovens.

 

Por isso, penso que a iniciativa da Associação Americana de Fertilidade é acertada, apesar de meio bizarra. Falar sobre fertilidade tem que começar cedo, quando ainda há tempo de sobra para mulheres e homens planejarem sua vida reprodutiva baseados em informações reais. Sem falsas ilusões.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 16h25

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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