Amor de mãe

Foto: Sigit Pamungkas/Reuters

Foto: Sigit Pamungkas/Reuters

Orangotango fêmea Sinta, de 11 anos, com o filhote Natalia, no zoológico Taman Safari (Foto: Sigit Pamungkas/Reuters)

Escrito por Cláudia Collucci às 17h13
Natal na Ilha do Nanja

Este texto,  "Natal na Ilha do Nanja", foi extraído de um livro de Cecília Meireles ("Quadrante 1", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1966, pág. 169.) Lendo-o, lembrei-me de todas as pessoas que me são muito queridas e que, de uma forma ou de outra, tiveram especial importância neste 2008 que chega ao fim. Feliz Natal, Feliz Ano Novo!

 
"Natal na Ilha do Nanja"

Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos próprios" e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim.
 
Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova - mas uma roupinha barata, pois é gente pobre - apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.
 
Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho - antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: "Boas Festas! Boas Festas!"
 
E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes - mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe - trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! - uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presépio. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!
 
Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.
 
Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.
 
É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 17h50
Novela discute paternidade anônima

Desde que a novela Negócio da China entrou no ar, a população vem tendo contato com a questão da paternidade anônima. O personagem Diego, interpretado pelo ator Thiago Fragoso, logo no começo da trama, passou por um grande drama familiar. Ao perder o pai, descobriu que não era seu filho biológico e decidiu buscar suas origens. Após muita investigação, Diego descobriu que seu pai genético havia feito uma doação para um banco de sêmen, e, a partir daí, a trama novelesca se desenrola...

Fora das telas, no Brasil, a doação de sêmen obedece ao preceito do anonimato. "A possibilidade da quebra desse anonimato teria resultados negativos junto aos doadores de sêmen ou óvulo no Brasil, que não são remunerados e que fazem essa doação por altruísmo. Quando as pessoas doam seu sêmen, o que elas pensam é que farão uma pessoa ou um casal feliz. As pessoas doam primordialmente porque o anonimato é garantido", defende o médico Joji Ueno, especialista em reprodução humana, diretor da Clínica Gera.

Nos Estados Unidos há um site em que a partir do nome da clínica e do número da amostra do sêmen é possível encontrar os chamados irmãos genéticos. O interessante é que não é possível achar o doador do sêmen, mas sim, as pessoas geradas por eles. Há casos de irmãos que se visitam. Mas, tanto lá, como no Brasil, a identidade do pai vai sempre continuar sendo um mistério.

A experiência mais recente de quebra de sigilo desta relação aconteceu na Grã-Bretanha e não repercutiu bem. De acordo com dados da Sociedade de Fertilidade Britânica, a retirada do anonimato dos doadores, em 2005, pode ter contribuído para reduzir o número de voluntários, deixando o país em apuros para responder à demanda por doações de esperma. Anualmente, cerca de 400 pacientes precisam de doação de esperma e muitas clínicas têm longas listas de espera ou estão sendo forçadas a suspender o serviço.

No Brasil, não há lei que regulamente a doação de sêmen: apenas a Resolução CFM Nº 1.358/92 disciplina as normas éticas para utilização das técnicas de reprodução assistida. "Assim, o comércio de gametas é proibido e as doações não podem ser remuneradas", destaca Joji Ueno. A resolução do CFM tem o anonimato como premissa básica para a doação de sêmen. Os doadores não podem conhecer a identidade dos receptores e vice-versa.

As informações sobre um doador só poderão ser fornecidas por motivação médica e, mesmo assim, exclusivamente para médicos, resguardando-se sua identidade. A convivência futura entre filhos biológicos de um mesmo doador, embora improvável, é possível. Por isso, o CFM orienta clínicas e bancos de sêmen a fazerem um acompanhamento rigoroso de forma a evitar que um mesmo doador tenha produzido mais do que duas gestações de sexos diferentes em uma área de um milhão de habitantes.

Um acompanhamento psicológico é capaz de avaliar se o casal está preparado para iniciar o tratamento de doação ou adoção de gametas e suportar todas as conseqüências que poderão surgir com o passar dos anos. Entre as angústias há sempre o pensamento da perda da linhagem genética, a fantasia da terceira pessoa - o doador anônimo - e de suas características, índole. Há também a questão do sigilo: a quem contar ou quando abordar o assunto. "Existem as ambigüidades éticas, morais e legais que o casal deve pesquisar para que essas questões estejam definidas antes do tratamento", recomenda Joji Ueno.

Escrito por Cláudia Collucci às 17h07
Vaticano condena a fertilização in vitro

O tema passou meio despercebido, mas não dá para deixar de comentar o documento que o Vaticano lançou na última sexta sobre questões bioéticas dos últimos 20 anos. O que nos interessa aqui é que, mais vez, a Igreja Católica reforçou sua oposição à fertilização "in vitro", à clonagem humana, ao teste genético de embriões antes que sejam implantados e à pesquisa com células-tronco embrionárias. 

O Vaticano afirmou que essas técnicas violam o princípio de que toda vida humana é sagrada e que crianças só deveriam ser concebidas por meio de relações entre casais. Então quer dizer que, para o Vaticano, um casal com dificuldade de gravidez não tem o direito de recorrer à ajuda da tecnologia para gerar um filho?

Então quer dizer que, se existe um recurso (diagnóstico pré-implantacional) para identificar e evitar que uma criança nasça com grave problema genético, ele não deve ser usado? Bom, nem vou me estender muito em argumentos contrários à essa posição da Igreja Católica porque, na vida prática, sei que a maioria dos padres não se posicionam dessa forma em suas comunidades.  

Mas vamos em frente. O manual de instrução, de 32 páginas, intitulado "Dignitas Personae", ou "A Dignidade da Pessoa", foi preparado pela Congregação para a Doutrina da Fé, órgão do Vaticano responsável por manter a ortodoxia católica, e aprovado pelo papa Bento 16. O texto também proíbe o uso da pílula do dia seguinte e de DIUs alegando que eles podem resultar no equivalente a abortos.

A Igreja também objeta o congelamento de embriões, porque isso os expõe a potenciais danos e manipulação e apresenta o insolúvel problema do que fazer com os embriões congelados que não venham a ser implantados. "Não existe maneira moralmente lícita de escapar ao beco sem saída criado pelos milhares de embriões congelados que já existem", disse monsenhor Elio Sgreccia, presidente emérito da Academia Pontifical para a Vida.

Após ler essa notícia, fui atrás de uma entrevista feita pelo Centro de Bioética do Cremesp com o filósofo italiano Maurizio Mori*, por ocasião de um congresso mundial sobre bioética. Na entrevista, muito boa por sinal, Mori dizia considerar a reprodução assistida uma extensão da reprodução natural. Leiam abaixo:

Centro de Bioética - Em sua palestra referente aos direitos reprodutivos (com ênfase à fertilização in vitro) o senhor movimentou a discussão, ressaltando que a responsabilidade não pode ser apenas da mulher. E que esta não deve ser moralmente condenada por suas escolhas reprodutivas. O que quis dizer?

Maurizio Mori - O mais simples: que em reprodução, o fator primordial a se considerar é a autonomia. De ambos, tanto do homem, quanto da mulher.

Por exemplo, um homem pode pensar em gerar filhos por volta dos 70 anos, sem causar espanto. Ao contrário, a mulher é moralmente condenada, se decidir engravidar aos 60, com a ajuda da Medicina. Por que, se é o que lhe traria bem-estar? 

Alguém poderia dizer que, sem limites, prejudicaríamos os futuros recém-nascidos. Mas, se nós reconhecermos que existem muitas situações adversas que levam ao nascimento natural de crianças, deveríamos impor limites à reprodução natural.

Como sou contrário a tais impedimentos, não pensaria diferente no caso de reprodução assistida. Ao meu ver, trata-se de uma simples extensão da dita reprodução sexual.

CB - Então, para o senhor, nenhuma barreira é válida em reprodução assistida?

MM - Partindo-se do princípio de que é errado promover, por exemplo, esterilização compulsória, chegaremos à conclusão de que faz parte dos direitos humanos a possibilidade de formar uma família.

Acho que, se fossem estabelecidos limites, o "ônus da prova" deveria ser daqueles que pretendem frear a liberdade e a autonomia envolvidas em reprodução assistida.

Veja, recentemente fui questionado sobre um caso que ficou famoso: duas lésbicas surdas-mudas que pretendiam ter um bebê, também surdo-mudo, utilizando fertilização in vitro. Alegavam que, assim, ele se adaptaria melhor à comunidade em que o casal vive.

Será que deveríamos impedir?

Minha resposta se baseou nas situações de casais heterossexuais surdos-mudos. Não sei se é verdade, mas me contaram que, de acordo com a genética, existem grandes chances de que essas pessoas gerem crianças com as mesmas características.

Se todos sabem que o marido e a esposa têm tal defeito genético, alguém poderia proibi-los de se reproduzir? Não!

Pois se é permitido a esse casal gerar uma criança surda, não vejo o porquê de não empregarmos a reprodução assistida às lésbicas, pela hipótese de alcançarmos o mesmo resultado! (diz, enfático).

CB - Mas alguém poderia dizer que "em laboratórios, há intervenção de terceiros..."

MM - E eu responderia: sim, e isso faz diferença? (risos)

É errado caminharmos para a visão da "santificação da Natureza". Não devemos dizer que a Natureza não possui "agentes morais". Podemos agir como "agentes morais da natureza", pela possibilidade que temos de evitar a transmissão de defeitos genéticos.

CB - O senhor vem da Itália, país fundamentado no catolicismo. É mais difícil discutir temas como reprodução assistida ou aborto em nações arraigadas nessa religião, como é o caso da sua e da nossa (o Brasil)?

MM - Creio que a Itália é católica apenas pela capacidade que a Igreja tem de controlar as instituições.

Exemplo? Fizemos, há algum tempo, um referendum sobre o aborto (* na Itália, existe uma legislação que permite aborto gratuito até os três meses de gestação).

Resultado: apenas 22% da população disseram "não" ao aborto, sendo que outros 78% mantiveram-se favoráveis. Neste país tão "católico".

Mesmo levando-se em conta a força política da Igreja, dificilmente conseguirá modificar nossa lei constitucional relativa ao tema.

No ano passado, até o nosso ministro mais católico ponderou algo como "quero que a Lei do Aborto seja mudada, mas a autonomia da mulher não deve ser desafiada, está fora de discussão". Tal reflexão, pelo menos, pode significar que o respeito à autonomia vem crescendo entre as pessoas.

Claro que a Igreja Católica continua sendo ótima em controlar as instituições, mas isso tem a ver com política e não com problemas filosóficos ou aspectos éticos... Já que não sou político, simplesmente digo que é errado tentar controlar a consciência das pessoas por meio de instituições.

CB - Quando o senhor fala sobre "autonomia", considera também os "direitos" do feto, no caso de aborto?

MM - Em minha apresentação aqui no Congresso, abordei bastante esse aspecto: sob o meu ponto de vista, o verdadeiro debate não focaliza o aborto ou o feto. A discussão refere-se ao controle do processo de transmissão de vida.

Esse controle pode ser verificado na contracepção, certo? Se você permite contracepção, então você estará reconhecendo que as pessoas podem controlar seu próprio processo de transmissão de vida. Isso é uma coisa clara desde o início do último século.

No século XX, a guerra contra a contracepção foi perdida pelos católicos.  E eles, para abrir uma nova trincheira, levantaram a questão sobre o status moral do embrião.

Trata-se de algo temerário, a ser descartado.

CB - O que o senhor quer dizer é que o ataque ao aborto, por parte dos religiosos, não é 100% motivado pelo fato de "estar se matando um ser humano?"

MM - Com certeza, todas essas coisas partem do mesmo princípio: se você se opõe à contracepção, lógico que será contrário ao aborto ou a qualquer método de reprodução assistida.

Só que, no fundo, a razão que leva à total discordância ao aborto não se calça em "está se assassinando um semelhante", como alegam os católicos. E, sim, porque está sendo violada a "ordem natural" da instituição do casamento.

De acordo com a doutrina católica, o casamento não é apenas uma instituição social. Ele é voltado à transmissão da vida. Com isso, ignora-se a importância do campo biológico.

Portanto, do ponto de vista conceitual, a discussão não é realmente "não devemos fazer o aborto" por causa do Quinto Mandamento dos cristãos (Não Matarás) e, sim, do Sexto. (Não Pecarás Contra a Castidade/Não Cometerás Adultério).

CB - Em resumo: o embrião não pode ser visto como um ser autônomo, uma pessoa com direitos...

MM - O embrião conta tanto quanto contam os gametas. Os gametas têm direitos? Não. Por que os primeiros deveriam ter?

Façamos uma analogia meio esdrúxula. Se colocarmos num recipiente dois gametas, um masculino e o outro feminino, com todas as características genéticas, seus 46 cromossomos e tudo, sabendo que eles irão se encontrar em dois segundos. 

E, em outro, pusermos outros dois gametas que já se encontraram, dois segundos atrás. Pergunto: qual é a diferença?

No primeiro caso, não houve concepção, porque eles ainda não estão fundidos. Agora, no segundo, muitos acham que aquele "ser" não pode ser "assassinado", porque os gametas já estão juntos. Para mim, isso não faz qualquer sentido.

CB - Qual é sua opinião sobre o uso de células-tronco em pesquisas? De novo, aqui está algo vinculado à destruição de embriões.

MM - Quando a vacinação estava dando seus primeiros passos, em 1802 ou 1803, a Igreja Católica lançou um manifesto totalmente desfavorável, porque acreditava ser "imoral" misturar fluidos animais com os dos homens.

Enfim, que era um tipo de "degradação contra a dignidade humana" injetar fluídos animais em corpos humanos.

O que acontece hoje em relação à visão dos conservadores quanto ao uso de células-tronco é similar.

Digo e repito: é um erro sustentar esse argumento de que "destruir embriões" significa "assassiná-los". É uma coisa boba. Nem Tomás de Aquino ou outros representantes da Igreja chegaram a dizer que um embrião é uma pessoa.

Essa história do embrião foi inventada por quem gostaria de deter os direitos reprodutivos e restabelecer a doutrina do casamento.

* O filósofo Maurizio Mori é professor de Bioética na Universidade de Pisa e pesquisador em Bioética no Centro Politéa, em Milão.
   Foi diretor International Association of Bioethics (IAB) e fundador da conceituada revista italiana Bioética. Escreveu vários livros, entre os quais A Moralidade do Aborto e A Fecundação Artificial.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 22h41
Mulher tem bebê após receber transplante de ovário da irmã

Médicos de St. Louis, nos EUA, anunciaram hoje que transplantaram com sucesso um ovário inteiro de uma mu­lher para sua irmã gêmea, que deu à luz uma menina saudável no dia 11 de novembro.

De acordo com os pesquisa­dores, trata-se do primeiro caso de transplante de ovário inteiro a resultar no parto de uma criança viva. O procedimento foi anunciado no "New En­gland Journal of Medicine".

As duas pacientes são gêmeas idênticas e têm 38 anos. Uma delas tinha a função ovariana normal e dois filhos, enquanto a outra entrou em raro proces­so de menopausa precoce a partir dos 15 anos de idade.

Já haviam sido feitos transplantes de parte do órgão _des­cobriu-se que o tecido ovariano congelado pode restaurar a fer­tilidade. Apesar de seis bebês terem nascido com a ajuda des­sa técnica, aproximadamente 2/3 dos óvulos morreram por falta de irrigação sangüínea no tecido, e as mulheres rapida­mente entravam na menopau­sa depois de cerca de três anos.

Para evitar esse problema, a equipe médica de St. Louis uti­lizou um ovário inteiro e reco­nectou vasos sangüíneos para alimentar o órgão,   procedi­mento difícil, já que estes são extremamente finos.

Eles defendem que a técnica poderia beneficiar pacientes jovens com câncer que estão prestes a perder a função ovariana com a              quimioterapia ou mulheres que querem adiar a gravidez para após os 40 anos.

A solução seria retirar o ovário, congelá-lo e transplantá-lo de volta mais tarde.

Para os médicos, trata-se de uma evolução na área, mas a técnica é experimental e deve ser usada como último recurso. Se não fossem gêmeas, as chances de sucesso seriam remotas.

Escrito por Cláudia Collucci às 21h39
Nasce bebê gerado com sêmen congelado há 21 anos

Madison Decker (o bebê da foto ao lado) está celebrando seu primeiro mês de aniversário, mas a rota do seu nascimento foi traçada 21 anos antes. Seu pai, Ken, teve o esperma congelado em 1987, aos 24 anos, antes de se submeter a uma quimioterapia para tratamento de um câncer, que o deixaria estéril. O tempo de congelamento do esperma, que tenha resultado no nascimento de um bebê, já é considerado o mais longo da história da reprodução assistida.

A decisão de congelamento do esperma foi da mãe de Ken. "Na época, eu praticava mergulho, investia na minha carreira, não pensava em ter filhos. Uma dia minha mãe chegou e disse: "Você tem que congelar seu esperma". "Fiz o que mamãe mandou que eu fizesse, brincou Ken durante um programa de TV nos EUA.

No entanto, a decisão de congelar o esperma não teve muito peso na vida de Ken por vários anos. Até ele encontrar Michelle (a mamãe orgulhosa da foto) e se casar com ela em 2004. Naquela época, ela havia contado a Michelle sobre sua esterilidade e não acreditava que o sêmen armazenado há duas décadas pudesse ainda ser viável. "Eu nunca imaginei que ainda pudesse ser pai biológico. Já havíamos planejado adotar uma criança."

Ainda assim, recorreram a uma clínica de fertilidade e tentaram durante três anos, sem sucesso, uma gravidez por meio da ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóides), saundo os espermatozóides congelados.  Na quarta tentativa, após investirem mais de US$ 90 mil com o tratamento, Madison foi gerada e nasceu no mês passado.

Notícias como essas servem para alimentar nossas esperanças de que o que nosso está reservado, seja lá de que forma for.

Ken: "Fiz o que mamãe mandou"

Escrito por Cláudia Collucci às 14h55
A polêmica da ovodoação - parte 2

E o assunto ovodoação continua pegando fogo no fórum de discussão. Agora apareceram algumas pessoas pedindo doação de óvulos. Como bem  alertaram a Karina, a Bia e a Mari, a coisa não funciona assim. As regras do Conselho Federal de Medicina são bem claras a respeito. A Resolução CFM Nº 1358/92, que regulamenta a doação, diz que ela deverá ser gratuita e a identidade dos doadores mantida em segredo.

Para os médicos, o anonimato evita o aparecimento de situações emocionais e legais oriundas do relacionamento receptor-doador, com repercussões também no desenvolvimento das crianças geradas por esses procedimentos. Vale lembrar, porém, que em países como os EUA e a Inglaterra foram editadas novas leis permitindo que, ao completar a maioridade, um filho gerado com gameta (óvulo ou espermatozóide) doado tem o direito de conhecer seu pai/mãe biológico. Até comunidades virtuais foram criadas para localizar os "pais de proveta". Tenho certeza de que esse movimento ainda vai chegar por aqui. Podem apostar. 

Sobre a gratuidade do tratamento, há quem questione se a prática usual das clínicas (doação compartilhada) não se confira um comércio, já que a receptora dos óvulos financia o tratamento da doadora. Por outro lado, a doação altruísta e fora do contexto do tratamento é inviável. A principal razão é que, para obter óvulos para o tratamento, são necessários medicamentos para o bloqueio da hipófise, injeções para hiperestimular os ovários e depois um procedimento invasivo para a captação dos óvulos.

Ou seja, é difícil imaginar alguém se submetendo a isso tudo sem estar envolvida no processo. É preciso lembrar também os riscos envolvidos no tratamento. Mulheres já morreram em razão do hiperestímulo ovariano e durante a captação de óvulos por conta da perfuração de órgãos. Os medicamentos também têm efeitos colaterais, provocam retenção de líquido e irritabilidade, por exemplo.

E os dilemas emocionais não se restringem a quem recebe óvulos. Conheço mulheres que doaram óvulos, ainda não engravidaram, mas se angustiam pensando na possibilidade de terem filhos genéticos gerados com os óvulos que doaram. Mesmo quem já conseguiu engravidar fica com essa dúvida martelando a cabeça. Enfim, definitivamente, não é um processo fácil para nenhuma das partes.

Escrito por Cláudia Collucci às 20h06
A polêmica da ovodoação

Venho acompanhando atenta às discussões sobre ovodoação que vêm sendo feitas no fórum de discussão e as considero de muita utilidade, embora haja opiniões contrárias já manifestadas naquele mesmo espaço.

Já me posicionei algumas vezes sobre o assunto e reitero: tentar a gravidez com óvulos doados é uma decisão que deve ser muito bem pensada e deve considerar fatores que vão muito além do desejo de ser mãe.

Falo principalmente sobre o fato de que esse filho gerado com óvulo doado merece conhecer sua história desde o princípio. Na hora certa e da forma mais natural possível. Não sou eu que defendo isso, mas sim sociedades de reprodução e de psicologia de todo o mundo. Entram aí os mesmos argumentos usados no caso da adoção.

Basicamente, que é direito de todo ser humano saber de suas origens e que, os não-ditos, as omissões podem afetar psicologicamente a criança, que "sente" que há algo sendo escondido dela.

Apesar de muitos médicos "venderem" a técnica de uma forma simplista, como se a doação de óvulo fosse a mesma coisa que a doação de sangue, há sim questões complicadas que devem ser bem avaliadas antes de fazer essa opção.

Vejam alguns exemplos de conflitos que acompanhei nesses últimos anos:

1 - Uma mulher engravidou de sua filha com óvulos doados e nunca teve coragem de contar isso à garota. Após uma separação litigiosa, ela já foi ameaçada pelo marido de contar a verdade para a filha, que hoje tem 11 anos. Hoje, ela vive uma imenso conflito porque teme a reação da filha sobre a omissão.

2 - Em outro caso, a criança gerada com óvulos doados teve um câncer de medula e foi preciso recorrer à doadora de óvulo e sua família para encontrar um órgão compatível. O era uma segredo entre o casal acabou vindo à tona para toda a família.

3 - Outro caso recente foi de um bebê gerado por doação de óvulo que nasceu prematuro e começou a apresentar muita hemorragia. Os médicos não sabiam se o problema era causado pela prematuridade ou por algum fator genético, o que mudaria a conduta. Também foi preciso localizar a doadora e submetê-la a exames para investigar o possível problema genético.

Enfim, são casos reais que mostram não ser possível se furtar ao debate e considerar todas as possibilidades. A ovodoação pode ser uma ótima aliada das mulheres mais velhas que desejam ser mães, mas, repito, é uma decisão que deve ser muito bem amadurecida entre o casal.

Escrito por Cláudia Collucci às 13h04

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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