A vida real e a fantasia da reprodução assistida

Sarah Jessica Parker exibe suas gêmeas geradas em barriga de aluguel. Debbie Rowe, mãe biológica de dois dos filhos de Michael Jackson, diz que o cantor não era o pai biológico das crianças e que a inseminação foi feita com material de doador anônimo. Não quer saber das crianças. Na novela da Globo, Caminho das Índias, a personagem de Cissa Guimarães, quase uma cinquentona, comemora a gravidez a partir de óvulo congelado há anos e de sêmen doado.

No primeiro caso, nada contra. Já foi dito que o casal tinha algum problema que levava a abortos recorrentes e que a barriga de aluguel foi sugestão médica, legitimada por lei.

No caso dos filhos de Jackson, confesso que tenho muita pena dessas crianças, frutos de um negócio e órfãos da tecnologia. Em entrevista recente, Debbie Rowe diz claramente que não pretende reivindicar a guarda dos filhos. E que cedeu seu útero para “agradar Michael”, que queria muito ter filhos. Depois de complicações da segunda gravidez, afirma ter sido abandonada pelo cantor. Não conta, porém, que recebeu milhões de dólares para abrir mão da guarda das crianças e que hoje tem uma vida para lá de confortável.

Katherine Jackson, mãe do cantor, ganhou a guarda temporária das crianças, embora os padrinhos e até a ex-babá também queiram ficar com elas. Já imaginaram a cabeça dessas crianças? Criadas no mundo da fantasia, sempre encobertas quando apareciam em público e vivendo ao lado de um pai de comportamento para lá de bizarro?

Por fim, a novela, mais uma vez a desserviço da vida real. Mais uma vez vendendo a imagem falsa que tudo é muito fácil e simples no mundo da reprodução assistida. A mocinha que um dia desejava ser mãe, mas que não tinha um namorado fixo resolve congelar seus óvulos. Muitos anos depois, por volta dos 50, resolve que estava na hora de descongelar seus óvulos, consegue o sêmen de um doador, fecunda o óvulo e, de primeira, gravidíssima! E sai propagando que as amigas solteironas deveriam fazer o mesmo.

Enganação das bravas. As taxas de gravidez com óvulos congelados ainda são baixíssimas não há garantia nenhum de que após anos de congelamento eles permanecerão com qualidade para a fecundação.

Fico me perguntando quando é que vão tratar desse assunto de maneira séria. Quando é que um programa de TV vai mostrar a face real, nua e crua da reprodução assistida? Os anos de espera, as tentativas frustradas, as fortunas gastas em vão e as dívidas acumuladas em razão de tratamentos que não financiados nem pelos planos de saúde e nem pelo poder público?

O duro é que a gente sabe que não há exagero algum nesse cenário. Quem acompanha esse blog deste início já cansou de ler histórias que retratam exatamente a descrição acima. As chances de fracasso na reprodução assistida são infinitamente maiores do que as de sucesso. A maioria dos casais vão chegar ao fim dessa jornada sem os filhos que tanto desejavam e, não raras as vezes, separados já que tudo isso é um campo minado para a relação a dois. Mas, na mídia, só há espaço para o “happy end”.

Ficaria muito feliz se, além de mostrar a vida real dos tratamentos de reprodução assistida, houvesse também abertura de espaços para discutir as outras formas de maternidade e paternidade, seja pela adoção seja por outros caminhos que não necessariamente passam pela existência de filhos.

Escrito por Cláudia Collucci às 10h55
NY aprova pagamento a mulher que doar óvulo para pesquisa

O Estado de Nova York acaba aprovar remuneração à mulher que decide doar óvulos para pesquisa. Até então, não havia um consenso ético sobre isso. As clínicas americanas de reprodução assistida pagam as mulheres que desejam "doar" seus óvulos para tratamento de fertilização in vitro, mas os bioeticistas se posicionavam contrários à possibilidade de as mulheres serem pagas pela ovodoação em pesquisas.

Vale lembrar que, independentemente dos fins, a doação de óvulos envolve injeções de hormônios para estimular os ovários a produzirem mais. Além de muito desconfortável, é uma situação que envolve riscos.

Desde 2005, porém, a academia americana desencoraja o pagamento quando se trata de óvulos para pesquisa. Como resultado, os cientistas que trabalham com célula-tronco têm encontrado dificuldades para obter o material.

"Não dá para entender a razão ética que permite a doação remunerada para a FIV e não permite para as pesquisas", diz David Hohn, da Roswell Park Cancer Institute in Buffalo (NY).

Jonathan Moreno, um bioeticista da University of Pennsylvania (Philadelphia), está preocupado com a reação do público americano, que não seria lá muito favorável às pesquisas com células-tronco.

Outros Estados americanos, contudo, têm fechado os olhos para a reação do público. Na Califórnia, por exemplo, desde 2006 é permitido o pagamento a mulheres que doarem seus óvulos para pesquisa.

Doar ou não doar, o importante, na minha opinião, é ter uma lei regulamentando isso. Não é ficar nesse faz-de-conta brasileiro. As clínicas de reprodução e as mulheres receptoras dos óvulos "doados" fazem de conta que não pagam, e as que "doam" fazem de conta que não recebem.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 19h07
Injeção de emergência "salva" ciclo frustrado de FIV

Nem tudo está perdido quando, durante um ciclo de FIV (Fertilização In Vitro), nenhum óvulo é fertilizado. Pelo menos é o que aponta uma pesquisa da equipe de reprodução humana do Hospital Pérola Byington, que será apresentada no próximo mês no Congresso Europeu de Reprodução Humana, em Amsterdã (Holanda).

Os pesquisadores acompanharam um grupo de 46 pacientes que não conseguiu produzir nenhum embrião durante a FIV. Em vez deles cancelarem o ciclo _o que normalmente acontece_, decidiram aplicar a ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóides). Para quem não está familiarizado com essas siglas, o que aconteceu foi o seguinte:

Na FIV, os médicos colocam os óvulos e os espermatozóides em um meio de cultura, e a fertilização ocorre "naturalmente". Na ICSI, deles pegam um espermatozóide e injetam diretamente no óvulo.

Pois bem, nesse estudo do Pérola, 10% das mulheres que não tiveram nenhum óvulo fecundado na FIV conseguiram engravidar com a ICSI.

Segundo o ginecologista Artur Dzik, da equipe do Pérola, o trabalho reforça a necessidade de se fazer ICSI de urgência nas clínicas privadas. "Nesse estudo, se não tivéssemos tentado a ICSI, a taxa de gravidez teria sido de 0%", explica Dzik.

Para Mario Cavagna, também do Pérola, apesar do índice de gravidez ter sido relativamente baixo, a tentativa do ICSI pode valer à pena para não interromper o ciclo e reverter o processo frustrado de fertilização inicial.

"É uma alternativa para evitar que o casal tenha de aguardar para realizar o ciclo novamente, processo que pode durar de três a quatro meses", diz o médico.

Escrito por Cláudia Collucci às 13h24

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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