As mudanças necessárias na reprodução assistida

O escândalo motivado pelos processos, e, nesta semana, pela prisão do médico Roger Abdelmassih desencadeou uma série de discussões sobre a necessidade de se atualizar a legislação sobre a reprodução assistida no país. A única resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina) foi publicada 17 anos atrás e, além de desatualizada, não é seguida à risca. Os conselhos de medicina querem incluir o assunto na reforma do código de ética médica, que está em andamento.

O certo é que pouco avanço haverá enquanto o Congresso não aprovar regras claras para o setor. Apesar de o primeiro bebê de proveta brasileiro já ter completado 25 anos, não existe sequer um projeto de lei aprovado que regulamente a reprodução assistida no país. Todos os projetos apresentados nos últimos anos eram de deputados ligados à Igreja ou a organizações não governamentais, continham sérios viéses ideológicos e não foram em frente.
 
Enquanto isso, as clínicas privadas nadaram de braçada. Não só ganhando muito dinheiro (já que os valores dos tratamentos são altíssimos), mas também com práticas nada éticas, como receber comissões de laboratórios que fabricam os remédios usados no tratamento e das distribuidoras que vendem as drogas. Eu mesma já denunciei essa prática há alguns anos na Folha, mas, infelizmente, nenhuma investigação séria (nem dos conselhos de medicina e nem do Ministério Público) foi realizada.
Anos atrás, também foi denunciado que Roger Abdelmassih anunciava abertamente a prática de transferência de citoplasma de óvulos de mulheres jovens como forma de "turbinar ou vitaminar" óvulos de mulheres mais velhas, mesmo isso não tendo evidência científica e nem aval de nenhuma sociedade médica do mundo. Nada aconteceu.
Outras denúncias foram feitas dando conta que, não só Roger, mas outros médicos da área admitiam a prática da sexagem para a escolha do sexo do bebê (não para a evitar a transmissão de doenças genéticas, o que é permitido pela resolução, mas por vontade do casal de ter menino ou menina) e de compra de óvulos, o que também é proibido pela norma do CFM. Nada aconteceu.
  
As denúncias de abuso e assédio sexual (agora, as acusações são de estupro. A mudança aconteceu em razão de uma nova legislação sobre crimes de natureza sexual, em vigor desde 7 de agosto) que recaem sobre Abdelmassih também não são novas. Ouço histórias, no meio médico, há mais de uma década sobre elas. As poucas vítimas com as quais tive contato tinham medo de denunciá-lo por falta de provas. Os médicos conheciam essas histórias por meio das pacientes, mas também usavam dos mesmos argumentos para justificar o silêncio em vez da denúncia ao conselho regional de medicina.
Agora, a casa caiu graças à coragem de um grupo de mulheres, que fez a primeira denúncia, e de outras que apareceram em seguida, encorajadas pelas primeiras. Espero que tudo isso seja o início de uma grande limpeza nessa área da reprodução assistida. Espero que o Ministério Público, a Receita Federal e os conselhos de medicina foquem investigações nesse setor e estejam atentos a outras práticas também graves que, por ventura, estejam ocorrendo.
E mais: que o Ministério da Saúde e o sistema suplementar (planos e seguros de saúde) cumpram o direito constitucional de todo casal com dificuldade de gravidez ter acesso a serviços de reprodução assistida. Somente com a expansão dos serviços públicos, baseados em protocolos científicos, a criação de uma legislação federal para área da reprodução assistida e uma fiscalização sistemática das autoridades competentes é que essa limpeza no setor será possível.  
Escrito por Cláudia Collucci às 19h02
Grávida de 12 bebês

O tabloide britânico "The Sun" traz hoje uma reportagem, no mínimo, assustadora. Uma professora da Tunísia está grávida de 12 bebês. Depois de fazer um tratamento em uma clínica de fertilidade, a mulher espera seis meninas e seis meninos, segundo o relato.

Especialista ouvidos pelo "Sun" confirmaram a possibilidade de a gravidez recorde ser real, mas disseram que o risco dela é "colossal". Segundo a reportagem, a mulher está em situação boa de saúde, mas sendo monitorada o tempo todo. Ela teria dito que quer dar à luz de forma natural, mas os médicos dizem ser impossível.

Dr Mark Hamilton, da Sociedade Britânica de Fertilidade, disse: "Doze bebês é uma situação extraordinária e de muitos riscos. Essa mulher deve ter recebido tratamentos de estimulação hormonal sem controle. Na FIV (fertilização in vitro), há mais controle (o casal decide quantos embriões serão transferidos)."

Em janeiro, Nadya Suleman, da Califórnia (EUA), surpreendeu o mundo quando deu luz a óctuplos. Se a gravidez da tuniasiana realmente se confirmar (o que eu duvido; quando se trata de "The Sun", é preciso ter cautela), será mais um capítulo na história das irresponsabilidades médicas que, vez ou outra, abalam o mundo da reprodução assistida. 

http://www.thesun.co.uk/sol/homepage/news/2592012/Woman-in-Tunisia-pregnant-with-12-babies.html

Escrito por Cláudia Collucci às 15h34
O perigo da endometriose

M., 30, sempre teve cólicas menstruais horríveis. Nos últimos anos, só conseguia ter alívio da dor com potentes analgésicos e anti-inflamatórios, alguns deles aplicados intra-muscular em pronto-socorros. Além das cólicas, sentia também dor abdominal durante a relação sexual, dor no intestino na época das menstruações, entre outros sintomas clássicos da endometriose.

Mas esses sinais não foram suficientes para que a sua ginecologista suspeitasse da doença. Nas entrelinhas, a médica chegou a sugerir que as queixas eram "manhas de menina mimada". Enquanto isso, M. e o marido tentavam há dois anos uma gravidez.

No início do ano, M. engravidou e sofreu um aborto com sete semanas de gestação. Após conversas com amigas, procurou um novo ginecologista que, na primeira consulta, suspeitou da endometriose.

Logo em seguida, pediu exames de imagem (ultrassonografia e ressonância pélvica), que apontaram uma endometriose severa, impregnada em vários órgãos.

Há poucos dias, M. fez uma laparoscopia. O susto foi grande. A doença havia tomado grande parte do intestino, o que motivou a retirada de 15 cm do órgão e oito dias de internação.

Acompanhei, aflita, o drama de M., que é mulher de um grande amigo meu. Bem sei que a endometriose é ainda uma doença bastante subnotificada. É muito comum suas vítimas demorarem anos para ter o diagnóstico e o tratamento corretos. Difícil é entender a razão disso.

As fontes de informação são imensas e as mais variáveis possíveis. Basta darmos um "google" para aparecer uma lista de 476 mil páginas sobre o assunto. Também sabemos que o não-tratamento da endometriose acarreta consequências desastrosas à saúde e à vida da mulher. Uma das principais é a infertilidade.

Ainda assim, há ginecologistas que acompanham anos uma mulher, ouve suas queixas e nem ao menos se dão o trabalho de investigá-las. Falta de conhecimento? Desatenção? Não sei responder. A pergunta que não se cala é: como isso é possível????

 

Escrito por Cláudia Collucci às 19h42
Descoberta uma nova mutação genética associada à infertilidade masculina

Uma mutação genética relacionada a um dos tipos de infertilidade masculina foi descoberta por pesquisadores das universidades Oxford (Inglaterra), Ghent (Bélgica) e de Massachusetts (EUA). A descoberta, publicada em artigo no "Human Reproduction", pode ajudar casais que colecionam várias FIVs/ICSIs frustradas e, além disso, poderá colaborar no desenvolvimento de uma pílula anticoncepcional para homens.

A mutação está ligada a uma proteína específica, presente no sêmen, chamada de PLC zeta. Essa proteína é fundamental no momento de fecundação do óvulo. Ela dá início ao processo que chamamos de "egg activation' (ativação do óvulo, numa tradução livre), que dá o ponta pé inicial ao desenvolvimento do embrião.

"A célula do óvulo, antes da fertilização, está em um estado de 'animação suspensa'. É como se todo o processo de crescimento e desenvolvimento do embrião estivesse em pausa", explica Dr John Parrington, do Departamento de Farmacologia da Universidade de Oxford. "No momento da fertilização, quando o espermatozóide penetra no óvulo, o óvulo eclode para a vida. É como o príncipe despertando a Bela Adormecida", brinca o médico.

Os pesquisadores avaliaram casais que se submeteram à ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóides) e não tiveram sucesso. Em alguns dos casos, houve falha no processo de ativação dos óvulos, ou seja, não houve fecundação. Os cientistas analisaram então como agia a proteína PLC zeta nesses casos. Foi quando encontraram a mutação. Ou seja, os homens analisados produziam uma forma mutante da proteína PLC zeta, que não é capaz de fertilizar os óvulos. Outros homens tinham quantidade insuficiente dessa proteína, outra possível causa para o insucesso da ICSI.

Os pesquisadores da Oxford e da Ghent University também demonstraram que é possível, pelo menos experimentalmente, repor essa proteína faltante/defeituosa. Isso, teoricamente, aumentaria as chances de sucesso do tratamento de reprodução. Eles injetaram a proteína PLC zeta em ratos (que tiveram seu genes modificados) e eles passaram a produzi-la, por eles mesmo, corretamente. Depois disso, o sêmen desses ratos foi capaz de fecundar os óvulos.

"Foi uma experiência laboratorial, mas nosso método pode ser usado em clínicas de fertilidade da mesma forma", acredita Parrington. "No futuro, se pudermos produzir a proteína PLC artificialmente, nós poderemos também estimular a ativação dos óvulos naturalmente." Ou seja, poderia ser inventada uma droga destinada ao homem que o tornaria capaz de engravidar a mulher naturalmente, sem a necessidade da ICSI. 

O mais interessante é que, desde que a PLC zeta foi descoberta como crucial no processo de fertilização do óvulo e desenvolvimento do embrião, foram iniciadas pesquisas para a criação de um remédio que iniba essa proteína, ou seja, uma boa candidata a uma pílula anticoncepcional masculina.

Quanto mais a ciência reprodutiva avança, mais a gente descobre que ainda há muito o que descobrir. É provável que, nos próximos anos, sejam descobertas outras mutações genéticas envolvidas, por exemplo, nas sucessivas falhas de implantação do embrião no útero, um dos grandes mistérios da FIV/ICSI. É uma pena, porém, que o nosso país pouco (ou quase nada) invista em pesquisas na área reprodutiva. 

Escrito por Cláudia Collucci às 18h51

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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