Compaixão

2006062000 Compassion

Queridas (os), a mensagem é para agradecer as palavras de apoio e de conforto que vocês me encaminharam nos últimos dias. Li e reli, emocionada, cada uma delas. Ontem, venci a última etapa desse dolorido processo, a aspiração uterina. Meu corpo gostou tanto de ficar grávido que não havia o menor sinal de expulsão do embriãozinho. É o que se chama de aborto retido.

Ainda estou para conhecer uma experiência tão triste quanto ser internada em uma maternidade, passar pelos corredores cheios de flores e de lembrancinhas dos recém-nascidos e saber que, ao sair do centro cirúrgico, não haverá bebê para ser amamentado, acariciado. Sobrará apenas um vazio enorme no peito. E uma saudade das nove semanas de gestação. Dos seios inchados, dos enjoos semanais e dos projetos que a gente faz tão logo se confirma a gravidez.

Sei que, com o passar dos dias, a dor tende a se dissipar. Por isso, não me furto de viver e de elaborar, neste momento, o inevitável luto. Há muito tempo abandonei a ideia de que existem soluções fáceis para as situações difíceis da vida. Não perco mais tempo procurando atalhos. Prefiro lembrar que viver é correr riscos, dá trabalho e que o jeito é respirar fundo e seguir em frente.

Nesse período, tenho lembrado muito de uma antiga história chinesa, que diz respeito ao karma e relata mais ou menos o seguinte:

No tempos medievais vivia na China um velho camponês que tinha um cavalo fraco e cansado no qual atrelava o arado para trabalhar no seu pequeno pedaço de terra. Um dia o cavalo doente fugiu para as montanhas. Os vizinhos se solidarizaram: "Que má sorte!", repetiam lamentando. "Má sorte? Boa sorte? Quem pode dizer?", respondia o velho camponês.

Uma semana mais tarde, o cavalo voltou acompanhado de outros cavalos selvagens das montanhas. Os vizinhos apareceram para ver e, reunidos em torno do camponês, dessa vez se alegraram com sua boa sorte. A resposta, no entanto, foi a mesma: "Boa sorte? Má sorte? Quem pode dizer?"

Algum tempo depois, enquanto tentava domar um dos cavalos selvagens, o único filho do camponês sofreu uma queda e quebrou a perna. Todos consideraram um sinal de má sorte. "Má sorte? Boa sorte? Quem poderá dizer?", repetia o ancião.

Semanas mais tarde, o exército do imperador marchou pelo vilarejo convocando todos os homens jovens e saudáveis para se alistar, mas o filho do camponês, na cama com a perna quebrada, foi deixado para trás. Boa sorte? Má sorte? Quem poderá saber?

O budismo nos ensina que, em vez de querer rotular os fatos consumados como bons ou ruins, o mais importante é encará-los e se preocupar principalmente com a qualidade da resposta que vamos dar a eles. As coisas são como são, é a nossa reação que vai perpetuar ou minimizar as causas de sofrimentos futuros. Se não temos controle sobre o que chega a nós, temos escolha sobre o que lançamos no mundo.

Querer ser mãe e os desafios que tenho encontrado me fizeram entender melhor o conceito da compaixão, que é muito diferente de pena. Sentir pena implica um distanciamento, é estar de fora olhando a dor alheia lá e a gente aqui, passivamente. Na compaixão existe uma empatia, reconhecemos a dor do outro como nossa e não queremos fugir dali, ao contrário, nos sentimos mobilizados a fazer alguma coisa para acabar com aquele sofrimento.  

Nesses últimos dias, meu marido, minha família, meus amigos mais próximos e vocês, minhas queridas leitoras, cobriram-me de compaixão, de carinho e de muito amor. Obrigada por fazerem parte da minha vida. 

PS - Saio de férias a partir da próxima semana. Tempo de descanso e de recarregar as baterias.

 

Escrito por Cláudia Collucci às 15h58
Maternidade interrompida

Esperava começar setembro com boas novas para vocês. Já preparava um texto para anunciar a minha tão esperada gravidez, quando, novamente, fui surpreendida por mais um aborto espontâneo. Ontem, último dia de agosto, o ultrassom detectou que o embrião parou seu desenvolvimento, na oitava semana de gestação. O momento é de dor, tristeza e de poucas palavras. Sei que vocês me entendem.

 

Porém, farei do meu luto uma ponte para divulgar um trabalho muito bonito da professora portuguesa Maria Manuela Pontes. Ela lançou recentemente o livro “Maternidade interrompida - O drama da perda gestacional” (Editora Ágora, 2009), que tem tudo a ver com esse meu momento.

 

Na obra, Maria Manuela Pontes, que sofreu dois abortos espontâneos, quebra o silêncio e dá voz às mulheres que enfrentam esse drama. Entre os depoimentos está o de Mafalda Sobral, que apesar de ter sofrido nove abortos espontâneos, não perdeu o sonho de ser mãe.

 “Sofri indescritivelmente a dor da perda, de nove filhos que partiram. Todo o processo de sofrimento me condicionou como pessoa, mulher e profissional. É impossível não mudar, não se transmutarem os valores, as prioridades. Hoje, encaro o processo de perda como uma fase da vida que me ajudou a crescer como mulher”, relata a advogada. Ela ignorou a opinião de médicos, amigos e família, acreditou que conseguiria ser mãe e hoje tem dois filhos.

Maria, hoje mãe de dois filhos, fundou há oito anos o Projeto Artémis, em Portugal, onde vive. A associação apoia as mulheres vítimas desse tipo de perda e é uma das maiores organizações não-governamentais na área, oferecendo atendimento psicológico e aconselhamento às mães e a seus familiares.

Para a autora, o aborto espontâneo é um tema pouco divulgado. “Existe um enorme silêncio ao redor do assunto, com nuances de um tabu que deve ser quebrado. A perda gestacional destrói vidas, famílias. É preciso dignificá-la e conhecê-la para que, de forma correta e humana, possamos ajudar essas mulheres”, afirma. A seguir, trechos da entrevista Maria Manuela concedeu ao site “Vila Filhos”:

Como as mulheres reagem quando perdem um bebê espontaneamente?
Todas as mulheres, sem exceção, reagem mal. Sentem-se revoltadas, sozinhas, com muitas perguntas. Um dos sentimentos dominantes é a incompreensão, que leva a estados depressivos e a situações mais graves de psicoses, que necessitam de intervenção profunda e prolongada. A sociedade não aceita que estas mulheres chorem e as pessoas não compreendem porque se chora por um bebê que não nasceu. Por isso, elas se sentem completamente à margem do processo de luto. Passam-se anos, e a data da perda continua viva dentro delas. A perda passa a ser uma cicatriz e faz delas mulheres que calam um grito, essencialmente de dor e revolta.

O sofrimento dessas mulheres dura normalmente quanto tempo?
Toda a vida. Sei que deve parecer exagero, mas é a verdade. A dor apenas se transforma em saudade. Eu ainda hoje choro por meus bebês que partiram. Choro quando uma nova mamãe chega à Artémis e carrega toda aquela vivência que um dia foi minha. E as mulheres sofrem, por exemplo, quando chega a data em que deveria nascer o bebê, choram todos os anos as datas que marcam a perda e até quando voltam a ser mães e dão à luz. Todas as mulheres sofrem por toda a vida, apenas a dimensão é alterada.

Como eles conseguem superar a depressão e a dor? Qual a sua sugestão para essa superação?
Elas vão superando a dor aprendendo a conviver com ela. Por vezes, o apoio familiar é vital, o desabafar é uma ótima forma de ultrapassar o sofrimento, transformando-o em “acreditar” de novo. A depressão é mais complicada. Dificilmente uma depressão se auto-cura. É preciso intervenção de um profissional que oriente de forma terapêutica. Acredito que viver e conviver com histórias muito idênticas à nossa é a forma mais poderosa de se viver este luto.

E como encarar o desafio de uma nova gravidez?
O desafio de uma nova gravidez, para quem já perdeu um filho, é algo atroz e bastante violento. Costumo dizer que quando engravidei da minha filha Vitória, todos os dias me preparava para perdê-la. Há mulheres que pura e simplesmente não fazem o enxoval do bebê antes do nascimento e vivem em sobressaltos diários, procuram sangramentos, dores, movimentos fetais indicadores de que mais uma vez, tudo vai acontecer. Viver uma gravidez depois de uma perda, depois de termos cicatrizados na memória momentos de autêntico drama, é muito complicado e bastante desgastante emocionalmente.

O drama do aborto espontâneo

Escrito por Cláudia Collucci às 17h02

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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