|
Compaixão
Queridas (os), a mensagem é para agradecer as palavras de apoio e de conforto que vocês me encaminharam nos últimos dias. Li e reli, emocionada, cada uma delas. Ontem, venci a última etapa desse dolorido processo, a aspiração uterina. Meu corpo gostou tanto de ficar grávido que não havia o menor sinal de expulsão do embriãozinho. É o que se chama de aborto retido. Ainda estou para conhecer uma experiência tão triste quanto ser internada em uma maternidade, passar pelos corredores cheios de flores e de lembrancinhas dos recém-nascidos e saber que, ao sair do centro cirúrgico, não haverá bebê para ser amamentado, acariciado. Sobrará apenas um vazio enorme no peito. E uma saudade das nove semanas de gestação. Dos seios inchados, dos enjoos semanais e dos projetos que a gente faz tão logo se confirma a gravidez. Sei que, com o passar dos dias, a dor tende a se dissipar. Por isso, não me furto de viver e de elaborar, neste momento, o inevitável luto. Há muito tempo abandonei a ideia de que existem soluções fáceis para as situações difíceis da vida. Não perco mais tempo procurando atalhos. Prefiro lembrar que viver é correr riscos, dá trabalho e que o jeito é respirar fundo e seguir em frente. Nesse período, tenho lembrado muito de uma antiga história chinesa, que diz respeito ao karma e relata mais ou menos o seguinte: No tempos medievais vivia na China um velho camponês que tinha um cavalo fraco e cansado no qual atrelava o arado para trabalhar no seu pequeno pedaço de terra. Um dia o cavalo doente fugiu para as montanhas. Os vizinhos se solidarizaram: "Que má sorte!", repetiam lamentando. "Má sorte? Boa sorte? Quem pode dizer?", respondia o velho camponês. Uma semana mais tarde, o cavalo voltou acompanhado de outros cavalos selvagens das montanhas. Os vizinhos apareceram para ver e, reunidos em torno do camponês, dessa vez se alegraram com sua boa sorte. A resposta, no entanto, foi a mesma: "Boa sorte? Má sorte? Quem pode dizer?" Algum tempo depois, enquanto tentava domar um dos cavalos selvagens, o único filho do camponês sofreu uma queda e quebrou a perna. Todos consideraram um sinal de má sorte. "Má sorte? Boa sorte? Quem poderá dizer?", repetia o ancião. Semanas mais tarde, o exército do imperador marchou pelo vilarejo convocando todos os homens jovens e saudáveis para se alistar, mas o filho do camponês, na cama com a perna quebrada, foi deixado para trás. Boa sorte? Má sorte? Quem poderá saber? O budismo nos ensina que, em vez de querer rotular os fatos consumados como bons ou ruins, o mais importante é encará-los e se preocupar principalmente com a qualidade da resposta que vamos dar a eles. As coisas são como são, é a nossa reação que vai perpetuar ou minimizar as causas de sofrimentos futuros. Se não temos controle sobre o que chega a nós, temos escolha sobre o que lançamos no mundo. Querer ser mãe e os desafios que tenho encontrado me fizeram entender melhor o conceito da compaixão, que é muito diferente de pena. Sentir pena implica um distanciamento, é estar de fora olhando a dor alheia lá e a gente aqui, passivamente. Na compaixão existe uma empatia, reconhecemos a dor do outro como nossa e não queremos fugir dali, ao contrário, nos sentimos mobilizados a fazer alguma coisa para acabar com aquele sofrimento. Nesses últimos dias, meu marido, minha família, meus amigos mais próximos e vocês, minhas queridas leitoras, cobriram-me de compaixão, de carinho e de muito amor. Obrigada por fazerem parte da minha vida. PS - Saio de férias a partir da próxima semana. Tempo de descanso e de recarregar as baterias.
Escrito por Cláudia Collucci às 15h58
![]() Maternidade interrompida
Esperava começar setembro com boas novas para vocês. Já preparava um texto para anunciar a minha tão esperada gravidez, quando, novamente, fui surpreendida por mais um aborto espontâneo. Ontem, último dia de agosto, o ultrassom detectou que o embrião parou seu desenvolvimento, na oitava semana de gestação. O momento é de dor, tristeza e de poucas palavras. Sei que vocês me entendem.
Porém, farei do meu luto uma ponte para divulgar um trabalho muito bonito da professora portuguesa Maria Manuela Pontes. Ela lançou recentemente o livro “Maternidade interrompida - O drama da perda gestacional” (Editora Ágora, 2009), que tem tudo a ver com esse meu momento.
Na obra, Maria Manuela Pontes, que sofreu dois abortos espontâneos, quebra o silêncio e dá voz às mulheres que enfrentam esse drama. Entre os depoimentos está o de Mafalda Sobral, que apesar de ter sofrido nove abortos espontâneos, não perdeu o sonho de ser mãe. “Sofri indescritivelmente a dor da perda, de nove filhos que partiram. Todo o processo de sofrimento me condicionou como pessoa, mulher e profissional. É impossível não mudar, não se transmutarem os valores, as prioridades. Hoje, encaro o processo de perda como uma fase da vida que me ajudou a crescer como mulher”, relata a advogada. Ela ignorou a opinião de médicos, amigos e família, acreditou que conseguiria ser mãe e hoje tem dois filhos. Maria, hoje mãe de dois filhos, fundou há oito anos o Projeto Artémis, em Portugal, onde vive. A associação apoia as mulheres vítimas desse tipo de perda e é uma das maiores organizações não-governamentais na área, oferecendo atendimento psicológico e aconselhamento às mães e a seus familiares. Para a autora, o aborto espontâneo é um tema pouco divulgado. “Existe um enorme silêncio ao redor do assunto, com nuances de um tabu que deve ser quebrado. A perda gestacional destrói vidas, famílias. É preciso dignificá-la e conhecê-la para que, de forma correta e humana, possamos ajudar essas mulheres”, afirma. A seguir, trechos da entrevista Maria Manuela concedeu ao site “Vila Filhos”: Como as mulheres reagem quando perdem um bebê espontaneamente? O sofrimento dessas mulheres dura normalmente quanto tempo? E como encarar o desafio de uma nova gravidez?
Escrito por Cláudia Collucci às 17h02
|
![]() Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu) ![]() ![]() Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias. ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() "Quero Ser Mãe"O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas ![]() "Por Que a Gravidez Não Vem?"Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema ![]() ![]() ![]() ![]()
![]() ![]()
![]() ![]() ![]()
Visitas
|