"O homem não é apenas um espermatozoide"

Estou em Goiânia desde domingo, no Congresso Brasileiro de Urologia, aprendendo um pouco mais sobre a saúde do homem. Ontem, uma importante discussão sobre infertilidade masculina aconteceu por aqui. Os urologistas presentes criticaram a forma como a maioria das clínicas de reprodução lidam com a infertilidade masculina, ou seja, em vez de investigar e tratar o problema do homem, indicam de imediato as técnicas de fertilização, como a FIV e a ICSI. "A FIV deveria ser a última escolha do tratamento", afirmou Sandro Esteves, da clínica Androfert, de Campinas (SP).
Segundo ele, caso o homem tenha varicocele, é recomendável primeiro a cirurgia. Mesmo que a gravidez não aconteça de forma natural, as chances de o homem engravidar a parceira por meio da FIV aumentam quase três vezes quando ele opera antes a varicocele. "O homem não é apenas um espermatozoide. É uma pessoa. Precisa checar como está sua saúde, sua alimentação, parar de fumar", explica o médico.
Para ele, a reprodução assistida poderá gerar uma série de riscos no futuro. “No momento, nós podemos especular que pode haver um aumento da população infértil, pois muitos indivíduos herdarão a infertilidade dos pais, especialmente nos casos genéticos de infertilidade masculina. Poderá aumentar também as doenças hereditárias, pois muitas serão transmitidas pela fertilização, o que seria evitado pelo mecanismo de seleção natural.”
Outra questão que Esteves levantou foi a da incidência de múltiplos com a fertilização in vitro. Dados apresentados por ele mostraram que no Brasil 44% dos casos de fertilização geram mais de um bebê. “Publicações recentes têm sugerido uma associação entre a fertilização artificial e o aumento da frequência de certas doenças raras que aparecem quando há defeito no processo de imprinting genômico”. Imprinting é o processo de ativação ou desativação de genes paternos ou maternos que ocorre durante a formação e desenvolvimento do embrião.
Já o urologista Jorge Hallak, coordenador da Unidade de Toxicologia Reprodutiva e de Andrologia da Universidade de São Paulo (USP), apresentou dados que mostram o impacto dos poluentes ambientais na saúde reprodutiva do homem. “A poluição atrapalha a produção de espermatozoides. E a qualidade do gameta influencia no número de abortos."
De acordo com Hallak, os homens que trabalham nas ruas e inalam muita poluição têm uma maior concentração de radicais livres de oxigênio no sangue, o que prejudicaria também na fabricação de espermatozóides de qualidade.
O médico está finalizando um estudo sobre a influência da maconha na infertilidade masculina. Segundo ele, as drogas como maconha, crack e cocaína também causam estragos na fertilidade do homem.
“A maconha altera a produção do espermatozóide. Ele muda de formato e perde a mobilidade. Basta consumir a droga uma vez por semana para desenvolver esses efeitos”, disse Hallak. A pesquisa vem acompanhando 32 homens, no período de dois a sete anos, que consomem a erva.
Hallak afirma que há tratamento nos dois casos (poluição e maconha). “É preciso administrar vitaminas como a E e a C para melhorar a qualidade do espermatozoide. Mas o tratamento dura em média sete meses”, explicou.
COMENTÁRIO:
O dr. Eduardo Motta, diretor da clínica Huntington, enviou o seguinte comentário referente a este post:
"Em parte concordo com as afirmaçoes, mas existem diversos questionamentos a serem levados em consideração:
1 - Embora o tratamento do homem seja mandatório nestas situçõesa, ainal ele participa com um dos gametas, ninguém sabe até hoje se podemos culpar unica e exclusivamente a varicocele e mais, se a cirurgia tem este poder rejuvenescedor. Certamente ela estabiliza o processo, mas não recupera tudo.
São raríssimos os homens que teriam sua indicação de uma FIV, tal a gravidade da varicocele, transformada em gestação natural por conta da cirurgia, ou seja, mesmo com a cirurgia é muito provável que a indicação da FIV nestes casos ainda exista, mas, lógico, que com um prognóstico melhor, pelo lado masculino;
2 - Se realizada, a varicocelectomia, por mãos inapropriadas e não por microcirurgia, o risco de piorar o quadro aumenta, levando até a falência testicular se forem ligadas as artérias;
3 - Nunca se esqueçam da IDADE DA MULHER. Pouco adianta operar um homem, esperar 6 a 12 meses e a mulher entrar na faixa dos 40. Seguramente perdemos tempo,
Enfim, na verdade gostaria de dar a ATENÇÃO que o contexto do tratamento não é do "homem" ou da "mulher", nem do "urologista" ou do "ginecologista", mas integrado, por equipes que tenham ambos os profissionais, e que juntos possam avaliar o casal."
Escrito por Cláudia Collucci às 12h53