Manicures e martines

A Associação Americana de Fertilidade lançou há algum tempo um programa de informação e prevenção com o nome intrigante de “Manicures & Martinies”! À primeira vista, álcool e cosmética não misturam bem com fertilidade. No entanto, a presença de tais estimulantes visa criar um ambiente relaxado, favorável à conversação aberta sobre as questões relacionadas com a fertilidade, atraindo também mulheres mais jovens, que assim poderão ajustar a tempo algumas das suas opções e comportamentos, em função do desejo de terem filhos no futuro.
É uma iniciativa interessante, porque mostra como é quase indispensável recorrer a meios “ilícitos” para alguém hoje ouvir falar sobre prevenção da fertilidade. Na verdade, por que razão devia uma mulher jovem e saudável preocupar-se com isso? Por que razão a possibilidade distante de ter filhos deveria sequer ocorrer a adolescentes ou jovens adultos?
As pessoas que passaram pela experiência da infertilidade conhecem muito bem a resposta a estas perguntas: simplesmente porque o sofrimento causado pela infertilidade pode ser devastador e alterar para sempre a vida de cada um. É a força (e o trauma) desta experiência que move as pessoas que por ela passaram. E se for preciso oferecer um martini e um tratamento cosmético para que escutem, havendo patrocinadores, pois que assim seja…
* O texto foi extraído do blog da Associação Portuguesa de Fertilidade, nossa parceira
"O homem não é apenas um espermatozoide"

Estou em Goiânia desde domingo, no Congresso Brasileiro de Urologia, aprendendo um pouco mais sobre a saúde do homem. Ontem, uma importante discussão sobre infertilidade masculina aconteceu por aqui. Os urologistas presentes criticaram a forma como a maioria das clínicas de reprodução lidam com a infertilidade masculina, ou seja, em vez de investigar e tratar o problema do homem, indicam de imediato as técnicas de fertilização, como a FIV e a ICSI. "A FIV deveria ser a última escolha do tratamento", afirmou Sandro Esteves, da clínica Androfert, de Campinas (SP).
Segundo ele, caso o homem tenha varicocele, é recomendável primeiro a cirurgia. Mesmo que a gravidez não aconteça de forma natural, as chances de o homem engravidar a parceira por meio da FIV aumentam quase três vezes quando ele opera antes a varicocele. "O homem não é apenas um espermatozoide. É uma pessoa. Precisa checar como está sua saúde, sua alimentação, parar de fumar", explica o médico.
Para ele, a reprodução assistida poderá gerar uma série de riscos no futuro. “No momento, nós podemos especular que pode haver um aumento da população infértil, pois muitos indivíduos herdarão a infertilidade dos pais, especialmente nos casos genéticos de infertilidade masculina. Poderá aumentar também as doenças hereditárias, pois muitas serão transmitidas pela fertilização, o que seria evitado pelo mecanismo de seleção natural.”
Outra questão que Esteves levantou foi a da incidência de múltiplos com a fertilização in vitro. Dados apresentados por ele mostraram que no Brasil 44% dos casos de fertilização geram mais de um bebê. “Publicações recentes têm sugerido uma associação entre a fertilização artificial e o aumento da frequência de certas doenças raras que aparecem quando há defeito no processo de imprinting genômico”. Imprinting é o processo de ativação ou desativação de genes paternos ou maternos que ocorre durante a formação e desenvolvimento do embrião.
Já o urologista Jorge Hallak, coordenador da Unidade de Toxicologia Reprodutiva e de Andrologia da Universidade de São Paulo (USP), apresentou dados que mostram o impacto dos poluentes ambientais na saúde reprodutiva do homem. “A poluição atrapalha a produção de espermatozoides. E a qualidade do gameta influencia no número de abortos."
De acordo com Hallak, os homens que trabalham nas ruas e inalam muita poluição têm uma maior concentração de radicais livres de oxigênio no sangue, o que prejudicaria também na fabricação de espermatozóides de qualidade.
O médico está finalizando um estudo sobre a influência da maconha na infertilidade masculina. Segundo ele, as drogas como maconha, crack e cocaína também causam estragos na fertilidade do homem.
“A maconha altera a produção do espermatozóide. Ele muda de formato e perde a mobilidade. Basta consumir a droga uma vez por semana para desenvolver esses efeitos”, disse Hallak. A pesquisa vem acompanhando 32 homens, no período de dois a sete anos, que consomem a erva.
Hallak afirma que há tratamento nos dois casos (poluição e maconha). “É preciso administrar vitaminas como a E e a C para melhorar a qualidade do espermatozoide. Mas o tratamento dura em média sete meses”, explicou.
COMENTÁRIO:
O dr. Eduardo Motta, diretor da clínica Huntington, enviou o seguinte comentário referente a este post:
"Em parte concordo com as afirmaçoes, mas existem diversos questionamentos a serem levados em consideração:
1 - Embora o tratamento do homem seja mandatório nestas situçõesa, ainal ele participa com um dos gametas, ninguém sabe até hoje se podemos culpar unica e exclusivamente a varicocele e mais, se a cirurgia tem este poder rejuvenescedor. Certamente ela estabiliza o processo, mas não recupera tudo.
São raríssimos os homens que teriam sua indicação de uma FIV, tal a gravidade da varicocele, transformada em gestação natural por conta da cirurgia, ou seja, mesmo com a cirurgia é muito provável que a indicação da FIV nestes casos ainda exista, mas, lógico, que com um prognóstico melhor, pelo lado masculino;
2 - Se realizada, a varicocelectomia, por mãos inapropriadas e não por microcirurgia, o risco de piorar o quadro aumenta, levando até a falência testicular se forem ligadas as artérias;
3 - Nunca se esqueçam da IDADE DA MULHER. Pouco adianta operar um homem, esperar 6 a 12 meses e a mulher entrar na faixa dos 40. Seguramente perdemos tempo,
Enfim, na verdade gostaria de dar a ATENÇÃO que o contexto do tratamento não é do "homem" ou da "mulher", nem do "urologista" ou do "ginecologista", mas integrado, por equipes que tenham ambos os profissionais, e que juntos possam avaliar o casal."
Rede internacional defende doação de gametas aberta e informada
No final de 2008, foi criada em Toronto (Canadá) uma rede internacional de associações na área da doação de gametas http://inodco.org/. A rede defende um conjunto de princípios com vista a um novo equilíbrio entre as três partes envolvidas nos processos de doação: as pessoas com problemas de fertilidade, os doadores e as crianças. Para se conseguir uma doação de gametas aberta e informada, propõem a seguinte agenda, já respeitada em alguns países:
1. Acabar com a doação anônima de gâmetas, sendo obrigatória a identificação de doadores;
2. Preservar toda a informação sobre doadores em ficharios centrais, sob tutela de organizações governamentais, por prazo indeterminado;
3. Todos os nascimentos com doação de gâmetas devem ser declarados;
4. Fixar um limite para o número de crianças concebidas por cada dador;
5. Obrigar os doadores à manutenção atualizada do sua história clínica;
6. Todos os doadores devem ser submetidos a testes genéticos exaustivos;
7. Promover o acompanhamento clínico da doadoras de óvulos;
8. Tornar obrigatório o aconselhamento e a informação de todos os que pretendam recorrer à doação de gametas;
9. Requerer apoio legal e financeiro para que todos os doadores anônimos se sintam seguros e possam futuramente facilitar a sua identificação, caso sejam procurados pelos filhos biológicos;
Para nós, pode parecer estranho isso tudo, mas eu não tenho dúvida de que logo, logo essa discussão chega aqui. Faço um paralelo com a adoção de crianças, que por muito tempo permaneceu em uma zona obscura, com os pais escondendo dos seus filhos essa preciosa informação. Hoje, é inconcebível que isso aconteça. O próximo passo será tirar a doação de gametas dessa zona cinzenta. Já disse e repito: doação de óvulos e de espermatozoides não é uma decisão simples. É preciso estar liberto do sentimento de apego e outras inseguranças. A criança a ser gerada tem um direito inquestionável de conhecer a verdadeira história da sua concepção.
PS - Um especial obrigado à Associação Portuguesa de Fertilidade pela informação da criação da rede.