Monique

Estou lendo um livro lindo sobre a amizade de uma voluntária da organização Peace Corps e uma parteira na África. A obra chama "Monique and the Mango Rains". A autora, Kris Holloway, passou dois anos em uma vila chamada Nampossela, em Mali, no oeste africano. Durante esse tempo, esteve ao lado de Monique Dembele, uma jovem que na época tinha de 24 anos e dois filhos. Como vocês bem sabem, a vida na África é para lá de muito difícil e em uma vila rural é muito mais.

As mulheres têm em média sete filhos e a taxa de mortalidade materna está entre as dez maiores do mundo! Menos de 6% das mulheres têm acesso a algum tipo de contracepção e 96% delas são submetidas a algum tipo de mutilação genital durante a infância (aliás, assisti ontem uma aula sobre essas mutilações genitais sofridas pelas mulheres. Vocês não fazem ideia do horror que é isso...).

Pois bem. Monique era uma mulher sensacional. Fazia partos sozinha, educava as mulheres sobre como cuidar delas próprias e dos seus filhos, apesar de uma parte da aldeia duvidar dos seus conhecimentos por conta da pouca idade. Chegou a enfrentar, sozinha, homens que espancavam suas mulheres pelo fato de elas não conseguirem engravidar. Por total ignorância, eles atribuíam a elas a culpa pela não gravidez, achando que elas tomavam, escondido, alguma coisa para evitar filhos.

Também fez campanhas de conscientização sobre a importância do resguardo após o parto. Muitas mulheres eram obrigadas a trabalhar normalmente um dia após terem seus bebês. Infelizmente, Monique morreu durante o parto do seu quinto filho, aos 32 anos. Para o seu país, talvez ela seja apenas mais um número a compor as estatísticas de mortalidade materna (se é que eles contam de fato isso...). Mas para quem conhece Monique nas 200 e poucas páginas do livro, é impossível não se apaixonar pela sua história. E aprender muito com sua garra e determinação. 

Escrito por Cláudia Collucci às 18h36
Saúde da Mulher

Conheci nesta semana o Hospital da Mulher, ligado à Universidade de Michigan. O diretor do departamento de ginecologia e obstetrícia, o Timothy Johnson, está sendo o meu orientador nos estudos sobre saúde da mulher. O hospital é sensacional, de vanguarda mesmo. Reúne em um mesmo local vários programas dedicados a toda fase da vida da mulher. Farei uma espécie de "estágio" por lá, com visitas e conversas com os diretores desses programas.

Fora isso, estou fazendo duas aulas na Faculdade de Saúde Pública: saúde reprodutiva e políticas em saúde da mulher. Na última aula, discutimos sobre políticas de planejamento familiar. No final, foi exibido um documentário sobre a situação da mulher na India. De virar o estômago. Eles acompanharam a esterilização de várias mulheres, além de relatar em detalhes a discriminação que elas sofrem por lá. Para vocês terem um ideia, a mulher que não consegue ter filhos lá é um zero à esquerda. E aquela que só tem filhas mulheres, idem.

Nesta semana, debatemos sobre mortalidade materna nos países em desenvolvimento. Lembrei muito da cobertura que fiz anos atrás em João Pessoa, quando várias mulheres morreram antes/durante/após o parto em menos de um mês. Na maioria das vezes, a causa da morte foi pré-eclampsia ou hemorragia. Mas, ao investigar melhor cada caso, percebe-se que o motivo é o mesmo que ocorre em outros países: uma total violação dos direitos das mulheres.

São a maioria mulheres pobres, que não tiveram acesso a um bom pré-natal e tampouco a um atendimento adequado quando o estado de saúde tornou-se crítico. Ou seja, eram mortes preveníveis. São mulheres que não morreram em razão de doenças incuráveis, mas sim por ineficiência de vários seguimentos: médico, governamental e social. Li um texto (Human Rights - Aspectos of Safe Mortherhood) muito interessante que traz dados impressionantes: 100 mil mortes maternas poderiam ser evitadas por ano se a mulher que não deseja ter filhos tivesse acesso a programas efetivos de contracepção e ao aborto seguro (por falar nisso, aqui em Michigan, o aborto é permitido).

Enfim, está sendo ótimo poder ampliar meus horizontes em saúde da mulher. Saúde reprodutiva vai muito além do microcosmo da dificuldade de gravidez. Sim. Há muitas mulheres pelo mundo sofrendo de infertilidade. É preciso olhar por elas. Mas há também milhares de outras morrendo (muitas vezes juntamente com seus bebês) de causas totalmente evitáveis. E não dá para se calar diante disso.

Escrito por Cláudia Collucci às 00h50
News from Michigan

Queridas, a mensagem é só para dizer que estou sobrevivendo ao frio estúpido que faz por aqui, em Ann Arbor (Michigan). As temperaturas têm variado entre 5 e 20 negativos... Em breve terei novidades. Estou mantendo contatos com professores do Instituto da Mulher da Universidade de Michigan e eles estão desenvolvendo pesquisas bem interessantes na área de infertilidade. Ainda estou tomando pé da situação e fazendo a minha agenda de cursos que farei por aqui. Manterei vocês informadas. 

Escrito por Cláudia Collucci às 23h41

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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