A FIV e a cobertura da mídia

Por falar em geração FIV, assisti ontem uma conferência muito bacana sobre a história da FIV nos EUA, as imensas repercussões que houve na época do nascimento do primeiro bebê de proveta americano, quase 30 anos atrás. Um dos pontos que me chamaram a atenção foi como a imprensa americana teve um papel fundamental em construir no imaginário popular essa visão de "ilha da fantasia" em torno da FIV, ignorando os riscos, os altos custos, as baixas taxas de sucesso, os dilemas bioéticos e o estresse emocional enfrentado pelos casais durante o procedimento.

Outro assunto abordado foi a criação, também pela mídia americana, do mito de que estamos vivendo uma epidemia de infertilidade. Estudos mostram que, na realidade, o principal fator está relacionado ao natural envelhecimento da população. Proporcionalmente, temos mais mulheres acima dos 40 anos hoje do que tínhamos no passado. E também, proporcionalmente, temos mais mulheres nessa faixa etária que, por diversas razões, ainda não são mães.

Os mesmos questionamentos sobre a postura da mídia poderiam ser replicados no Brasil. Ainda hoje, algumas assessorias de imprensa de clínicas de reprodução tentam emplacar nas redações pautas que não se sustentam, apoiadas no "achômetro" ou em estudos pobres sob o critério da evidência científica. E, não raras as vezes, alguns jornalistas ainda caem nessa conversa. A última que recebi dizia respeito a um suposto de aumento de procura por doação de óvulos.

Os meus argumentos para derrubar a pauta foram: 

1 - Não há nenhum estudo científico sério apontando esse aumento.

2 - Há uma maior procura ou as clínicas de reprodução estão sugerindo essa opção com mais frequência às pacientes? Basta a mulher ter passado dos 40 anos, quando caem as chances de engravidar com seus próprios óvulos, que essa é uma sugestão natural de alguns médicos. É claro que óvulos mais jovens aumentam as chances de gravidez. Mas a que preço? Dificilmente é conversado com o casal as complexidades dessa decisão, como o direito dessa criança saber das origens genéticas, que começa a se tornar realidade em muitos países.

3 - Diferentemente do sêmen, cuja a técnica de congelamento já está consagrada, a criopreservação de óvulos ainda está na fase experimental e, de acordo com a sociedades internacionais de reprodução, só deve ser indicada em casos de tratamentos médicos que podem deixar a mulher estéril. A taxa de nascidos vivos com óvulos congelados ainda mínima. Ou seja, essa história de banco de óvulos para uso na prática clínica é ainda ficção.

4 - A doação de sêmen não envolve riscos, como a de óvulos, que necessita que a doadora tome medicamentos hormonais e depois se submeta a um procedimento cirúrgico para a retirada dos gametas. Então, ninguém faz isso por generosidade. Aqui, nos EUA, as mulheres vendem seus óvulos porque a legislação permite. No Brasil, os médicos brasileiros chamam isso de "doação compartilhada". Ou seja, a  mulher mais velha paga o tratamento da mulher mais jovem e, em troca, ganha parte dos seus óvulos. É um procedimento questionável do ponto de vista ético, pois pode ser configurado um comércio de gametas, o que é proibido no país. Ainda assim, o Conselho Federal de Medicina já deu parecer favorável a uma consulta desse tipo, feita por um hospital público no Distrito Federal.

Ou seja, cada vez mais é preciso ter critérios científicos, discernimento e conhecimento para tratar desse assunto com a seriedade que não só ele mas todos os outros procedimentos médicos exigem. E aproveitando o gancho, tenho uma ótima notícia para vocês: tornei-me membro da Associação Americana de Jornalistas de Saúde, instituição essa que tem sido um exemplo na promoção de jornalismo de saúde de qualidade.Sorriso

 

 

Escrito por Cláudia Collucci às 14h51
Geração FIV

 

Continuam a surgir estudos sobre a evolução física e psicológica das crianças nascidas através de FIV. Se numa fase inicial, como é sabido, era comum dizer-se que não existia qualquer diferença ou risco no uso da FIV, nos últimos anos tem sido possível chegar a resultados mais concretos.
No mês passado, a revista oficial da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (Fertility and Sterility) publicou um trabalho que analisava quase duas centenas de crianças nascidas através de FIV, agora com idades entre os 18 e os 26 anos.

Os resultados,  geralmente satisfatórios, revelam uma propensão acrescida para problemas psicológicos (sobretudo déficit de atenção e hiperatividade) e uma incidência maior de alguns problemas congênitos.

Trata-se realmente de uma área onde há muito para fazer e para conhecer, pois não estamos sequer em posição de compreender e isolar propriamente cada uma das causas e das consequências, entre os procedimentos relacionados com a FIV, os fatores relacionados com a gravidez e a frequência de múltiplos, a especificidade dos casais que recorrem à FIV ou mesmo a influência de aspectos sócio-educativos. O estudo original pode ser consultado aqui.

PS - Agradeço meus colegas da Associação Portuguesa de Fertilidade pela contribuição

 

Escrito por Cláudia Collucci às 15h05
Venda de óvulos sofre restrição nos EUA

 

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O Senado norte-americano votou na semana passada um projeto que coloca restrições na venda de óvulos e que obriga as clínicas a informarem melhor as doadoras dos riscos que elas pode correr durante o procedimento de estimulação ovariana (efeitos colaterais dos hormônios) e de coleta de óvulos (possíveis problemas durante o procedimento cirúrgico). E também determina que as mulheres sejam informadas de que podem existir outros riscos ainda não conhecidos porque o processo de doação ainda é pouco estudado em relação a outros procedimentos e tratamentos médicos.

A proposta original do projeto, da senadora Linda Gray, tornava ilegal a compra de óvulos humanos em qualquer circunstância, limitando a compensação apenas a custos médicos, viagem e outras despesas menores. O projeto aprovado permite que a doadora receba compensação financeira se o propósito for, unicamente, de ajudar um casal infértil. Mas se o objetivo for outro, até mesmo para pesquisa médica, pode resultar em prisão de até seis meses. Bem subjetivo, digamos assim.

A venda de sêmen, no entanto, não sofreu nenhuma restrição, o que foi motivo de acaloradas discussões, especialmente da senadora Linda Lopez, que considerou o projeto preconceituoso. Ela defendeu que no termo de consentimento informado os doadores de sêmen também sejam informados, por exemplo, de que, do ponto de vista legal, podme ser obrigados a dar pensão a seus filhos biológicos, mesmo que a doação tenha sido feita de forma anônima.

O projeto da senadora Gray recebeu suporte da médica Jennifer Schneider. Para ela, as mulheres doadoras de óvulos não são informadas sobre o risco que correm com essa prática. É bom lembrar que nos EUA há um comércio livre de óvulos e espermatozoides. É muito comum ver anúncios de garotas lindas, universitárias, querendo vender seus óvulos, quase como um "bico" para ajudar nos estudos. Outras são profissionais no assunto, fazem uma estimulação atrás da outra.

Em uma entrevista ao serviço de imprensa do congresso americano, Schneider discutiu sobre a morte da sua filha, aos 31 anos, de câncer de colon e sugeriu que a doença pode ter sido desencadeada por conta dos hormônios que ela tomou, em três ocasiões diferentes, para vender seus óvulos. Mas ela admite que não tem como saber porque não existem estudos nessa área. "Doadoras de óvulos nunca são seguidas. Ninguém sabe se há algum risco real." Neste ponto, concordo com ela. Realmente ainda não sabemos os reais riscos que as estimulações ovarianas podem acarretar a longo prazo. E isso deve sim constar no termo de consentimento informado.

Escrito por Cláudia Collucci às 14h37
As discussões bioéticas em reprodução assistida

Ontem visitei o centro de reprodução assistida ligado à Universidade de Michigan. Em tecnologia, é muito semelhante às melhores clínicas brasileiras. A diferença fica na maior dedicação à pesquisa científica, o que é natural em um serviço universitário. Eles têm conseguido resultados importantes na criopreservação de gametas e embriões e na criação de meios que melhorem a qualidade de crescimento dos embriões no período em que ficam no meio de cultura, ou seja, entre a fecundação e a transferência para o útero.

Mas o que mais me chamou a atenção foi encontrar pessoas, como a médica Senait Fisseba, que, além da excelência em endocrinologia da reprodução, divide comigo as mesmas preocupações bioéticas. Estávamos conversando sobre alguns absurdos comuns que acontecem tanto aqui, nos EUA, como no Brasil. Muitas vezes, resultantes de questões pautadas unicamente no interesse comercial das clínicas e não em evidência científica.

Vejamos algumas dessas importantes questões:

1 - Criopreservação de óvulos - É extremamente condenável por todas as sociedades médicas de reprodução assistida do mundo que as clínicas vendam a ideia de que as mulheres jovens e sem parceiros congelem seus óvulos hoje para garantir uma gravidez futura. As chances de nascimento de um bebê por meio dessa técnica ainda são muito pequenas. Ela é ainda considerada experimental e indicada SOMENTE a mulheres que vão passar por tratamentos, como a quimioterapia, que podem afetar irreversivelmente a sua fertilidade.

2 - Taxas de gravidez - Na falta de uma fiscalização séria, muitas clínicas fazem propaganda enganosa dos seus resultados, prometendo chances de gravidez muito acima do que mostram os estudos sérios, controlados cientificamente. Não há milagres. Os índices reais continuam sendo 35%, em média, para mulheres com menos de 40 anos. Acima dessa idade, as chances caem ainda mais. Tanto que, para Fisseba, se o casal não tiver outro problema de fertilidade, é melhor que tentem a gravidez natural em casa porque as possibilidades serão bem parecidas com as obtidas pela FIV nessa faixa etária.

3 - Riscos - Todo procedimento de fertilização in vitro envolve riscos, por menores que sejam _como todo procedimento médico. Há riscos durante o processo de estimulação (de uma hiperestimulação ovariana, por exemplo), de retirada de óvulos (de perfuração de órgãos, por exemplo), de abortos espontâneos (vários estudos mostram que o risco de aborto na FIV é um pouco maior do que nas gravidezes naturais) e de bebês natimortos ou com maior risco de malformações genéticas (especialmente na ICSI, injeção intracitoplasmática de espermatozoides. Os estudos ainda são inconclusivos. Não sabem dizer se risco está relacionado à técnica ou a problemas desses casais inférteis).

4 - Testes genéticos - O diagnóstico pré-implantacional, que foi criado com o objetivo de evitar a transmissão de doenças genéticas específicas, é controverso quando indicado para mulheres acima dos 40 anos, que têm mais chances de gerar bebês com malformações. Além de não detectar todas as anomalias, o embrião pode ser destruído no processo de retirada de células para análise cromossômica. Também já existem estudos demonstrando que essa interferência pode levar a doenças futuras no bebê. Ou seja, haveria mais riscos do que benefícios e, por isso, só casais que realmente têm histórico familiar de doenças hereditárias deveriam ter indicação para fazer esse teste.

5 - Estresse emocional - Os médicos ainda dão pouco, ou nenhuma, atenção ao estresse emocional que os casais, especialmente as mulheres, vivem durante as tentativas de gravidez. Quando o tratamento não dá certo ou quando ocorre um aborto, as mulheres se sentem completamente desamparadas. Dificilmente há um vínculo entre médico e paciente nas clínicas de reprodução e poucas dispõem de psicólogos treinados para dar o suporte emocional que o casal necessita nesse processo.

6 - Consentimento informado - Os termos de consentimento informado, que o casal assina antes de iniciar o tratamento de fertilização in vitro, não traduz a realidade dos riscos e das reais expectativas envolvidas no processo. 

Passaria mais algumas horas enumerando outros pormenores. O importante, porém, é que cada vez mais os avanços científicos e tecnológicos sejam acompanhados por um debate pautado na bioética. E o bem-estar do paciente, que não necessariamente se traduz em uma gravidez a qualquer preço, é peça fundamental nesse contexto.

Escrito por Cláudia Collucci às 11h57

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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