Ótima mãe até ter filhos

Tem um livro que ficou mofando nos últimos meses na minha mesa por duas razões: torço o nariz para livros de auto-ajuda e, em geral, após um aborto, livro sobre filhos não é o tipo de literatura muito bem-vinda. Mas nesta semana resolvi folheá-lo e não é gostei!

Eu Era Uma Ótima Mãe Até Ter Filhos, de Trisha Ashworth e Amy Nobile, da editora Sextante, é divertido e uma boa opção de leitura tanto para as que já são mães quanto paras as que estão se preparando para sê-lo.

A obra trata de um tema que, nós, deste lado do balcão, já desconfiávamos: a maternidade é um "pouco" mais complicada do que imaginávamos. Uma vez vencida as dificuldades de gravidez, temos os nossos filhos e daí? Daí vem aquela ideia de que podemos e devemos fazer tudo por eles, caminho que leva às mais insanas expectativas.

Munidas de uma grande dose de bom humor, as autoras levantam uma série de questões que assolam as mães modernas, em sua maioria desesperadas para cumprir suas 1.001 funções com perfeição. Amigas há mais de uma década, Trisha Ashworth e Amy Nobile perceberam que, após o nascimento dos seus filhos, elas não conseguiam deixar de se perguntar se eram mães suficientemente boas, de questionar suas escolhas e de se engalfinhar com a culpa em relação a quase tudo o que dizia respeito a eles.

Assim, decidiram sair em campo e descobrir se outras mulheres também se angustiavam com essas questões. Depois de realizarem mais de 100 entrevistas, constataram que não estavam sozinhas nesse barco. Viram que, embora as mães modernas amem seus filhos, elas estão sobrecarregadas, sentem culpa por tudo, acham que são pressionadas além da conta, têm a sensação de que estão descontroladas e perderam sua identidade de vista.

Para as autoras, o primeiro passo para a mulher que deseja exercer a função da maternidade com paz e equilíbrio é ser franca e aposentar a idéia de que ela pode e deve cuidar de todas as coisas, e de forma irretocável. Libertando-se dessa meta inalcançável, talvez seja capaz de controlar suas expectativas exageradas. E, sendo mais sensata e realista, deixar de se condenar e também de fazer isso com outras mães.

Uma das entrevistadas disse: “Amo ser mãe, apenas odeio a maternidade.” Para Trisha e Amy, muitas mães sentem isso porque, do modo como definem a maternidade, ela se transforma numa tarefa impossível. Essas mulheres acabam sendo vítimas da exaustão arrasadora que as faz se sentir como hamsters girando sem parar em suas rodinhas.

Por isso é necessário que aprendam a tomar atitudes como dizer não e cuidar de si mesmas e de seus maridos. Devem, principalmente, ser sinceras para que possam fazer escolhas conscientes com base nos seus próprios valores, e não nas expectativas que outras pessoas têm a seu respeito. Bom, está aí uma dica de leitura para o fim de semana! 

 

Livro - Eu Era uma Ótima Mãe Até Ter Filhos

 

Escrito por Cláudia Collucci às 10h53
Chocolate para a madrinha

Minha sobrinha e afilhada Sophia me ligou ontem pedindo um presente para o seu 4º aniversário, na próxima semana:

- Cacau, quero uma coroazinha de "pincesa". Cor de rosa e com luzinhas "cololidas".

Obviamente ela esqueceu que já ganhou o presente de aniversário 15 dias atrás, mas quem sou eu para negar uma coroa a uma princesinha que vive no mundo da fantasia?

Sophia adora brincar de mamãe e filhinha, mas sempre invertendo os papéis. Ela é a mamãe e eu sou a filhinha. Faz-me deitar na cama e começa a contar histórias. Pára na metade e já é hora de comer a comidinha de mentira. Logo em seguida, é a vez da lição de casa, do pique-esconde e por aí vai...

A filhinha quarentona reclama: "ai mamãe, tô cansada! Vamos tirar uma soneca?"

A pequena topa. Ufa! Pega a "peta" (as negociações para largar a chupeta estão intensas, mas ela ainda não abre mão do acessório na hora de dormir) e se aninha pertinho de mim.

- Cacau, eu vou tentar sonhar com você, diz ela.

- Tá bem, minha querida, durma com os anjinhos e tenha sonhos muito lindos.

Silêncio

- Cacau, eu amo você!

- Eu também te amo muito!

- Cacau, eu já cantei prá você a musiquinha da borboletinha. É assim ó: Borboletinha, tá na cozinha, fazendo chocolate para a madrinha...

Hoje achei a musiquinha no "Youtube" http://www.youtube.com/watch?v=28iW_O5qWfU

E dentro de mim estourou uma bolha de saudade da princesa Sophia.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h12
A "coisa" que não queremos sentir

"Sou feliz, sou amada, tenho uma vida plena e interessante, mas sinto essa "coisa" de quando em quando... uma pena. Queria não sentir."

Este trecho da mensagem da Giseli me tocou. A "coisa" a que ela se refere é o vazio que às vezes bate pela maternidade não realizada, um sentimento, aliás, bem conhecido por nós. Mas entendo que essa "coisa" vai muito além e esbarra em um denominador comum: a dificuldade de lidarmos com as frustações, com aquilo que foge ao nosso controle.

Fiz essa associação ao lembrar da conversa que tive no último final de semana com a minha sobrinha de 12 anos, às voltas com sua primeira "paixão". Aos prantos, ela repetiu exatamente a mesma frase da Giseli: "Eu não queria sentir isso, Cacau!". Está insegura porque o "escolhido" é o garoto mais bonito da sala, alvo de 100% das meninas. E ela sofre porque acha que não terá chances. "Na minha sala, existem outras meninas muito mais bonitas do que eu", disse, ainda chorando. É incrível como essas histórias se repetem... 

Quis pegar no colo a minha menininha_que, aliás, já tem corpo de mulher, usa as minhas roupas e os meus sapatos_, mas ela está naquela fase arredia a carinhos. Então apenas deitei-me ao seu lado, reforcei os valores dela e falei um pouco dessas inseguranças que habitam o universo feminino desde que o mundo é mundo. Contei também que na idade dela (na verdade, eu era ainda mais nova, tinha 10 anos!) fui apaixonada por um garoto da escola, o Nivaldo, também disputado por várias meninas.

Uma delas, a Rosana, era minha melhor amiga. Vivíamos escrevendo "Nivaldo, eu te amo" em todos os lugares, até debaixo das mesas e cadeiras! E o moleque, assustado, vivia fugindo da gente. Minha paixão pelo Nivaldo acabou no dia em que a Rosana morreu, afogada, na represa de Furnas. Anos depois, morreu também o Nivaldo em um acidente de moto. Mas é claro que não contei esse final trágico da história para não traumatizar a minha pequena.

O fato é que essas duas associações improváveis, a dor de uma paixão não correspondida e a dor pelo filho que ainda não veio, levou-me a várias indagações. O que acontece com nós mulheres? Parece que desde a mais tenra idade somos instigadas a correr atrás de um "objeto do desejo" inatingível. Por mais que tenhamos, que conquistamos, parece que nunca é o bastante. De quando em quando, vem a "coisa" a atormentar. 

Hoje não tenho dúvida de que a "coisa" não se resolve com um filho. A dor da infertilidade é tão forte e, ao mesmo tempo, o mito da maternidade é tão sedutor, que muitas vezes nos deixamos enganar pelo canto da sereia, imaginando que um filho virá para resolver todos os problemas. Nossos medos, nossa solidão mais intrínseca. Um filho pode atenuá-los, mas dificilmente tem o poder de resolvê-los. Ainda bem. Já imaginaram o tamanho da responsabilidade deste bebê?

Mas às vezes a vida nos ensina a aceitar as coisas simplesmente como elas são. Aprendi isso ano passado, após sofrer meu segundo aborto. Por vários dias, perguntei-me o porquê do mesmo raio ter caído duas vezes sob minha cabeça. Meu luto acabou três semanas depois, quando recebi o resultado do teste genético do feto: trissomia do cromossomo 18, uma doença genética gravíssima, que em 95% dos casos leva ao aborto. Os 5% dos bebês que sobrevivem ao nascimento, morrem nos primeiros anos de vida devido às múltiplas má-formações. Na mesma hora, agradeci ao Universo por ter me poupado de maiores sofrimentos. E lembrei-me, de novo, daquela lenda budista que já postei aqui: boa sorte? má sorte? quem poderá dizer?


 

Escrito por Cláudia Collucci às 21h11
12 regras de "etiqueta" na infertilidade

 

 

- E vocês, heim? Quando vão se animar e fazer um bebê? pergunta uma colega desavisada.

Minha amiga dá uma risadinha, diz que "tem tempo", quer "aproveitar mais a vida antes de ter filhos" e muda de assunto.

Eu que sei que essa amiga tenta há três anos ter um bebê, com duas fertilizações in vitro fracassadas, fiquei a me perguntar: Por que as pessoas não se emendam? Tudo bem, ninguém é obrigado a adivinhar que o outro esteja enfrentando problemas de infertilidade, mas, no mínimo, abstenha-se de comentários infelizes e inúteis deste tipo. Mesmo para quem não tenha planos de gravidez, essa é uma pergunta não faz o menor sentido.

Lembrei, então, de um guia que foi publicado anos atrás pela National Infertility Association (http://www.resolve.org/) e, depois, reproduzido pelas "Amigas do Parto" (http://www.amigasdoparto.org.br/). É uma espécie de "manual de etiqueta" da infertilidade. Algumas das regras básicas:

1 - Não diga a eles para relaxar

Todo mundo conhece alguém que teve problemas para engravidar, mas que finalmente conseguiu logo que ela "relaxou". Casais que conseguem engravidar após alguns meses de "relaxamento" não são inférteis. Por definição, um casal não é diagnosticado como infértil até que tenha tentado sem sucesso engravidar por um ano completo. Comentários como "apenas relaxe" ou "por que vocês não fazem uma viagem" criam ainda mais estresse para o casal infértil, especialmente para a mulher. Ela sente que está fazendo alguma coisa errada, quando, na verdade, há uma boa chance de que haja um problema físico que a esteja impedindo de engravidar.

2 - Não minimize o problema

A falha em conceber um bebê é uma jornada muito dolorosa. Os casais inférteis estão cercados de famílias com crianças. Estes casais vêem seus amigos terem dois ou três filhos, e vêem estas crianças crescerem enquanto voltam para o silêncio de suas casas. Estes casais vêem toda a alegria que uma criança traz para a vida de uma pessoa, e sentem o vazio de não serem capazes de experimentar a mesma alegria.

3 - Não diga que há coisas piores que poderiam acontecer

Nestes mesmos termos, não diga a seus amigos que há coisas piores que poderiam acontecer do que o que eles estão passando. Quem é a autoridade final sobre qual é a "pior" coisa que poderia acontecer a alguém? É passar por um divórcio? Ver alguém querido morrer? Ser estuprada? Perder um emprego?

4 - Não diga que eles não foram feitos para ser pais

Uma das coisas mais cruéis que alguém já me disse foi: ‘Talvez Deus não queira que você seja mãe". Quão inacreditavelmente insensível é insinuar que eu seria uma mãe tão ruim que Deus achou melhor me "esterilizar divinamente". Se Deus estivesse no ramo da esterilização das mulheres no plano divino, você não acha que ele preveniria as gravidezes que terminam em abortos? Ou então não esterilizaria as mulheres que terminam por negligenciar e abusar de seus filhos? Mesmo que você não seja religioso, os comentários do tipo "talvez não seja para ser" não são reconfortantes. A infertilidade é uma condição médica, não uma punição de Deus ou da Mãe Natureza.

5 - Não pergunte porque eles não tentam a FIV (Fertilização in vitro)

As pessoas freqüentemente perguntam, "Por que você não simplesmente tenta a FIV?‘ da mesma maneira casual como perguntariam "Por que você não tenta comprar numa outra loja?" Há muitas razões pelas quais um casal escolheria NÃO ir por este caminho. Aqui estão algumas delas.

- A FIV é cara e com baixas possibilidades

- A FIV é fisicamente difícil

- A FIV traz questões éticas

Um casal que escolha passar pela FIV tem um caminho difícil e caro pela frente, e eles precisam de seu apoio mais do que nunca. Os hormônios não são brincadeira, e o custo financeiro é imenso. Seus amigos não estariam escolhendo esta rota se houvesse um caminho mais fácil, e o fato de estarem dispostos a suportar tanto é mais uma prova do quanto desejam se tornar pais de uma criança. Os hormônios tornarão a mulher mais emotiva, então ofereça seu apoio e mantenha suas perguntas para você.

6 - Não brinque de médico

Uma vez que seus amigos estejam sob os cuidados de um médico, o médico fará inúmeros testes para determinar porque eles não conseguem engravidar. Há muitas razões pelas quais um casal não consegue engravidar. Aqui estão algumas delas:

. Trompas de Falópio bloqueadas

. Cistos

. Endometriose

. Baixos níveis hormonais

. Baixa contagem de esperma de "formas normais"

. Baixo nível de progesterona

. Baixa contagem de espermatozóides

. Baixa Mobilidade dos Espermatozóides

. Paredes uterinas finas

7 - Não seja grosseiro

É horrível que eu tenha que incluir este parágrafo, mas alguns de vocês precisam ouvir isso ­ não faça piadas grosseiras sobre a posição vulnerável de seus amigos. Comentários grosseiros do tipo "Eu doarei o esperma‘ ou ‘Tenha certeza de que o médico usará o seu esperma mesmo para a inseminação‘ não são engraçados, e apenas irritam seus amigos.

8 -Não reclame da sua gravidez

Esta mensagem é para as mulheres grávidas ­ apenas estar ao seu redor já é muito doloroso para suas amigas inférteis. Ver sua barriga crescer é um lembrete constante do que sua amiga não pode ter. A não ser que a mulher com problemas de infertilidade planeje passar o resto de sua vida numa caverna, ela deve encontrar uma maneira de interagir com mulheres grávidas. Compreenda as emoções de sua amiga infértil, e dê a ela a permissão de que precisa para ficar feliz por você, enquanto ela chora por ela mesma. Se ela não conseguir segurar seu bebê recém nascido, dê tempo a ela. Ela não está rejeitando você ou o bebê; ela está apenas tentando trabalhar a dor que sente antes demonstrar a sincera felicidade que sente por você. O fato de que ela esteja disposta a sentir esta dor para celebrar a chegada de seu novo bebê fala muito sobre o quanto a sua amizade significa para ela.

9 - Não os trate como se fossem ignorantes

Por alguma razão, as pessoas parecem pensar que a infertilidade faz com que os casais se tornem irrealistas sobre as responsabilidades de ser pais. Eu não entendo a lógica, mas muitas pessoas me disseram que eu não me importaria muito com um filho se eu soubesse a responsabilidade que estava envolvida em ser mãe. Vamos encarar ­ ninguém pode saber realmente as responsabilidades envolvidas em ser pais até que sejam, eles mesmos, pais. Isto é verdade quer você tenha conseguido conceber após um mês ou dez anos. A quantidade de tempo que você passa esperando por este bebê não influencia na sua percepção de responsabilidade. Mais ainda, as pessoas que passam mais tempo tentando engravidar têm mais tempo para pensar nestas responsabilidades. Elas provavelmente também já estiveram perto de muitos bebês enquanto seus amigos iniciavam suas famílias.

10 - Não insista na idéia de adoção (ainda)

A adoção é uma maneira maravilhosa de casais inférteis se tornarem pais. Entretanto, o casal precisa resolver várias questões antes de estarem prontos para se decidir pela adoção. Antes que eles possam tomar a decisão de amar o "bebê de um estranho", eles precisam primeiro passar pelo luto do bebê que teria os olhos do papai e o nariz da mamãe. Os assistentes sociais que trabalham com adoção reconhecem a importância deste processo de luto. Você precisa, de fato, superar esta perda antes de estar pronto para o processo de adoção. O processo de adoção é muito longo, e não é uma estrada fácil. Por isso, o casal precisa ter certeza de que pode abrir mão da esperança de um filho biológico e que pode amar uma criança adotada. Isto leva tempo, e alguns casais jamais poderão chegar a este ponto. Se seus amigos não puderem amar um bebê que não seja o deles, então a adoção não é a decisão mais acertada para eles, e certamente não é a decisão mais acertada para o bebê.

11 - Deixe que eles saibam que você se importa com eles

A melhor coisa que você pode fazer é mostrar aos seus amigos inférteis que você se preocupa com eles. Mande cartões. Deixe-os chorar em seu ombro. Se eles são religiosos, deixe que eles saibam que você está rezando por eles. Ofereça o mesmo apoio que você ofereceria a um amigo que acabou de perder um ente querido. Apenas o fato de saberem que podem contar com você diminui o peso da jornada e faz com que eles saibam que eles não vão passar por isto sozinhos.

12 - Apóie a decisão deles de parar com os tratamentos

Nenhum casal pode suportar tratamentos de infertilidade para sempre. Em algum ponto, eles vão parar. Esta é uma decisão agonizante para se tomar, e envolve ainda mais dor. Uma vez que o casal tenha tomado a decisão, simplesmente o apoie. Não os encoraje a tentar novamente, e não os desencoraje da adoção, se esta for a opção deles. Uma vez que o casal tenha atingido esta resolução (que seja viver sem filhos ou adotar uma criança), eles poderão finalmente encerrar este capítulo. Não tente abri-lo de novo.

 

 

 

Escrito por Cláudia Collucci às 13h31

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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