Pais trocam experiência sobre gravidez com óvulos doados

 

Uma amiga inglesa sugeriu-me um interessante site http://www.donor-conception-network.org/ que reúne experiências de pais que recorreram à ovodoação. Há também depoimentos de filhos gerados por meio desse procedimento. Todo ano nascem no Reino Unido cerca de 2.200 crianças que foram concebidas com gametas doados.

Para os pais com as crianças concebidas dessa forma, há uma questão importante: contar ou não contar aos filhos, outros membros da família ou amigos sobre o tratamento.

Essa rede virtual começou em 1993 por pais que tinham decidido contar aos filhos sobre suas origens e que se juntaram para apoiar uns aos outros.

"Consideramos que nossos filhos precisam crescer com o conhecimento de como eles foram concebidos. Em nossa opinião, o segredo que os médicos costumam sugerir não representa o melhor conselho", diz o grupo.

Para eles, quanto mais cedo começar a falar sobre o assunto, melhor. "O sigilo sobre um assunto tão importante como a própria origem é uma base precária para uma relação familiar duradoura e amorosa."

Um dos depoimentos é de Susannah (ou Zannah como ela prefere ser chamada), 23, filha dos fundadores do site, Montushi Olivia e Walter Merricks, que foi gerada com esperma doado. Leia abaixo:

 

 

 

"Não me lembro do momento específico em que me foi dito (sobre o fato de ter sido gerada com esperma doado). Nunca houve um momento em que meus pais me sentaram e disseram isso. A informação sempre presente e eu aceitei-a como completamente normal. Foi sempre um tema aberto em casa, eu podia fazer perguntas quando quisesse. Não tem sido um grande problema na minha vida, eu não penso sobre isso o tempo todo.

Eu nunca me senti envergonhada com isso. Sempre me senti especial e interessante. Gostava de ser diferente. Nunca houve uma pergunta sobre quem é meu pai. Parece estúpido para mim. Pai é alguém que ama você, não a pessoa que forneceu o esperma para fazê-lo. Eu sempre soube desde a mais tenra idade que 'papai' significa amor, e não esperma.

Isso não se alterou durante a puberdade. Na verdade, só quando eu vim a conhecer e compreender os homens e rapazes é que percebi a pessoa fantástica que é meu pai. Senti mais amor e respeito por ele ter sido capaz de enfrentar a sua infertilidade. É preciso ser um verdadeiro homem para fazer isso.

Penso que a forma de conduzir uma conversa sobre a doação de gametas em uma família deva ser aberta e sem vergonha sobre sua decisão. Os pais têm que deixar de lado seus próprios sentimentos e focar nas necessidades de seus filhos.

Os meus pais conseguiram fazer isso e eu os respeito por isso. Posso confiar neles totalmente. Acho que se eu fosse descobrir isso tudo agora, seria muito pior. Esconder parece significar algo ruim, algo que se deve envergonhar.

Acho que a concepção por meio de doadores é uma maneira completamente aceitável para se criar uma família. Mas deve ser feita se e somente se os pais estiverem preparados para ser honestos com seus filhos. É um direito humano ter a opção de saber de onde você veio."

Escrito por Cláudia Collucci às 19h58
Estudo aponta risco maior de câncer em bebês nascidos por FIV

Mais um estudo inconclusivo mostra que crianças concebidas por meio da Fertilização in vitro (FIV) têm um risco mais elevado de câncer. Dessa vez o trabalho vem da Suécia e tem uma base de dados considerável: 26.692 crianças que nasceram entre 1982 e 2005.

Segundo o estudo, as crianças geradas por FIV tiveram um risco 1,5 vez maior de ter câncer hematológico e tumores no sistema nervoso central em relação ao resto da população. Foram 53 casos de tumores entre os bebês de proveta, contra 38 entre a população infantil concebida naturalmente.

Não se sabe, porém, se o problema é da técnica ou se está relacionado ao fato de que muitas das crianças geradas por FIV apresentam baixo peso ao nascer _especialmente os múltiplos_ e índice de Apgar baixo. Os autores afirmam que estudos adicionais sobre grandes populações são necessários para estabelecer melhor essa relação entre a FIV e o câncer.

O que me intriga nesses estudos é justamente essa inconclusão. Não bastasse o sofrimento causado pela dificuldade de gravidez e pelos tratamentos de reprodução assistida, volta e meia aparecem esses trabalhos para colocar mais pulga atrás da orelha.

Não acho que devemos ignorá-los, até porque é sabido que, em termos de história da medicina e da ciência, a FIV, 32 anos, é ainda uma técnica nova. Alguns especialistas dizem que é preciso estudar, no mínimo, duas ou três gerações para dizer se a FIV/ICSI é ou não 100% segura em relação a possíveis doenças "transmitidas" aos bebês nascidos por meio dela.

Por outro lado, é necessário olhar esses estudos com calma e sem alarde. No caso do trabalho sueco, os prórpios autores dizem que os resultados dizem respeito apenas àquela população, não pode ser estendido a de outros países. Se estão certos ou não, só a história dirá.

Escrito por Cláudia Collucci às 15h13
Álcool na gravidez aumenta risco de depressão

O consumo de álcool na gravidez está relacionado a sofrimento psiquiátrico durante e após a gestação. Segundo o estudo "Uso de álcool na gestação e sua relação com sintomas depressivos no pós-parto", da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto (FMRP), há uma associação entre a ingestão de bebidas alcoólicas e o aumento de sintomas depressivos na gravidez e no pós-parto.

A psicóloga Poliana Patrício Aliane, autora do estudo, afirma que não há uma única causa para a depressão em gestantes. “São vários fatores de risco que contribuem para o problema”, descreve. “Pré-disposição genética, insatisfação na vida pessoal ou na relação conjugal são alguns desses fatores, e o consumo de álcool vem se juntar a eles”, explica.

A pesquisa também indica uma maior prevalência de depressão pós-parto entre as mulheres que tiveram ao menos um "binge" alcoólico durante a gravidez. O binge é caracterizado pela ingestão de cinco ou mais doses alcoólicas em uma única ocasião, sendo que uma dose contém 12 gramas de álcool puro. “Uma lata de cerveja, por exemplo, contém uma dose de álcool”, descreve Poliana.

O estudo trabalhou na análise de um grupo de 177 grávidas. A média de consumo encontrada por gestante foi de 163,7 gramas de álcool ou quase 14 doses ao longo dos nove meses de gestação. “Essa é uma quantia elevada se levarmos em conta que o recomendado é que não se consuma nada”, explica Poliana, que ressalta: “Qualquer consumo já impõe risco à saúde do bebê. Não existe um valor mínimo de segurança”.

Outro novo fator encontrado foi um predomínio de sintomas depressivos ao longo da gestação, e não no pós-parto. Do total de gestantes, aproximadamente 20% apresentaram sintomas de depressão durante a gravidez, ante 14,7% que se mostraram deprimidas no pós-parto.

Escrito por Cláudia Collucci às 19h07
Congelamento de óvulos não é solução para o adiamento da maternidade

 

A notícia de que o Instituto Valenciano, na Espanha, o maior centro de reprodução assistida do mundo, conseguiu as mesmas taxas de gravidez com óvulos congelados e óvulos frescos foi recebida com grande entusiasmo pela classe médica.

Os bons resultados estão ligados diretamente à técnica de congelamento. Até bem pouco tempo atrás, com o congelamento lento, cristais de gelo se acumulavam no óvulo, matando-o. A cada 25 submetidos ao processo, só um resistia.

Com a técnica nova, a vitrificação, os óvulos são congelados em menos de um minuto e, com isso, evita-se a formação de gelo no óvulo. O resultado é visto como o primeiro passo para estimular a criação de bancos de óvulos, semelhantes aos de sêmen.

Para os médicos, essa nova realidade poderá beneficiar mulheres que pretendem adiar a gestação, mulheres em tratamento de câncer que querem preservar a fertilidade e aquelas que querem doar óvulos depois de passar pelo processo de reprodução assistida.

No entanto, é preciso cautela ao ler essas notícias. Embora as taxas de gravidez com vitrificação tenham aumentado exponenciamente nos últimos anos, isso ainda não se refletiu no percentual de bebês nascidos vivos. Estudos recentes têm demonstrado que os índices variam de 8% (mulheres com mais de 40 anos) a 13% (abaixo dos 40 anos).

Com a FIV tradicional, o percentual médio de bebês no berço, como costumam dizer os médicos, é de 50%, segundo uma revisão de estudos publicada no mês passado. Em mulheres acima de 40 anos, as taxas variaram de 20% a 40%.

Outra questão que preocupa é a falta de estudos controlados que atestem a segurança do uso de óvulos congelados. Alguns trabalhos já sugeriram que há um risco aumentado de malformação fetal, outros concluíram o contrário. A controvérsia persiste.

A primeira gravidez com óvulos congelados data de 1986. De lá para cá, a técnica de congelamento evoluiu bastante, mas ainda hoje é considerada experimental e só indicada a mulheres que vão passar por processos de quimioterapia e que, portanto, podem ficar estéreis.

As clínicas de reprodução veem neste mercado um grande filão. Não raras as vezes vendem a ideia de que mulheres jovens e sem parceiros devam congelar seus óvulos para uma gravidez futura. Sabe-se que, a partir dos 35 anos, em razão do envelhecimento natural dos óvulos, as chances de gravidez são cada ano menores.

O apelo é grande e, é claro, as mulheres têm livre arbítrio para congelar seus gametas _e pagar uma quantia alta por isso. Mas que fique o alerta recente da Sociedade Britânica de Fertilidade: ‘a técnica de vitrificação não é solução para o adiamento da maternidade. Ainda é preciso conhecê-la mais e melhor

 

Escrito por Cláudia Collucci às 14h39
Guigui, a boneca que ri

Embalada pela nostalgia trazida por Toy Story 3 e emocionada com a coluna do Contardo Calligaris de hoje na "Folha", tirei a minha boneca Guigui do armário e passei alguns minutos brincando com ela. "Ri, sorri e volta a rir para fazer você feliz". Era com esse slogam que, na década de 70, a Estrela apresentava a Guigui às boquiabertas menininhas. Ganhei a minha aos 5 anos de idade. Presente da minha querida avó Izabelinha, no Natal de 1973.

Naquela época, o dinheiro lá em casa era curto e, com três filhos pequenos, meu pai não podia bancar um presente como aquele. A boneca gerou discórdia familiar, especialmente entre as minhas primas. Eu, a queridinha da vovó, fui a única das cinco netas a ganhar uma boneca "hight tech", que ao abrir e fechar os bracinhos, soltava uma gostosa risada. Ao mesmo tempo, mexia os olhinhos de um lado para o outro. Amei a Guigui desde o primeiro instante e ela foi o meu brinquedo preferido na infância.

Na adolescência, a risada dela me irritava um pouco. "Tá rindo de quê, sua boba?", lembro-me de indagá-la em meio às minhas infinitas crises existenciais. No início da vida adulta, ela foi esquecida no armário da casa dos meus pais. Minha mãe, volta e meia, fazia-lhe uma roupinha nova, colocava uma presilha no cabelo. Quando me mudei para São Paulo, Guigui passou a ter lugar de destaque na estante do quarto. Minha mãe dizia que ela ajudava a aliviar a saudade...

Um dia cheguei a Ribeirão Preto e descobri riscos de caneta na minha Guigui. Obra de arte da minha sobrinha. Fiquei mortificada. Senti-me frontalmente atingida. Chorei, briguei, reclamei e me culpei por tê-la abandonado. Procurei o melhor produto para limpá-la e consegui um bom resultado. Por fim, conclui que o melhor lugar da Guigui era perto de mim, em São Paulo. Lá veio eu de "Rápido Ribeirão Preto" com a boneca nos braços.

Guigui, que se aproxima dos 40 anos, já não dá mais risada. A cor está meio desbotada, e o pescocinho foi levemente lascado. Mas ainda sorri e abre e fecha os bracinhos, oferecendo o seu eterno abraço. Ela é o portal para as coisas boas da minha vida. Nos momentos de tristeza, de raiva, de angústia e de desesperança, ela não me deixa esquecer de que tudo passa. E o que permanece é o amor. Sempre.

 

A minha Guigui

Escrito por Cláudia Collucci às 11h39

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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