O que não mata nos faz mais forte

Uma notícia recente me chamou a atenção porque, de alguma forma, dialoga com aqueles momentos de fundo do poço, com aquelas horas que a gente pensa já ter chegado ao limite do sofrimento e depois se surpreende sacudindo a poeira e dando a volta por cima.

Cientistas da Universidade de Buffalo (EUA) acompanharam 2.398 pessoas entre 2001 e 20O3 e concluíram o que muita gente_inclusive euzinha aqui_  já tinha percebido empiricamente: o que não mata nos deixa mais forte.

Bem na verdade a citação é atribuída ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Mas a conclusão do pesquisador Mark Seery e sua equipe, em outras palavras, é exatamente a mesma: as pessoas que passaram por acontecimentos adversos e traumáticos tiveram menos sintomas de estresse e relataram mais situações de bem-estar do que aquelas que passaram por menos dificuldades.

Foram avaliadas 37 categorias diferentes de trauma psicológico ou físico, incluindo morte de um familiar, doença ou acidente, desastres naturais, divórcio ou presenciar um ato de violência. A conclusão de Seery é que realmente existe uma relação entre experiências ruins e resiliência. Na física, essa palavra diz respeito à possibilidade de um material voltar à forma anterior depois de sofrer pressão ou deformação.

Na psicologia, é a capacidade de uma pessoa enfrentar situações negativas e retirar algo de positivo da experiência. Para Seery, o cérebro é capaz de aprender com cada trauma e se tornar mais experiente e mais forte. Não é incrível como certas conclusões nos faz um enorme eco?

Escrito por Cláudia Collucci às 20h17
"O embrião é um ser vivo?"

A instigante questão aparece no livro do filósofo francês Francis Kaplan e me veio à lembrança neste momento em que as questões sobre aborto entraram em um absurdo retrocesso durante esse período eleitoral. Mesmo que eu tivesse alguma dúvida sobre se o embrião é ou não uma vida real, em razão da minha formação cristã, certamente já a dirimi nesta última década em que estive envolvida com os temas reprodutivos. Seja como jornalista, estudiosa ou simplesmente como uma mulher que tenta ser mãe e já vivenciou dois abortos espontâneos.

Kaplan sabiamente coloca que o embrião está vivo somente enquanto parte de outro ser vivo, que é a sua mãe. É graças à função digestiva da mãe que ele recebe o alimento, é graças à função glicogênica do fígado da mãe que ele recebe a glicose, é graças à função respiratória da mãe que os glóbulos vermelhos do seu sangue recebem oxigênio. Até o terceiro mês da concepção, o feto não tem atividade cerebral.

Fazendo um paralelo com a morte cerebral, definida por ausência de atividade cerebral e amplamente aceita por nós porque possibilitou os transplantes de órgãos, Kaplan diz que tecnicamente é possível considerar clinicamente morto o feto até esse estágio do desenvolvimento, ou seja, quando ainda não tem atividade cerebral. É partindo desse raciocínio que muitos países permitem o aborto até três meses de gestação.

Vamos tomar como exemplo uma realidade muito próxima a nós: a reprodução assistida. Se o embrião fosse realmente já uma vida, o tratamento seria 100% garantido. Mas hoje é fato de que as taxas de sucesso são de 30%. Ou seja, de cada dez mulheres que transferem embriões para o seu útero durante o processo de fertilização in vitro, apenas três vão conseguir engravidar. E apenas uma ou duas vão conseguir manter a gestação até o final e dar luz ao tão sonhado bebê.

Alguém que me é muito querida, em uma única FIV, produziu 25 embriões. Desses 20, foram considerados tecnicamente viáveis, com ótima qualidade. Em razão do grande volume e do risco dessa pessoa desenvolver hiperestimulação ovariana, os embriões foram congelados e transferidos em quatro ciclos posteriores. Nenhum deles resultou em gravidez.

Por esse e outros inúmeros exemplos que coleciono, acredito que o embrião não seja uma vida. Pode ser, sim, uma vida em potencial. Passamos para Antonio Cícero, que tratou brilhantemente desse tema hoje na Folha: "não é totalmente verdadeiro que o embrião esteja para uma criança como uma semente para uma árvore ou um ovo para uma ave. Uma semente largada na terra, pode se tornar uma árvore; um ovo pode, sendo incubado, tornar-se uma ave; um embrião, porém, não é capaz de se tornar uma criança fora do corpo da mãe".

E o polêmico gran finale: "Se, portanto, não se pode comparar a destruição de uma semente com a derrubada de uma árvore nem se pode comparar quebrar um ovo com matar uma ave, menos ainda se pode comparar o aborto com o assassinato de uma vida".

Concordo com Cícero e Kaplan: quem se opõe à descriminalização do aborto defende não a vida, mas uma crença religiosa. Cada um tem o direito de defender a crença que bem entender. Eu, particularmente, me oponho ao aborto, mas não condeno a mulher que o tenha feito. Definitivamente, cadeia não é o lugar para ela. Também entendo que o Estado seja laico e não pode se curvar a nenhuma das religiões.  Não é a toa que em quase 70% dos países do mundo o aborto não é considerado crime.

Escrito por Cláudia Collucci às 11h04
Bebê nasce a partir de embrião congelado havia 20 anos

Cientistas norte-americanos conseguiram que uma mulher de 42 anos tivesse um filho saudável a partir de um embrião que permaneceu congelado por quase 20 anos.  A técnica foi aplicada no Instituto Jones de Medicina Reprodutiva, da Escola de Medicina de Eastern Virginia, em Norfolk, na Virgínia. A mulher que recebeu os embriões havia registrado uma baixa reserva ovariana, ou seja, baixo estoque de óvulos disponíveis, e fazia tratamento de fertilização havia dez anos. Os médicos descongelaram cinco embriões que haviam sido doados anonimamente por um casal que realizara o tratamento de fertilização na clínica 20 anos antes.

Dos embriões descongelados, dois sobreviveram e foram transferidos para o útero da paciente. Ao fim de uma única gravidez, a mulher deu à luz um garoto que nasceu saudável. O caso foi relatado em um artigo científico na publicação especializada Fertility and Sterility, da Sociedade Americana para a Medicina Reprodutiva. A equipe, liderada pelo pesquisador Sergio Oehninger, disse que não conhece nenhum caso de gravidez em que um embrião humano tenha permanecido tanto tempo congelado - 19 anos e sete meses.
"Congelar embriões é uma prática que só começou a ficar frequente nos anos 1990, então este certamente estava entre os que foram congelados logo no início deste processo", explicou à BBC Brasil o diretor científico e professor honorário do Centro de Medicina Reprodutiva da Universidade de Glasgow, Richard Fleming. "Este é sem sombra de dúvida o caso mais antigo de que já ouvi falar, e mostra como um embrião de boa qualidade pode perfeitamente se desenvolver independentemente de ter sido gerado em 1990 ou 2010."
Tempo em suspenso
O congelamento suspende biologicamente o envelhecimento das células, e os cientistas defendem que um embrião pode permanecer neste estado por décadas. Ate agora, o maior tempo que um embrião permaneceu congelado antes de ser transferido para o útero e gerado um bebê foi 13 anos, em um caso na Espanha. No Brasil, o recorde é de uma mulher do interior de São Paulo que deu à luz um bebê nascido de um embrião que ficara congelado por oito anos. Há ainda casos de pacientes que congelam suas células reprodutivas com fins terapêuticos, antes de tratamentos que podem deixá-los estéreis.
Em 2004, um casal teve um filho a partir de esperma que havia permanecido congelado por 21 anos.
Nesse caso, o pai tinha congelado espermatozoides aos 17 anos de idade, antes de começar a tratar um câncer de testículo com radioterapia e quimioterapia, que o deixaram sem capacidade reprodutiva. (Da BBC Brasil)
Escrito por Cláudia Collucci às 15h17
Ao marido de uma guerreira

"Hoje falo em nome de uma Guerreira que ao longo de 13 anos já tentou de tudo e não foi agraciada com uma gravidez (e não por isso vou deixar de amá-la, muito!!!). Sem mais condições físicas e psicológicas de fazer mais tentativas (já foram mais de 10 em 3 clínicas diferentes), a partir deste momento vamos rever os valores e o modo de levar a vida. Tempestades de emoções, de expectativas, frustrações, remédios, dinheiro, tempo, contra-tempos... tudo é passado.

Hoje pensamos: aprender pra quê? Ensinar pra quem? Viver a dois até o fim da vida é muito egoísmo? Agora é parar. Parar pra "não pensar". Cansados e esgotados, vamos nos recuperar e aí sim, pensar no que fazer. Todos vão falar: Adote! Mas ainda é difícil pensar nisso. Adoção, pra mim, é para quem já tem filho... mas com tempo tudo pode mudar... Encerro agradecendo e parabenizando este espaço, que ao longo do tempo nos deu muita força e esperança. Agora é partir para outra... e boa sorte a todas!"

A mensagem acima foi deixada por um homem, coisa rara de acontecer no nosso grupo de discussão. Ela nos faz sair um pouco do nosso "auto-foco" e lançar um olhar para os nossos companheiros que muitas vezes ficam meio perdidos neste labirinto de emoções que é a infertilidade. Não são raros os casos de casais que se separam durante essa incerta caminhada.

São nesses momentos que nossos sentimentos mútuos são testados à exaustão e, se passarmos por essa prova, estou certa de que o casamento sai ainda mais fortalecido. Caro "marido de uma Guerreira" (é assim que ele se identifica), acho que todas entendemos como ninguém a sua emocionante mensagem. Faz-nos eco cada palavra, afinal, elas nos leva a pensar também nas nossas próprias vidas.

Cada um de nós conhecemos bem os nossos limites, embora, muitas vezes, parece que insistimos em ir além deles. Vale a pena? O poeta diria que "tudo vale a pena se a alma não é pequena". Eu já profecei muito essa máxima. Hoje simplesmente espero que o tempo me responda. Ou não. Penso que o importante é nos reinventarmos sempre. Sermos flexíveis qual o bambu que, mesmo exposto às tempestades, enverga mas não quebra. Ao marido e sua guerreira, boa sorte na caminhada!

Escrito por Cláudia Collucci às 12h14
Fertilização tem melhor resultado na primavera

É a primavera a estação do ano que mais beneficia os casais em processo de fertilização in vitro. Já o inverno é o período de menor taxa de fertilidade. A constatação é do primeiro estudo brasileiro sobre o impacto da sazonalidade na reprodução assistida, apresentado mês passado no congresso mundial de fertilidade, na Alemanha.

O assunto é controverso e ainda não há um consenso sobre os efeitos dos fatores ambientais nas taxas de fertilidade humana _em outros mamíferos, como bois e macacos, a influência é mais conhecida e documentada.

A hipótese dos pesquisadores é que a fertilidade seja estimulada pela intensidade da luminosidade diária (fotoperíodo). Os dias mais luminosos da primavera estariam associados a mudanças no cérebro que são responsáveis por mediar as atividades reprodutivas.

No estudo brasileiro, foram avaliados dados de 1.932 mulheres que fizeram tratamento em uma clínica de São Paulo entre 2005 e 2009.

Os ciclos foram agrupados de acordo com a estação do ano: 435 no inverno, 444 na primavera, 469 no verão e 584 no outono. Variáveis como idade, causa de infertilidade e qualidade do sêmen foram controladas.

Na primavera, a taxa de fertilização dos óvulos foi a mais alta (73,5%). Nas estações outono, verão e inverno, os percentuais foram de 69%, 68,7% e 67,9% respectivamente.

A resposta ovariana ao tratamento (número de óvulos produzido pela mulher após tomar as drogas hormonais) também foi melhor na primavera em relação à taxa de gravidez, porém, foi discretamente melhor no verão em relação à primavera (35,5% contra 32,6%).

Segundo Edson Borges Júnior, um dos autores do trabalho e doutor em ginecologia pela Unesp, outros trabalhos em animais sugerem que, para a reprodução, é mais importante a intensidade da luz do que a quantidade. "Isso explicaria porque a primavera seria mais propícia do que o verão", diz ele.

Em linhas gerais, dias mais longos e luminosos aumenta a atividade da melatonina (hormônio que regula o sono) que, por sua vez, afeta áreas do hipotálamo.

Isso leva a uma maior secreção dos hormônios reprodutivos, como o FSH (hormônio estimulante folicular), o LH (hormônio luteinizante), que agem no ovário levando a maior capacidade de resposta ao tratamento.

O próximo passo, segundo Borges Júnior, será estudar diferentes regiões brasileiras e avaliar se a latitude também influi nas taxas de fertilização. Para ele, no futuro, esses estudos poderão ajudar na elaboração novos protocolos de tratamento, levando em consideração a inflência de efeitos sazonais no sistema endócrino reprodutivo.

Escrito por Cláudia Collucci às 14h54
E o Nobel da medicina vai para o "pai" da fertilização in vitro

O professor emérito da Universidade de Cambrigde, Robert Edwards, 85, criador do método para fertilização in vitro, concebido em 1978, recebeu o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2010. O anúncio foi feito nesta segunda-feira pela Fundação Nobel, no Karolinska Institutet, em Estocolmo.

Graças ao trabalho de Edwards, muitos casais venceram a barreira da infertilidade e mais de 4 milhões de bebês de proveta já foram gerados no mundo.

A proeza de Edwards torna-se ainda maior quando olhamos para a história da infertilidade. Até que a medicina encontrasse soluções para o problema, há 32 anos, foram séculos e séculos de sofrimento.

Ao longo da história, mulheres inférteis foram submetidas a penas severíssimas por sua incapacidade de conceber. Em algumas culturas ancestrais, era permitido aos homens que enforcassem as esposas que falhavam no quesito procriação. Na Inglaterra da Idade Média, um homem podia "denunciar" sua mulher e anular um casamento se ela não engravidasse em um ano.

Em tempos mais recentes, na Índia, mulheres inférteis eram "condenadas" a se sentar numa cadeira ao lado do fogão até que se queimassem. Embora a infertilidade seja um problema conjugal, a culpa principal sempre recaiu sobre a mulher. Luís XIV, Rei da França, marido de Maria Antonieta, era notoriamente estéril, no entanto, por anos o povo da França permaneceu convencido de que a infertilidade real recaía sobre ela.

Em 28 de julho de 1978, o anúncio do primeiro bebê de proveta foi recebido por um misto de perplexidade e assombro , as manchetes da imprensa mundial no dia 28 de julho de 1978 saudavam o início de uma nova era. Pela primeira vez na história, um ser humano era concebido fora do corpo.

Três décadas depois, a sensação é que ainda falta um grande novo salto na área da reprodução assistida. Os índices de sucesso dos tratamentos estacionaram nos 30%. O grande mistério, de como melhorar as taxas de implantação do embrião no útero, continua a ser desvendado.

Escrito por Cláudia Collucci às 15h06

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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