Renovar as esperanças

 Queridas (os):

Neste momento de mais um Natal e Ano Novo, nesta época em que bate um certo sentimento de vazio entre aqueles que continuam a busca pela maternidade/paternidade, quero desejar a vocês muita paz interior e votos de esperanças renovadas.

E agradecer a cada um de vocês pela amizade e pelo carinho sempre generoso, mesmo à distância. Desejo a vocês nada menos que o máximo em 2011! Deixo uma mensagem que muitos já devem conhecer, mas que é muito boa de ser relembrada nesta época.

 
Perguntaram ao Dalai Lama, líder espiritual do Tibete e Prêmio Nobel da Paz:
- O que mais te surpreende na humanidade? E ele respondeu:
- Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E, por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... E morrem como se nunca tivessem vivido.
 

Escrito por Cláudia Collucci às 10h55
A última década na reprodução assistida

Dez anos se passaram e parece que foi ontem. Em 2000, lançava meu primeiro livro na área da reprodução, o "Quero ser mãe", que, no mesmo ano, virou uma coluna na Folha Online, e depois este blog.

Meus olhos ficaram maravilhados com essa área da medicina, com a possibilidade de gerar crianças que provavelmente não viriam ao mundo pelos meios naturais. Mal sabia que poucos anos depois a minha função de reportar a área da reprodução humana estaria tão vinculada à minha vida pessoal. Eu mesma viraria protagonista das minhas histórias.

Uma gravidez espontânea seguida de aborto, uma gravidez por FIV (fertilização in vitro) seguida de aborto e outras duas FIVs sem sucesso foram o suficiente para entender, na própria pele, o relato das 40 personagens do meu livro e tantos outros que viriam posteriormente online, neste espaço.

Passei por momentos de muitos conflitos e sofrimento. Desde a convicção de que não queria filhos (antes de ter engravidado a primeira vez) até pela certeza de que, sim, não poderia passar por essa vida sem filhos. Encontro-me hoje em um meio termo. Pode ser que sim, pode ser que não. Com ou sem filhos, a vida me parece ótima. A maternidade deixou de significar uma credencial para a felicidade. Valorizo e sou feliz com o que tenho hoje.

O Dalai Lama tem uma frase ótima que diz: "Só existem dois dias do ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro, amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente, viver!"

Olho para cada conquista com muito orgulho. Embalo com carinho cada projeto que se saiu do papel e se tornou real nesses últimos dez anos. Como este blog, e, com ele, o carinho de todos vocês. Gesto outras dezenas pelos próximos 50 anos. Exerço a maternidade com as pessoas queridas que me rodeiam.

Às vezes, perguntam-me porque não continuar com os tratamentos. É preciso coragem para dizer não, para saber reconhecer nossos limites e a nossa falta de controle sobre as coisas. E entender o que é mais importante: um filho ou uma barriga? Hoje, namoro a possibilidade de adoção. Sem pressa, sem urgência.

Pensei em usar esse espaço para fazer uma retrospectiva da década em termos de avanços tecnológicos. Mas decidi deixar essa avaliação com meus parceiros médicos, que têm me ajudado com o blog nesses anos todos.

Por isso, vou me focar no aspecto humano. Há muitos profissionais em reprodução assistida que ainda não entenderam a dimensão disso. Antes de um bebê existe uma mulher que sofre, que está frágil com a dificuldade de gravidez. É preciso olhar por ela. Não basta passar uma listinha de hormônios, datas de ultrassom, de aspiração dos óvulos e de transferência dos embriões. E a conta. A falta de atenção ainda é uma reclamação recorrente das minhas leitoras. Por isso, espero que, junto com as novas tecnologias e tratamentos, venha também mais calor humano. Só assim os casais que passam por essa dura caminhada em busca de um filho se sentirão acolhidos e com a certeza de que dispõe de uma assistência de qualidade. 

 * Pedi a alguns profissionais da área da reprodução assistida, que muito contribuíram para o blog nesta última década, para listar quais foram as principais conquistas e quais serão os principais desafios na a próxima década. Vejam o que eles pensam:  

Artur Dzik,  diretor do Serviço de Esterilidade do Hospital Pérola Byington e presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana

Para Dzik, quatro grandes conquistas marcaram a década na área da reprodução assistida (RA). São elas:

1 - Tratamentos seguros de RA em pacientes soropositivos (HIV), hoje podendo ser considerada uma doença crônica. Do ponto de vista social e de cidadania, podemos oferecer com muita segurança uma gravidez com risco próximo a zero de contaminação do/a parceiro/a e ou do recém-nascido.

2 - A preservação da fertilidade, principalmente em paciente jovens com câncer de mama ( 50 mil novos casos ano no total - INCA 2009), e também daquelas mulheres que estão adiando o desejo de serem mães, por meio do congelamento (vitrificação) dos óvulos.

3 - A multiplicação dos serviços de RA pelo Brasil. Hoje todas as principais capitais têm pelo menos um centro de RA (temos perto de 150 centros de RA no território nacional). Ponto importante na disseminação dos conhecimentos e na tentativa de tornar esta tecnologia mais acessivel às pacientes num pais continental.

4 - O reconhecimento pela comunidade científica mundial da equipe inglesa chefiada pelo biólogo Robert Edwards, responsavel pelo primeiro bebe de proveta em 1978 (hoje perto dos 5 milhões) agraciado com o Prêmio Nobel da Medicina 2010

Ela cita como principais desafios:

1 - Sempre melhorar as taxas de gravidez por ciclo de fertilização in vitro

2 - Melhorar a seleção embrionária (genética) para podermos transferir um único embrião e finalmente diminuir a taxa de gravidez múltipla.

3 - Melhorar as drogas indutoras da ovulação com formulações de depósito e ou via oral.

Edson Borges, diretor do Fertility - Centro de Fertilização Assistida

A Reprodução Assistida está alcançando sua maturidade. Deixamos de lado a euforia de "tudo podemos" e adquirimos conhecimentos que nos permitem entender nossas limitações. Ao mesmo tempo, sabemos que muito mais podemos conseguir, com expectativas reais de dobrarmos as chances de gestação através das novas tecnologias emergentes. Tenho a sensação que a próxima década será a mais promissora de toda a história da Reprodução Assistida.

Eduardo Motta, diretor da Huntington

Mais 10 anos se vão. Sim, foi uma decada muito produtiva: pudemos observar melhorias no conhecimento da criopreservacao de células, onde a vitrificação passou a ser a técnica de excelência e, com isto, abriu-se uma importante porta para o congelamento de óvulos, até então uma barreira na preservacao da fertilidade feminina. Não que esta etapa esteja vencida, muito ainda falta para avançarmos, mas, sem duvida, algumas mulheres ja se beneficiam, sobretudo as mais jovens. Destacam-se também novos conhecimentos no estímulo ovulatório, com protocolos diferentes e mais individualizados.

Nesta transição de década, uma promessa começa a se tornar realidade: a identificação dos 24 cromossomos nos embriões, conhecida por CGH (competitive genomic hibridization), onde a biopsia embrionária é feita no 5a dia, com o embrião já no estágio de blastocisto, com menor manipulação e proporcionando uma visão mais precisa, melhorando nossa capacidade de identificar aquele que poderá ser o "premiado" para se implantar.

O que esperar nos próximos dez anos? Sem dúvida, um processo menos traumático, com menores doses de medicamentos, mais fisiológico e formas menos invasivas de selecionar o melhor embrião, ou seja, identificar no meio de cultivo, substâncias que marquem definitivamente qual o embrião capaz. É o chamado proteoma/secretoma.

Mas, de todo este avanço, o que mais me marca são as mudanças sociais por que passamos. Há 10 ou 15 anos, as técnicas de reprodução assistida eram procedimentos "exclusivos" de poucos, hoje uma realidade que tenta se disseminar. Todos sabem o que é fertilização in vitro.

Nisto tudo, diria que o que mais evoluiu é nossa capacidade de compreensão, entendimento, carinho e porque não dizer, sofrimento junto a estes casais. Afinal, não existe dádiva maior que ter filhos. Este sentimento de ajudar ao próximo, é impar, inigualável. Espero apenas que a ciência me permita continuar nesta jornada e cada vez melhor.

Ricardo Baruffi, diretor do Centro de Reprodução Dr. Franco Júnior

Nos últimos 10 anos vários setores da Reprodução Assistida (RA) tiveram um considerável crescimento. Gostaria de destacar três situações:

Em primeiro lugar, uma nova tecnologia que veio melhorar a abordagem do fator masculino da infertilidade. Um novo método chamado (MSOME) que permite a avaliação da morfologia nuclear de espermatozoides móveis em tempo real, em grandes ampliações (>6000X). Como conseqüência, um novo procedimento de microinjeção chamada injeção intracitoplasmática de espermatozóides selecionados morfologicamente (IMSI) foi desenvolvido, nome que nosso grupo batizou de Super-ICSI para um melhor entendimento da população leiga. As falhas nas técnicas de RA podem ser devido à qualidade dos óvulos, a dos espermatozoides injetados e sua manipulação, fatores uterinos e fatores paternos, como a fragmentação do DNA dos espermatozóides. A pré-seleção do espermatozóide é a fase crucial para garantir o sucesso. As características do esperma devem ser verificadas sob o microscópio com uma ampliação superior a 6.600x pois determinadas anomalias, em particular vacúolos nucleares, não podem ser visto num aumento de 400x classicamente o utilizado no ICSI convencional.

Uma nova metodologia para congelamento de óvulos denominada vitrificação. A vitrificação é agora uma abordagem amplamente aplicada e bem sucedida para a criopreservação em biologia reprodutiva. Rapidamente os dados atuais comprovam que ela também é uma técnica altamente eficiente para o armazenamento a baixa temperatura de óvulos humanos.

Essa mais recente abordagem com crioprotetores selecionados e técnicas devidamente ajustados permitem perto de 100% as taxas de sobrevivência e de desenvolvimento de embriões in vitro provenientes de óvulos congelados, assim como as taxas de gravidez e implantação, comparáveis aos obtidos com óvulos frescos. Com a padronização da técnica, preservando todas as características positivas, a vitrificação pode se tornar uma parte comum do cotidiano em um laboratório de embriões humanos, e pode oferecer uma solução para várias situações médicas e sociais.

Em adição, a fertilização in vitro e criopreservação de embriões era considerado como o único método estabelecido para a preservação da fertilidade em mulheres com câncer. No entanto, a exigência de um parceiro do sexo masculino ou vontade de usar o esperma de doadores para a produção de embriões, aspectos legais e éticos e as questões religiosas relacionadas com a criopreservação de embriões levantam preocupações para pacientes e médicos.

Os recentes avanços alcançados com a vitrificação de óvulos têm permitido uma opção viável para estas pacientes. Por outro lado, apesar de atualmente ser do ponto de vista médico controvertido, existe a possibilidade de uma mulher numa idade mais jovem querer congelar seus óvulos para uma gestação num periodo posterior de sua vida.

No Brasil, uma nova lei permite a utilização de células-tronco produzidas a partir de embriões humanos para fins de pesquisa e terapia, desde que sejam embriões inviáveis ou estejam congelados há mais de três anos. Em todos os casos, é necessário o consentimento dos pais. A comercialização do material biológico é crime. Em 29 de maio de 2008 o Supremo Tribunal Federal confirmou que a lei em questão é constitucional, ratificando assim o posicionamento normativo dessa nação.

Escrito por Cláudia Collucci às 21h14
A separação das siamesas: o drama de uma corajosa mãe

A foto acima, do meu amigo Caio Guatelli, marcou a minha semana. Em vários momentos, a imagem desta mãe desesperada, carregando suas gêmeas siamesas para a sala de cirurgia, onde seria feita a separação dos corpos, povoou os meus pensamentos.

Selma, 32, e Jorge, 42, são os pais das gêmeas Kauany e Keroly, de dez meses, que nasceram coladas pelo abdome. Compartilhavam  fígado, estômago, intestino grosso e sistemas genital e urinário. Também dividiam os mesmos órgãos genitais. Na última segunda, foram separadas em uma complexa cirurgia que durou 12 horas e envolveu 20 profissionais do ICr (Instituto da Criança) do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Toda a história está na Folha de hoje. Tem também um vídeo que eu e Joel Silva gravamos com Selma  http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/840404-gemeas-siamesas-sao-separadas-em-sp-irmas-eram-unidas-pelo-abdome.shtml

Selma estudou até a quarta série do ensino fundamental. Naqueles grotões onde ela vive, a mais de 400 km de Cuiabá, no Mato Grosso, é muito comum o pai decidir o futuro das filhas. Com ela, não foi diferente. Casou aos 17 anos com o primeiro namorado, Jorge. Tem um filho de 11 anos e um casal de gêmeos de 5. Desde que os gêemos nasceram, ela e o marido vinham conversando se o melhor era ela fazer laqueadura ou ele, vasectomia. Não queriam mais filhos. Enquanto decidiam, adotaram a tabelinha. Falhou.

Desde o início da gravidez, Selma pressentiu que teria gêmeos de novo. Mas o primeiro ultrassom a tranquilizou: a médica disse que só via um bebê. No quinto de mês, a surpresa veio em dobro: eram duas meninas siamesas. O obstetra não fez rodeios: a situação era séria, provavelmente as meninas não sobreviveriam e Selma poderia optar pelo aborto já que a sua saúde também corria risco.

Selma disse não à possibilidade. Queria as filhas de qualquer forma e iria lutar com todas as suas forças para dar o melhor tratamento que pudesse. As meninas nasceram por meio de cesárea e ficaram quase um mês na UTI de Cuiabá, sendo alimentadas com suplementos especiais porque não se sabia ao certo se havia uma saída no intestino. Selma descobriu o Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de SP e, com a ajuda do governo de Mato Grosso e de uma campanha feita pela mídia local, veio para São Paulo.

Antes, nunca tinha saído da minúscula cidadezinha onde vive. Chegar à capital paulista foi um choque. "Menina, como é que vocês vivem nessa loucura aqui?" perguntava-me ela, no dia seguinte à chegada. Estava tensa com a cirurgia. Sabia que as meninas poderiam não sobreviver, mas, ao mesmo tempo, entendia que a melhor coisa a fazer por elas seria separá-las.

No dia da cirurgia, na última segunda-feira, madruguei no Instituto da Criança. Eram 6h30 da manhã. Selma não havia pregado o olho a noite toda. Segurava as filhas no colo e chorava. Muito. O marido, muito tímido e calado, torcia as mãos, nervoso. E eu, ali, querendo embalar a mãe e as filhas. Querendo dizer alguma coisa que aliviasse um pouco aquela dor toda. Alguma coisa além do "se Deus quiser, vai dar tudo certo". Preferi me calar e apenas abraçar Selma e beijar as meninas.

Passava das 7h30 quando Selma foi avisada de que estava na hora de a cirurgia começar. Ela dispensou ajuda e quis, pessoalmente, levar as filhas no colo até o centro cirúrgico. É exatamente este momento que a foto acima retrata. Depois disso, foram 12 horas de aflição até o fim da cirurgia. Aflição que se estendeu nas próximas 72 horas, as mais críticas. Na terça, uma das meninas apresentava febre de 40 graus. A equipe médica estava tensa com a possibilidade de infecção. No dia seguinte, a febre cedeu. Na quinta, elas saíram do aparelho de respiração artificial.

Dia e noite, Selma não sai do lado das filhas. Está exausta. Dorme numa cadeira _relativamente confortável, é verdade_ há dez dias. E deve continuar assim até a alta das gêmeas, que ainda não tem previsão. As meninas se recuperam bem. Mas ainda têm um caminho longo pela frente. Cada uma vai precisar de perna mecânica _elas nasceram com três perninhas, mas uma teve que ser amputada porque era totalmente malformada. Também vão precisar de várias outras cirurgias reparadoras para reconstruir o intestino e sistemas urinário e genital.

Várias pessoas com as quais conversei durante a semana sobre a reportagem diziam que a melhor solução para esse caso teria sido um aborto. "Que vida essas meninas vão ter?", perguntavam-me. Mas Selma é uma mulher muito corajosa. Tem tanto amor dentro si e tanta certeza de que as coisas acabarão bem que consegue afastar qualquer pessimismo. "Tantas mães têm os filhos perfeitos e os abandonam. Eu quero as minhas do jeito que elas são", disse ela. Não tenho dúvidas de que essas meninas não poderiam ter mãe melhor do que essa. Que Deus as protejam sempre!

 

 

Escrito por Cláudia Collucci às 19h43

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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