As inaceitáveis taxas de cesáreas

 

A notícia de que, pela primeira vez, o Brasil registrou mais cesarianas do que partos normais, divulgada ontem pela Folha, assusta, mas não surpreende.

Desde 2009, eles já haviam se igualado em proporções, mas agora as cesáreas respondem por 52% dos partos. 

O grande número de cesarianas (80%) acontece nos hospitais privados, mas no SUS essa taxa passou de 24% (na década passada) para 37% no ano passado.

Por coincidência, na sexta-feira, saiu um levantamento do governo dos EUA mostrando que, pela primeira vez, em mais de uma década, a taxa de cesáreas caiu.

A queda é bem pequena (de 32,9% em 2009 para 32,8% em 2010), mas as autoridades em saúde por aqui já comemoraram bastante porque até então a tendência era só de alta _e olha que a taxa deles é quase metade da nossa!

Na semana passada, estava conversando sobre esse assunto com uma colega americana, cuja filha (estudante de medicina) acabou de ter seu primeiro filho em casa, com parteira.

Noah nasceu na última quarta, com quase 4 kg, com 41 semanas de gestação. A mãe e o pai também nasceram pelas mãos da mesma parteira, duas décadas e meia atrás.

É interessante observar que essa opção parece que vem aumentando entre as mulheres jovens, mais convencidas da importância do parto humanizado e no tempo correto de acontecer. Como todas nós sabemos, o parto que  é marcado com antecedência pode levar o bebê a ter problemas associados à prematuridade.

O secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Helvécio Magalhães, diz que os atuais patamares de cesáreas são inaceitáveis e classifica as altas taxas como uma epidemia.

Segundo ele, está havendo uma contaminação do SUS pelo setor privado. "Entre 70% e 80% dos médicos estão nos dois sistemas e eles transportam práticas da rede particular para o SUS."

Outro motivo que ele aponta para o crescimento é a deterioração da formação médica na década passada. "Milhares de estudantes se formam sem ter feito parto normal", diz o secretário.

Magalhães cita fatores econômicos e culturais para a elevação das cesáreas. A maior inserção feminina no mercado de trabalho, por exemplo, tem levado mulheres a optar pela comodidade de marcar data e horário do parto até na rede pública.

Uma das apostas do governo para diminuir as cesarianas no SUS é a ampliação de centros de parto normal, unidades criadas só para esse fim. Hoje, são 25 no país. A meta é ter mais 250 até 2014.

Na saúde privada, há outros fatores que explicam o alto número de cesarianas. Um deles é a remuneração do obstetra e da equipe em partos normais pelos planos de saúde, considerada insuficiente pelos profissionais.

O trabalho de parto, especialmente do primeiro filho, pode durar até 12 horas (foi exatamente o tempo que durou trabalho de parto da filha da minha colega). Já na cesárea, o médico escolhe o horário mais conveniente e, em uma hora e meia, já está liberado. Alguns planos até remuneram melhor o parto normal do que a cesárea, mas mesmo assim não compensa, segundo os obstetras.

Para mim, porém, está clara a também necessidade de educar melhor as mulheres para a importância do parto natural, subsidiá-las com informações corretas até para que possam contraargumentar com seus médicos ou ouvir uma segunda opinião. E vocês, o que pensam sobre isso?

 

Escrito por Cláudia Collucci às 13h33

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

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