Um filho e duas mães

Se uma mulher dá à luz um filho gerado com o óvulo de outra, a quem a criança deve chamar de "mamãe"? A questão que mais chama atenção na  na novela "Fina Estampa", da Rede Globo, também está presente na vida real. E é ainda mais instigante.

Na última quinta-feira, entrevistei Gisele. Há seis anos, ela e a ex-companheira Amanda tiveram um bebê "conjuntamente". Os nomes são fictícios porque o caso correm em segredo de Justiça. Gisele entrou com os óvulos e Amanda gerou o bebê. O sêmen veio de um banco de esperma.

Agora, ambas disputam a guarda do garoto. Leia a história completa: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/27870-para-juiza-doadora-de-ovulo-nao-e-parente.shtml

Tive a oportunidade de passar algumas horas com Gisele e o filho, M., um garoto espertíssimo, parecidíssimo com ela. No apartamento de Gisele, há lembranças do filho em cada canto. M. vive com a mãe que o gestou.

Tudo poderia ter sido encaminhado como numa separação de casais heterossexuais. Define-se pela guarda compartilhada, estabelece-se um regime de visitas e assim por diante. Mas parece que, talvez por preconceito, há uma má vontade explícita da Justiça em reconhecer os direitos legais de Gisele, a mãe biológica.

Diferentemente da novela, Gisele não apenas doou os seus óvulos, como também acompanhou a gestação do filho, morou com ele até os três anos e nos últimos três trava uma briga judicial para fazer valer os seus direitos de mãe. Quer tê-lo por perto, educá-lo. Hoje, ela fica na dependência do humor da outra mãe, que às vezes permite que Gisele veja o filho e outras vezes simplesmente desaparece com ele.

É difícil tomar partido. Na minha opinião, as duas são mães e têm iguais direitos. E o quanto mais rápido essa confusão for resolvida, melhor para M., que merece uma infância feliz e lares estruturados. Isso será fundamental até para enfrentar as prováveis adversidades que virão pelo fato dele ter duas mães. Crianças podem ser cruéis, a gente sabe disso. 

E quanto ao Judiciário, não há dúvida de que tem que se preparar melhor para os desafios impostos pelas novas formas de famílias. A propósito, soube que há pelo menos uns 50 casais de lésbicas que já tiveram bebês por meio da fertilização in vitro, usando sêmen doado. Ou seja, a polêmica só está começando...

 

 

Escrito por Cláudia Collucci às 16h45
Nasce bebê selecionado para curar irmâ

Nasceu há quatro dias o primeiro bebê brasileiro selecionado geneticamente para não carregar um gene doente e de ser totalmente compatível com a irmã, qu sofre de talassemia major, uam doença rara no sangue que, se não tratada corretamente, pode levar à morte. A matéria foi publicada hoje no jornal "O Estado de São Paulo" e a autora é a Fernanda Bassete. Vejam o link : http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,nasce-no-brasil-1-bebe-selecionado-geneticamente-para-curar-irma,835877,0.htmtc

Maria Clara Reginato Cunha nasceu para salvar a vida de Maria Vitória, que tem 5 anos e convive com transfusões sanguíneas a cada três semanas e toma uma medicação diária para reduzir o ferro no organismo desde os 5 meses.

Nos pacientes com talassemia major - a mais grave e a que realmente precisa de tratamento -, a medula óssea produz menos glóbulos vermelhos e, consequentemente, não consegue fabricar sangue na frequência necessária, podendo causar anemias graves. No Brasil, são pouco mais de 700 pessoas com a doença.

Selecionar embriões saudáveis para tentar salvar a vida de outro filho doente não é novidade - esse procedimento é feito no mundo todo desde a década de 1990. A novidade, neste caso, é que além de não carregar o gene da talassemia major, o embrião selecionado (Maria Clara) também é 100% compatível com Maria Vitória, o que vai facilitar a realização de um transplante de sangue de cordão umbilical.

Segundo o geneticista Ciro Dresh Martinhago, a técnica usada para identificar os genes doentes e também a possível compatibilidade é a mesma - de biologia molecular-, mas exige mais conhecimento específico no caso de analisar a compatibilidade.

“A gente coleta uma única célula do embrião para fazer a análise molecular. Ao todo, verificamos 11 regiões do DNA da célula, sendo dois relacionados ao gene alterado e nove relacionados à compatibilidade, que é mais complexo”, explica o médico, diretor da RDO Diagnósticos e responsável pela análise genética.

De acordo com ele, a dificuldade técnica e a falta de profissionais experientes nessa área é um dos motivos que faz o método ser pouco usado em todo o mundo. O primeiro caso de seleção de embrião 100% compatível aconteceu em 2004, na Europa.

Antes de decidir fazer a fertilização in vitro com o objetivo de tentar curar a filha, o casal Jênyce Carla Reginato Cunha e Eduardo Cunha entrou em contato com ao menos 30 médicos do Brasil e do exterior.

Na primeira tentativa, os seis embriões gerados no processo de fertilização foram descartados ou porque tinham a doença ou porque eram incompatíveis com Maria Vitória. Mesmo assim, o casal não desistiu.

Na segunda tentativa, o casal conseguiu produzir dez embriões, dos quais apenas um não tinha a doença e era 100% compatível. Um segundo embrião compatível tinha apenas traços da doença (ela não se manifesta) e também foi implantado na mãe.

“Até agora já concluímos 90% do nosso objetivo. Os 10% que faltam são o transplante, que vamos deixar nas mãos de Deus. Se não tivéssemos persistência, fé e coragem não estaríamos aqui”, afirmou Jênyce.

A coleta das células do cordão foi feita pela equipe do Hospital Sírio-Libanês, onde será feito o transplante. “Há outros relatos semelhantes na literatura e tem tudo para dar certo. Vamos esperar alguns meses porque se não der certo com o cordão, nós podemos coletar a medula do bebê”, explicou o hematologista Vanderson Rocha, que será o responsável pelo transplante.

Merula Anargyrou Steagall, presidente da Associação Brasileira de Talassemia (Abrasta), diz que a entidade está comemorando a conquista. “É uma porta que se abre e que representa uma esperança para outras doenças genéticas e não apenas para a talassemia. Agora vamos acompanhar os resultados”, afirmou.

Artur Dzik, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, também considera o nascimento de Maria Clara uma conquista. “É mais um avanço da ciência na área da medicina reprodutiva que só veio para o bem. É uma forma de medicina preventiva”, disse.


Escrito por Cláudia Collucci às 17h00
Mulheres com dificuldade de gravidez conseguem engravidar mesmo sem tratamento

Quase metade das mulheres jovens (até 36 anos) que têm dificuldade para engravidar acabam conseguindo mesmo sem tratamento, revela um novo estudo da Austrália, publicado na revista Fertility and Sterility.

A taxa de sucesso (44%) foi  ligeiramente menor do que entre as mulheres que também relataram dificuldade para engravidar e optaram por um tratamento com hormônios ou  fertilização in vitro (53%).

Para uma das autoras do estudo, a pesquisadora Danielle Herbert, da Universidade de Queensland, muitas mulheres com idades até 36 anos com história de infertilidade sem uma causa aparente (trompas obstruídas, por exemplo) podem alcançar a gravidez espontaneamente sem tratamentos. Isso se o marudo também não tiver problemas com o esperma.

"Isso indica que esses casais são subférteis e não estéreis. Eles devem se manter otimistas porque podem engravidar por conta própria."

A pesquisa é parte de um estudo de longo prazo, com mais de 7.000 mulheres que vivem na Austrália. A partir de 1996, as participantes preencheram os inquéritos de saúde a cada ano, que incluíram perguntas sobre gravidez e parto. Os dados da pesquisa são referentes a 1.400 mulheres com idades entre 28 e 36 anos.

Os pesquisadores reconhecem que há limitações no estudo. Eles não sabem, por exemplo, se as mulheres mudaram de parceiro, de dieta (perderam peso, por exemplo) ou o estilo de vida, o que poderia ter melhorardo as chances de gravidez.

A conclusão dos pesquisadores é que,  se você é jovem, dá para tentar um pouco mais antes de partir para os tratamentos de reprodução assistida.

Escrito por Cláudia Collucci às 16h10

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

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"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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