Encontros e despedidas

Ano passado, até tentei ensaiar um adeus. Já estava muito claro para mim que, por várias razões, não havia mais sentido manter um blog temático. A vida mudou, meus interesses mudaram. Mas faltava coragem para deixar vocês. Afinal, um casamento de quase 12 anos não acaba assim sem nenhuma dor...

Mas agora é para valer. Encerro hoje o "Quero ser mãe" com a sensação de missão cumprida. Há uma década, a infertilidade era um tema ainda mais tabu do que é hoje. Se por um lado, os casais tinham vergonha de revelar suas dificuldades de gravidez, por outro existia uma ilusão (vendida pelas clínicas e comprada pela mídia) de que a ciência resolvia tudo. 

A infertilidade é um problema mais comum do que se pensa, afeta 20% dos casais e tende a piorar. Entre as razões está o fato de as mulheres estarem adiando a maternidade para depois dos 35 anos, quando a qualidade dos óvulos cai drasticamente, dificultando a gravidez.

Também sabemos que, mesmo nas melhores clínicas, não há garantias de sucesso no tratamento. Mas é preciso tentar, é claro. Poucos casais, porém, têm condições de partir para as fertilizações in vitro. O acesso a esse tratamento ainda é para poucos. São raros os serviços públicos que o oferecem, e os planos de saúde também se recusam a financiá-lo.

Isso tudo já foi dito e redito inúmeras vezes por aqui, sob inúmeros contextos. No entanto, mais do que informações sobre reprodução assistida, neste espaço circulou muita esperança, muito carinho, muita solidariedade. E a certeza de que ninguém está sozinho nesta luta.

Do ponto de vista pessoal, não tenho palavras para descrever o quanto esse partilhar de histórias e emoções foram importantes em momentos cruciais na minha vida, sobretudo durante minhas gravidezes e abortos.

Aprendi muito com cada uma de vocês. A ter persistência, paciência, a reconhecer os limites, a aceitar o descontrole da vida. E a resignificar as frustações e entender o verdadeiro significado de uma vida fértil e plena_que vai muito além da maternidade. 

Do ponto de vista profissional, esse tema me instigou a pesquisar, a estudar, a desconfiar. Dele surgiram muitas reportagens, algumas premiadas, e ideias para dois livros e para um mestrado em história da ciência. 

A partir desta quarta, 31 de outubro, alço novos voos, com uma coluna semanal na Folha.com. Maternidade e outros temas de saúde da mulher estarão eventualmente por lá, mas a ideia é ampliar o debate sobre saúde no Brasil em todas as suas esferas e complexidades. Gostaria muito que continuassem a me visitar. Foi um prazer estar com vocês todos esses anos!

Escrito por Cláudia Collucci às 21h56
As mães sexagenárias

Minhas amigas Fernanda Bassette e Gabriela Cupani publicaram na edição de hoje do jornal "O Estado de S. Paulo" uma reportagem sobre um tema que já tratei alguma vezes neste espaço: as mães tardias, ou mais especificamente neste caso, as sexagenárias http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,gravidez-de-mulheres-sexagenarias-reacende-debate-etico-sobre-fertilizacao-,951101,0.htm

O tema sempre suscita debates éticos sobre qual o limite da maternidade na era da reprodução assistida. No exterior, mulheres acima de 70 anos já foram mães com óvulos doados. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina não impõe uma idade máxima para que uma mulher possa fazer fertilização in vitro, mas a recomendação é que o tratamento seja feito até os 55 anos.

A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida defende 50 anos como a idade máxima e quer oficializar isso junto ao CFM. Tanto no Brasil como em outros países os questionamentos são os mesmos: é ético submeter a mulher a riscos como parto prematuro, hipertensão e diabetes? E o bebê à prematuridade e todos os problemas associados a ela? Por quanto tempo uma mãe tardia vai conseguir cuidar da criança?

Os defensores se apoiam em questões de gênero: se hoje os homens estão tendo filhos tardiamente, às vezes depois dos 70, por que as mulheres não poderiam? E vocês, o que pensam sobre isso?

   

Escrito por Cláudia Collucci às 18h27
"Não dá para ter filhos a qualquer momento", diz pesquisadora da USP

A idealização de uma vida conjugal pode levar mulheres a decidirem pelo adiamento da maternidade, seja por que não encontram o parceiro que imaginam ser perfeito para iniciar a família ou pela ideia de que filhos podem atrapalhar a vida a dois no início da relação. Entretanto, uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP verificou que o adiamento pode ser fonte de diversas angústias para as mulheres, visto que elas não têm total controle de quando conseguirão se tornar mães.

Pesquisa ouviu mulheres que conseguiram ter filhos após os 35 anos

O trabalho conduzido pela psicóloga Maria Galrão Rios Lima, intitulado Um estudo sobre o adiamento da maternidade em mulheres contemporâneas, entrevistou oito mulheres que, por opção própria, decidiram ter filhos apenas após os 35 anos. Entre as entrevistadas, quatro tiveram sucesso e outras quatro ainda estão no processo de tentativas. O sofrimento vivenciado por aquelas que não conseguiram ser mães vem da decepção e do sentimento de fracasso. “Existe hoje um discurso perigoso de que a mulher pode tudo, e, pior, deve obter sucesso em todos os âmbitos de sua vida”, mostra Maria. “Mas ninguém tem controle de quando vai ficar grávida”.

Segundo a pesquisadora, apesar de avanços médicos e científicos na área da inseminação artificial, por exemplo, ainda não é simples a tarefa de ter um filho. “O controle nunca é total”, ressalta. Além disso, os procedimentos que a medicina oferece, normalmente, são muito invasivos. Por este motivo, inclusive, uma das participantes da pesquisa desistiu de tentar por métodos não naturais.

Maria acredita que o principal aspecto de sua pesquisa é a tentativa de quebrar a ideia de onipotência nesse caso. “Não dá para ter filhos a qualquer momento”. Ela diz, ainda, que o adiamento da maternidade não é uma patologia, um problema a ser tratado. Porém, ele carrega um potencial de sofrimento para a mulher.

Mulheres
Em revisão da literatura acadêmica sobre o tema, a psicóloga encontrou, na grande maioria, visões que falavam sobre o foco na carreira que as mulheres estão tendo. Porém, em sua tese de doutorado, orientada pela professora Isabel Cristina Gomes, não foi este o discurso que predominou. Foram mais relatadas as procuras por uma vida conjugal ideal e pela estabilidade financeira.

As mulheres ouvidas na pesquisa se casaram, em média, na faixa dos 28 anos. O adiamento é recomendado por aquelas que conseguiram ter filhos após os 35 anos. Segundo Maria, porém, a idade mais avançada não equivale necessariamente a uma maior maturidade da mulher. Os recursos psíquicos de cada participante, bem como a relação com a própria família, é que mostraram-se determinantes na questão do adiamento da maternidade.

Muitas daquelas que ainda não conseguiram se tornar mães mostram ressentimentos em relação ao adiamento. A sensação de impotência nessa situação se contrapõe, segundo a psicóloga, a “uma idealização de que a mulher, nos dias atuais, pode e deve conseguir fazer tudo: ter uma carreira, um bom casamento, viajar, comprar carro e apartamento e depois ter um filho”.

Em geral, os maridos das mulheres ouvidas na pesquisa são divorciados e mais velhos. Eles abraçam a ideia de adiar a maternidade e “curtir a vida”. Porém, em dois dos casos, foi por pressão do homem que a mulher, antes sem interesse de ser mãe, decidiu ter filhos

Escrito por Cláudia Collucci às 19h25

Jornalista da Folha de S.Paulo, mestre em história da ciência pelo PUC de São Paulo, autora dos livros ("Quero Ser Mãe", editora Palavra Mágica, e "Por Que a gravidez Não Vem?", editora Atheneu)

Este espaço trata de questões relacionadas à fertilidade, como a angústia que envolve a dificuldade de gravidez, os aspectos físicos e emocionais da infertilidade, os tratamentos em reprodução assistida e a polêmica em torno das novas tecnologias.

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

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