Jornalista da Folha de S.Paulo,
mestre em história da ciência pela
PUC de São Paulo, autora dos
livros ("Quero Ser Mãe", editora
Palavra Mágica, e "Por Que a Gra-
videz Não Vem?", editora Atheneu)
"Quero Ser Mãe"
O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas
"Por Que a Gravidez Não Vem?"
Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema
Ginecologistas
- Artur Dzik
- Carlos Alberto Petta
- Cláudia Gazzo
- Daniel Faúndes
- Eduardo Motta
Urologistas
- Jorge Hallak
- Paulo Augusto Neves
- Rodrigo Pagani
Acupunturistas
- Maria Auxiliadora Florentino
- Lilian Fumie Takeda
Visitas
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Mulheres bem-sucedidas têm menos chances de formar família
"No começo eu pensava estar acima de qualquer coisa. Você se apresenta, o médico lhe mostra uma gama de opções de alta tecnologia e essa é uma coisa poderosa _a promessa de um filho. Mas antes que perceba você já fracassou pelo terceiro ano consecutivo e está começando a se sentir usada e abusada, sem mencionar que você está quebrada. Você se senta nas clínicas de reprodução cujas paredes estão cobertas de figuras de bebês, mas a despeito do fato de que está tentando tão duramente quanto sabe, não consegue nenhum daqueles bebês.
Não estou mais segura de que essa tecnologia seja remotamente um fato de poder. Você pega uma mulher da minha geração, alguém que é certamente realizada, mas que está em seus 40 anos e não tem um filho. Essa tenologia se torna uma maneira de dizer a ela que qualquer coisa que realizou não é o bastante. E então, quando ela fracassa em conseguir ficar grávida_e a maioria fracassa_ isso apaga seu senso de competência profissional e sua confiança como mulher. Sei que esses procedimentos deixaram-me mais deprimida que qualquer outra coisa em minha vida"
O relato acima é de Wendy Wasserstein, uma das mais premiadas autoras de peças da Brodway, que durante dez anos lutou para conseguir gerar um bebê. Consegui tê-lo aos 48 anos, com óvulos doados. A menina Lucy nasceu prematura, aos seis meses de gestação.
O depoimento faz parte de um livro bem interessante que estou lendo chamado "Maternidade Tardia". Na obra, a autora Sylvia Hewlett constata que quanto mais bem-sucedida profissionalmente é a mulher, mais dificuldades ela encontrará para achar um parceiro ou ter um bebê. E o mais triste: essa situação não foi uma escolha delas. Simplesmente o tempo passou e e elas estavam ocupadas demais para perceber isso.
Hewlett, economista e analista política, fez várias pesquisas e entrevistas com norte-americanas bem-sucedidas e concluiu que: 33% das mulheres de alta realização (que ganham mais de 65 mil dólares) não têm filhos na idade de 40 anos e esse quadro aumenta para 42% nas corporações norte-americanas. Entre as ultra-realizadas (com ganhos acima de 100 mil dólares), o percentual chega a 49%. Em contraste, apenas 25% dos homens bem-sucedidos não têm filhos na idade de 40 anos e isso cai para 19% entre os ultra-realizados.
O livro revela circunstâncias que têm conspirado para criar brutais contradições nas vidas das mulheres profissionais: a cultura das longas horas de trabalho das empresas, a tradicional divisão de trabalho doméstico e uma indústria da fertilidade, que embala mulheres numa falsa segurança de que poderão ficar grávidas mesmo na meia-idade. Os relatos que Hewlett captura são bem honestos e as informações contidas em sua nova pesquisa, devastadoras. Chega a doer. Ainda assim, vale a pena ler a obra para, mais uma vez, termos a certeza de que essa dor é mesmo universal.
Escrito por Cláudia Collucci às 20h31

Mães-solteiras por opção
Muitas mulheres têm se tornado mães-solteiras por opção. Sem conseguir um companheiro disposto a constituir uma família, elas têm ido à luta por vários caminhos: engravidam naturalmente em um relacionamento fortuito, adotam ou se submetem à fertilização assistida com sêmen de doadores anônimos ou de algum amigo. O fenômeno está sendo muito pesquisado nos EUA e virou tema de livro da socióloga Rosanna Hertz, "Single by Chance, Mothers by Choice" (algo como Solteiras por Acaso, Mães por Opção), ainda sem tradução no Brasil.
No Brasil, a maioria dos filhos de mães-solteiras ainda são frutos de uma gravidez não-planejada. Dados do IBGE e do Ministério da Saúde mostram que anualmente cerca de 1 milhão de mulheres, entre 18 e 24 anos, dão à luz nessa situação. Mas na classe média, muitas mulheres acima de 30 anos já começam a pensar em produções independentes. O assunto virou uma das principais queixas nos consultórios de ginecologistas. Elas sentem o relógio biológico bater, sabem que a vida reprodutiva caminha para o fim e querem ser mães, mas não estão encontrando homens dispostos a dividir esse sonho.
Mas, afinal, quem são essas mulheres que planejam ser mães solteiras? O livro de Hertz nos dá algumas pistas. Segundo a socióloga, as mulheres entrevistadas no seu livro se tornaram independentes por volta dos 20 anos, eram graduadas e estavam no mercado de trabalho. Muitas já com casa própria. Nunca imaginaram que não se casariam. Estavam felizes com a vida que levavam, mas sentiam que o relógio biológico estava batendo. Lá no fundo, algo as incomodava _e era a maternidade. É possível, na avaliação de Hertz, que tenham sido influenciadas pela idéia social de que todas as mulheres devem ser mães.
O fato é que a maioria das mulheres crescem acreditando que se tornarão mães do jeito convencional. Mesmo depois do parto ou da adoção, ainda esperam encontrar um parceiro que ame o bebê. Imaginam, então, que estão apenas adiantando uma etapa do processo. A decisão não é feita da noite para o dia, mas, nos últimos anos, as mulheres não estão deixando a escolha para o último minuto.
Algumas das entrevistadas de Hertz decidiram ser mães por volta dos 32 anos. Nos EUA, o modelo composto por mãe e filho(s) tornou-se o centro da família. Apenas 24% das crianças estão com ambos os pais. Os números indicam que as mulheres economicamente independentes não precisam de homem ou casamento para ser mães. Hoje, algumas mulheres cujos filhos foram concebidos por inseminação com doador anônimo estão procurando, pela internet, os irmãos de seus filhos. Isso tudo nos leva a crer que o fenômeno das mães solteiras de classe média veio para ficar.
Escrito por Cláudia Collucci às 14h42

A busca pela paternidade

Muitas vezes nesse processo de tentativas de gravidez ficamos tão focadas no desejo de ser mãe que esquecemos de enxergar o homem que está ali ao nosso lado e que também tem um desejo: o de ser pai. Esse homem dificilmente manifestará seus sentimentos com todas as palavras, da forma como a gente gostaria de ouvir. A maioria dos homem é assim mesmo, é preciso compreendê-los nas entrelinhas. Mas essa ficha demora a nos cair.
Algumas vezes, esquecemos do empenho deles em participar dos tratamentos, de acompanhar os ultra-sons e as consultas médicas. Esquecemos do colo sempre pronto para nos amparar quando desabamos, exaustas das tentativas frustradas. Esquecemos o tamanho da paciência deles para agüentar nossas oscilações hormonais. Esquecemos que somos um casal.
Talvez isso aconteça porque a infertilidade nos causa uma imensa sensação de solidão, um inverno dentro de nós. E por mais que tenhamos homens maravilhosos ao nosso lado, nem sempre conseguimos enxergá-los. O mais comum é o uso da lupa de aumento para os defeitos. Sempre teremos uma queixa a nos agarrar. Seja o egoísmo, o comodismo, a distância, etc etc. E com isso perdemos ótimas oportunidades de elogiá-los, agradecê-los e trazê-los cada vez mais próximos de nós. Adoramos ser elogiadas, mimadas, mas quantas vezes o inverso é verdadeiro?
Como eles realmente se sentem nesse processo todo? Há muito tempo os médicos tratam a infertilidade como um problema do casal, mas ainda a mulher é muito mais investigada, revirada. Na maioria das clínicas, a investigação do homem se resume ao pedido de espermograma. Como se eles fossem apenas um amontoado de sêmen. Sobre isso, vale a pena vocês acessarem o site do Rodrigo Pagani (http://www.queroserpai.com.br) e conhecerem o que é uma avaliação da fertilidade masculina de verdade.
Por mais que não aparentam, os homens sofrem sim com esse processo todo. Sofrem sim com a demora do filho que tanto desejam. A gente ainda chora, fala com as amigas, desabafa nos fóruns de discussão e com nossos médicos. Mas e eles? A gente já parou para pensar o quanto devem se sentir só, frustrados e impotentes diante da nossa dor e das suas próprias dores? Dificilmente esse é um assunto que eles vão discutir com os amigos. Ao contrário, os homens geralmente escondem suas fragilidades dos amigos. As conversas, em geral, começam e terminam com brincadeiras e risadas. E os temas sempre ficam na superficialidade: política, economia, futebol, problemas no trabalho etc.
Sem contar com as questões emocionais, que, afinal, também estão presentes na vida deles mas dificilmente são tocadas. Será que eles sabem que também existem travas inconscientes que envolvem a paternidade? Que muitas vezes é preciso re-trabalhar as relações que tiveram com seus próprios pais para poderem abrir espaços para a chegada de um filho?
Dedico a coluna a esses homens, aos nossos companheiros, futuros pais dos nossos filhos. Que eles se sintam amparados e compreendidos nessa busca.
Escrito por Cláudia Collucci às 12h01

Fatores emocionais que podem interferir na resposta da gravidez
Mais uma vez, a psicóloga Luciana Leis nos presenteia com um ótimo artigo sobre as questões emocionais que podem estar envolvidas nas tentativas frustradas de gravidez. Acho fundamental que, ao mesmo tempo que procuramos as razões físicas da infertilidade, a gente também abra espaços para ouvir o que o nosso inconsciente tem a dizer.
Na maioria das vezes, quando um casal busca a gravidez e esta não se dá de forma espontânea, cogitam-se, quase automaticamente, os tratamentos de reprodução assistida (coito programado, inseminação artificial, FIV etc.). Nota-se que há uma procura incessante por fatores físicos causadores deste problema, porém, esquecem-se de fatores emocionais que também podem interferir neste processo, uma vez que o homem não é formado de um corpo dissociado da mente. Na prática clínica, percebo que existem muitos fatores psicológicos que, associados ou não a fatores físicos disfuncionais, podem influenciar na resposta de gravidez. Dentre outros, os que se evidenciam com mais freqüência são:
· Ambigüidade frente à maternidade: Muitas mulheres acreditam que, por alcançarem certa idade, devem iniciar a busca pelo filho; entretanto, algumas ainda não se sentem preparadas para isso. Às vezes têm a maternidade tão idealizada que fica difícil atingi-la, pois nunca se sentem suficientemente boas para exercê-la. Há também casos em que medo de mudanças na imagem corporal, medo do parto e receio de ter uma criança com problemas podem interferir negativamente neste processo.
· Ambigüidade frente à paternidade: Assim como as mulheres, os homens também podem apresentar dificuldades em assumir uma criança, seja por questões relacionadas à idealização desse papel ou, até mesmo, por receio de não conseguir sustentar uma família (função social que ainda nos dias de hoje lhe é atribuída).
· Dificuldade em assumir o papel de mãe: Há mulheres que buscam a maternidade, mas ainda são bastante dependentes dos pais, havendo certa dificuldade de saírem do papel de “filhas” para assumirem o de mãe.
· Falta de espaço para a criança: Existem pessoas que decidem engravidar, porém, não estão dispostas a abrir mão de nenhuma atividade que realizam (que em alguns casos são muitas) para incluir a possível criança em suas vidas, tornando quase impraticável a chegada do bebê. Em alguns casos nota-se que existe também a falta de espaço emocional para incluir um terceiro na relação do casal, a qual, nessas situações, mostra-se bastante simbiótica, existindo uma possível fantasia de “separação” com a chegada da criança.
· Rivalidade com terceiros: Há mulheres que passam a desejar um filho justamente no momento em que a irmã, a cunhada ou outra pessoa próxima engravida, sem nunca terem sentido tal desejo até então. Nesses casos, há de se pensar o quanto realmente esse desejo foi despertado em função da proximidade emocional com essa pessoa ou se há algum sentimento de disputa em relação a ela.
· Desencontro de desejo do casal quanto ao momento de ter um filho: É possível que um dos parceiros ainda não esteja certo de que aquele seja o melhor momento para assumir uma criança. Na maioria das vezes, essa situação gera ressentimento no outro cônjuge, que acredita que ambos precisam estar alinhados quanto ao desejo de ter um filho. Essa é uma questão bastante complexa, pois o desejo de maternidade ou paternidade pode surgir em diferentes momentos para as pessoas e isso não significa falta de amor ou de sintonia entre o casal.
· Relações disfuncionais: Alguns casais decidem ter um filho justamente no momento em que o relacionamento não vai bem, na esperança de encontrarem um ponto em comum que os motive a continuarem juntos. Nesses casos, é preciso considerar que a fecundação pode ser mais difícil sem o verdadeiro encontro do casal e, se a criança nascer, as conseqüências desse evento podem não ser positivas ou planejadas.
Esses são apenas alguns dos fatores emocionais que podem estar por trás da dificuldade de gravidez. Deste modo, é importante destacar que cada pessoa tem uma história individual que deve ser considerada, para serem, assim, identificados os conteúdos emocionais existentes, passíveis de serem trabalhados para se ajudar na resposta de gravidez e na diminuição da ansiedade.
A psicoterapia é um recurso muito valioso nesse processo, uma vez que seu objetivo, nos casos de infertilidade, é o de trabalhar em parceria com o médico (o qual cuidará da parte física), visando maior integração corpo-mente e uma postura de enfrentamento saudável frente às tentativas de gravidez.
Luciana Leis- e-mail: luciana_leis@hotmail.com
Escrito por Cláudia Collucci às 18h02

FIV não é um 'parque de diversões'

Não poderia deixar a semana acabar sem antes comentar a notícia de que os gêmeos de Angelina Jolie e Brad Pitt são de proveta. Até aí, nada de mais. Centenas de celebridades já tiveram seus bebês de proveta. O que chama a atenção neste episódio é o casal ter recorrido à FIV (Fertilização in vitro) sem apresentar, aparentemente, problemas de infertilidade.
Diz a revista “US Magazine”: “Eles queriam desesperadamente mais bebês logo (...) Então, escolheram a FIV para que ela [Jolie] não tivesse que lidar com o estresse de tentar engravidar”. Será que eu entendi direito? Quer dizer que a FIV não é estressante? Ou é menos estressante do que as tentativas naturais de gravidez? De que planeta eles são?
Trinta anos se passaram desde que a primeira FIV foi realizada e ainda querem vender a imagem de que o procedimento é um “parque de diversões”. Quer engravidar sem estresse, faça uma FIV! Quer ter gêmeos lindos e fofos rapidinho, faça uma FIV!
Alguém pode dizer à mídia (internacional e nacional _que traduz e reproduz notícias desse tipo sem nenhum senso crítico) que a FIV é mais do que estressante, que provoca abalos físicos, emocionais e financeiros em muitos casais, que está longe de ser um procedimento garantido porque só tem 30% de eficácia a cada ciclo? Se Jolie conseguiu gerar gêmeos na primeira tentativa _não há informações sobre isso_, parabéns para ela. Mas isso está longe de ser uma regra.
E tem mais sobre o casal “Brangelina”. A versão impressa do jornal “The San Jose Mercury News” trouxe a seguinte pérola: “eles não optaram pela FIV porque tinham ‘defeito no maquinário’, mas sim porque estavam impacientes para esperar uma gravidez natural”. Defeitos no maquinário? Give me a break!
Parece que houve um esforço grande da assessoria do casal de afastar qualquer hipótese de dificuldade de gravidez natural. É como se falassem: ‘O casal pop star sofrendo de infertilidade, imagina! Angelina é perfeita, Brad Pitt é perfeito, logo têm um “maquinário” perfeito. Infertilidade sofrem vocês, pobres mortais'.
Deixando a ironia de lado, a forma como essa notícia foi divulgada representa um grande desserviço. Ela joga uma pá de cal em todos os protocolos de todas as sociedades médicas de reprodução humana, que defendem que a FIV deva ser sempre o último passo, depois de esgotados todos os outros procedimentos menos invasivos _coito programado, estimulação ovariana e inseminação. Essa história é mais capítulo da série "Banalizações da reprodução assistida".
Não custa lembrar que, além da pouca eficácia e do alto custo, a FIV tem riscos. No exterior, pessoas já morreram durante o tratamento (por hiperestimulação ovariana e por perfuração de órgãos durante a punção dos óvulos no ovário). Também ainda não sabemos dos riscos, a longo prazo, dessa quantidade imensa de hormônios injetados no nosso corpo. Podem me chamar de mal-humorada, mas realmente fico passada quando leio asneiras desse tipo.
Escrito por Cláudia Collucci às 17h32

"Quero ser Mãe" está entre os blogs finalistas do Prêmio Comunique-se
Tive uma ótima surpresa hoje. Soube que o nosso blog está entre os dez finalistas da categoria "Blogs" do Prêmio Comunique-se e Jornalismo e Comunicação Empresarial. Vejam o link: http://www.premiocomunique-se.com.br/premio/2008/finalistas_08.asp.
Fiquei muito feliz porque nem sabia que estava no páreo. O prêmio é um reconhecimento do desempenho do jornalista pelo conjunto do seu trabalho. Os finalistas e vencedores são eleitos por meio dos votos dos próprios jornalistas que freqüentam o portal Comunique-se.
O prêmio divide-se em três fases. Na primeira, são indicados dez profissionais para concorrerem em cada categoria, com base nas sugestões da comunidade de jornalistas cadastrados no Comunique-se.
Na segunda etapa, os jornalistas escolhem três finalistas para cada categoria e, na última fase, os mesmos eleitores decidem quem são os vencedores. Em todo o processo de definição de indicados, finalistas e vencedores, a votação é totalmente online, sendo as duas últimas etapas acompanhadas pela empresa de auditoria independente Deloitte.
Ganhando ou não o prêmio, já estou para lá de satisfeita. Só o fato de um blog que trata de um tema tão específico, a maternidade, estar no páreo ao lado de outros coordenados por profissionais que admiro muito, como o Noblat e o Josias, que tratam basicamente de política, já é um presentão. Quero agradecer meus colegas jornalistas pela indicação. E dividir minha alegria com vocês, minhas (meus) leitoras (res) tão queridas (os).
Escrito por Cláudia Collucci às 11h33

Mães da FIV tendem a ser mais superprotetoras
Um estudo da Universidade de Cambridge sobre as relações em famílias com filhos nascidos por meio de doação de óvulos, de esperma ou por útero de substituição mostrou que elas apresentam poucas diferenças em termos de funcionamento e equilíbrio psicológico em relação aos filhos que foram concebidos naturalmente. A única diferença é que, no primeiro caso, as mães da FIV tendem a ser mais superprotetoras e mais "brandas" em relação à disciplina dos pequenos.
A equipe de cientistas, liderada por Polly Casey, acompanhou 39 famílias que tinham recorrido à maternidade de substituição, 43 à inseminação com esperma de doador e 46 à doação de óvulos. Essas famílias foram comparadas com outras 70 em que as crianças tinham sido concebidas naturalmente.
O estudo mostrou também que, quando as crianças completaram sete anos, "apenas" 39% dos pais que tinham recorrido à doação de óvulos e 29% dos que tinham recorrido à de esperma, tinham revelado a elas a natureza da sua concepção.
As aspas no apenas do parágrafo acima foram extraídas do texto original da pesquisa e mostram que os cientistas avaliaram o percentual pequeno demais. Mas, para mim, essa taxa foi uma surpresa.
Em mais de uma década fazendo reportagens e escrevendo livros sobre esse mundo da reprodução assistida, só conheci um caso de uma mulher que revelou à filha a sua verdadeira origem. Ainda assim, ela o fez porque a família toda sabia que ela não tinha os dois ovários e a gravidez só seria possível com óvulos doados. Antes que a filha descobrisse a verdadeira história da sua concepção por outras pessoas, a mãe decidiu contá-la quando a menina fez sete anos. Felizmente, não houve nenhum trauma e a menina, hoje uma adolescente, encara a história com muito bom humor.
Na avaliação de muitos psicólogos, os pais devem sim contar aos seus filhos, no momento certo e da forma adequada, a verdade sobre a concepção. Os não-ditos, as omissões, podem provocar danos psicológicos irreparáveis na relação, alertam eles. Os médicos, por sua vez, continuam achando isso uma grande besteira. Tentam traçar uma similaridade entre a doação de gametas e a doação de sangue.
Eu já me posicionei sobre isso e volto a reafirmar: qualquer segredo numa relação familiar é prejudicial e deve ser evitado. Por isso, é muito importante pesar essas questões antes de se decidir por gravidez com gametas doados. E se durante o processo bater a dúvida sobre como conduzir o assunto em casa, é fundamental buscar a ajuda de um profissional.
Escrito por Cláudia Collucci às 20h44

30 anos de fertilização in vitro: o que mais podemos esperar?
No próximo dia 25 de julho, o mundo comemora 30 anos de fertilização in vitro. Foi nessa data que nasceu Louise Brown, o primeiro bebê de proveta. Como em todas as efemérides, já começam a surgir as previsões futuras. A revista britânica "Nature" ouviu diversos especialistas na área da reprodução assistida para saber quais são as suas apostas para os próximos 30 anos. Vejam os que eles pensam:
Na opinião de Susannah Baruch, diretora do Centro de Genética e Políticas Públicas da Universidade Johns Hopkins, em Washington, o medo dos bebês feitos sob encomenda, que costumamos ver em filmes e livros de ficção científica, não se tornará uma realidade. "Não existe um gene que promova o cabelo loiro, a magreza, a altura ou qualquer característica que o 'bebê perfeito' possa ter", explica.
O que pode vir a ser possível é escolher um embrião com chances melhores de ter alguma característica, dentro de um grupo. Mas isso traz impedimentos. Escolher o bebê com maior possibilidade de ser loiro pode resultar em um que tenha também maior chance de ter alguma doença. "Nenhum de nós é um espécime perfeito e nenhum de nossos embriões será. Além disso, lembra a cientista, "a inseminação artificial é cara e desconfortável." "A forma a moda antiga é mais barata e mais divertida, e isso não vai mudar em 30 anos."
Para o diretor do Centro de Ética da Universidade Estadual de Oklahoma, Scott Gelfand, o futuro pode ver bebês sobrevivendo com apenas 12 semanas _cerca de três meses_ de gestação. O avanço, para ele, pode levar até a gestações completas em úteros artificiais. "Eu acho que isso é interessante e assustador", diz Gelfand.
A tecnologia existe, mas, segundo o cientista, quem trabalha na área não fala abertamente sobre o assunto, por medo das implicações éticas e morais. De um lado, alguns podem achar que algo do tipo seria uma aberração que não poderia ser usada. De outro, ela poderia não apenas salvar a vida de bebês extremamente ameaçados, como também resolver problemas como o do aborto _ mães que não querem a criança, em vez de abortar, poderiam entregar para clínicas e úteros artificiais; depois o bebê seria entregue para adoção. Mas com a quantidade de abortos realizados todos os anos (só nos Estados Unidos são um milhão), haveria espaço para gestar e adotar todas essas crianças?, questiona o médico.
Os cientistas também estão otimistas em relação à infertilidade. "Vejo a tecnologia indo em direção possivelmente à erradicação completa da infertilidade", acredita o diretor do Centro de Medicina Reprodutiva e Infertilidade de Nova York, Zev Rosenwaks.
Apresentadas no final de 2007, as células induzidas podem resolver a polêmica das células-tronco embrionárias e tornar possível que óvulos e espermatozóides sejam feitos a partir de um pedaço de pele. E isso pode ser feito com pessoas de qualquer idade. "Recém-nascidos poderiam ter filhos e pessoas de cem anos poderiam ter filhos", explica Davo Solter, do Instituto de Biologia Médica de Cingapura.
Eu aqui no meu cantinho só continuo torcendo para que a FIV se torne de fato mais eficaz e mais barata. Trinta anos se passaram e até agora ninguém consegue explicar, por exemplo, porque embriões considerados perfeitos não se fixam no útero. Trinta anos se passaram e o tratamento continua caríssimo, extremamente desconfortável e com apenas 30% de chances de dar certo. Isso é fato. O resto me soa falatório inútil.
Escrito por Cláudia Collucci às 13h30

Os limites e os motivos da maternidade

A mãe, Omkari, 70, e o pai, Charan Panwar, 77
Os gêmeos, com menos de 900 gramas
Nesta semana, outro caso inusual de maternidade me chamou a atenção: uma indiana de 70 anos deu à luz um casal de gêmeos prematuros, na cidade de Muzaffarnagar (Índia). Ela já está sendo considerada a mulher mais velha do mundo a parir. É verdade que ninguém pode provar a idade dela porque Omkari não tem certidão de nascimento e não sabe ao certo quando nasceu, segundo o jornal britânico Daily Telegraph. Até então, a mãe mais velha do mundo era Adriana Iliescu, uma romena que deu à luz uma filha, aos 66 anos, em 2005.
A idade da indiana foi estimada em 70 anos porque Omkari disse que tinha nove anos quando acabou o governo britânico sobre a Índia e países vizinhos, em 1947. A aposentada, que tem duas filhas adultas e cinco netos, se submeteu a um tratamento de fertilização in vitro _com óvulos doados de uma mulher mais jovem, obviamente_ para gerar um herdeiro homem.
Seu marido, Charan Singh Panwar, 77, afirmou que o casal ficou endividado para financiar o tratamento. "Finalmente temos um filho e herdeiro", disse ele. "Nós rezamos a Deus, visitamos santos e locais sagrados para rezar por um herdeiro. Posso morrer como um homem feliz e um pai orgulhoso".
"Se eu sou a mãe mais velha do mundo, isso não significa nada para mim. Eu só quero ver meus bebês e cuidar deles enquanto eu ainda posso", disse Omkari. "Minhas filhas ganharam um irmãozinho, meu marido e eu ganhamos um herdeiro - é tudo que sempre quisemos", acrescentou.
Tanto esforço e risco para se ter um filho nessa idade tem uma explicação. A preferência por filhos homens está fortemente enraizada em muitos países asiáticos, como a Índia e a China, tanto por questões culturais quanto por questões econômicas. As filhas podem ser vistas como fonte de prejuízo, especialmente quando é preciso pagar dotes. Pais mais velhos usualmente esperam receber apoio de seus filhos e suas esposas. E filhos homens também podem ser necessários para realizar ritos funerários ou reverência a ancestrais.
Por isso, para eles, vale a pena o risco. A mãe indiana septuagenária, por exemplo, quase morreu. Chegou ao hospital inconsciente e sangrando muito. A ginecologista Nisha Malik afirmou que quando a viu, pensou primeiro que ela tivesse sofrido um acidente ou tivesse câncer. "Eu fiquei chocada quando esta senhora me disse que estava grávida."
Posso dizer que também fiquei chocada não só com o fato em si, mas pelos rumos que anda tomando a fertilização in vitro, neste ano em que a técnica completa 30 anos de existência. Atordoa-me, sobretudo, o uso da FIV para fins ideológicos. Já ouvi algumas histórias de casais sem histórico de infertilidade que, por razões sócioculturais-religiosas, optam pela FIV para gerar filhos homens. Fazem o tratamento e autorizam, sem peso na consciência, o descarte dos embriões femininos para só transferir os embriões-meninos.
Em conversas informais no meio médico já soube, inclusive, de casos de redução embrionária pelo mesmo motivo. Um deles era casal de origem asiática que veio ao Brasil especialmente para fazer a FIV. A mulher engravidou de trigêmeos, duas meninas e um menino. O casal decidiu então autorizar a aspiração, ou em um português mais claro, a morte, dos dois embriões femininos, porque só lhes interessavam o nascimento de um menino _já tinham uma filha adolescente. E o mais triste é que, mediante um bom dinheiro, sempre encontram médicos dispostos a cometer atrocidades desse tipo.
Por outro lado, essa pré-seleção de filhos, que prioriza o sexo masculino _em gravidezes naturais, é comum as famílias provocarem o aborto quando o ultra-som aponta que a gestação é de uma menina_, deve ter conseqüências sociais graves nos próximos anos, alerta o Fundo de População das Nações Unidas. Em algumas regiões da China e da Índia, um crescente número de homens já tem dificuldade para encontrar companheiras, o que pode levar a um aumento na violência sexual e no tráfico de mulheres.
Outras informações relacionadas à preferência asiática por filhos homens estão disponíveis em: http://www.unfpa.org/gender/case_studies.htm.
Escrito por Cláudia Collucci às 12h49

"Homem grávido" dá luz uma menina
Thomaz Beatie, grávido
Thomaz na reta final da gravidez
A história parece ter saído de um livro de ficção. Thomas Beatie, 34, nasceu mulher no Havaí e se chamava Tracy Lagondino. Chegou a ser modelo e a concorrer a Miss Havaí Teen. Aos 20 anos resolveu ser homem. Fez mastectomia e tomou hormônios masculinos para ganhar massa muscular, pêlos, voz grossa e conseguiu identidade masculina _com passaporte e carteira de motorista.
Preservou, no entanto, seus órgãos sexuais femininos. O tempo passou e ela, ou melhor ele, conheceu sua mulher Nancy, 46, que não podia ter filhos porque teve o útero removido em razão de uma endometriose. Decidiram então tentar uma gravidez com o sêmen doado.
E pasmem! A inseminação foi caseira. Eles conseguiram o sêmen e o injetaram em Thomaz por meio de uma seringa. "Creio que o desejo de ter um filho não é masculino nem feminino", disse ele na época. "É uma necessidade humana. Sou uma pessoa e tenho direito a ter um filho biológico."
A menina nasceu no último dia 29, em Oregon (EUA). Segundo ele, a única coisa diferente na vida de mãe, ou melhor, de pai, é o fato de não conseguir amamentar a filha. "Um grande número de mulheres também não o fazem", justificou. Este mundo está ficando muito estranho ou é impressão minha?
Escrito por Cláudia Collucci às 19h34

"Estou em luto, pela criança e pela mãe"
Quando se luta tanto por um filho, quando se perde um filho ainda no ventre, fica muito difícil entender os motivos que levam uma mãe a atirar um bebê de oitos meses pela janela. O caso aconteceu na noite de ontem em Curitiba e a mulher, segundo a polícia, aparentava ter problemas mentais. A filha foi lançada do sexto andar e não sobreviveu à queda. Segundo consta, a mãe, uma auxiliar de enfermagem do Hospital das Clínicas de Curitiba, de 41 anos, estava deprimida, tomava antidepressivos.
"Eu queria me livrar do pacote. Sempre fui incompetente para cuidar dela", disse a mãe ao delegado, após ser presa. Ela relatou que a intenção era também se matar após jogar a filha da janela do apartamento, mas faltou coragem. Já vimos cenas parecidas outras vezes. É a mãe que joga o filho no rio, no lago, no lixo. E nós, esse batalhão de mulheres sonhando com a maternidade, ficamos a perguntar: Por que que tem que ser assim? Por que há de um lado tantas mulheres com um imenso amor para a dar aos filhos e outras tantas com tão poucos recursos emocionais para exercer a maternidade?
Apesar do meu inconformismo pela falta de respostas das questões acima e apesar considerar um crime abominável, não consigo odiar essa mulher. Sei que muitas de vocês vão me criticar por isso, mas é a mais pura verdade. Conheço razoavelmente bem os processos depressivos e os surtos psicóticos para entender que ela não agiu racionalmente, que ela está doente. E me irrita profundamente quando leio frases do tipo "ela não demonstrou arrependimento". As pessoas de uma forma geral, incluo aí meus amigos jornalistas, entendem muito pouco de doenças mentais...
Um outra questão que agrava mais essa história é o fato dessa mulher ser uma profissional da área da saúde, estar recebendo remédios e acompanhamento psicológico e, nem assim, essa rede foi suficiente para impedi-la de fazer o pior: matar a própria filha. Agora, é muito fácil todo mundo querer linchar essa mulher em praça pública. Já acompanhei de perto casos de depressão pós-parto, alguns de amigas muto queridas, e posso garantir que são situações terríveis e que essas mulheres se tornam irreconhecíveis.
Já ouvi relatos de mães, hoje super carinhosas e corujas com seus filhos, que, diante de uma depressão pós-parto, pensaram em matá-los e se matar também. A sorte é que contaram com profissionais e remédios eficazes e uma família muito presente que as trouxeram de volta. Pelo jeito, não foi o que aconteceu com a auxiliar de enfermagem. Estou em luto, pela criança e pela mãe.
Escrito por Cláudia Collucci às 12h27

Vida e morte dos bebês
Duas histórias envolvendo bebês me comoveram nesta semana. Primeiro, essa dramática sucessão de mortes de recém-nascidos na Santa Casa de Misericórdia do Pará: 20 bebês mortos em apenas uma semana. A própria Secretaria de Saúde reconheceu a precariedade do hospital, dizendo que lá faltam leitos, equipamentos e médicos.
Segundo dados da Santa Casa, de 274 bebês atendidos na unidade de terapia intensiva, entre janeiro e maio do ano passado, 153 morreram. Uma média de óbito superior a 55%. Esse ano, no mesmo período, foram atendidos 269 recém-nascidos com 121 mortes, uma média de quase 45%. Venhamos e convenhamos, índices muito acima dos padrões aceitáveis em qualquer lugar do mundo. Quantos bebês ainda terão de morrer para que efetivas providências sejam tomadas? Quem será responsalizado por essas mortes?
Felizmente, nesta semana, outra história de recém-nascido teve um final feliz. Um bombeiro de Piracicaba, no interior de São Paulo, conseguiu salvar a vida de um bebê pelo telefone. Gabriel, de apenas 23 dias, engasgou com o leite. Com o nariz congestionado, parou de respirar. A família ligou para o Corpo de Bombeiros e, pelo telefone, o soldado Adriano Costa foi orientando a avó do bebê como deveria proceder:
"Coloca ele meio de ponta-cabeça, um pouquinho só"; "Vai dando tapinha bem devagarzinho na costinha dele e abre um pouquinho a boquinha dele", explicava o bombeiro.
A orientação surtiu efeito e o bebê foi reanimado. Já está em casa esbanjando saúde.
Parabéns, soldado Adriano Costa! É por profissionais assim como você que a gente ainda acredita que esse país tem jeito.
O muito fofo bebê Gabriel
Escrito por Cláudia Collucci às 21h09

Saber a hora de parar
O texto abaixo foi extraído do "The New York Times". Penso que ele retrata de uma forma honesta e profunda uma possibilidade que a gente nem sempre quer pensar: não conseguir gerar nossos próprios filhos.
Quando Pamela Mahoney e Alex Tsigdinos se casaram, nunca pensaram que teriam dificuldades para ter um bebê. Mas, depois de 11 anos e muitos tratamentos de fertilização, eles ainda são apenas uma família de duas pessoas. Frustrados e exaustos com os procedimentos caros que nunca funcionaram, o casal finalmente desistiu. Agora o desafio é aprender a aceitar uma vida sem filhos.
Dez por cento de todos os casais têm problemas para engravidar, às vezes devido a um problema físico e às vezes por razões inexplicáveis. Mas, à medida que as tecnologias de reprodução aumentam, aumenta também a esperança de muitos casais.
Para os Tsigdinos, que moram em Los Gatos, Califórnia, os médicos foram otimistas em cada passo. Aos 29 anos, depois de dois anos tentando engravidar, Pamela Tsigdinos soube que tinha pequenas lesões no útero - um sinal precoce de endometriose, uma condição marcada pelo crescimento descontrolado do tecido uterino. As lesões foram removidas com cirurgia e os médicos mandaram-na para casa com todas as expectativas de que ela não teria mais problemas para engravidar.
O tempo passou e nada de bebê. Alex Tsigdinos foi examinado e o casal descobriu que ele sofria de varicocele, um bloqueio no fluxo sangüíneo ao pênis que diminuía sua quantidade de espermatozóides. Uma cirurgia corrigiu o problema. No entanto, mais dois anos se passaram, e nada. Durante os vários anos seguintes, o casal tentou dois ciclos de fertilização in vitro e duas sessões de inseminação artificial, isso sem mencionar abordagens não-tradicionais, incluindo acupuntura, suplementos fitoterápicos e tratamento quiroprático.
O tempo é o vilão
O tempo se tornava um vilão: para uma mulher abaixo dos 35 anos, o percentual de gravidez após uma fertilização in vitro é de 43%, mas cai para 4% em mulheres após os 42 anos. Anos de consultas médicas, contas a pagar e sonhos não-realizados também cobravam seu preço, abalando as economias do casal, sua paciência e seu casamento. Finalmente, eles deram um basta. "Eu fiz 39 anos, me olhei no espelho e disse 'até quando podemos continuar com isso?'', conta Pamela.
Há dois anos, Alex e Pamela Tsigdinos tomaram a difícil decisão de dar fim à situação: parar com os procedimentos invasivos, parar de medir diariamente a temperatura corporal basal para saber se ela perto de ovular, parar de procurar novos tratamentos - e parar de sonhar em ter filhos.
Pamela Tsigdinos sabe bem o que você está pensando: e por que não adotar? Mas ao mesmo tempo em que consideram a possibilidade, o casal acha que não é para eles. "Não é como cara ou coroa - ou você tem um filho ou adota. Não é tão simples assim", ela disse, lembrando os esforços de amigos que buscaram a adoção.
Não está claro quantas mulheres não têm filhos, contrariando sua vontade. O estigma ligado à infertilidade e à vida sem filhos obriga muitas mulheres a silenciarem sobre seus conflitos, disse Pamela, completando que isso "não é algo que a gente quer conversar em uma festa, tomando um drinque". Quase dois anos depois, Pamela Tsigdinos, 45 anos, ainda cai em lágrimas quando fala sobre isso. "Não é um processo linear", disse. "Você aceita que vai fazer o melhor para seguir em frente, mas há dias em que tudo se torna simplesmente sufocante."
O processo de aceitação
Especialistas recomendam que mulheres que lutam contra a decisão de interromper tratamentos de fertilização encarem sua perda como fariam com qualquer outra. "A pessoa deve atravessar um processo de luto pelo que isso representa e aceitar quem elas são nessa vida", disse Dr. Mardy S. Ireland, psicanalista de Berkeley, Califórnia, especialista em casais sem filhos.
Tratamentos contra infertilidade podem ser tão desgastantes que muitas mulheres continuam tentando, mesmo depois de as chances serem proibitivas. Aquelas que conseguem aceitar a possibilidade de que nenhum tratamento no mundo as permitirá engravidar podem encarar melhor a possibilidade de aprender a aceitar uma vida sem filhos.
"As mulheres que terão mais dificuldade em lidar com a realidade são aquelas que não tomam uma decisão", disse Ireland. As que não tomam a decisão, acrescentou, vão acordar um dia e sentir que a escolha foi tirada das mãos delas.
Ainda assim, mulheres como Pamela Tsigdinos freqüentemente caem em lágrimas ao ver uma mãe empurrando um carrinho de bebê, lutam contra a raiva que sentem de amigos que inocentemente as convidam para chás de bebê e brigam com seus próprios pais, que não aceitam o fato de que nunca serão avós.
Susan B. Slotnick, membro da Resolve, uma associação sem fins lucrativos de fertilidade, entende essa dor. Há 11 anos, ela também tomou a decisão de parar os tratamentos de fertilidade e aceitar uma vida sem filhos. "A dor nunca vai embora, na verdade", disse. "Mas é como uma dor de coluna crônica, você aprende a lidar com ela."
Internet ajuda
Essa dor une mulheres de todos os níveis sociais que compartilham do desejo de ter filhos, e uma comunidade online em crescimento as ajuda a lidar com as muitas facetas da infertilidade. Pamela Tsigdinos, profissional de marketing de uma empresa de capital de risco, criou seu próprio blog sobre o outro lado do tratamento, o www.coming2terms.com, para ajudá-la a superar a decisão de interromper os tratamentos de infertilidade.
Após anos se concentrando em ficar grávida, a paixão de Pamela agora é se conectar com outras mulheres na mesma situação. Ela escreve sobre coisas diárias que a fazem lembrar-se da sua vida sem filhos, mas também sobre as coisas com as quais teve que lidar no caminho: como saber quando interromper o tratamento, como lidar com amigos e parentes intrometidos, como aceitar a vida sem a expectativa de ler livros infantis, ir a recitais e a festas de formatura. As mulheres e os poucos homens que comentam no blog de Pamela nem sempre concordam com suas escolhas, mas todos têm compaixão e a ajudam a se sentir melhor.
A infertilidade pode ser o tema principal na vida de Pamela Tsigdinos. Mas ela afirma que isso não a impede de aproveitar o que tem de bom na vida. "Tenho que admitir que sou uma das mulheres mais sortudas porque tenho o marido mais paciente do mundo", ela disse. "Pelo fato de sermos somente nós dois, o tempo todo queremos assegurar que o outro esteja feliz."
Pamela Mahoney
Escrito por Cláudia Collucci às 12h59

Reprodução assistida no SUS. Será que dessa vez é sério?
Só para não passar em branco. Na última terça-feira, dia 10, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou, em entrevista coletiva, que o Sistema Único de Saúde (SUS) passará a oferecer gratuitamente, em cerca de seis meses, tratamento de reprodução assistida a casais que não conseguem ter filhos.
A frase do ministro: "O casal que não consegue ter filhos e quer fazer uma inseminação artificial tem que pagar hoje um tratamento caríssimo, que custa entre R$ 10 mil e R$ 20 mil. O SUS também passará a oferecer esse atendimento". Alguém aqui na redação gritou: ‘Cláudia, você viu que o SUS vai oferecer tratamento de reprodução assistida? Minha resposta foi imediata: ‘Agora, só acredito vendo. Não escrevo mais uma linha anunciando uma promessa que nunca sai do papel!’.
Caro ministro, meu ceticismo tem razão de existir. No dia 6 de julho de 2005, o seu antecessor, Humberto Costa, anunciou exatamente a mesma coisa: que até dezembro daquele ano os casais poderiam fazer o tratamento gratuito pelo SUS. O que aconteceu desde então? Exatamente nada. Os casais com dificuldades de gravidez só vêm encontrando no SUS portas fechadas e desamparo. Nos poucos lugares públicos onde há oferta do atendimento, as filas são monstruosas. Acompanho a luta de uma amiga que está há quatro anos na fila do HC. Na última consulta, marcaram um retorno para... o ano que vem.
O mais triste é saber que o mesmo desamparo existe no sistema suplementar de saúde. Faz algum sentido pagarmos um absurdo de plano de saúde e não haver nenhuma cobertura em relação aos tratamentos de reprodução assistida? Faz algum sentido muitas mulheres mentirem nos laboratórios de análises clínicas, quando fazem exames vinculados ao tratamento, porque alguns planos glosam os procedimentos quando se trata de reprodução assistida? E sabem por que? Receio de arcar com os custos da gravidez múltipla (UTI neonatal etc etc).
Enfim, caro ministro, quero muito acreditar que, agora, a promessa de tratamento de reprodução assistida no SUS é para valer. Sei que tem muita gente que vai dizer: um país pobre como o nosso há outras prioridades na área da saúde. Concordo que o assunto é complexo e que o sistema não é uma torneira aberta. Mas entendo que é possível equacionar essas questões todas e fazer valer a lei dos direitos reprodutivos de forma integral: oferecer recursos aos casais que desejam e aos que não desejam ter filhos.
Hoje, existe uma multidão de homens e mulheres brasileiros que amargam a dor da infertilidade, sem condições de arcar com os caríssimos tratamentos. E se enchem de esperanças cada vez que um ministro de Estado declara que, finalmente, o sistema de saúde vai acolhê-los. Então, por favor, ministro, lembre-se deles cada vez que tocar neste assunto. A infertilidade é uma ferida aberta que, muitas vezes, parece invisível à sociedade porque as pessoas têm dificuldade de expô-la. Ainda não conseguimos nos organizar o suficiente para, a exemplo das nossas amigas portuguesas, fazermos uma marcha e sensibilizar a população para esse tema.
Lá em Portugal, no último dia 1º de junho (data em que se comemora no país o Dia das Crianças) centenas de pessoas saíram às ruas com esse fim. "Queremos dar a cara e dizer a quem pode ajudar _o Ministério da Saúde_ que existimos, que estamos aqui e precisamos de ajuda", disse à epoca Filomena Gonçalves, da Associação Portuguesa de (In)Fertilidade. Fazemos nossas as tuas palavras, Filomena.
Escrito por Cláudia Collucci às 17h07

É preciso escoar a tristeza
Dr. Ricardo me liga pedindo ajuda para a divulgação de um evento na clínica de reprodução. Diz que freqüentemente acessa o blog e que, ultimamente, vem me achando triste. Pergunta se está tudo bem e se tem algo que ele possa fazer para me ajudar. Agradeço e digo que a tristeza faz parte do processo da dificuldade de gravidez. E que eu não me furto de vivê-la e nem de dividi-la neste espaço. Do contrário, não estaria sendo honesta com vocês, minhas queridas amigas virtuais.
Disse a ele que o meu lema é sempre abrir os canais para que a tristeza escoe. Deixá-la represada é o mesmo represar um rio. Uma hora ele estoura e a inundação é sempre muito pior. Também falei para o Ricardo não se impressionar com os posts tristes porque nesse espaço também há mensagens de esperança, de otimismo e de alegrias. Afinal de contas, essa também sou eu.
Foi então que me lembrei de um episódio que aconteceu nesta semana, durante minha viagem a Chicago (EUA) para a cobertura do congresso mundial de câncer da Sociedade Americana de Oncologia Clínica. Na segunda-feira, depois de cinco dias de exaustivas conferências, passei algumas horas da minha tarde em uma mega livraria no centro da cidade. Enquanto minha amiga Mônica, também jornalista, se deliciava na seção de DVDs e CDs eu mergulhei no mundo infantil dos livrinhos interativos e brinquedos educativos.
Comprei presentes para as minhas amadas sobrinhas, para o filho recém-nascido de uma amiga e, de repente, deparei-me com um brinquedo que me encantou: uma luva interativa, que tem bichinhos em cada um dos dedos: começando por um carneirinho no dedão, passando um coelhinho azul, um sapinho verde, um porquinho rosa e, por último, um patinho amarelo no dedo mindinho. Na palma da luva, um micro-livro com historinhas dos personagens. É uma espécie de fantoches de dedos.
Veja a luva-fantoche
Tentei conter as lágrimas, mas não deu. Elas vieram com abundância. E eu chorei e continuei chorando mesmo quando uma simpática senhora passou por mim e perguntou: Are you OK? Yes, I´m ok, Tks, respondi passando as mãos nos olhos porque não havia nada por perto que pudesse enxugar as lágrimas. Sim, de novo senti saudade do filho que não estaria me esperando quando eu chegasse em casa, dois dias depois. Mas, por uma fração de segundos, pude enxergar seu rosto de criança feliz e sua risada com os meus dedos-bichinhos a fazer-lhe coscas.
Meu laptop lindo!
O dia poderia ter terminado assim, triste e melancólico. Mas não acabou. Ao sair da livraria, acabei comprando um laptop que há muito vinha namorando. Senti a mesma alegria de 20 tantos anos atrás, quando ganhei minha primera máquina de escrever. Algumas horas depois, lá estávamos eu e Mônica brindando a aquisição com uma maravilhosa cerveja belga, em um bar perto do lago Michigan, dando muitas risadas das atrapalhadas das nossas vidas. Sim, tristeza e alegria são irmãs e podem conviver pacificamente dentro da gente. Do contrário, o mundo seria muito sem graça.
Escrito por Cláudia Collucci às 14h53
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